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A mãe de todas as armas

10 de março de 2011 0

Kalashnikov com sua invenção. Foto de Stefan Thomas, AFP, 25/07/2002

Mikhail Timofeevich Kalashnikov derrotou os americanos na Coreia e no Vietnã, serviu de símbolo para bandeiras, moedas e monumentos, frequenta o cancioneiro pop, é idolatrado por Hollywood e virou mobília descolada. Tudo isso, segundo ele mesmo, pelo motivo errado: em vez do fuzil de assalto AK-47, Kalashnikov queria mesmo era ter inventado um cortador de grama. Mas esta reflexão viria tarde, como mostra o jornalista norte-americano Larry Kahaner no livro AK-47: a Arma que Transformou a Guerra (tradução de Mário Pina, Record, 266 páginas, R$ 44,90). Atual apesar do lançamento tardio no Brasil (a primeira edição nos EUA é de 2007), a história de ascensão e predomínio da AK nos campos de batalha pós-Guerra Fria é narrada com detalhes e ajuda a entender o próprio conceito de combate moderno criado pelo projeto de Kalashnikov.

Hoje com 91 anos, Kalashnikov só conheceu o tamanho da fama (e do estrago) de sua criação na década de 1990, quando a União Soviética veio abaixo. Até então, o ex-piloto de tanque, que desenvolveu numa cama de hospital a mais perfeita arma de matar, estava convicto de que suas intenções eram legítimas e voltadas para manter a paz em seu país. A Avtomat Kalashnikova modelo 1947 — ou AK-47 — havia sido concebida para derrotar os nazistas durante a II Guerra. Com a queda de Hitler antes do lançamento oficial, ela serviria, então, para dar baixa nos imperialistas liderados pelos EUA durante a Guerra Fria. Serviu bem a esse propósito: levou à vitória os norte-coreanos na Guerra da Coreia e  os vietcongues durante a Guerra doVietnã. Nesta última, além infligir uma vergonhosa derrota ao exército norte-americano, obrigou os EUA à primeira revisão do seu arsenal em quase um século. Segundo relatos de oficiais, o fuzil soviético usado pelo inimigo funcionava mesmo depois de meses enterrado na lama,enquanto os M16 americanos “precisavam ser limpos em um hospital ou então emperravam”.

Segurança, confiabilidade e durabilidade estavam, de fato, no projeto de Kalashnikov — além do baixo custo de produção e facilidade de manutenção e manuseio. Mas a arma oficial do Exército Vermelho era também moeda política e acabou liberada, sem custos, para ter versões produzidas pelas nações do Pacto de Varsóvia — mais China e Cuba, aliadas dos soviéticos — que precisavam se armar para o inevitável conflito entre EUA e URSS. Só que a guerra não aconteceu, a União Soviética ruiu e os Estados comunistas, sem dinheiro e com os paióis abarrotados, não viram outra alternativa a não ser soterrar o mercado negro de armas com milhões de Kalashnikovs. A oferta era tanta que, na primeira metade dos anos 1990, era possível comprar uma AK-47 por até US$ 10 — ou trocá-la por um saco de arroz, dependendo do nível de carência da nação onde ela seria usada.

E foi justamente nas nações mais miseráveis  de Oriente Médio, América Latina e África que ela virou um símbolo — primeiro de liberdade e depois de genocídio e barbárie. Suas propriedades a tornaram a arma preferida para conflitos urbanos, usada tanto pelos exércitos oficiais que defendiam ditaduras sanguinárias quanto pelas milícias que queriam derrubá-los (para depois instaurar novos regimes de terror). Estes, junto a traficantes e terroristas, foram tão diligentes no uso da AK-47 que a inscreveram no rol da infâmia ao descobrir que crianças podiam utilizá-la. Sua fama cruzou os campos de batalha e ela virou estrela em letras de rap – 50 Cent, AkonNAS e funkeiros cariocas exaltam a AK-47 em suas canções. No cinema, Quentin Tarantino a celebrizou em Jackie Brown (1997) na fala do traficante de armas vivido por Samuel L. Jackson: “Ak-47. A melhor que há. Quando você precisa matar absoluta e positivamente todos os filhos-da-puta no recinto, não aceite substitutos“.  Nicolas Cage a elege como principal item de exportação da Rússia em O Senhor das Armas (2005): “Após a Guerra Fria, a AK-47 se tornou o maior produto de exportação da Rússia. Depois vinham vodca, caviar e escritores suicidas.“.  Até um caríssimo abajur dourado ela virou, criação do designer francês Philippe Starck. Com Kalashnikov gostando ou não de tudo isso, é difícil imaginar tamanha influência de um cortador de gramas.

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