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A vida rolante de Keith Richards

25 de março de 2011 1

Keith Richards em sua biblioteca em Connecticut - Reprodução do livro

Keith Richards jura, na recém-lançada autobiografia Vida, que não esqueceu de nada. Claro que nem tudo são memórias claras ao longo das mais de 600 páginas do livro. Mas o relato do guitarrista e fundador dos Rolling Stones é um generoso compêndio de histórias do mais puro espírito roqueiro ainda vivo. Keith, 67 anos completos no último dia 18, era um dos personagens da cultura pop de quem mais se esperava um livro de memórias. Desde que os Stones surgiram, nos anos 60, sua índole rebelde, seu estilo musical rascante, suas brilhantes parcerias com Mick Jagger e seu apetite por álcool e drogas vêm alimentando lendas. Vida deixa algumas delas em aberto — sobre a famosa história de que o guitarrista teria trocado todo o seu sangue, por exemplo, Keith conta que foi ele mesmo quem lançou o boato à imprensa.

O conteúdo de Vida vem de entrevistas de Keith com o jornalista americano James Fox, amigo do músico desde os anos 70. As conversas não seguiram ordem cronológica, e o protagonista não é um narrador linear. Entre seus tantos causos, há muitos devaneios, o que às vezes resulta em reflexões brilhantes – por exemplo, quando o discorre sobre as origens de seu próprio jeito de fazer rock –, embora eventualmente deixe a narrativa meio truncada. Mas está tudo ali, da epifania do primeiro show com os Stones, em 1962 (“tem um momento em que você realmente sente que saiu do planeta por um instante“), ao tombo de uma árvore nas ilhas Fiji, em 2006, que resultou em uma cirurgia para remoção de coágulos do cérebro e determinou o fim da relação de Keith com a cocaína (“eu já cheirei tanto pó na vida que não senti a menor falta“). O assédio das fãs, os casos amorosos — o mais notório foi com Anita Pallenberg, iniciado quando ela ainda namorava o outro guitarrista original dos Stones, Brian Jones —, as sessões de gravação que duravam dias seguidos, as noitadas de alto teor químico, a dor da abstinência nos dias do abandono da heroína, no fim dos anos 70.

Há cenas impactantes,como a do telefonema – minutos antes de um show em Paris – em que Keith soube que seu filho Tara, então com pouco mais de dois meses, havia morrido. O guitarrista pensou um instante e resolveu não cancelar o show (“isso seria a pior coisa que eu poderia fazer, já que não tinha nenhum outro lugar para ir“). Nessa época, era o filho mais velho, Marlon, quem acordava o pai na hora de ir para o palco com os Stones. A banda ocupa boa parte das páginas de Vida — em especial, a relação com Mick Jagger. Amigo de Keith desde o colégio, um de seus grandes comparsas na paixão pelo blues, coautor de clássicos como Satisfaction e Jumpin’Jack Flash, Mick torna-se, ao longo do texto, objeto de alguma amargura. Desde que Jagger teve um caso com Anita, no fim dos anos 60, a relação entre os Glimmer Twins teve turbulências, e hoje Keith lamenta a distância entre eles, atribuída ao caráter dominador de Mick. Pelo menos, nada disso impediu que eles ficassem quase 50 anos na estrada – uma trajetória que Keith não parece disposto a terminar tão cedo:

“Eu só vou conseguir me aposentar quando morrer”, garante no livro.

Texto de Luís Bissigo

KEITH RICHARDS SOBRE:

MICK JAGGER
Eu percebi que havia um lado da minha vida como junkie que agradava a Mick: o lado que me impedia de interferir nos negócios. Agora eu estava ali, livre da heroína. Eu havia chegado com uma atitude do tipo “Muito obrigado, Mick. Agora eu posso aliviar você dessa carga (…)”. Eu nunca tinha deixado a peteca cair; eu havia dado a ele músicas maravilhosas para cantar. (…) Acho que eu esperava que ele se mostrasse grato, aliviado (…). Mas em vez disso ele veio com uma atitude do tipo “‘Sou eu quem manda nesta merda”
‘.

CHARLIE WATTS
Uma vez, no final de 1984, Charlie deu um de seus raros socos de baterista (…) no Mick. (…) Voltamos ao hotel às cinco da manhã e Mick decidiu ligar para o Charlie. Eu disse: “É melhor você não ligar para ele a essa hora”. Mas ele ligou assim mesmo e disse: “Onde está o meu baterista?”. Ninguém respondeu. (…) Uns vinte minutos depois, escutamos alguém bater na porta, e lá estava Charlie Watts hiper-bem-vestido. (…) Quando abri a porta, ele nem me olhou, passou direto, foi até onde Mick estava sentado e disse: “Nunca mais me chame de seu baterista”. Então Charlie o levantou pela lapela e deu um gancho de direita nele.

PAUL MCCARTNEY
“Exatamente um ano antes disso (por volta de 2005), quando eu estava andando no litoral, escalando umas pedras ao longo da praia, Paul McCartney apareceu (…). Certamente aquele era um lugar muito estranho para nos encontrarmos depois de tantos anos, mas era também o melhor, porque ambos tivemos tempo de conversar (…). Nós nos entrosamos instantaneamente, conversando sobre o passado. Nós chegamos até a começar a compor uma música juntos (…), cuja letra ficou pendurada na parede por várias semanas.”

JOHN LENNON
John podia ser bem direto. A única coisa desagradável que lembro de ele ter me dito foi sobre meu solo no meio de
It’s All Over Now. Ele achou uma bosta. (…) Mas só o fato de ele ter-se dado ao trabalho de ouvir mostrava que estava bem interessado. Ele era muito aberto.Vindo de qualquer outro, me deixaria bem embaraçado. Mas John tinha um olhar tão honesto que você aceitava isso dele. Ele também era uma pessoa intensa. Um cara único. Como eu.

Comentários (1)

  • Igor Freiberger diz: 29 de março de 2011

    Olá Carlos. Estou tentando fazer contato contigo mas os emails estão voltando. Se puderes indicar um endereço válido, por favor me avisa pelo email informado no formulário.

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