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Gerações em queda

21 de março de 2011 3

Michel Laub em Porto Alegre. Foto de Fernando Gomes, ZH

 

O porto-alegrense Michel Laub é um dos autores contemporâneos para quem a memória é elemento chave. Em sua ficção, a narrativa se estrutura em torno das memórias dos protagonistas, podendo, assim, estar sujeita a erros, imperfeições e até mesmo a um sentimentalismo elegante que jamais resvala no piegas. Como Laub lança hoje na Livraria Cultura do Shopping Bourboun Country seu quinto romance, Diário da Queda, estive na semana passada na casa dos pais do escritor, em Porto Alegre (ele mora em São Paulo, mas está na capital gaúcha para o lançamento). Diário da Queda narra a tentativa de um homem, aos 40 anos, de reconstruir por meio da escrita as relações repletas de tragédia e ambiguidade de três gerações de sua família judaica: a dele próprio com o pai, que a certo momento será diagnosticado com Alzheimer, e a do pai com o avô, sobrevivente de Auschwitz.

Experientes de entrevistas anteriores (uma delas deu origem a uma matéria que pode ser lida aqui), conversamos durante 40 minutos, num diálogo que fluiu fácil. Como o material precisou ser editado para o Segundo Caderno de hoje, compartilho com vocês a íntegra, abaixo. As poucas intervenções feitas na entrevista abaixo foram efetuadas para retirar da conversa menções a um ponto que, revelado no fim do livro, constitui uma certa surpresa que resolvi não sonegar ao leitor.  

Zero Hora — Neste livro, assim como em romances anteriores, o tema é a memória, um personagem mais velho reconstruindo na narrativa memórias de seu tempo de juventude. Entretanto, é o primeiro livro em que você trata da questão judaica. Por que agora? Não era um tema que interessava antes e agora interessa?
Michel Laub —
Já me perguntaram isso e é muito difícil dizer. Acho que na verdade é um mistério. Acredito que em qualquer livro que alguém escreva, haverá muito do autor, e isso provavelmente é uma parte importante de mim, embora não pareça, porque eu não sou religioso e até culturalmente não tenho um interesse tão grande pelas questões judaicas, elas me interessam em um nível razoável, como interessam a todo mundo, não necessariamente a judeus. Mas pelo fato de eu escrever sobre mim, em algum momento isso começou a aparecer como algo importante. Não sei se isso é uma motivação inicial que te faz sentar e escrever. Acho que o meu impulso inicial foi mais com a questão do Alzheimer, do esquecimento. Auschwitz acabou entrando depois porque é um tema que tem muito a ver com memória, o Alzheimer uma questão da memória individual, biológica, e Auschwitz como a memória coletiva. Mas essa contraposição entre esses dois elementos só fui perceber quando eu já estava escrevendo o livro, porque normalmente você vai escrevendo a história e a partir daí vai vendo os significados dela.

ZH — A cena inicial é a do protagonista evocando um momento de vergonha individual, quando ele e outros colegas conspiram para uma brincadeira de mau gosto que acaba por ferir gravemente outro colega numa festa de aniversário. Esse ponto de partida foi o mote inicial do livro ou foi algo que surgiu na escrita?
Laub —
Foi surgindo. É curioso, minha vontade inicial não era fazer mais um livro com um protagonista lembrando a adolescência, eu já havia escrito romances assim, eu queria outra coisa. Na verdade, pensando bem, a gente vai falando e vai lembrando. O Segundo Tempo, que é meu livro de 2006, foi escrito depois de eu ganhar uma bolsa, e o projeto original era uma trilogia: uma história de adolescentes, uma história de adultos e uma história de pessoas mais velhas. E aí O Segundo Tempo cresceu, ficou pronto bem antes e parecia uma narrativa autônoma, e acabei publicando como um único romance. O Gato Diz Adeus aproveita a ideia da história dos adultos, um casamento de meia-idade. E no projeto original a terceira história, dos personagens mais velhos se passava numa clínica geriátrica, eu queria até fazer pesquisa sobre isso. O impulso inicial, pensando bem, foi esse, e daí surgiu o personagem que tem Alzheimer. Mas claro, no escrever você vai vendo o que funciona ou não. E depois do planejamento inicial nunca cheguei a considerar a hipótese de fazer essa história em uma clínica com todo mundo morrendo, porque eu não queria fazer uma coisa tão pesada a princípio. Fui tentando fugir disso, embora o resultado final possa ter ficado provavelmente ainda mais pesado.

ZH _ E essa decisão de tirar o personagem da clínica tem algo a ver com o Leite Derramado, cujo ponto de partida é também um idoso numa enfermaria?
Laub -
Não porque foi bem antes. Na época do Leite Derramado eu já estava escrevendo esse livro. Mas às vezes tem isso, também, você lê algo e pensa, até inconscientemente, que aquele assunto já está sendo tratado… É um mistério o porquê de escolher ou não um assunto. A história de Auschwitz entrou rapidamente na história do Alzheimer, achei que tinham a ver. Mas a partir daí a memória de infância do protagonista apareceu por acaso. À medida que eu fui escrevendo vi que havia uma história boa a contar, fui atrás e quando vi terminei de novo com um personagem adolescente que ocupa metade do livro.

ZH — A certo ponto do livro o narrador fala como dentro de sessenta anos Auschwitz será uma história distante de violência e massacre, como Sobibor, por exemplo, sem mais nenhuma testemunha viva. É uma contraposição com a desaparição gradual da memória do pai do protagonista, com Alzheimer?
Laub —
Isso não era proposital no início, mas fui percebendo essa relação ao escrever. E quando você percebe você começa a se direcionar para isso. O livro todo é assim, embora possa parecer que ele é um tanto fragmentado, no fundo cada bloquinho foi muito bem pensado e bem montado depois que eu estava escrevendo. Porque eu escrevia um episódio, inseria no meio de alguns blocos daqueles, com uma técnica para não parecer muito abrupto ir de um assunto para outro, mas inicialmente é um impulso que você faz sem pensar muito. Mas essa associação é muito evidente.

ZH — É perceptível no livro que cada uma das três gerações retratadas no romance parece herdar uma tragédia, como se a violência e a tragédia original de Auschwitz de alguma forma voltasse com suas próprias características para cada personagem, o avô, o pai e o narrador. É um paralelo que você faz com a própria transmissão da memória do Holocausto na comunidade judaica, algo que o narrador aborda no livro?
Laub —
Sim. Talvez até a questão de ter achado o resultado pesado venha de que foi muito pesado para mim escrever esse livro, por causa do tema judaico. Auschwitz, claro, mas o tema judaico em geral. Porque quando você é judeu, você sabe que está falando de temas que vão afetar muito pessoas próximas, não por autobiografia, mas porque um escritor judeu escrevendo um livro em que personagens judeus aparecem fazendo coisas indevidas será imediatamente confrontado. Eu senti muita resistência interna minha ao escrever. Talvez tenha sido o livro no qual mais esforço eu tenha feito para ir contra a resistência. Porque os outros narravam histórias bem fictícias. O Segundo Tempo é bem fictício. Claro que o pai do Segundo Tempo é terrível, e há a ideia de que meu pai possa ler e achar que tenha alguma coisa a ver com ele, e isso é um tipo de resistência, mas isso é menor diante de uma coisa… assim… que…

ZH — Uma coisa que de fato faz parte de sua vida?
Laub —
Acho que sim. Tanto que foi o livro que eu mais tive crises durante a escrita, achando que ia jogar fora. Em nenhum momento, ao contrário de outros livros, essa crise foi por achar que o livro estava ficando ruim, que não prestava, mas porque em determinado momento eu comecei a pensar: “por que estou escrevendo um livro sobre Auschwitz?”. “O que eu tenho de relevante para dizer sobre isso se tanta gente já falou, tantos filmes já foram feitos”. A solução para isso foi introduzir essa própria questão no livro pela voz do narrador, porque era uma dúvida que eu tinha o tempo inteiro. É que nem se você fosse escrever um livro sobre, sei lá, a ditadura militar brasileira. Ou você faz uma história única sobre aquilo ou você vai patinar no lugar comum. N’O Segundo Tempo eu tive um problema parecido com o futebol, que era fugir da narrativa tradicional sobre futebol, que é aquela narrativa metafórica, meio piegas, o tempo inteiro eu me esforcei para não usar o tipo de imagem que se usa quando se escreve sobre futebol. Então acabei fazendo um livro meio ao contrário. Em vez de celebrar a coisa do futebol ele faz ao contrário. Com Auschwitz agora eu tive o mesmo problema. Não sei se resolvi ou não, mas as soluções que arrumei para esse impasse foram relativas aos personagens: tornar os personagens mais individuais do que vítimas da História, apenas. É o caso do avô, que é uma vítima, por um lado, mas no fundo não é, o que o livro revela depois.

ZH — Sim, ele sai de Auschwitz, forma família, tem filho, e comete erros como qualquer pessoa.
Laub —
Exatamente, ele se torna um indivíduo e não uma vítima da História. Mas também não é muito fácil, porque é complicado você escrever um livro cujo personagem não é apenas uma vítima de Auschwitz. Acho que para qualquer escritor é complicado, para um escritor judeu eventualmente pode ser mais complicado. Ou não, não sei. E embora eu não me sinta religioso, tem uma hora em que a coisa da identidade pega de modo muito profundo. Então aquela primeira pergunta sobre porque eu nunca pensei nisso: não sei, mas quando comecei a escrever fui me dando conta de que aquilo era parte de mim.

ZH — Analisando seus livros é fácil notar que, embora isso não ocupe o centro da narrativa, em pelo menos três deles você constrói uma espécie de memória dos anos 1980, e o quanto algumas coisas eram diferentes naquela época. É algo que se vê em Longe da Água, em O Segundo Tempo, e agora neste livro. É um projeto consciente?
Laub —
Nesse caso é minha própria memória mesmo. Tem a coisa da autobiografia. É curioso, muitos leitores acham que meus livros são biográficos, e talvez eu mesmo force um pouco isso, colocando personagens que têm a mesma profissão que eu, etc. Mas se você ler esses livros, meus quatro romances excluindo O Gato Diz Adeus, vai encontrar todos esses elementos em histórias diferentes entre si. Só como exemplo, O Segundo Tempo é uma história em que o narrador tem 15 anos e os pais estão se separando. Neste agora o narrador tinha 13 anos, mas os pais não estão separados, o pai é judeu, a história é outra, são tramas coerentes entre si, o que prova que a base delas é autobiográfica. O que vai ser biográfico são esses elementos que colorem as cenas, que aí  realmente, eles vêm do que eu sei. Eu até poderia tentar fazer outra coisa, mas não vejo muito sentido em fazer alguém muito mais velho para falar dos anos 1970 quando eu não preciso pesquisar para falar dos anos 80. E esse livro pedia um personagem dessa faixa etária, mais ou menos. Se fosse fazer uma memória dos anos 1960 seria outro tipo de livro.

ZH — O próprio encadeamento das gerações provavelmente situava a juventude do narrador naquela época.
Laub —
Ele tinha um poblema, em certo momento, que era o fato de o personagem, para lembrar dos anos 1980, precisaria ter uns 38, 40 anos, como eu tenho. O avô tudo bem que houvesse sobrevivido, era um personagem que já havia morrido, poderia ter qualquer idade, mas o pai só poderia ter nascido no Brasil, então estava limitado a nascer a partir de 1945. E de 1945 para cá temos 65 anos, e essa não é uma idade em que Alzheimer é tão comum. Eu falo isso no livro, inclusive. Todos os problemas que enfrentei de algum modo foram discutidos pelo protagonista no próprio livro. Mas existe, existe gente com Alzheimer até com 30 anos. E uns 2% ou 3% dos pacientes tem 60 anos. É verossímil, mas eu tive de encaixar bem essa questão das gerações, porque no fundo o pai dele não é muito velho. O melhor talvez fosse que o personagem do pai fosse bem mais velho.

ZH — Os capítulos do livro são estruturados em parágrafos numerados que formam tópicos. A Bíblia é uma referência de algum modo?
Laub —
Não, isso é curioso. Eu tinha nos outros livros um problema que eu via. Pegando O Segundo Tempo, por exemplo, que é dos livros anteriores que eu considero mais redondinho, ele fecha todo direitinho. Por questões minhas, técnicas, eu acho que aquele livro só fecha com aquele tom e com aquele tipo de narrativa, meio circular, meio elegante. No Segundo Tempo não dava tanto espaço para eu sair da narrativa, da história em si para digredir sobre futebol ou outras coisas. Toda vez que eu fiz isso, tem aqui e ali alguma coisa, é muito curto, porque tem de voltar, a estrutura do Segundo Tempo pede que a narrativa ande. E no caso do Diário da Queda eu tinha de ter considerações históricas. Estou narrando a história de um moleque que se machuca naquela festa, e daqui a pouco eu vou ter de falar com algum vagar sobre o Holocausto, sobre o livro É Isto Um Homem?, do Primo Levi, e eu achei que em um texto seguido, corrido, era mais difícil ou ia ficar meio truncado, forçado. A coisa de dividir a história em tópicos foi uma solução técnica de narrativa mesmo, eu às vezes eu interrompo uma linha e vou para outra sem precisar fazer grandes transições que dariam mais trabalho e seriam apenas artifícios técnicos. A estrutura de tópicos facilitou muito, eu pude dizer muito mais do que eu diria normalmente numa narrativa corrida. Claro que há algumas adaptações. Como é em tópicos e eu não quero escrever um livro inteiro em minitópicos, os números facilitam a inventar listas: “algumas coisas que eu sei sobre meu avô”, e assim você pode numerar. E como é uma memória, o sujeito está contando sua vida, então tem como abrir notas: como eram os táxis em Porto Alegre, eu poderia ter falado de qualquer coisa, como é o gosto de uma maçã. Aí ele acabou ganhando coerência. Escrever um livro é sempre uma confusão até um determinado momento, mas tem uma hora em que você acha o caminho e aí conspira a favor. Daí tendo alguma experiência de escritor você ajeita. Eu tirei fora da versão final do livro vários trechos que poderiam até ser bons mas não funcionavam nesse esquema que o livro pedia.

ZH — Seus livros têm como protagonistas homens que normalmente trabalham nas mesmas coisas que você: editor, escritor, roteirista. Isso entra como aquelas memórias que você falou que preenchem um detalhe ou outro sem necessidade de pesquisa?
Laub —
Em livros curtos como os que eu escrevo, às vezes um paragrafozinho é importante. Não é um romanção de mil páginas que você possa cortar bastante. Então você poder descrever como era entrar em um táxi em Porto Alegre nos anos 1980, eu acho que o leitor gosta disso. É melhor do que ser genérico e dizer qualquer coisa. Às vezes pode ser um detalhe mesmo, para salvar uma página do livro. Se não faz mal para a trama, melhor fazer assim mesmo. Até porque isso ilumina tudo o que ele falou antes, a voz dele fica coerente. Ele é um narrador culto, com instrução completa, não poderia ser, sei lá, o pai do outro menino do livro, que é cobrador de ônibus. Tem esse lado da verossimilhaça do livro e tem também o lado que eu gosto de confundir o leitor, fazer ele achar que é autobiografia.

ZH — Você gosta de semear essa confusão?
Laub —
Não é que eu goste, mas eu parei de lutar contra isso. Sabe aquela coisa de que o escrever são os teus defeitos? No início todo mundo falava e eu ficava assim: “pô, tenho de fazer um negócio diferente”. Mas uma hora eu me dei conta de que sou eu ali escrevendo, então deixa as pessoas acharem. Você força mais ainda a situação. Por um lado, lendo só aquele livro, a pessoa que leia apenas aquele livro ela vai ter essa ideia de que é totalmente autobiográfico. Duvido que alguém que nunca tenha me visto na vida ao ler esse livro não ache que é autobiográfico. Todo o livro de memórias na primeira pessoa causa esse efeito, é natural. Só que quem leu os quatro livros talvez perceba que não pode ser autobiográfico, que algum deles está mentindo porque um fala o contrário do outro. Eu misturei muito. Todos os livros meus têm a presença do litoral. Longe da Água se passa em Albatroz. O Segundo Tempo o personagem planeja fugir para Tramandaí, e este agora tem umas cenas em Capão da Canoa. E na verdade a praia em que eu sempre passei os veraneios era outra, era Santa Terezinha, não era nenhuma dessas. No caso de O Diário da Queda tinha de ser Capão porque era a praia dos judeus. Provavelmente se eu voltar a escrever um livro sobre o Rio Grande do Sul eu vou colocar de novo o litoral, e não será Santa Terezinha, agora já virou uma brincadeira pessoal, vai ser Mariluz ou sei lá qual.

ZH — Essa presença do litoral também mostra a relação do Estado com o mar, algo ao mesmo tempodistante e presente, um cenário melancólico.
Laub —
É um cenário muito sugestivo. Eu poderia ficar escrevendo livros só sobre o litoral gaúcho, porque todo mundo que é daqui entende e sabe do que estou falando: o cinema, o artesanato na praça de Capão. É engraçado como esse cenário não é mais explorado, porque é um litoral tão diferente. Tem o filme do Jorge Furtado [Era uma vez dois verões], mas é pouco. É no Brasil, é uma praia, e é melancólico. Porque narrar uma história de memórias de infância em Porto Alegre não é muito diferente de uma cena em São Paulo. Mudam os nomes mas você está falando de um bairro, um microcosmo. E o litoral não. Todos os anos a classe média passava dois meses lá, então se for somar, você morou lá boa parte da vida, e a maioria das pessoas que estava por lá, por essas circunstâncias de verão, teve primeiras experiências, amizades, primeiros namoros, tudo na praia. E a volta para a cidade separava essas ligações. É uma experiência também de perda muito presente. Agora já faz anos que não vou para a praia, minha família não tem mais casa lá, não moro em Porto Alegre, e se morasse provavelmente iria para Santa Catarina. Então é uma parte da sua vida que acaba, o que também tem relação com os meus livros, o que funciona. Tem uma história, um conto longo que eu nunca publiquei, talvez inclua em algum livro, que é uma história dos fliperamas da praia, que para mim é um mundo à parte. Aquela coisa de moleques que roubavam lacre de placa de carro, derretiam e faziam fichas. E havia os técnicos dos fliperamas que eram meio que policiais dos flipers e se pegavam algum moleque trapaceando desciam pancada. A memória é um material muito rico. Essas coisas estão aí, uma hora eu vou escrever esse livro. Eu passei um ano inteiro no exército e não escrevi ainda sobre isso, tirando um conto do meu primeiro livro. Mas é um material muito vasto que está na tua cabeça e que vai acabar sendo usado. O Tropa de Elite meio que abordou esse universo, mas antes disso estava aí pronto.

ZH — É também uma tarefa que você se propõe como escritor de buscar esses campos que ainda estão inexplicavelmente inexplorados?
Laub —
O Longe da Água, não digo que seja o melhor livro sobre surfe, mas acho que eu ainda não vi muitos outros sobre esse universo depois dele.

ZH — E O Segundo Tempo aborda o futebol…
Laub —
Futebol tem… aí é um problema como Auschwitz, muita gente já tinha escrito.

ZH — Mesmo na ficção?
Laub —
É curioso, porque o futebol tem essa fama de que ninguém nunca escreveu o grande romance sobre futebol, o que é claro que te motiva como escritor, mas ao mesmo tempo você abre o jornal e todo estão falando nisso. E tem, sei lá, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, todo mundo uma hora tem um conto em que apareceo futebol… Mas como é uma experiência muito comum de todo mundo, é complicado você escrever sobre isso sem resvalar no lugar comum. O problema é parecido com o de Auschwitz, da II Guerra, todo mundo conhece mais ou menos o assunto. Acho que quando você vai para um mundo que pouca gente conhece. Tipo o quartel: as pessoas conhecem mas ouvem falar pouco, você vai conseguir chamar uma pessoa de fora que vai ler aquilo e vai conseguir mostra algo novo, olha, o nome desse casaco é gandola. É mais rico nesse sentido de descoberta.

ZH — E até de recuperar o próprio sentido do romance, de comunicar uma experiência?
Laub —
Exatamente. É uma operação diferente: uma é você mostrar algo que as pessoas conhecem pouco, e a outra é pegar um tema que todo mundo conhece, como futebol ou Auschwitz e fazer daquilo algo diferente. São desafios diversos para um livro. E esse de pegar um tema como futebol ou Auschwitz eu acho mais difícil. Como sensibilizar um leitor sobre Auschwitz nos tempos de hoje?

ZH — Talvez por isso a literatura brasileira não tenha também um grande romance político, sobre Brasília, que está todo dia nos noticiários?
Laub —
Pode ser, para escrever sobre Brasília ou você tem uma vivência de bastidores que vai explicar como é de verdade, e isso os jornais já fazem, ou você tem de criar um personagem único, você vai mais pelo personagem do que pelo tema, se for pelo tema você está ferrado.

ZH — Seus últimos romances foram lançados ao ritmo de um a cada dois anos, uma produção bastante regular. Você tem algum método para alcançar essa regularidade?
Laub —
São livros pequenos, também, isso facilita. Lembro que o João Gilberto Noll, agora ele parou um pouco, mas ele publicou muitas novelas seguidas, nos anos 1980 e 1990. Teve o A Fúria do Corpo, que é grande, e depois foram muitas novelas curtas. O livro pequeno facilita porque no fundo, por mais que seja difícil, você altera, mas mexe sobre uma base que não é tão grande. No caso de um livro pequeno, a decisão de mandar para a editora, publicar ou não, tem a ver com o número de versões que você quer fazer daquilo. O trabalho mesmo é no início, depois é trabalho de editor, e isso eu tenho muita experiência, qualquer jornalista tem. Você pega seu texto, deixa descansando dois meses, você vai pegar de novo mais tarde e ver o que está errado com mais clareza.

ZH — Mas ao mesmo tempo não é uma sensação que também assalta o escritor depois que o livro já está pronto?
Laub —
É uma das coisas que a gente vai aprendendo evitar. Quando sai o livro a gente sempre dá uma olhada e acha alguma coisa. O Diário da Queda mesmo eu olhei e achei. Mas cada vez mais me dou conta de que são detalhes, que o importante é que na hora em que escreveu você fez o melhor que você pôde. Pode não ser o livro perfeito, e nunca vai ser, porque se fosse você parava de escrever, tem gente que vai gostar, tem gente que não, mas fiz o melhor que eu pude na época. Alguns deles você tem mais sensação de que acertou do que outros na época do lançamento.

ZH — Você já se referiu ao Segundo Tempo mais de uma vez nesses termos.
Laub —
É curioso, eu nem sei o que eu falei, porque a tua própria opinião sobre os livros vai mudando, mas O Segundo Tempo foi um livro que eu quase joguei fora muitas vezes durante a escrita. Depois que ficou pronto eu passei a gostar dele, mas teve muita problema no processo. O Gato diz Adeus talvez seja meu livro que eu menos goste, mas é um livro que eu tinha plena consciência na época de que eu precisava dele, eu precisava experimentar um pouco, escrever sobre um universo que não era o meu regular. Isso foi importante até para escrever O Diário da Queda, eu soltei muito mais a mão agora. Mas eu sei que O Gato Diz Adeus é um livro que as pessoas têm bem mais resistência, porque é mais cerebral de certa maneira e o tema dele não é muito carismático, é sexual, meio pervertido, meio difícil, são vários narradores… É um livro curto e não dá tempo às vezes de de desenvolver um arco narrativo. Eu tinha consciência disso na época do lançamento, mas você tem de lançar, lança e ouve depois. Muita gente não gostou teve gente que gostou, também. Passou o tempo mas ele me serviu muito agora. Se você pegar O Segundo Tempo e o Longe da Água são livros fortes, O Segundo Tempo até mais fechado do que o Longe da Água, mas a linguagem neste Diário da Queda, a linguagem da prosa, eu não diria que ela é mais apurada, pelo contrário, é mais suja, mas ela é uma linguagem mais solta na qual eu consigo falar mais coisas do que antes, porque eu ficava me escondendo no estilo. E O Gato Diz Adeus foi importante para isso, porque foi o livro no qual eu me libertei da ânsia pelo texto elegante.

Comentários (3)

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