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As sutilezas de Ishiguro

22 de março de 2011 2

Olhando em retrospecto, agora, percebo que estávamos bem naquela idade em que sabíamos algumas poucas coisas sobre nós mesmas — quem éramos, e que éramos diferentes dos nossos guardiões, das pessoas de fora — mas ainda não havíamos compreendido o que aquilo significava. Tenho certeza de que em algum momento da sua infância você também passou por uma experiência semelhante à que tivemos naquele dia; se não semelhante nos detalhes, pelo menos por dentro, nos sentimentos. Porque no fundo não importa quão bem seus guardiões tentem prepará-lo: todas as conversas, todos os vídeos, debates, avisos, nada disso consegue, de fato, deixar as coisas bem claras, transparentes. Não quando você tem oito anos de idade e vive num lugar como Hailsham; não quando você tem guardiões como nós tínhamos; não quando os jardineiros e o pessoal das entregas ri e chama você de “meu bem”.
Ainda assim, um pouco deve penetrar em algum cantinho. Só pode ser, porque na hora em que surge um momento como aquele, uma parte de você já está esperando. Talvez desde os cinco ou seis anos houvesse um murmúrio no fundo de sua cabeça dizendo: “Um dia, talvez não muito distante, você vai saber qual é a sensação”. E assim é que você já está na expectativa, mesmo que não saiba bem disso. Está à espera do momento de dar-se conta de que de fato é diferente deles; de que existem pessoas lá fora, como Madame, que não odeiam você, nem lhe desejam nenhum mal, mas que ainda assim estremecem só de pensar em você — de lembrar como você veio a este mundo e por quê — e que sentem pavor diante da simples possibilidade de que sua mão roce a mão deles. É um momento gélido, esse, o da primeira vez em que você se vê através dos olhos de uma pessoa assim. É como passar diante de um espelho pelo qual passamos todos os dias de nossas vidas e de repente perceber que ele reflete outra coisa, uma coisa estranha e perturbadora.

Se vocês aceitassem de mim um conselho que, sabemos ambos, vocês não precisam, eu diria para aproveitarem que ainda está apenas no início a onda que se fará sobre a adaptação cinematográfica do romance Não Me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro, e corram para ler o livro tentando não prestar atenção nas matérias sobre o filme. Não que isso seja fundamental, mas será, confiem em mim, um ganho na experiência de leitura.

Ishiguro é japonês de nascimento, mas sua literatura aborda as camadas e mais camadas de que se compõe a sociedade britânica e o quanto esse estamento social até pouco tempo bastante rígido servia como uma ferramenta de imobilização do indivíduo ou de uma desculpa para sua alienação. Basta lembrar sua obra mais conhecida, Resíduos do Dia (na nova tradução, na antiga era Vestígios do Dia, o mesmo nome dado no Brasil à adaptação cinematográfica com Emma Th0mpson e Anthony Hopkins), na qual um mordomo obcecado pelos códigos de neutralidade e sobriedade de sua profissão não percebe nem o caráter dúbio de seu empregador, apoiador dos nazistas no período pré-Segunda Guerra, nem a paixão sutil mas real que nutre por ele a governanta da residência.

Falei de sutileza, e por isso sugeri que vocês tentem evitar por um tempo o barulho que inevitavelmente se fará ao redor do filme. Para sentir um pouco da estranheza provocada pela construção sutil do romance. O centro de Não Me Abandone Jamais é o triângulo amoroso entre três jovens, Ruth, Kath e Tommy, e as idas e vindas sentimentais na relação entre eles desde que se conheceram, ainda na infância, em um colégio interno tipicamente britânico chamado Hailsham. Quem narra a história é Kath, muitos anos depois, quando já saiu da escola e atua como uma espécie de enfermeira (espécie porque, como em outras coisas, neste caso a realidade não é o que parece).

A estranheza sutil do relato se dá pela forma como Ishiguro vai acrescentando detalhes que à primeira vista parecem normais no cotidiano de um colégio interno: as pressões do grupo sobre os deslocados, o rígido controle dos professores sober as transgressões dos alunos, como cigarros, por exemplo… E aos poucos vamos percebendo que há algo muito estranho naquela escola, algo que não fecha, algo que não se enquadra, algo que o autor só descortina por completo na página 100. Portanto, até antes disso, o que se tem são momentos como os que se viu no trecho que abre este post (e que, com admirável simetria e controle de ritmo, está na página 50): a narradora nos contando quando tomou conhecimento de algo que definiria sua vida inteira e seu propósito no mundo, mas por meio de elipses e torneios que acabam protelando a revelação do que de fato importa.

E por que eu disse para evitarem os textos de imprensa sobre o filme? Porque esse “algo estranho” que o autor elabora pacientemente até a página 100 está em praticamente todas as sinopses que já vi a respeito da adaptação em sites e revistas.

Saber disso com antecipação prejudica a leitura? Não, como eu disse. Mas é diferente. Eu nao trocaria a leitura com esse entendimento pela leitura que eu fiz quando o livro saiu no Brasil, há uns anos.

Comentários (2)

  • Daniel Gruber diz: 23 de março de 2011

    Li o livro sabendo a premissa da história, que na época havia sido divulgada em todas as críticas a respeito da obra. Mesmo assim, a revelação prévia do mistério que Ishiguro guarda até quase a metade da história não alterou em nada o suspense, a sensação de horror, claustrofobia e compaixão que o autor consegue nos passar com domínio absoluto.

    E, ainda assim, o ponto alto do romance está em suas últimas páginas, quando Ishiguro arremata sem dó nem piedade o destino dos personagens, dos quais contruímos uma relação de afeto durante a leitura. Por fim, com uma maestria impressioante, Ishiguro nos dá uma imagem do que é mais desconsolador, solitário e desenganado no espírito desses personagens, por meio de seus destinos inexoráveis.

    Simplesmente, um dos melhores livros do século XXI.
    Espero de coração que a produção cinematográfica não sensacionalize uma história que, muito além de bizarra, é primordialmente tocante.

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