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Sessenta anos este mês

09 de março de 2011 2

Contaram-me que, no fundo do sertão de Goiás, numa localidade de cujo nome não estou certo, mas acho que é Porangatu, que fica perto do rio de Ouro e da serra de Santa Luzia, ao sul da Serra Azul — mas também pode ser Uruaçu, junto do rio das Almas e da serra do Passa Três (minha memória é traiçoeira e fraca; eu esqueço os nomes das vilas e a fisionomia dos irmãos; esqueço os mandamentos  as cartas e até a amada que amei com paixão) — mas me contaram em Goiás, nessa povoação de poucas almas, as casas são pobres e os homens pobres, e muitos são parados e doentes e indolentes, e mesmo a igreja pequena, me contaram que ali tem — coisa bela e espantosa — um grande sino de ouro.
Lembrança de antigo esplendor, gesto de gratidão, dádiva ao Senhor de um grã-senhor — nem Chartres, nem Colônia, nem S. Pedro ou Ruão, nenhuma catedral imensa com seus enormes carrilhões tem nada capaz de um som tão lindo e puro como esse sino de ouro, de ouro catado e fundido na própria terra goiana nos tempos de antigamente.
É apenas um sino, mas é de ouro. De tarde seu som vai voando em ondas mansas sobre as matas e os cerrados, e as veredas de buritis, e a melancolia do chapadão, e chega ao distante e deserto carrascal, e avança em ondas mansas sobre os campos imensos, o som do sino de ouro. E a cada um daqueles homens pobres ele dá cada dia sua ração de alegria. Eles sabem que de todos os ruídos e sons que fogem do mundo em procura de Deus — gemidos, gritos, blasfêmias, batuques, sinos, orações, e o murmúrio temeroso e agônico das grandes cidades que esperam a explosão atômica e no seu próprio ventre negro parecem conter o germe de todas as explosões – eles sabem que Deus, com especial delícia e alegria, ouve o som alegre do sino de ouro perdido no fundo do sertão. E então é como se cada homem, o mais mesquinho e triste, tivesse dentro da alma um pequeno sino de ouro.
Quando vem o forasteiro de olhar aceso de ambição, e propõe negócios, fala em estradas, bancos, dinheiro, obras, progresso, corrupção — dizem que esses goianos olham o forasteiro com um olhar lento e indefinível sorriso e guardam um modesto silêncio. O forasteiro de voz alta e fácil não compreende; fica, diante daquele silêncio, sem saber que o goiano está quieto, ouvindo bater dentro de si, com um som de extrema pureza e alegria, seu particular sino de ouro. E o forasteiro parte, e a povoação continua pequena, humilde e mansa, mas louvando a Deus com sino de ouro. Ouro que não serve para perverter, nem o homem nem a mulher, mas para louvar a Deus.
E se Deus não existe, não faz mal. O ouro do sino de ouro é neste mundo o único ouro de alma pura, o ouro no ar, o ouro da alegria. Não sei se isso acontece em Porangatu, Uruaçu ou outra cidade do sertão. Mas quem me contou foi um homem velho que esteve lá; contou dizendo: “eles têm um sino de ouro e acham que vivem disso, não se importam com mais nada, nem querem mais trabalhar; fazem apenas o essencial para comer e continuar a viver, pois acham maravilhoso ter um sino de ouro”.
O homem velho me contou isso com espanto e desprezo. Mas eu contei a uma criança e nos seus olhos se lia seu pensamento: que a coisa mais bonita do mundo deve ser ouvir um sino de ouro. Com certeza é esta mesmo a opinião de Deus, pois ainda que Deus não exista, ele só pode ter a mesma opinião de uma criança. Pois cada um de nós quando criança tem dentro seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria e pecado e corrupção, vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra, e lama e podridão.

Comprei no último fim de semana a coletânea 200 Crônicas Escolhidas de Rubem Braga (Record, 2007), edição que já não é das mais recentes e provavelmente por isso estava com um preço ridículo abaixo de 20 pilas, o que me fez feliz e, mais do que isso, um feliz comprador. Reúne crônicas garimpadas nas coletâneas em livro que Braga publicou ao longo da vida (a que vocês leram acima estão no volume A Borboleta Amarela, mas há textos de O Conde e o Passarinho; Ai de Ti, Copacabana!; A Traição das Elegantes, entre outras). Uma seleção que abrange, devidamente datadas, crônicas de Janeiro de 1935 (Sentimento do Mar) até abril de 1977 (Os Sons de Antigamente).

E quando, na leitura, cheguei a essa crônica específica transcrita acima, não pude deixar de estacar por um momento e ficar à espreita de um fio de pensamento que teimava em fugir. O Sino de Ouro, que vocês leram ali em cima, traz a data de março de 1951. Cinquenta Sessenta anos. Mais de meio século, palavras mais velhas do que eu, mais velhas do que muita gente que eu conheço, chegando até mim pela imortalidade da obra de um dos homens que elevou a crônica a peça literária no Brasil – e um dos responsáveis indiretos pela profusão obscena de “cronistas do cotidiano” na imprensa nacional, mas isso é já outro papo (a nascente não tem culpa do entulho que polui o curso d’água mais adiante).

A bem da verdade eu já havia lido O Sino de Ouro no colégio, antigo 1º Grau. Assim como outras crônicas reunidas no livro: Aula de Inglês, Ai de Ti, Copacabana!, Um Pé de Milho, Conversa de Abril. Mas na época a data em si não me impressionava. Talvez fosse jovem demais para reparar no tempo, não sei, o fato é que por algum motivo essa circunstância fortuita à qual estou dando uma significação assumidamente arbitrária despertou-me curiosidade pelo sino de ouro. Não deixa de ser uma crônica que faz o elogio de algo que eu particularmente não defendo, o embevecimento paralisante da transcendência religiosa, mas como é… bonito.

E como ressoa ainda hoje, pensando bem. Certa vez, em Brasília, ouvi um profissional classe média local usar o termo “goiano” em sentido pejorativo para se referir a migrantes de baixas instrução e renda, o mesmo sentido que em São Paulo ouvi certa vez aplicado a “baiano” ou que aqui no Rio Grande do Sul cansei de escutar como “nordestino” — idiotas de qualquer região sempre acham que o problema é o outro, que a diferença do outro os torna de algum modo inferiores e que essa inferioridade justifica seus próprios pensamentos preconceituosos acéfalos.  “Goiano” ser um termo pejorativo em Brasília, cidade que se empanturra de abuso de poder e corupção até explodir, maior equívoco socio-político do Brasil (e que também já passou de meio século), me pareceu… simbolicamente apropriado. Simbolismo de um Brasil que ainda busca conciliar uma nostalgia de fé e inocências perdidas (e imaginárias) com um Brasil para quem o progresso material a qualquer custo é acenado como panaceia. E a mim pareceu que 50 60 anos depois o Brasil ainda não passou da fase de fazer essas duas matrizes, a fé e a ambição, de alguma forma conviverem, quanto mais funcionarem juntas (algumas correntes evangélicas conseguem uni-las para seus propósitos, a fé e a ambição material, mas delas é melhor nem falar).

Sei lá. Pode ser um otimismo bobo achar que algo aponta um caminho melhor porque dura 50 anos – num país ainda em formação como o nosso é muito, muito tempo.

Mas por algum motivo que eu não consigo expressar, eu acho.


Comentários (2)

  • Perseu diz: 10 de março de 2011

    Não seria sessenta anos?

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