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Posts de fevereiro 2011

As bandeiras estão tremulando

28 de fevereiro de 2011 0

Leitores mais antigos deste blog provavelmente acompanharam ao longo do ano passado um ou dois textos que escrevi a respeito do Gauchão de Literatura, uma iniciativa do editor Rodrigo Rosp e da jornalista Lu Thomé para colocar em confronto aberto dois livros lidos por um mesmo jurado que os compara e decreta a vitória de um deles, como em um jogo de futebol. Desde o início também dissemos que havia antecedentes para a ideia, a mais remota delas o Tournament of Books, do site norte-americano Morning News. Mas outro modelo, eses bem mais próximo da equipe que organizou e pensou a competição, é a Copa de Literatura Brasileira, um torneio levado a cabo pelo blogueiro Lucas Murtinho, no amor e por iniciativa própria.  Este ano, 16 romances concorrem ao título da Copa. E o Gauchão, filial, exportou tecnologia para a matriz. A Lu Thomé, dínamo responsável por fazer o Gauchão funcionar, está na atual equipe que organiza a edição 2011 da Copa Literária. E a grande campeã do certame gaúcho, Carol Bensimon, concorre com seu primeiro romance na Copa Literária.

A primeira fase da Copa de Literatura Brasileira terá oito jogos, cuja tabela vai abaixo (como aquecimento para os jogos, coloquei abaixo links para textos que publicamos aqui no Mundo Livro sobre alguns dos competidores):

JOGO 1Como desaparecer completamente, de André de Leones x Olhos secos, de Bernando Ajzenberg
Jurado: Marcos Vinícius

JOGO 2O filho da mãe, de Bernardo Carvalho x Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre
Jurado: Fabio S. Cardoso

JOGO 3Azul-corvo, de Adriana Lisboa x Hotel novo mundo, de Ivana Arruda Leite
Jurado: Mauricio Raposo

JOGO 4Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron x Os malaquias, de Andrea del Fuego
Jurado: Eric Novello

JOGO 5Uma leve simetria, de Rafael Bán Jacobsen x Algum lugar, de Paloma Vidal
Jurado: Vinicius Castro

JOGO 6Outra vida, de Rodrigo Lacerda x O gato diz adeus, de Michel Laub
Jurada: Tamara Sender

JOGO 7Sinuca embaixo d’água, de Carol Bensimon x Elza, a garota, de Sérgio Rodrigues
Jurado: Lucas Murtinho

JOGO 8Nada a dizer, de Elvira Vigna x O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias
Jurado: Kelvin Falcão Klein

Este seu blogueiro também será um dos juízes em etapas posteriores da competição, mas isso não é importante, o importante mesmo é que o torneio começou hoje, com uma resenha sólida embora com preâmbulo um tanto antipático de Marcos Vinícius Almeida.

Confira no site oficial do torneio e deixe seu comentário.

Scliar aos 70

28 de fevereiro de 2011 1

Moacyr Scliar em seu gabinete. Foto de Mauro Vieira, ZH, 2007

O ano era 2007. Março. Moacyr Scliar completaria 70 anos no fim daquele mês. Para marcar a data redonda, agendamos uma entrevista com o autor em sua casa, no bairro Santa Cecília, em Porto Alegre. Não lembro de circunstâncias específicas de clima e tempo naquele dia em que fui visitar o escritor. Não chovia. Provavelmente faria calor, mas não garanto. Eu e o fotógrafo Mauro Vieira fomos recebidos por um Scliar bem disposto, gentil como de hábito, vestindo calças sociais e uma camisa azul-clara de mangas curtas. Quase sempre vi Scliar vestido de azul, mas só fui me dar conta desse fato no velório esta tarde, quando conversei com Cíntia Moscovich, grande amiga de Scliar, que havia levado um lenço azul para deixar junto ao esquife. Azul era a cor preferida de Scliar, e só aí percebi que não tinha memória quase do autor vestindo outra cor – a não ser o verde do fardão da ABL.

Scliar nos levou ao seu gabinete naquela tarde de 2007, um confortável espaço de recolhimento com bem-montadas estantes cobrindo cada parede – todas elas abarrotadas de livros e uma escrivaninha com o laptop ligado no qual Scliar se dedicava a revisar a versão definitiva do ensaio Enigmas da Culpa, que sairia meses mais tarde pela Objetiva. Seria seu 73º livro – ele ainda lançaria outros quatro, que eu me lembre. Um de crônicas, Do Jeito que Nós Vivemos (Editora Leitura), seria seu terceiro livro lançado em 2007 (a entrevista era motivada pelo lançamento de O Texto. Ou: A Vida, pela Bertrand Brasil).  Haveria ainda volume de contos, Histórias que os Jornais não Contam (Agir, 2009) , e dois romances: Manual da Paixão Solitária (2008) e Eu Vos Abraço Milhões (2010), ambos pela Companhia das Letras. Ah, sim, tem mais um: um livro coescrito com Ana Maria Machado, um diálogo sobre o amor na literatura chamado Amor em Texto, Amor em Contexto (2009). São 78 livros, fora colunas semanais de imprensa e artigos eventuais. Uma produção cujo esforço cansa só de pensar. Mas Scliar escrevia com alegria e prazer.

O fotógrafo fez as fotos e me deixou lá com o autor. Foram duas horas de uma conversa fácil e difícil ao mesmo tempo. Fácil porque Scliar era um entrevistado articulado, vivo, inteligente, com um raciocínio claro que se manifestava em frases bem construídas e sem aquelas muletas verbais tão comuns na fala de todo mundo. Difícil pelas interrupções constantes de chamadas telefônicas que o escritor precisou atender devido ao aniversário que se aproximava. Foi uma boa entrevista, na qual Scliar expressou muito de seu pensamento sobre a ficção contemporânea, seus próprios livros, sua visão de literatura e do mundo e como tais experiências pareciam agora mais presentes em suas obras. Em homenagem a Scliar, republico aqui.

Cultura – O senhor está lançando um livro que mistura antologia e biografia e acabou de redigir um ensaio sobre a culpa, no qual fala da presença desse sentimento na vida de um descendente de imigrantes judeus da sua geração. Esse uso mais continuado da própria biografia em seus livros tem a ver com reflexões provocadas pelos seus 70 anos?
Moacyr Scliar
- Certamente tem a ver, porque mesmo que não se dê muita bola para essas coisas, e eu não dou, há um conteúdo simbólico. Setenta anos é a expectativa de vida aqui no Rio Grande do Sul, e como médico de saúde pública eu sei disso. Isso inevitavelmente oportuniza alguma reflexão sobre como foi a tua vida, as coisas que foram mais significativas. Mas no meu caso é uma reflexão absolutamente tranqüila.Talvez seja pela experiência como médico, que me fez acostumar com os fatos da vida, que incluem a doença,a morte, a finitude.

Cultura – O senhor mesmo selecionou os contos e trechos compilados em O Texto, ou: A Vida. Como foi essa releitura da própria obra? Há escritores que evitam reler seus próprios livros porque percebem os equívocos.
Scliar
- Eu tenho isso também. Há coisas que eu gostaria de arrumar mas que não dá para fazer porque os textos pertencem a uma época e a um público. Tem um livro chamado O Mago, do John Fowles, que ele reescreveu todo, fez quase outro livro. E quem tinha o livro na redação anterior ficou por conta. Qual é o que vale? O de antes ou o de agora? O melhor, então, é deixar cada obra no seu contexto e na sua época. O importante é só publicar, pela primeira vez, depois de reescrever exaustivamente. Eu nunca reviso menos de quatro vezes. E ainda me escapam coisas.Mas há vezes em que a gente relê o que escreveu com grande alegria. É o caso de O Centauro no Jardim. É um livro de que eu gosto muito, porque foi escrito com imenso prazer, e acho que, se o escritor não tem prazer escrevendo, o leitor também não terá. Aquilo tem de corresponder a uma necessidade tua que, realizada, se expressa nesse prazer, o prazer do texto, de que fala Roland Barthes.

Cultura – Há autores que dizem que escrever é doloroso, exaustivo. O senhor já publicou sete dezenas de livros (um para cada ano de vida), colabora em jornais, revistas e está sempre com uma nova obra em produção. O senhor não parece ter dificuldade para escrever. Tem?
Moacyr Scliar
- Eu adoro escrever. Para mim é um prazer, eu às vezes tenho de me conter para não escrever tanto. Sobre a dor do processo da palavra: o que é encontrar le mot juste, a palavra certa? Tu acessas o teu repertório vocabular na memória e escolhe a palavra. Às vezes, isso é penoso. Mas com o tempo chega-se num ponto em que a palavra salta da cabeça diretamente para o texto, aquilo se torna espontâneo e tu escreves como quem respira. É fisiológico, flui, e isso te dá uma satisfação muito grande. É um dos benefícios da maturidade. De repente, a tua intimidade com as palavras é tal que o teu raciocínio automaticamente se traduz em palavras.

Cultura – O senhor faz parte de uma geração que testemunhou mudanças tecnológicas que facilitaram o trabalho da escrita. Essa evolução teve alguma influência no seu processo criativo ou de trabalho?
Scliar —
Eu sou um dos que acreditam que o computador não só facilitou a escrita, mas mudou a própria relação com o processo de escrever, a maneira de trabalhar. Antes se escrevia a mão, a máquina, e às vezes se tinha uma idéia de emenda, e se recortava, colava, virava uma maçaroca, e muitas vezes era melhor nem mexer. O computador deu ao escritor mais autonomia para mudar o seu trabalho, e não apenas isso. Quando escrevia um ensaio, sempre costumava consultar muitos livros, levantava, ia na estante, puxava um, puxava outro, por isso tenho tantos livros nesta sala. Hoje, rapidamente se entra na internet. O intercâmbio com leitores e editores se tornou mais fácil. Tu envias para o editor, o editor te manda de volta. E de outra parte mudou até a maneira de encarar o livro, que já foi a grande fonte do saber escrito, não é mais. E ao mesmo tempo acho que o computador tornou o texto mais sintético. É só notar que os livros, em média, hoje são mais curtos do que no passado. Na Inglaterra do século 19 havia um incentivo governamental para quem fazia livros em três volumes, então todo mundo fazia. Pode-se observar que o romance-rio, aquele catatau, aquilo acabou. A minha geração lia muito Os Thibault, do Roger Martin du Gard, que são cinco volumes, Tinha-se muito tempo, as noites eram longas, não havia televisão. Eu acho que essa modificação foi benéfica em um certo sentido, porque ensinou os escritores a serem mais sintéticos, a contarem a história de forma mais econômica. Uma boa parte da ficção na época constituía-se de descrições, elaborações, longas paisagens, e a câmera hoje faz isso muito melhor. E o que a câmera faz melhor, é melhor que a ficção abandone.

Cultura – O senhor também escreve livros juvenis. Qual é a experiência desse encontro com seus leitores adolescentes?
Scliar -
Eu gosto muito. Só não vou mais a escolas porque não tenho condições. Se atendesse a todos os pedidos, estaria todo dia em uma escola diferente em algum lugar do Brasil. É uma emoção porque eu olho para aqueles rapazes e moças e me vejo no meio deles, vejo o fascínio que eu tinha pela figura do escritor. Dois autores foram importantes para minha decisão de ser escritor: Erico Verissimo e Jorge Amado. Quando Jorge vinha a Porto Alegre, ficava hospedado na casa do meu tio, pai do meu primo Carlos Scliar. Minha mãe me levava lá para ver o escritor, só para ver, não para falar com ele. Só olhar para o escritor era algo fascinante, aquilo me empolgava.

Cultura – O senhor já disse que escrever é lúdico e que está sempre escrevendo. Tem algum ritual ou modelo de trabalho estabelecido para escrever: hora, local, disposição de objetos na mesa,essas coisas?
Scliar -
Não tenho. Eu escrevo a qualquer hora e em qualquer lugar. Por isso eu tenho laptop.Q uando eu viajo, levo o laptop, estou no aeroporto esperando, estou digitando. Dentro do avião, vou digitando.Quando a gente aprende a se desligar, essa coisa de precisar de silêncio e isolamento para escrever se torna desnecessária.

Cultura – O senhor falou da aura do escritor  Jorge Amado quando o senhor era criança. Acha que o status do escritor hoje é outro,menos mítico?
Scliar –
É preciso lembrar o seguinte: o escritor era importante como um intelectual, alguém que entendia as coisas. As pessoas esperavam dele lições de sabedoria humana, política. O escritor, sobretudo no século 19, cumpriu o papel que depois seria do psicólogo, do antropólogo, do sociólogo, era um intérprete da sociedade, porque a quantidade de pessoas analfabetas era tão grande que o sujeito que lia, por definição, era um cara culto. Isso mudou. As pessoas hoje estão lendo, têm acesso à informação, estão escrevendo, e o escritor perdeu o status de sábio. Hoje, a literatura — a literatura de ficção, bem entendido – voltou a ser como originalmente era: a arte de contar histórias. A literatura nasce dessa necessidade visceral de contar. É impressionante como as pessoas precisam de histórias. Tu vês isso nas crianças. Como é importante para uma criança ouvir histórias. Porque a história tem um poder muito grande do ponto de vista psicológico: a idéia de que o mundo pode ser entendido, que a vida é uma narrativa,que tem começo, meio e fim. Na verdade, a literatura é a vida transformada em palavras, e por isso pus nas minhas memórias o título de O Texto, ou: A Vida.

Cultura – O senhor ainda responde muito à clássica pergunta: “O que o senhor quis dizer com essa história?”
Scliar
- Volta e meia alunos me mandam e-mails: “Tenho de entregar um trabalho amanhã: o que o senhor quis dizer com o conto tal?”. O último que recebi foi sobre As Ursas.  Prefiro dizer para as pessoas que essa pergunta é secundária, ela deve ser precedida por outra. O leitor deve se perguntar: “O que eu senti com esse texto?”. Se o leitor não sentiu nada, sobretudo o leitor jovem, então o autor não disse nada. Essa coisa da interpretação do texto deve ficar para um segundo momento. O primeiro momento é a discussão emocional: o que a pessoa sentiu, qual emoção experimentou. Se o texto comunica, se ensina coisas, só pode ser por meio da emoção. Incluindo nas emoções o prazer. Ou seja: o texto que não dá prazer não te ensina nada.

Cultura – O estilo que o senhor trabalha, remetendo à fábula e ao fantástico, facilita a identificação do leitor, a possibilidade de ele entrar na história. Isso nasceu de um gosto pessoal ou foi algo que o senhor cultivou pelo aspecto técnico?
Scliar -
Isso foi algo que aprendi com um escritor que até hoje eu leio boquiaberto: Franz Kafka. É assombrosa a capacidade que ele tem de fazer parábolas que te remetem a situações existenciais, psicológicas, políticas. Só tem paralelo na Bíblia, que provavelmente foi a fonte dele. A parábola, no meu modo de ver, mais do que a fábula, é o texto modelar: um texto sintético, econômico, que não tem demagogia e que te dá o recado.No caso do Kafka, nem sempre o recado é evidente. Primeiro se lê aquilo e aquilo fascina.Como eu disse, o fascínio é necessário. Aí, porque tu estás fascinado, tu podes pensar a respeito. Ele tem um texto chamado Os Leopardos, que são três, quatro linhas. Uns leopardos invadem o templo e bebem até o fim o conteúdo dos cálices sagrados. Com o tempo, isso se torna rotineiro e é incorporado ao ritual. Aí tu entendes o totalitarismo: aquele que invadiu a sociedade se incorpora ao ritual e, daí a um tempo, se torna a religião. Com isso, se entende o nazismo, o stalinismo… E o cara conseguiu botar isso em quatro linhas.

Cultura – Há pouco tempo, no Guardian, a escritora britânica Zadie Smith escreveu um artigo defendendo que a arte de escrever romances era, em essência, o mote de Beckett: a arte de fracassar melhor a cada vez. O senhor também sente essa dissociação entre a história como ela foi imaginada e a história como ela ficou depois de pronta?
Scliar
- Absolutamente. Para começar, quando sento para escrever,nunca imagino a história. Há escritores que já tem tudo dividido em capítulos, estruturado para escrever. Acho isso uma capacidade de organização muito grande, mas não tenho, preciso descobrir a história à medida que vou fazendo, e às vezes tenho grandes surpresas. É como disse o poeta Antônio Machado: “Não há caminho, o caminho se faz ao andar”. A verdade é que escrever é uma coisa que implica estabelecer uma conexão entre o teu consciente, que é o que vai traduzir a história em palavras, e o teu inconsciente, que é de onde brotam as fantasias. Quem estudou Freud ou fez análise, e eu fiz análise longamente, sabe que a criação é um processo que não se consegue produzir artificialmente. O teu inconsciente só libera as fantasias quando ele quer.

Cultura – Seus livros foram traduzidos em inglês, francês, alemão, espanhol, holandês, russo e checo. O senhor alguma vez decepcionou-se?
Scliar
- Nas línguas que tenho conhecimento para avaliar melhor, que são o inglês, o espanhol e o francês, nunca vi problemas. Meu tradutor inglês já disse que eu sou um autor muito fácil de traduzir, até porque meus livros não são centrados em invenção de linguagem, e sim nas histórias.

Cultura – García Márquez já disse que os livros dele nascem de imagens. Saramago conta que houve casos em que a primeira coisa de um livro foi o título. E para o senhor? Como nascem seus textos?
Scliar -
De situações. Eu sei que há escritores que são muito visuais. O John Fowles, que eu citei antes, dizia que A Mulher do Tenente Francês nasceu de uma imagem. Ele via uma mulher de pé em um cais olhando o horizonte. E começou a se perguntar: “Por que esta mulher está ali?”, “O que ela está olhando?”. Eu não sou visual, nem penso em personagens, eu penso em situações.

Cultura – No seu livro O Texto, ou: A Vida, o senhor cita influências de sua infância que vão de histórias em quadrinhos até clássicos – muita gente não mistura as duas coisas por acreditar que deve haver uma separação nítida entre a “alta cultura” e a “baixa cultura”, o “entretenimento” a “cultura pop” ou mesmo “popularesca”. Como o senhor vê essa questão, principalmente nesta época em que essas noções parecem misturadas?
Scliar –
Realmente, é um mundo de múltiplas expressões e culturas. Eu aprendi a respeitar essas coisas. Tem uma situação que é muito ilustrativa. Acho que foi o Ferreira Gullar que disse que a crase não foi feita para humilhar ninguém. É mentira. A crase foi sim feita para humilhar pessoas, para separar os brasileiros entre a elite restrita que sabe usar e o grande grupo que não sabe usar e que sofre tremendamente por isso. Tu já reparaste que erros em relação à crase são mais por excesso do que por falta? O cara que está fazendo uma tabuleta, “Osório a Porto Alegre”, ele não sabe se tem a crase, mas na dúvida ele põe, porque tem medo de ser censurado por não usar. Isso na verdade é um mecanismo de poder. E a mim realmente repugna essa idéia de usar o conhecimento para humilhar pessoas. Mesmo porque as pessoas têm um conhecimento que pode não se traduzir em erudição mas que igualmente válido. Eu falo isso não por ser escritor, mas por ser médico. E aí tu entende que aquilo que as pessoas fazem que parece bobagem, sobretudo em termos de doença, tem uma racionalidade que não é à tua e que tu não precisa necessariamente aceitar, mas que remete a uma outra forma de lutar contra as adversidades da vida. Quando eu dou aulas de História da Medicina sempre começo mostrando uma estátueta do Museu de Antropologia da Cidade do México, uma deusa da fertiliidade: uma mulher que está acocada dando à luz. E as mulheres astecas recorriam a essa deusa contra as aflições do parto. Os alunos dizem: é superstição. Mas a estatueta mostra uma mulher acocorada. Essa mulher tá ensinando uma coisa: que para o parto em condições naturais, feito em campo, a melhor posição é acocorada.

Cultura – O senhor falou há pouco sobre a identificação provocada pelas primeiras impressões de um leitor. Mas muito já se disse que a mera identificação não garante nada em literatura, que muitas vezes o livro que emociona o leitor não é literatura. É uma visão elitista?
Scliar –
Acho que em certos setores tu ainda tens isso: o desprezo pelo autor popular. Mas aí tem uma coisa importante que a gente vai se dando conta: há autores diferentes para diferentes tipos de público. Alguém já disse, e eu não vou me lembrar quem foi, que a literatura não é feita só de grandes escritores, mas também de gente que não inovou a linguagem, mas contou boas histórias. Somerset Maugham, por exemplo, Jorge Amado, o próprio Erico.

Cultura – Graham Greene?
Scliar –
Talvez, mas ele tinha ambições maiores em termos literários. Se as alcançou seria outro caso. Esses escritores eu os chamo de “propedêuticos”. Propedêutica é introdução, e esses são os que te apresentam a literatura. E eu passei por muitos desses escritores. Eu adorava um escritor chamado Viriato Corrêa. Tu lês Cazuza, por exemplo, e é óbvio que aquele cara não inovou, mas proporcionou a transição que tu precisas para sair da não-leitura para a leitura.

Cultura – Como o José Mauro de Vasconcellos foi durante um tempo, ou para uma geração mais antiga os livros de aventura do Karl May.
Scliar -
Meu Pé de Laranja-Lima do José Mauro foi um livro extremamente lido, e é interessante tu citá-lo, porque hoje em dia ninguém mais sabe quem ele é. Humberto de Campos… Agora, eu não desprezo esses escritores. Tinha uma época na minha adolescência em que eu realmente tinha essa coisa superior, arrogante, “esse eu não leio”. A minha geração tinha duas razões para não ler: escritores que eram considerados literariamente inferiores e os escritores que eram considerados reacionários ou alienados. Exemplo de escritora alienada: Clarice Lispector. A minha geração não lia Clarice porque ela não abordava questões sociais, dá para acreditar nisso? A própria Rachel de Queiroz era apreciada até 1964, depois, passou a ser odiada, porque ela era prima do general Castelo Branco e apoiou o governo militar.

Cultura - O Texto, ou: A Vida busca os pontos em que a sua vida influenciou sua obra. O próprio título remete nesse sentido. E como o senhor vê quando se condiciona o juízo de um autor à trajetória política ou pessoal desse escritor?
Scliar -
Claro que a vida condiciona a obra, mas o que tu não podes fazer é julgar o trabalho do escritor pelas idéias políticas dele. Porque tu tens escritores que foram horríveis do ponto de vista humana. Ezra Pound era um nazista. Celine também, foi condenado à morte por isso. Dostoiéwski era antissemita, em Crime e Castigo há alusões antissemitas. E aí vai dizer que não lê esse cara por causa disso? Claro que não.

Cultura – O senhor falou muito de geração ao longo desta entrevista. O senhor se considera um escritor da sua geração? E qual avaliação o senhor faz dela?
Scliar –
É uma excelente pergunta, porque esta é uma geração de que se fala pouco. Acho que se deveria falar mais. É uma geração que começou a publicar no final dos anos 60, e foi uma geração muito motivada pela ditadura. Nós fazíamos uma literatura política e fomos muito influenciados pelo realismo mágico do García Márquez, que na verdade é uma forma de ficção política, um jeito de responder por meio da imaginação aos desafios políticos. Esse foi o grande impulso para minha geração, e a abertura democrática tirou muito desse impulso. Hoje, é um geração muito dispersa, não encontro muito mais meus colegas da época.

Cultura – Perdeu-se o tema comum, o elemento que dava a noção de “geração”?
Scliar –
Sim, foi uma geração bem castigada pela Censura. Ignácio de Loyola Brandão, Rubem Fonseca, Ivan Ângelo, José Louzeiro. Por causa dessa circunstância política, foi uma época em que havia muito encontro de escritores. Era uma forma de protestar. Porque a ditadura foi muito feroz na censura – mais aos jornais, mas também aos livros.

Cultura – O senhor teve livro censurado?
Scliar –
Não, mas eu fui censurado na TV. Eu fazia um programa na TV Difusora em que comentava livros, mas o censor tinha que aprovar. E eu ia comentar um livro sobre os índios no Brasil. E no dia em que eu fui lá a produtora me disse: “o censor falou que esse assunto não pode”. Porque eu podia, no comentário, mencionar o genocídio dos índios e eles não queriam. Aí eu disse que não tinha outro assunto para comentar. E ela disse: “tudo bem, então não tem programa”. Eu também fui proibido de fazer concursos públicos, porque havia sido militante estudantil, mas isso é o de menos comparando com o que outros passaram. A verdade é que era uma situação de toda a América Latina. E foi uma época muito importante para a literatura do continente, foi aí que ela se projetou. Em 1970 eu fiz uma viagem pela Europa e ficava impressionado porque se via em todas as livrarias obras de latino-americanos, García Márquez, Vargas Llosa, Cortázar, Juan Rulfo. Mas por quê? Porque era uma literatura de resistência. Depois que o continente se democratizou, nós perdemos o interesse. Não se encontra mais. E brasileiro, então, o único que se lê no Exterior é o Paulo Coelho, não por ser brasileiro, mas por ter um pé no esotérico.

Scliar e seus livros

27 de fevereiro de 2011 6

O tema deste post não costuma frequentar palestras universitárias para estudantes de jornalismo: o discurso prático da profissão muitas vezes se assenta sobre mitos de conduta pragmática, nos quais não sobra muito espaço para ocasionais abismos íntimos de humanidade. Mas bem ou mal, se você ficou tempo o bastante fazendo jornalismo, vai ter de enfrentar a morte. Não a própria, que todo mundo enfrenta, mas a de terceiros, separados assim em quatro categorias: pessoas públicas que você não conhece, pessoas anônimas que você não conhece, pessoas anônimas que você conhece, pessoas públicas que você conhece. A morte de anônimos é a pior no sentido prático, porque sua presença como repórter no velório de alguém que morreu num acidente ou vítima de violência mas não era uma pessoa famosa mostra que você está ali como repórter interessado na morte dessa pessoa, não em sua vida.

Com figuras famosas, que viveram uma existência pública, a situação é diferente. É um momento em que a imprensa acompanha não apenas o fecho de uma vida que transcorreu diante dos olhos do público, mas as próprias homenagens que serão prestadas à importância daquele personagem em sua área de atuação, por seu trabalho como artista, político, líder ou representante deste ou daquele segmento.

E tem, enfim, as pessoas famosas que você conhece. Nunca conheci muitas, ou ao menos muitas que tenham falecido, então não posso dizer que entendia qual era a reação pessoal do repórter ao deparar com essa situação. Não entendia até agora, e não sei dizer se ainda entendo.

Moacyr Scliar foi um escritor que, como muitos antes e muitos depois de mim, fui conhecer pelos livros bem antes de ter oportunidade de vê-lo ou falar com ele. Já havia lido seus textos no colégio (o primeiro deles foi o conto Pausa, incluído em um livro-texto de Literatura no primeiro ano do então 2º Grau). Já havia lido outras obras indicadas pelo colégio, como A Balada do Falso Messias. Já havia lido seus livros simplesmente porque eles estava ali na biblioteca da cidade, como Os Voluntários. Já havia, em suma, lido boa parte de sua obra precedente quando o vi pela primeira vez, de longe, sentado a uma mesa no café do térreo da Casa de Cultura, numa tarde amena de 1992 – não apostaria um pila nisso, mas sou capaz de arriscar que era setembro, eu recém havia mudado para Porto Alegre. Depois disso eu o vi em palestras da Feira do Livro, em debates abertos na UFRGS, em diversas situações para as quais volta e meia escritores são solicitados – e era fácil ver Scliar nessas ocasiões. Com a gentileza que ele sempre teve, mas que na época eu não sabia que ele tinha, ele sempre aceitava.

Anos se passaram, Scliar escreveu outros livros depois daquela tarde de 1992, muitos deles, algumas grandes obras como Sonhos Tropicais e A Mulher que Escreveu a Bíblia. Nesse meio tempo, eu me formei, comecei a trabalhar como jornalista e vim parar na redação da Zero Hora, primeiro como repórter de Geral. Scliar era um frequentador constante da editoria de Geral, onde também se faz o Caderno Vida para o qual ele era colunista. Pelos seus livros, Scliar sempre passou a impressão de ser um humanista gentil. Nem sempre essa impressão se confirma quando estamos diante do escritor de carne e osso – e nem é pra confirmar mesmo, a melhor vida de um escritor é nos livros. Mas em casos raros, o escritor em pessoa corresponde integralmente à impressão que se forma em sua leitura. Scliar era gentil, não negava conversa, era um narrador de causos, comentava pesquisas que havia lido sobre se era melhor tomar café solúvel ou em pó, passado, etc…

Fui parar depois no Segundo Caderno de Zero Hora e depois de algum tempo estava escrevendo sobre livros. E meu contato com Scliar aumentou. Viajado e muitísssimo bem-informado, nos retornos sempre  tinha uma palavra sobre algo que havia visto, lido, perguntava se tínhamos intenção de falar sobre algo nas próximas edições, senão ele mesmo poderia escrever.

Conheci bem Moacyr Scliar nesse tempo – não, não estou querendo dizer que era seu amigo, continuei chamando-o de “professor” sempre, uma reverência da qual nunca abri mão embora ele próprio me tratasse com muita informalidade. A questão é essa: Scliar era tão gentil e acessível que podia fazer alguém sentir-se próximo a ele. Era uma personalidade calorosa, sempre com uma palavra cordial e elegante. Dizem que a morte torna as pessoas melhores, e é verdade. Mas no caso de Scliar todas as manifestações que você está lendo aqui e em outros portais, e que você vai ler nos jornais de amanhã, são sinceras. Ele era o que seus livros eram: humanos, divertidos, argutos. No futuro, Scliar será lembrado muito como Erico é ainda hoje: alguém que parece não ter feito inimigos ao longo da vida. Talvez porque não tenha mesmo.

Estou saindo da redação em minutos para acompanhar como repórter as últimas homenagens a Scliar. Uma pessoa famosa que morreu e eu conhecia. E por isso sei agora que, como repórter da área e como algúem que privou de sua generosidade, o Rio Grande perdeu bastante.

Entre as homenagens prestadas a ele nesta tarde, uma delas, silenciosa, será minha.

Mãe e o patriarcado

25 de fevereiro de 2011 3

É a tese central de um dos principais livros de Raduan Nassar (e da própria literatura brasileira): quanto mais insular, mais a família se torna o terreno de uma lavoura arcaica cuja seara resultará em sangue e vício. É também uma boa chave de leitura para o romance o remorso de baltazar serapião (Editora 34, 200 páginas, R$ 37), do escritor português nascido em Angola valter hugo mãe, que está sendo lançado no Brasil.

Destaque da ficção portuguesa contemporânea, também poeta e artista plástico, valter hugo mãe (que, a exemplo do americano e.e. cummings, assina seu nome com todas as letras minúsculas, expediente que vai se repetir ao longo do romance, no qual nenhum nome própria é escrito com maiúsculas), narra em o remorso de baltazar serapião, obra vencedora do Prêmio José Saramago em 2007, uma história de tons fabulares em uma aldeia de hábitos medievais em lugar não determinado. A linguagem, bastante calcada na tradição oral, tem clara familiaridade com a reinvenção da prosódia sertaneja levada a efeito por Guimarães Rosa, mas o substrato que perpassa a história tem mais a ver com outro clássico brasileiro: Graciliano Ramos. “Você é um bicho, Fabiano.”, reflete para si mesmo a certa altura o protagonista de Vidas Secas. E o que se vê página a página do romance de valter hugo mãe é a desumanização progressiva e ininterrupta de baltazar serapião e sua família, centro gravitacional do romance.

O pai de baltazar é um homem bronco e submisso diante do senhor das terras, dom afonso, habitante do castelo que domina a aldeia com autoridade feudal. O nome do pai de Baltazar também é afonso, artifício que denuncia o quanto o homem de cabeça-baixa e chapéu na mão ao falar com seu mestre reproduz em no lar a estrutura feudal perversa em que vive, impondo-se como senhor absoluto da casa: “e nós adormecemos também, espantados com a obediência ao meu pai, discernido superiormente sobre todas as coisas da nossa vida.” A mãe arrasta-se devido às dores provocadas por um pé quebrado pelo pai muitos anos antes, marca física de ao marido: “com o pé em modos de pouco andar, ela haveria de estar sempre por ali, e mais que a fúria do meu pai pudesse acontecer um dia, à minha mãe não lhe valeria corrida alguma. haveria de estar parada por natureza, à mercê da sabedoria do marido“. A própria maneira como a família é conhecida na aldeia em que vive é um resultado de sua progressiva inumanidade. Serapião e os seus não são chamados pelo sobrenome, mas pelo apelido de “os sargas”, mesmo nome da vaca já velha e alquebrada que dorme em um dos quartos dentro da casa — e que a maledicência dos vizinhos há muito já transformou em amante do pai e provável mãe de serapião e de seu irmão aldegundes.

Rodeado por esse mundo arcaico e primitivo, bestializado pela miséria e pela posse autoritária de sua vida exercida pelo senhor dom afonso, serapião a princípio apresenta-se ao leitor como um jovem cheio de valor, apaixonado pela moça que lhe foi prometida em casamento, ermelinda. À medida que a narrativa avança, percebe-se que o personagem é tão moldado pelo ambiente que o cerca quanto todos os demais. Seu afeto pela mulher com quem se casa implica naturalmente uma ideia de posse — posse ameaçada pelo interesse do senhor das terras na beleza de ermelinda. Baltazar tem medo e raiva do que considera incompreensível nas mulheres, aversão ancestral transmitida pelos ensinamentos do pai, numa corrente de preconceito misógino patriarcal passado de pai a filho como uma herança sombria: “uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros“.

Para retratar um mundo de mentalidade tão arcaica no qual o mágico por vezes se confunde com o real, valter hugo mãe, também poeta e artista plástico, faz do centro de seu romance a invenção de uma linguagem elíptica que olha para o mundo de viés e usa fórmulas líricas para descrever um cotidiano paralisado e imutável. Uma linguagem, como já se disse, que tem raízes em Guimarães Rosa e aparenta-se com a moçambicano Mia Couto e a do também angolano Luandino Vieira. Uma prosódia que recupera a oralidade arcaica necessária para transmitir a visão de um mundo tão antigo. E que exige do leitor o comprometimento por antecipação, sem meios-tons. Ou embarca-se na corrente lírica da prosa ou tudo vai soar um tanto estranho e exagerado. Para os que escolherem a primeira opção, a recompensa é certa.

Quarta capa

22 de fevereiro de 2011 6

Que cada um escolhe a próxima leitura de um jeito diferente, eu nem preciso dizer. Alguns pela capa, outros por uma indicação. Tem aqueles que lêem porque pegam emprestado (o/), leram a resenha, ouviram falar, gostam do autor… ou então ficaram interessados na história que a quarta capa e a orelha apresentam.

Eu confesso que não tenho muito método (além do critério empréstimo) e, além disso, raras vezes leio as orelhas e afins antes de começar algumas páginas do livro. Não, não é por questão de princípio, porque acho que eu vá ser influenciada ou coisa que o valha. Apenas me interessam muito pouco antes de começar a leitura da obra em si. Mas inevitavelmente, acabo lendo em alguma pausa de leitura do livro.

De qualquer forma, a tarefa da quarta capa é cruel. Considerando a infinidade de títulos dispostos em uma livraria, até que o leitor coloque o volume na sacola, ele vai passar pela capa, título, autor, sessão na qual está à venda. Aí, se ainda assim, o indivíduo não estiver convencido, cabe àquelas vinte linhas de texto, quando tanto, o papel de convencer.

Então, vamos a um exercício das coisas que nunca devem ser ditas nessas referidas apresentações, sob pena de perder o leitor. No princípio, a ideia era usar alguns textos de exemplo, mas achei melhor não comprar briga com ninguém (hehehe)

Regra 1: nunca diga “o autor lança mão de x recurso” para explicar alguma coisa. Normalmente o recurso do qual o fulano “lança mão” não é nada de importante, mas apenas alguma coisa que vá parecer impressionante ou charmosa no texto. Acredite: não é.

Regra 2: não entregue nada da história que não esteja nas primeiras 20 páginas. Parte da graça de ler é descobrir SOZINHO o raciocínio e a história (adaptado da entrevista que o Michel Laub concedeu para a minha monografia).

Regra 3: Não faça o livro parecer autoajuda, por mais tentador que isso possa ser, comercialmente falando. Nada de “manuais” e nem “pílulas de sabedoria“, se você quiser fazer seu livro parecer sério.

Regra 4: Não diga que o livro é fascinante, delicioso ou encantador. Adjetivos devem ser atribuídos pelos leitores e não pelo povo que trabalha no departamento editorial (por mais competentes que sejam).

Regra 5: Se você for entregar a orelha ou a quarta-capa para algum escritor famoso (que irá assinar o texto), não permita que ele transforme o texto em uma “obra-prima”, mostrando todas as suas competências literárias. Vai dar errado. Também não deixe que ele faça uma resenha – o objetivo dos referidos espaços não é esse.

Tá. Chega de ficar ditando regras sozinha. Diz aí, o que vocês não suportam quando vão ler orelhas e que tais de livros?

Texto de Tássia Kastner

Pecados dos pais

21 de fevereiro de 2011 1

Não existe ninguém menos a ver com o Osso do que tu, Cláudio. Horácio disse que tu parecia mais uma biruta, sacudindo o rabo conforme o vento, se a favor de Fortim, se do pai. Em defesa da paz democrática e inclusiva. Tá rendendo bem pra você esse discurso, hein? Já pro Osso ou as outras tantas vilas que te fizeram vereador, não sei não. Tu saiu de lá há mais de dez anos, e não sabe que continua tudo na mesma pra pior. Não sabe nem o nome do atual líder comunitário. TÁ APARTADO, CARA. Nem de lá, nem de cá: só te aceitam porque tu não passa de um bicho exótico feito eu, de interesse desses bacanas aí. Milagre social, o menino rabudo da periferia que deu certo – o político bem-sucedido! Acha que pode resolver tudo apertando a mão das autoridades? Horácio é quem tem razão, te chamando de joãozinho. Disse que ouvia o pai chamar ele assim.

Um Hamlet com a mesma angústia insana do original, mas transmutado em um jovem contemporâneo em meio a questões como corrupção e violência urbana. É isso o que a escritora e artista plástica Paula Mastroberti apresenta em seu livro Loucura de Hamlet (Rocco, 136 páginas, R$ 30), reimaginação da peça clássica de Shakespeare. Esta é a quarta e derradeira obra composta por Paula Mastroberti para suas série de “reversões” de mitos da literatura universal. As anteriores foram Angústia de Fausto, em que o personagem de Goethe tornava-se um roqueiro viciado; Heroísmo de Quixote, que mostrava o herói de Cervantes como misto de performer e terrorista urbano;  e Retorno de Ulisses, que reimaginava o “astucioso” herói grego como um publicitário voluntariamente exilado do lar.

Como havia feito nos livros anteriores, Paula discute na nova versão não apenas o enredo da história recontada, mas alguns de seus temas centrais. Em Loucura de Hamlet, os reis irmãos, pai e tio de Hamlet, convertem-se em gêmeos nascidos na Vila do Osso, comunidade de baixa renda em uma cidade não identificada. Um deles, Antônio, vira chefe do tráfico. O outro, Cláudio, deixa a comunidade pela via da política e assume a família do irmão criminoso depois que este é morto pela polícia. O filho Tomás — ou Tommy (numa possível referência à ópera rock do The Who na qual também a morte de um pai assassinado por um padastro é episódio crucial) — cresce odiando o pai adotivo, de quem suspeita ter partido a delação contra o falecido pai biológico. Obcecado pela saga Star Wars (na qual também o pai ausente Darth Vader reivindica a lealdade do filho Luke Skywalker), Tommy planeja o assassinato do padastro com a ajuda de seus meios-irmãos que ainda moram na comunidade.

Ao contrário dos primeiros exemplares da série, na qual desenvolvia uma narrativa mais linear ainda que de levada pop, Paula transforma Loucura de Hamlet no livro mais experimental dentre suas”reversões”. Não há uma única pessoa narrativa, a história é contada por por fragmentos desconexos e ilustrações assustadoras, recuperadas dos diários e arquivos de computador do jovem Tommy por uma juíza que se muda para o apartamento no condomínio de luxo que a família morava até a relação entre padastro e filho terminar em tragédia, como na tragédia clássica. A juíza também é responsável por um prólogo que situa os antecedentes da história e por notas de rodapé nas quais explica a dificuldade de se recuperar na íntegra os episódios narrados pelo adolescente. Ao contrário do Hamlet shakespeariano, que se apresenta inteiro na peça, o que se tem de Tommy/Tomás é um retrato esquizoide  e caleidoscópico como a própria condição psíquica do rapaz.

Os cúmplices

10 de fevereiro de 2011 1


Patti e Roberth na saída de incêndio do apartamento do casal em Nova York,por volta de 1972


Juramos que nunca mais nos separaríamos de novo, até que os dois soubéssemos que estávamos prontos para aguentar sozinhos. E essa promessa, apesar de tudo que ainda passaríamos, nós mantivemos.

Cumplicidade. Nenhuma palavra descreve melhor a relação de Patti Smith e Robert Mapplethorpe contada em Só Garotos (Companhia das Letras, 280 páginas, tradução de Alexandre Barbosa de Souza) pela própria Patti. O livro de memórias, uma “dívida” da poeta com seu amor, é o relato de como duas pessoas constroem um tipo de intimidade rara e compartilham a vontade de “dar certo”.

Por dar certo, entenda-se dois falidos aspirantes a artistas vivendo em Nova York, e que estão dispostos a fazer qualquer coisa pelo sucesso – e para pagar o aluguel. Eram dois “tramposos”, que frequentavam lugares não compatíveis com o orçamento apenas para tentar amizades com pessoas endinheiradas ou famosas:

Nas semanas seguintes contamos com a generosidade dos amigos de Robert para nos acolher, especialmente Patrick e Margaret Kennedy, em cujo apartamento da Waverly Avenue passamos nossa primeira noite. Nosso quarto era um sótão com um colchão, os desenhos de Robert pendurados nas paredes e suas pinturas enroladas em um canto e apenas minha mala zadrez. Tenho certeza de que não foi fácil para esse casal nos acolher, pois nossos recursos eram mínimos e eu era desajeitada socialmente. À noite era uma sorte poder desfrutar da mesa dos Kennedy. Dividíamos nosso dinheiro, cada centavo era guardado para um lugar só para nós. Eu trabalhava o dia inteiro na Brentano e deixava de almoçar. Fiquei amiga de outra funcionária, chamada Frances Finley. Ela era deliciosamente excêntrica e discreta. Percebendomeu apuro, me deixava Tupperwares com sopa caseira na mesa do vestiário de funcionários. Esse pequeno gesto ajudou a me fortalecer e selou uma amizade para a vida toda.

Por isso, não espere uma grande história de como eles se tornaram artistas de sucesso, ele com a fotografia, ela com a música. Menos ainda, leia em busca de um panorama da “cena” (como detesto essa expressão, mas OK) punk nova-iorquina – especialmente, segundo o editor deste blog, se você leu Mate-me Por Favor (L&PM POCKET, em dois volumes).

Só Garotos, lembre-se sempre, é antes de tudo um retrato do amor pela arte e do amor um pelo outro. De como alugaram apartamentos e se mudaram, como dividiram um minúsculo quarto do hotel Chelsea, ainda que não soubessem bem como fariam para pagar a conta todo mês, e de como mostravam um ao outro cada trabalho que produziam com a mesma intensidade que contavam as moedas para comprar bolachas velhas (que eram mais baratas).

Sentei-me ao lado dele em silêncio. A luz do Hotel Chelsea pareceu diferente ao incidir sobre nossos poucos pertences, não era uma luz natural, espalhava-se desde o abajur e da lâmpada do teto, intensa e implacável, ainda que parecesse repleta de uma energia única. Robert estava deitado confortavelmente e disse a ele para não se preocupar, que eu voltaria logo. Precisava ficar com ele. Tínhamos nossa promessa.

A história segue em ordem cronológica, começa com um pouco de infância e adolescência dos dois, como se conhecem em Nova York, até as fases em que se divide o relacionamento. Se num primeiro momento eles eram o legítimo casal de namorados, a volta é o retrato de um sólido casamento, no qual se faz concessões  em nome da vida social.

Essa linearidade toda pode angustiar os menos românticos, como se faltasse literatura e sobrasse um diário adolescente. Talvez Patti tenha guardado de Robert o amor da juventude. Talvez, se o nobre leitor me permite um final fácil, eles tenham sido, entre os dois, só garotos mesmo.

Texto de Tássia Kastner

Conhece o Mário?

03 de fevereiro de 2011 1

Há alguns anos a Companhia das Letras publicou aqui no Brasil o romance Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, do escritor português Mário de Carvalho – uma pérola de ácido sarcasmo de um autor que ainda é pouco ou nada conhecido no Brasil, e só recentemente vem ganhando atenção nos círculos acadêmicos nacionais. Apesar disso, Carvalho é um nome de relevância entre os atuais autores de ficção de seu país. a crítica Ana Paula Arnaut lista Carvalho como um dos autores que praticam o que se poderia chamar de “ficção pós-moderna” em Portugal, ao lado do José Cardoso Pires de O Delfim, do José Saramago de Manual de Caligrafia e Pintura e do Mário Cláudio de As Batalhas do Caia. De Mário de Carvalho, já saíram em edição nacional o mencionado Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto (2005), o romance histórico passado na Lusitânia sob domínio romano Um deus passeando pela brisa da tarde (2006), e a coletânea de contos Era uma vez um alferes e outros contos (2008), reunião de histórias curtas que em Portugal haviam sido lançadas em três volumes diferentes nos anos 1980 e 1990.

Nascido em 1944, em Lisboa, Mario de Carvalho cerrou fileiras com a resistência à  ditadura salazarista em Portugal. Integrante do Partido Comunista Português, foi preso e mais tarde exilou-se na França e na Suécia, até voltar à terra natal, como muitos de seus contemporâneos, na esteira da onda de otimismo que se seguiu à reinstauração da democracia no país após a revolução de abril de 1974. Em Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, o escritor monta um panorama do Portugal de fins do século 20 (o romance foi publicado lá em 1995), usando de sátira, comicidade e de um narrador interferente para lançar um olhar ao que sobrou dos sonhos e utopias dessa esquerda portuguesa. Ao mesmo tempo, o livro flagra, não sem uma nota de melancolia, a ascensão de uma juventude desconectada dessa herança política e mais afeita a procedimentos individualistas, plenamente adaptada a tratar a si mesmo e a todos os aspectos de sua vida como produto em exposição no mercado, pessoal, sexual, ou profissional. Uma juventude que, passadas já duas décadas da “Revolução de Abril”, está mais preocupada com o que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman qualifica como uma “vida posta para consumo“.

O centro narrativo de Era bom que trocássemos… etc, é o protagonista Joel Strosse Neves, burocrata cinqüentão que, após anos de trabalho no setor de análise de projetos a ser patrocinados por uma entidade fictícia chamada Fundação Helmut Tchang Gomes, é atropelado pelos planos de reformulação ideados por seu superior hierárquico, um jovem recém-chegado, brandindo uma especialização irrelevante que só proporciona algum status de respeitabilidade porque feita na Suíça. O trabalho do personagem é irrelevante, redigir cartas de aprovação ou recusa para projetos de financiamento cultural – só redigir, a decisão está fora de sua alçada. Ainda assim, o personagem acredita importante o cargo que exerce, e nele dá vazão a uma inútil idiossincrasia literária: “Joel orgulhava-se de jamais ter deixado uma carta sem resposta, e de, com uma única excepção que lamentava, mas sempre omitia – e eu, portanto, respeitarei – nunca ter repetido os vocábulos de ofício para ofício, fruto de aturado labor sobre o dicionário de sinônimos. “

Strosse é transferido de cargo no início do romance sem mais justificativas que a vontade de seu superior, caricatura acabada dos métodos executivos de “reengenharia” e “otimização de recursos” em voga no capitalismo contemporâneo de mercado global. Mandado para o também quase inútil posto de bibliotecário da Fundação, Strosse Neves sente-se aviltado e é tomado de uma surda revolta que lhe dita patéticas ânsias de rebeldia e de atos de subversão hilários, porque também inúteis. A repetição do adjetivo “inútil” aqui não é gratuita, é antes uma antecipação do tom geral da obra. O sarcástico narrador ainda nos põe a par do drama doméstico que o burocrata vive, com um filho preso por tráfico de drogas – circunstância que Strosse Neves esconde dos conhecidos e colegas de trabalho contando histórias que transformam a longa ausência em viagens de estudo e trabalho ao Exterior. O personagem também se recusa a visitar o filho na cadeia, teimosia que o põe permanentemente em conflito com a mulher. Tal desordem pessoal impede que Strosse perceba os sentimentos de afeto que uma colega de Fundação nutre por ele. A vida do anti-herói do romance já começa, portanto, numa bagunça dos diabos, tornando a transferência de setor apenas um último elo em uma cadeia de frustrações pessoais.

É imbuído dessa consciência trágica de seu fracasso que Strosse decide buscar uma nova significação para sua existência por meio de uma decisão política: inspirado no heróico exemplo dos antigos colegas de faculdade que via, quase 30 anos antes, engajados na luta contra a ditadura salazarista, toma a decisão de filiar-se ao Partido Comunista Português (PCP). Uma pretensão que ganha corpo depois de o personagem encontrar por acaso, na cidade balneária na qual passa férias, o antigo colega de faculdade Jorge Matos, personagem que também assumirá importância no desenrolar do romance. Outrora um preso político, em 1973, no tempo presente da narrativa Matos é um comunista pouco militante que há tempos não comparece às despovoadas reuniões do partido. Numa desinformação que instaura o cômico por meio do absurdo, Strosse Neves ainda pensa o PCP do fim do século 20 como a organização clandestina heróica na qual cada nova filiação dependia de recomendação de alguém de confiança, e por isso pede ao antigo colega Matos que seja o fiador dessa intenção. Uma solicitação que, por sua dramaticidade anacrônica, surpreende o velho comunista, já ele próprio pouco ligado à militância do passado:

Se Joel estava embaraçado, Jorge ainda o estava mais. Que ajuda poderia ele dar? Falar em quê? Por que não havia o outro de preencher uma ficha num balcão, numa mesa ou lá como fosse? De resto, ia para mais de seis meses que não punha os pés numa reunião do Partido. Faria algum sentido aparecer um dia, pedir a palavra no ponto de “informações“ e comunicar que um fulano, seu colega de Faculdade, em tempos antigos, também queria ser militante

Uma terceira personagem vai representar uma certa oposição entre gerações: a jovem arrivista chamada Eduarda Galvão, primeiramente ex-namorada do filho encarcerado de Neves, e mais adiante amante oportunista de Matos, a quem recorre continuamente para ajudá-la a estabelecer uma carreira no jornalismo cultural – suprindo as abissais deficiências culturais da jovem (abissais mas jamais inverossímeis, o que posso tristemente garantir por trabalhar na área. Um quarto personagem tão central ao livro quanto os três mencionados anteriormente é o próprio narrador. Ele não é um dos personagens com ação física na trama, o que não quer dizer que seja uma voz neutra, pelo contrário, age muitas vezes como uma segunda consciência do narrado. A voz narrativa de Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto faz questão de que, a intervalos, o leitor tome consciência de que está acompanhando uma história, veja as costuras e emendas da tessitura narrativa e também tenha uma visão menos reverente dos próprios processos de escolha feitos para narrar o romance.

A voz narrativa não se limita a simplesmente contar, protegida pelo tom impessoal próprio da descrição em terceira pessoa costumeiramente associada ao romance realista. É interessante notar que o romance também é em terceira pessoa, apesar da sarcástica voz narrativa estar em primeira – as ações dos personagens são narradas de um ponto de vista externo. Mas o narrador assume-se como o artífice onisciente do romance e gaba-se das vantagens que esta condição lhe concede; zomba de seus próprios personagens; lamenta que determinadas expressões que desejaria usar, embora ainda disponíveis, já tenham caído na vala do lugar-comum; ironiza sua própria posição como voz narrativa do romance; formula comentários sardônicos sobre a condição de Portugal, os sonhos da antiga linhagem dos revolucionários de abril, a moderna geração crescida sem notícia da repressão política do país, o jornalismo, a burocracia, em hilariantes devaneios que a todo o momento interrompem a história propriamente dita, alguns deles até vindo a questionar o próprio estatuto do texto como exemplar do gênero romanesco, que pretende a representação da realidade. Como nos breves exemplos a seguir, nos quais é inevitável encontrar alguns ecos do Machado de Assis de Brás Cubas:

“Regresse-se a Joel Strosse que se agita ali perto e, muito enervado, passeia em círculo pela sala, com as mãos atrás das costas. Eu gostava de ter escrito ‘mede a sala a grandes passadas’, mas francamente, receio que o leitor já tenha lido isso em qualquer lado. A quem escreve, faz sombra esta barreira constante, eriçada de farpas, daquilo que outros mais expeditos ou temporãos escreveram antes. Custam-se estar vedado o uso de “Por uma noite escura e tempestuosa…” Alguém se apropriou da frase e dela se fez dono, de maneira que me vejo obrigado a criar os meus próprios lugares-comuns e Deus sabe como eles são inspirações do gênio que me falta.

O Nunes já vai atender, porque os livros não é como na vida, e as pessoas estão sempre em casa quando são precisas, à mão do autor totalitário. Também é assim nos filmes, em que os automobilistas encontram sempre um lugar a jeito para estacionar, mesmo no centro de Lisboa. Imaginem as voltas e o esforço em que eu me veria enrolado se o Nunes não estivesse disponível. Teria que repetira telefonemas, encontrar mais situações, mais ambientes, mais pretextos, mais conversa e enquanto assim ia gastando papel, com ele iria gastando também a paciência do leitor, que participa da natureza dos bens escassos. Dando-se o caso de o Vitorino se encontrar amiúde ausente, lá teria eu de reiterar, não sei quantas vezes, o diálogo: “O Vitorino está? — Não, não, já saiu! Obrigado, Tlim.”. Era uma sensaboria…

Nesses exemplos, poucos excertos de um grande número de casos semelhantes dispersos por todo o livro, a voz do narrador oferece reflexões e tiradas irônicas sobre todo o conjunto do romance, seja o caráter de um personagem, a própria estrutura que dá ao romance sua unidade formal e mesmo as verdadeiras razões das escolhas estéticas e narrativas que o autor/narrador é obrigado a tomar na feitura do romance, sempre na clave satírica que aponta o que muitas vezes é clichê e lugar-comum debaixo dos procedimentos consagrados de um narrador romanesco ao estilo realista:

“Transferido para este ambiente, eu, para ser mais rigoroso inculcador de atmosferas, nunca deveria mencionar objectos sem lhes declinar as marcas e as proveniências. A secretária, por exemplo, tem uma marca e foi comprada na loja tal, e os sapatos estão rigorosamente à moda e foram adquiridos por encomenda na casa tal e tal, da rua não sei quê, à Calçada da Estrela. E, falando no relógio e no pesa-papéis, artefactos de orgulhoso disaine, deveria também qualificá-los por esse lado. Acontece, porém, que não tenho competência para o efeito. É certo que poderia entreter-me durante uns dias a decorar marcas e etiquetas, de acordo com o princípio que aqui se anuncia em primeira mão “se não dominas um assunto, torna-te especialista nele”, mas, francamente, acho que estas personagens não merecem que se lhes faça o jeito e o leitor há-de ser poupado àquilo de que não precisa, porque, tal como eu, se está nas tintas para as emblemáticas comerciais.” 

Ao discorrer longamente sobre sua própria condição de escritor que precisa atingir a objetividade descritiva que vários teóricos (Auerbach é só o primeiro que me ocorre) aponta nas origens do romance realista moderno, Carvalho lembra que a postura com que o narrador se apresenta é de conhecimento do mundo, mas esse conhecimento é sempre “artificial”, preparado, fruto de pesquisa. Essa artificialidade se reflete no próprio narrador, uma voz que desdenha dos procedimentos consagrados de construir um romance ao mesmo tempo que os utiliza, ou que se refugia na ironia como forma de denunciar a artificialidade de tais procedimentos hoje, ou que oferece uma reflexão e uma visão de mundo que estão inevitavelmente condenados pela pretensão de totalidade, mesmo que sejam irônicos e dirigidos mais “contra” do que “para” tudo e todos.

Quem conta a história e dela mantém controle é uma voz que paira acima da realidade retratada no livro e que, embora se dirija com familiaridade ao leitor, interfere em diálogos e juízos de seus personagens o tempo todo, e não deixa leitor e personagem sozinhos um só momento. Ao pontuar cada gesto como um irônico comentarista, não permite ao leitor a ilusão de entregar-se à narrativa, e desfaz a todo momento qualquer ilusão de representação, embora a voz narrativa arvore para si laivos de representação do mundo como é na contemporaneidade, ela diz mais sobre os artifícios que um escritor precisa usar hoje para tentar – e falhar – essa representação.

E ainda assim, mesmo sem essa possibilidade de entrega, Carvalho faz de seu livro uma das experiências de leitura mais hilárias da literatura portuguesa recente.

Os livros que ganhei

01 de fevereiro de 2011 2

Li neste fim de semana Os Livros e os Dias, do crítico e historiador da leitura argentino (e cidadão canadense) Alberto Manguel, comprado durante a Feira do Livro do ano passado. Publicado em 2004 lá fora, o livro acompanha um ano de leituras (ou melhor, de releituras) de Manguel, entremeando aspectos da vida pessoal do autor com considerações e reflexões sobre os livros lidos, pautadas mais pela associação do que pela linearidade. Em outras palavras, é um livro no qual Manguel mistura um diário pessoal com um diário de leituras de um livro a cada mês durante um ano, de junho de 2002 a maio de 2003. As escolhas dos livros recaíram sobre obras que Manguel já havia lido e que de alguma forma faziam parte de seu patrimônio afetivo – e que estavam, portanto, de alguma forma associadas com memórias que pudessem ser evocadas no texto.

É do cruzamento entre os livros lidos, as lembranças de episódios no passado de alguma forma ligados aos mesmos livros e as circunstância em que a obra está sendo relida enquanto Manguel escreve que se forma a tessitura de Os Livros e os Dias – uma barafunda de reminiscências, acuradas investigações sobre a condição do leitor e a atividade da leitura, notas e digressões, insights valiosos sobre determinados livros que logo são abreviados devido ao caráter necessariamente fragmentário da forma “diário” escolhida pelo autor. A releitura de A Invenção de Morel, três décadas depois do primeiro contato com a obra, coincide com uma viagem de Manguel à Buenos Aires em que ele e Bioy Casares, autor do romance nasceram. E é inevitável que a visita à Argentina orgulhosa porém alquebrada pela crise econômica de 2001 desperte no crítico sensações semelhantes às da leitura de Morel, “o relato de um homem encalhado numa praia aparentemente habitada por fantasmas”.  A Ilha do Doutor Moreau, de Wells, desperta as lembranças do verão em que o livro foi lido pela primeira vez, quando Manguel tinha 12 anos, ao mesmo tempo em que sua releitura coincide com uma palestra que Manguel vai proferir em Londres. Instalado em um pequeno hotel no Soho, em um quarto que dá para uma rua “inacreditavelmente ruidosa”, Manguel não tarda, em influenciado pela leitura do livro, identificar um “aspecto animal” no ruído entra pela janela.

O que motivou a escrita deste post, contudo, foi o texto de Manguel sobre o romance Kim, de Rudyard Kipling. A determinado momento, Manguel comenta que tem vários exemplares diferentes de obras de Kipling, dois dos quais objetos de especial carinho: um exemplar de Sob os Cedros do Himalaia publicado na Índia em 1933 e um volume de bolso comprado por Jorge Luís Borges em 1925 e dado de presente a Manguel nos anos 1970 – a amizade de Manguel com Borges já foi narrada em um dos comoventes textos de No Bosque de Espelhos, outro belo livro de ensaios. Partindo do pretexto desse presente dado por Borges, Manguel afirma que “uma espécie de autobiografia poderia ser escrita seguindo os objetos que me foram dados por amigos.” e passa a listar uma página e meia de objetos presenteados – curiosamente, nenhum deles é um livro.

A sugestão de uma breve autobiografia formada por uma relação de ítens presenteados por amigos me provocou aquele tipo de impressão cálida que só as ideias lúdicas e vagamente inúteis proporcionam  até porque a leitura do livro de Manguel foi feita concomitante com a de outro livro, o volume de crônicas de viagem Psycho Too, escrito por Will Self, que ganhei de presente há algumas semanas de meu amigo hoje residente em Paris Gabriel Brust. Uma biografia dessa natureza fugiria um pouco de seu padrão, porque não seria exatamente uma autobiografia, e sim uma “autobiografia social” – isso Manguel não ventila em seu texto, mas arrisco dizer aqui que uma lista de livros recebidos de presente sempre diz tanto ou mais sobre quem presenteou do que sobre a pessoa que os recebeu. Foi ao percorrer minhas estantes para retirar de seus lugares os livros presenteados por pessoas próximas ou amigos (sim, sim, eu tenho amigos, e isso não deixa de ser algo que me surpreende tanto quanto a vocês) que confirmei um pouco dessa impressão. Outra impressão que tristemente confirmei é que à medida que fui ficando velho fui ganhando cada vez menos livros – já me explicaram que isso se deve ao fato de meus amigos nunca terem certeza se eu já tenho ou não um livro. Não contam nessa lista, claro, os livros que recebi de autores na qualidade de crítico literário.

* Meu amigo e ex-colega de Zero Hora, Gabriel Brust, professa uma visão de mundo crítica e vezes ácida. É um cínico, ainda que um cínico de coração mole. Em sua última passagem por Porto Alegre, para as festas de fim de ano, me presenteou com um exemplar em inglês do livro Psycho Too, do inglês Will Self, também ácido e cínico ele próprio. São mais de 50 textos, misto de ensaios e crônicas de viagem com ilustrações belíssimas de Ralph Steadyman.

* No Natal de 2000, minha amiga Adriana Irion, com quem trabalhei por anos na editoria de Polícia de Zero Hora e uma das melhores repórteres que conheço, me presentou, apropriadamente, com um livro-reportagem de fôlego: Corações Sujos, de Fernando Morais. Um gesto doce numa época particularmente difícil, pelo que sou grato a ela até hoje, de coração limpo. No meu aniversário de 1998, ela, leitora voraz de romances policiais, já havia me dado uma edição recente de Impressões e Provas, livro do escritor americano John Dunning, protagonizado por um ex-policial bibliófilo às voltas com um caso de mortes e supostos suicídios envolvendo uma edição rara e exclusiva de O Corvo, de Edgar Allan Poe. Embora eu seja um apreciador também de policiais desde a cada vez mais longínqua juventude, foi ela quem me apresentou o trabalho de Dunning, me emprestando alguns meses antes o primeiro livro do personagem lançado no Brasil: Edições Perigosas.

* Em 1994, uma então namorada, em início de relacionamento, e sabendo de minha predileção por Rubem Fonseca – a quem ela detestava por achar muito violento – ainda assim me deu os Contos Reunidos que a companhia estava editando com toda a produção contística do autor até ali, numa bela e sóbria edição de solene capa dura ornada apenas com o título e a reprodução da assinatura manuscrita do autor.  A dedicatória é tão sóbria como ela era. Dois anos mais tarde,em 1996, quando eu e ela já morávamos juntos, a minha então sogra me deu A Ilha do Dia Anterior, de Umberto Eco. Digamos que o relacionamento – que mais tarde acabou –, ao menos me deixou dois bons livros.

* Em 2007, meu irmão, pastor evangélico e personalidade política deveras conservadora, me deu de presente um romance gospel passado no tempo das perseguições de Nero aos cristãos…

* Em 2002, comprei os primeiros dois volumes da série de Élio Gaspari sobre a ditadura militar, As Ilusões Armadas. Fui completar a série com a ajuda posterior de minha senhoura, que, advogada e apaixonada estudiosa de períodos de exceção no Brasil e no mundo, presenteou-me com outros dois em 2006.

* Meu amigo historiador Paulo Alcaraz, hoje residente em Santa Catarina, depois de muitas noitadas em que discutimos em mesas de bar o Dicionário Filosófico, de Voltaire, certa vez, creio que em 2004, me presenteou com uma “raridade de família”. Um exemplar do Dicionário, em francês, brochura, capa das mais simples, apenas com a tipografia do nome do autor e da obra, editada pela Flammarion em 1932, num coleção de livros de bolso a baixo preço chamada Les Meilleurs Auteurs Classiques. De acordo com ele, pertenceu a um tio, se minha memória não me trai. Desnecessário dizer que ainda tenho o livro guardado com todo o cuidado.