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Novíssimas ficções de polpa

23 de março de 2011 0

Subtitulada Crime!, a quarta edição da série Ficção de Polpa apresenta em sua bela capa elementos clássicos dos romances detetivescos. Mas que o leitor não se engane: há bem mais que mulheres fatais, heróis com chapéu de feltro e cadáveres crivados de balas em suas páginas, que têm lançamento nesta quarta-feira às 19h30min no Cult Bar (Comendador Caminha, 348), em Porto Alegre.

A escolha do gênero policial veio para jogar um pouco de tintas de realidade urbana à coleção, que em suas três primeiras edições abordou ficção, horror e fantasia. Agora, a coletânea traz sangue em pólvora da pena de seis autores que não trabalham necessariamente com o tema – uma decisão que se revelou sensata, segundo o próprio editor da Ficção de Polpa, Samir Machado de Machado:

– A escolha de escritores com perfis diferentes conferiu uma variação saudável ao gênero, não deixando as histórias focadas numa única direção.

Sem abrir mão dos jogos de gato e rato inerentes ao gênero, a coletânea apresenta textos que cruzam personagens clássicos da literatura (A Aventura do Americano Audaz, de Octávio Aragão), exploram o macabro de um açougue no século 19 (A Carne é Fraca, de Rafael Bán Jacobsen), usam múltiplas perspectivas para contar um caso (Agulha de Calcário, de Carol Bensimon) e levam a morte aos reality shows (As Muralhas Verdes, de Carlos Orsi).

Além deles, também participam Yves Robert com A Conspiração dos Relógios, o repórter e crítico literário de ZH Carlos André Moreira com Um dos Nossos, e um conto traduzido do autor inglês Ernest Bramah, A Moeda de Dionísio. Os textos são ainda acompanhados de ilustrações produzidas especialmente para eles e reproduções de antigos (e verídicos) anúncios de jornais.

– Foi uma maneira bem-humorada e de certa forma irônica de brincarmos com essa coisa de ficção barata – explica Machado.

Leia, abaixo, trechos dos seis contos inéditos:

Estávamos em uma sala com um longo sofá preto voltado para uma parede branca que, obviamente, era uma tela esperando ativação, com um pequeno bar ao lado. Voltei-me para o ponto de origem da voz e vi entra uma mulher pelo menos dez anos mais velha que Ana Cláudia, mas também mais alta e pesada, ainda que só um pouco. Tinha cabelos lisos, escuros, e vestia um terno exatamente da mesma cor da tintura.”
As Muralhas Verdes

Ia começar a atacar um bife à portuguesa que parecia promissor quando senti uma presença. Levantei os olhos. Era a rapariga da caixa, plantada mesmo à minha frente com um tabuleiro de comida. Não vestia a farda do supermercado, o que só a favorecia. Já tinha notado que o cabelo era claro e curto assim como os olhos azuis, quase transparentes. Agora, que a via de pé, era um pouco forte, mas mesmo assim, atraente. E tinha um sorriso capaz de derreter o que quer que fosse.”
A Conspiração dos Relógios

Holmes apoiou o quadril na escrivaninha, buscando uma posição confortável. Eu, porém, não conseguia relaxar. Sentia ganas de repetir a sessão de golpes que meu amigo desferiu momentos antes, mas a curiosidade pelo destino de Quincey Morris impeliu minhas mãos a segurarem o jovem-velho pela gola da camisa e sacudir até, quem sabe, fazê-lo vomitar um pouco do orgulho que deveria fluir de um lorde britânico, em lugar do muco que aparentemente corria em suas veias.
A Aventura do Americano Audaz

Eram muitas coincidências, inspetor, mas eu não queria acreditar. A certeza me veio desse jeito, aos poucos, e eu já não suportava mais viver ao lado daquele remanescente de Sodoma, daquele matador. Pensei que atacar meu próprio sobrinho seria ousadia demais; no fundo, eu queria acreditar em um resquício de humanidade no calabouço sujo que ele, talvez, em suas preces, chamasse de alma.”
A Carne é Fraca

Nós, de Étrat, não tínhamos problema algum em sentar sobre os seixos, ou mesmo andar na beira da praia com os pés descalços. Talvez o hábito tivesse anestesiado as terminações nervosas das solas dos pés. Eu estava lá, depois de ter fechado a padaria. Precisava aproveitar todos os fins de tarde da primavera. Era um compromisso, mais do que uma pura e simples contemplação.
Agulha de Calcário

Roszynski permaneceu em pé, um passo ao lado da entrada, as mãos nos bolsos do casaco de lã marrom, tentando ignorar a discussão e o frio que parecia jorrar das paredes. O cadáver estava atirado na cama, a mão direita estendida na direção da cabeceira e as pernas apoiadas no chão, como se estivesse originalmente sentado no leito antes de ser jogado para trás pela força dos tiros.”
Um dos Nossos

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