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Escritores bem na foto

29 de março de 2011 3

Vai lá mais declaração da série “confissões sinceras de um setorista”: na maioria das vezes, ilustrar o material que acompanha uma resenha literária ou entrevista com um escritor é um problema. Basicamente isso se dá por dois motivos que conduzem a uma única circunstância, a de que fotos de escritores, na media, não costumam ser imagens daquelas que se pode estourar numa página inteira de um jornal sem parecer que tem só um carão na página – poucos escritores são reconhecíveis imediatamente pela foto, também, o que só aumenta a dificuldade do desafio.

O primeiro motivo para isso é que escritores são pessoas cujo labor artístico não se presta necessariamente a altos voos imagéticos, seu trabalho não está associado à sua imagem física nem pode ser reencenado em frente ao público ou à câmera sem cair na mesmice (por isso temos tantas fotos de escritores na frente do computador, imagem clichê que substituiu o retrato na frente da máquina de escrever e o instantâneo do autor com a caneta na mão sobre o papel). O segundo é que escritores, pelo menos a maioria dos que já encontrei profissionalmente, e eu encontrei um bom número ao longo deste anos, não se sentem muito confortáveis tirando fotos. Existe uma razão para que modelos ganhem dinheiro parados na frente de uma câmera: há algo na imagem daquelas pessoas (o que poderia ser um fascínio natural ou o equivalente de talento no ofício) que consegue se transportar para a imagem estática de uma fotografia e ainda irradiar luz, carisma, personalidade ou aquele “não sei o quê” que faz da imagem algo belo, dinâmico, com um encanto próprio. Já outras pessoas não parecem tão bem assim quando fotografadas pelo simples fato de que não nasceram para isso ou não desenvolveram tal instinto. Muitos escritores são pessoas tímidas, retraídas, com problemas para se soltar diante de a) uma câmera, b) jornalistas e c) estranhos. E às vezes numa entrevista o repórter e o fotógrafo representam essas três coisas juntas.

Então foto de escritor nunca fica boa? Não, pequeno gafanhoto, não foi isso que eu disse. Há autores que de fato têm, naturalmente, a capacidade de sair bem na foto, e há, por outro lado, o talento do fotógrafo para captar não apenas o escritor mas parte de seu universo artístico e pessoal com uma imagem criativa que se vale da composição da imagem, da iluminação, do cenário circundante para tornar especial um retrato de um escritor  que não seja apenas a velha “foto-do-autor-no-computador-ou-com-um-exemplar-do-livro-na-mão“. E ao longo deste anos em que acompanhei fotógrafos de ZH em entrevistas com escritores variados, pude ver in loco a produção de muitas dessas imagens bacanas. Às vezes o tema do livro, seu mote central, mesmo uma pequena atmosfera  sugeria uma ideia ao fotógrafo – muitas vezes premido pela urgência de ter de sair em meia hora para acompanhar outra pauta. Mesmo assim, cabe ao fotógrafo fazer o entrevistado sentir-se bem o bastante para expressar naturalidade e não aquela postura travadaça de quem preferia estar arrancando o siso sem anestesia. E ainda dar uma ideia geral não apenas do livro em questão mas – quando a foto fica boa – de um universo particular do autor. Difícil? Claro que é difícil, e é isso que torna ainda melhores os bons profissionais na matéria

Como no ano passado me diverti bastante montando esta galeria de fotos de montagem da Feira do Livro, me ocorreu esta semana que eu poderia fazer o mesmo com algumas das imagens mais legais que os fotógrafos de Zero Hora já registraram daqueles que fazem a literatura do Estado. São 15 fotos recentes (todas de 2005 para cá) de autores ainda em atividade – a exceção, claro, é a imagem de Moacyr Scliar que aqui vai como homenagem. Vejam abaixo como é possível até mesmo descobrir um olhar novo sobre os clichês da imagem de escritor que falamos há pouco: o computador, a estante de livros, o livro nas mãos.

Daniel Pellizzari, o Mojo, em sua casa, em 2005, na época do lançamento de Dedo Negro com Unha. Foto de Genaro Joner

Cíntia Moscovich, em seu gabinete – e com seu material de ciclismo, em  2005. Foto de Eduardo Liotti

Charles Kiefer em sua casa em 2005, quando do lançamento de A Poética do Conto. Foto de Júlio Cordeiro

Sérgio Faraco em sua casa, na época em que lançava um livro sobre Sinuca, em 2005. Foto de Adriana Franciosi

Manoela Sawitzki em 2006, no estúdio fotográfico de Zero Hora, quando estreava a montagem de sua peça Calamidade. Foto de Júlio Cordeiro

Moacyr Scliar em 2006, no Mercado Público de Porto Alegre, para onde o levamos na época do lançamento de Os Vendilhões do Templo. Foto de Emílio Pedroso

Luiz Antonio de Assis Brasil em 2006, na PUCRS, na época do lançamento do romance Música Perdida. Foto de Adriana Franciosi

Lya Luft em sua casa em Porto Alegre, em 2008, quando havia recém lançado o livro de contos O Silêncio dos Amantes. Foto de Daniel Marenco

Fabrício Carpinejar em 2008, em Caxias do Sul, para o lançamento da coletânea de crônicas Canalha!. Foto de Ricardo Wolffenbüttel

Michel Laub à janela do apartamento de seus pais em Porto Alegre, em 2009, na época do lançamento de O Gato Diz Adeus. Foto de Tadeu Vilani

João Gilberto Noll em 2009, pouco depois de haver recebido o Fato Literário e quando preparava o lançamento de seus livros infanto-juvenis Sou Eu e O Nervo da Noite. Foto de Genaro Joner.

E já que falávamos de janelas, o professor, poeta, tradutor e helenista Donaldo Schüler em 2009. Foto de Tadeu Vilani

Carlos Urbim, em 2009, depois de ser eleito patrono da Feira do Livro do Porto Alegre. Foto de Adriana Franciosi.

Cláudia Tajes durante um passeio pelo bairro Ipanema em 2010. Foto de Tadeu Vilani

Carol Bensimon em janeiro deste ano, também em Ipanema, quando começava a publicar em ZH os contos da série Pelo Menos 8 Pessoas Ficaram em Porto Alegre Neste Verão. Foto de Genaro Joner

Comentários (3)

  • Eni Allgayer diz: 30 de março de 2011

    Carlos André, acho que você foi muito feliz na escolha das fotos. O teu texto também está muito bom, como sempre. Além disso, você aborda o assunto com maestria. Na próxima vez que o fotógrafo da ZH me fotografar, farei uma pose especial, pensando em você.
    Um abraço.

  • Jorge Silva diz: 14 de dezembro de 2011

    Cheguei “por acaso” nesta publicação, ao buscar os espaços digitais de Cláudia Tajes para linkar no Blog Fios de Agora, que estou montando para a poetisa e escritora Rita de Cássia Alves, de Joinville – SC.

    Gostei muito da abordagem, pois sou fotógrafo freelance, e a matéria me estimulou a buscar novas formas de retratar pessoas (tenho uma certa timidez nesse assunto, pois me enquadro no grupo que não gosta de “sair na foto”, e portanto, pensa o mesmo dos outros).

    Esta matéria vai me ajudar bastante, pois vou fotografar outro escritor joinvillense, David Gonçalves, para o seu acervo pessoal.

    Parabéns pela seleção de boas imagens e pelo texto bem escrito!

    Jorge Silva.
    Joinville – SC.

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