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Posts de março 2011

Escritores bem na foto

29 de março de 2011 3

Vai lá mais declaração da série “confissões sinceras de um setorista”: na maioria das vezes, ilustrar o material que acompanha uma resenha literária ou entrevista com um escritor é um problema. Basicamente isso se dá por dois motivos que conduzem a uma única circunstância, a de que fotos de escritores, na media, não costumam ser imagens daquelas que se pode estourar numa página inteira de um jornal sem parecer que tem só um carão na página – poucos escritores são reconhecíveis imediatamente pela foto, também, o que só aumenta a dificuldade do desafio.

O primeiro motivo para isso é que escritores são pessoas cujo labor artístico não se presta necessariamente a altos voos imagéticos, seu trabalho não está associado à sua imagem física nem pode ser reencenado em frente ao público ou à câmera sem cair na mesmice (por isso temos tantas fotos de escritores na frente do computador, imagem clichê que substituiu o retrato na frente da máquina de escrever e o instantâneo do autor com a caneta na mão sobre o papel). O segundo é que escritores, pelo menos a maioria dos que já encontrei profissionalmente, e eu encontrei um bom número ao longo deste anos, não se sentem muito confortáveis tirando fotos. Existe uma razão para que modelos ganhem dinheiro parados na frente de uma câmera: há algo na imagem daquelas pessoas (o que poderia ser um fascínio natural ou o equivalente de talento no ofício) que consegue se transportar para a imagem estática de uma fotografia e ainda irradiar luz, carisma, personalidade ou aquele “não sei o quê” que faz da imagem algo belo, dinâmico, com um encanto próprio. Já outras pessoas não parecem tão bem assim quando fotografadas pelo simples fato de que não nasceram para isso ou não desenvolveram tal instinto. Muitos escritores são pessoas tímidas, retraídas, com problemas para se soltar diante de a) uma câmera, b) jornalistas e c) estranhos. E às vezes numa entrevista o repórter e o fotógrafo representam essas três coisas juntas.

Então foto de escritor nunca fica boa? Não, pequeno gafanhoto, não foi isso que eu disse. Há autores que de fato têm, naturalmente, a capacidade de sair bem na foto, e há, por outro lado, o talento do fotógrafo para captar não apenas o escritor mas parte de seu universo artístico e pessoal com uma imagem criativa que se vale da composição da imagem, da iluminação, do cenário circundante para tornar especial um retrato de um escritor  que não seja apenas a velha “foto-do-autor-no-computador-ou-com-um-exemplar-do-livro-na-mão“. E ao longo deste anos em que acompanhei fotógrafos de ZH em entrevistas com escritores variados, pude ver in loco a produção de muitas dessas imagens bacanas. Às vezes o tema do livro, seu mote central, mesmo uma pequena atmosfera  sugeria uma ideia ao fotógrafo – muitas vezes premido pela urgência de ter de sair em meia hora para acompanhar outra pauta. Mesmo assim, cabe ao fotógrafo fazer o entrevistado sentir-se bem o bastante para expressar naturalidade e não aquela postura travadaça de quem preferia estar arrancando o siso sem anestesia. E ainda dar uma ideia geral não apenas do livro em questão mas – quando a foto fica boa – de um universo particular do autor. Difícil? Claro que é difícil, e é isso que torna ainda melhores os bons profissionais na matéria

Como no ano passado me diverti bastante montando esta galeria de fotos de montagem da Feira do Livro, me ocorreu esta semana que eu poderia fazer o mesmo com algumas das imagens mais legais que os fotógrafos de Zero Hora já registraram daqueles que fazem a literatura do Estado. São 15 fotos recentes (todas de 2005 para cá) de autores ainda em atividade – a exceção, claro, é a imagem de Moacyr Scliar que aqui vai como homenagem. Vejam abaixo como é possível até mesmo descobrir um olhar novo sobre os clichês da imagem de escritor que falamos há pouco: o computador, a estante de livros, o livro nas mãos.

Daniel Pellizzari, o Mojo, em sua casa, em 2005, na época do lançamento de Dedo Negro com Unha. Foto de Genaro Joner

Cíntia Moscovich, em seu gabinete – e com seu material de ciclismo, em  2005. Foto de Eduardo Liotti

Charles Kiefer em sua casa em 2005, quando do lançamento de A Poética do Conto. Foto de Júlio Cordeiro

Sérgio Faraco em sua casa, na época em que lançava um livro sobre Sinuca, em 2005. Foto de Adriana Franciosi

Manoela Sawitzki em 2006, no estúdio fotográfico de Zero Hora, quando estreava a montagem de sua peça Calamidade. Foto de Júlio Cordeiro

Moacyr Scliar em 2006, no Mercado Público de Porto Alegre, para onde o levamos na época do lançamento de Os Vendilhões do Templo. Foto de Emílio Pedroso

Luiz Antonio de Assis Brasil em 2006, na PUCRS, na época do lançamento do romance Música Perdida. Foto de Adriana Franciosi

Lya Luft em sua casa em Porto Alegre, em 2008, quando havia recém lançado o livro de contos O Silêncio dos Amantes. Foto de Daniel Marenco

Fabrício Carpinejar em 2008, em Caxias do Sul, para o lançamento da coletânea de crônicas Canalha!. Foto de Ricardo Wolffenbüttel

Michel Laub à janela do apartamento de seus pais em Porto Alegre, em 2009, na época do lançamento de O Gato Diz Adeus. Foto de Tadeu Vilani

João Gilberto Noll em 2009, pouco depois de haver recebido o Fato Literário e quando preparava o lançamento de seus livros infanto-juvenis Sou Eu e O Nervo da Noite. Foto de Genaro Joner.

E já que falávamos de janelas, o professor, poeta, tradutor e helenista Donaldo Schüler em 2009. Foto de Tadeu Vilani

Carlos Urbim, em 2009, depois de ser eleito patrono da Feira do Livro do Porto Alegre. Foto de Adriana Franciosi.

Cláudia Tajes durante um passeio pelo bairro Ipanema em 2010. Foto de Tadeu Vilani

Carol Bensimon em janeiro deste ano, também em Ipanema, quando começava a publicar em ZH os contos da série Pelo Menos 8 Pessoas Ficaram em Porto Alegre Neste Verão. Foto de Genaro Joner

A vida rolante de Keith Richards

25 de março de 2011 1

Keith Richards em sua biblioteca em Connecticut - Reprodução do livro

Keith Richards jura, na recém-lançada autobiografia Vida, que não esqueceu de nada. Claro que nem tudo são memórias claras ao longo das mais de 600 páginas do livro. Mas o relato do guitarrista e fundador dos Rolling Stones é um generoso compêndio de histórias do mais puro espírito roqueiro ainda vivo. Keith, 67 anos completos no último dia 18, era um dos personagens da cultura pop de quem mais se esperava um livro de memórias. Desde que os Stones surgiram, nos anos 60, sua índole rebelde, seu estilo musical rascante, suas brilhantes parcerias com Mick Jagger e seu apetite por álcool e drogas vêm alimentando lendas. Vida deixa algumas delas em aberto — sobre a famosa história de que o guitarrista teria trocado todo o seu sangue, por exemplo, Keith conta que foi ele mesmo quem lançou o boato à imprensa.

O conteúdo de Vida vem de entrevistas de Keith com o jornalista americano James Fox, amigo do músico desde os anos 70. As conversas não seguiram ordem cronológica, e o protagonista não é um narrador linear. Entre seus tantos causos, há muitos devaneios, o que às vezes resulta em reflexões brilhantes – por exemplo, quando o discorre sobre as origens de seu próprio jeito de fazer rock –, embora eventualmente deixe a narrativa meio truncada. Mas está tudo ali, da epifania do primeiro show com os Stones, em 1962 (“tem um momento em que você realmente sente que saiu do planeta por um instante“), ao tombo de uma árvore nas ilhas Fiji, em 2006, que resultou em uma cirurgia para remoção de coágulos do cérebro e determinou o fim da relação de Keith com a cocaína (“eu já cheirei tanto pó na vida que não senti a menor falta“). O assédio das fãs, os casos amorosos — o mais notório foi com Anita Pallenberg, iniciado quando ela ainda namorava o outro guitarrista original dos Stones, Brian Jones —, as sessões de gravação que duravam dias seguidos, as noitadas de alto teor químico, a dor da abstinência nos dias do abandono da heroína, no fim dos anos 70.

Há cenas impactantes,como a do telefonema – minutos antes de um show em Paris – em que Keith soube que seu filho Tara, então com pouco mais de dois meses, havia morrido. O guitarrista pensou um instante e resolveu não cancelar o show (“isso seria a pior coisa que eu poderia fazer, já que não tinha nenhum outro lugar para ir“). Nessa época, era o filho mais velho, Marlon, quem acordava o pai na hora de ir para o palco com os Stones. A banda ocupa boa parte das páginas de Vida — em especial, a relação com Mick Jagger. Amigo de Keith desde o colégio, um de seus grandes comparsas na paixão pelo blues, coautor de clássicos como Satisfaction e Jumpin’Jack Flash, Mick torna-se, ao longo do texto, objeto de alguma amargura. Desde que Jagger teve um caso com Anita, no fim dos anos 60, a relação entre os Glimmer Twins teve turbulências, e hoje Keith lamenta a distância entre eles, atribuída ao caráter dominador de Mick. Pelo menos, nada disso impediu que eles ficassem quase 50 anos na estrada – uma trajetória que Keith não parece disposto a terminar tão cedo:

“Eu só vou conseguir me aposentar quando morrer”, garante no livro.

Texto de Luís Bissigo

KEITH RICHARDS SOBRE:

MICK JAGGER
Eu percebi que havia um lado da minha vida como junkie que agradava a Mick: o lado que me impedia de interferir nos negócios. Agora eu estava ali, livre da heroína. Eu havia chegado com uma atitude do tipo “Muito obrigado, Mick. Agora eu posso aliviar você dessa carga (…)”. Eu nunca tinha deixado a peteca cair; eu havia dado a ele músicas maravilhosas para cantar. (…) Acho que eu esperava que ele se mostrasse grato, aliviado (…). Mas em vez disso ele veio com uma atitude do tipo “‘Sou eu quem manda nesta merda”
‘.

CHARLIE WATTS
Uma vez, no final de 1984, Charlie deu um de seus raros socos de baterista (…) no Mick. (…) Voltamos ao hotel às cinco da manhã e Mick decidiu ligar para o Charlie. Eu disse: “É melhor você não ligar para ele a essa hora”. Mas ele ligou assim mesmo e disse: “Onde está o meu baterista?”. Ninguém respondeu. (…) Uns vinte minutos depois, escutamos alguém bater na porta, e lá estava Charlie Watts hiper-bem-vestido. (…) Quando abri a porta, ele nem me olhou, passou direto, foi até onde Mick estava sentado e disse: “Nunca mais me chame de seu baterista”. Então Charlie o levantou pela lapela e deu um gancho de direita nele.

PAUL MCCARTNEY
“Exatamente um ano antes disso (por volta de 2005), quando eu estava andando no litoral, escalando umas pedras ao longo da praia, Paul McCartney apareceu (…). Certamente aquele era um lugar muito estranho para nos encontrarmos depois de tantos anos, mas era também o melhor, porque ambos tivemos tempo de conversar (…). Nós nos entrosamos instantaneamente, conversando sobre o passado. Nós chegamos até a começar a compor uma música juntos (…), cuja letra ficou pendurada na parede por várias semanas.”

JOHN LENNON
John podia ser bem direto. A única coisa desagradável que lembro de ele ter me dito foi sobre meu solo no meio de
It’s All Over Now. Ele achou uma bosta. (…) Mas só o fato de ele ter-se dado ao trabalho de ouvir mostrava que estava bem interessado. Ele era muito aberto.Vindo de qualquer outro, me deixaria bem embaraçado. Mas John tinha um olhar tão honesto que você aceitava isso dele. Ele também era uma pessoa intensa. Um cara único. Como eu.

Novíssimas ficções de polpa

23 de março de 2011 0

Subtitulada Crime!, a quarta edição da série Ficção de Polpa apresenta em sua bela capa elementos clássicos dos romances detetivescos. Mas que o leitor não se engane: há bem mais que mulheres fatais, heróis com chapéu de feltro e cadáveres crivados de balas em suas páginas, que têm lançamento nesta quarta-feira às 19h30min no Cult Bar (Comendador Caminha, 348), em Porto Alegre.

A escolha do gênero policial veio para jogar um pouco de tintas de realidade urbana à coleção, que em suas três primeiras edições abordou ficção, horror e fantasia. Agora, a coletânea traz sangue em pólvora da pena de seis autores que não trabalham necessariamente com o tema – uma decisão que se revelou sensata, segundo o próprio editor da Ficção de Polpa, Samir Machado de Machado:

– A escolha de escritores com perfis diferentes conferiu uma variação saudável ao gênero, não deixando as histórias focadas numa única direção.

Sem abrir mão dos jogos de gato e rato inerentes ao gênero, a coletânea apresenta textos que cruzam personagens clássicos da literatura (A Aventura do Americano Audaz, de Octávio Aragão), exploram o macabro de um açougue no século 19 (A Carne é Fraca, de Rafael Bán Jacobsen), usam múltiplas perspectivas para contar um caso (Agulha de Calcário, de Carol Bensimon) e levam a morte aos reality shows (As Muralhas Verdes, de Carlos Orsi).

Além deles, também participam Yves Robert com A Conspiração dos Relógios, o repórter e crítico literário de ZH Carlos André Moreira com Um dos Nossos, e um conto traduzido do autor inglês Ernest Bramah, A Moeda de Dionísio. Os textos são ainda acompanhados de ilustrações produzidas especialmente para eles e reproduções de antigos (e verídicos) anúncios de jornais.

– Foi uma maneira bem-humorada e de certa forma irônica de brincarmos com essa coisa de ficção barata – explica Machado.

Leia, abaixo, trechos dos seis contos inéditos:

Estávamos em uma sala com um longo sofá preto voltado para uma parede branca que, obviamente, era uma tela esperando ativação, com um pequeno bar ao lado. Voltei-me para o ponto de origem da voz e vi entra uma mulher pelo menos dez anos mais velha que Ana Cláudia, mas também mais alta e pesada, ainda que só um pouco. Tinha cabelos lisos, escuros, e vestia um terno exatamente da mesma cor da tintura.”
As Muralhas Verdes

Ia começar a atacar um bife à portuguesa que parecia promissor quando senti uma presença. Levantei os olhos. Era a rapariga da caixa, plantada mesmo à minha frente com um tabuleiro de comida. Não vestia a farda do supermercado, o que só a favorecia. Já tinha notado que o cabelo era claro e curto assim como os olhos azuis, quase transparentes. Agora, que a via de pé, era um pouco forte, mas mesmo assim, atraente. E tinha um sorriso capaz de derreter o que quer que fosse.”
A Conspiração dos Relógios

Holmes apoiou o quadril na escrivaninha, buscando uma posição confortável. Eu, porém, não conseguia relaxar. Sentia ganas de repetir a sessão de golpes que meu amigo desferiu momentos antes, mas a curiosidade pelo destino de Quincey Morris impeliu minhas mãos a segurarem o jovem-velho pela gola da camisa e sacudir até, quem sabe, fazê-lo vomitar um pouco do orgulho que deveria fluir de um lorde britânico, em lugar do muco que aparentemente corria em suas veias.
A Aventura do Americano Audaz

Eram muitas coincidências, inspetor, mas eu não queria acreditar. A certeza me veio desse jeito, aos poucos, e eu já não suportava mais viver ao lado daquele remanescente de Sodoma, daquele matador. Pensei que atacar meu próprio sobrinho seria ousadia demais; no fundo, eu queria acreditar em um resquício de humanidade no calabouço sujo que ele, talvez, em suas preces, chamasse de alma.”
A Carne é Fraca

Nós, de Étrat, não tínhamos problema algum em sentar sobre os seixos, ou mesmo andar na beira da praia com os pés descalços. Talvez o hábito tivesse anestesiado as terminações nervosas das solas dos pés. Eu estava lá, depois de ter fechado a padaria. Precisava aproveitar todos os fins de tarde da primavera. Era um compromisso, mais do que uma pura e simples contemplação.
Agulha de Calcário

Roszynski permaneceu em pé, um passo ao lado da entrada, as mãos nos bolsos do casaco de lã marrom, tentando ignorar a discussão e o frio que parecia jorrar das paredes. O cadáver estava atirado na cama, a mão direita estendida na direção da cabeceira e as pernas apoiadas no chão, como se estivesse originalmente sentado no leito antes de ser jogado para trás pela força dos tiros.”
Um dos Nossos

As sutilezas de Ishiguro

22 de março de 2011 2

Olhando em retrospecto, agora, percebo que estávamos bem naquela idade em que sabíamos algumas poucas coisas sobre nós mesmas — quem éramos, e que éramos diferentes dos nossos guardiões, das pessoas de fora — mas ainda não havíamos compreendido o que aquilo significava. Tenho certeza de que em algum momento da sua infância você também passou por uma experiência semelhante à que tivemos naquele dia; se não semelhante nos detalhes, pelo menos por dentro, nos sentimentos. Porque no fundo não importa quão bem seus guardiões tentem prepará-lo: todas as conversas, todos os vídeos, debates, avisos, nada disso consegue, de fato, deixar as coisas bem claras, transparentes. Não quando você tem oito anos de idade e vive num lugar como Hailsham; não quando você tem guardiões como nós tínhamos; não quando os jardineiros e o pessoal das entregas ri e chama você de “meu bem”.
Ainda assim, um pouco deve penetrar em algum cantinho. Só pode ser, porque na hora em que surge um momento como aquele, uma parte de você já está esperando. Talvez desde os cinco ou seis anos houvesse um murmúrio no fundo de sua cabeça dizendo: “Um dia, talvez não muito distante, você vai saber qual é a sensação”. E assim é que você já está na expectativa, mesmo que não saiba bem disso. Está à espera do momento de dar-se conta de que de fato é diferente deles; de que existem pessoas lá fora, como Madame, que não odeiam você, nem lhe desejam nenhum mal, mas que ainda assim estremecem só de pensar em você — de lembrar como você veio a este mundo e por quê — e que sentem pavor diante da simples possibilidade de que sua mão roce a mão deles. É um momento gélido, esse, o da primeira vez em que você se vê através dos olhos de uma pessoa assim. É como passar diante de um espelho pelo qual passamos todos os dias de nossas vidas e de repente perceber que ele reflete outra coisa, uma coisa estranha e perturbadora.

Se vocês aceitassem de mim um conselho que, sabemos ambos, vocês não precisam, eu diria para aproveitarem que ainda está apenas no início a onda que se fará sobre a adaptação cinematográfica do romance Não Me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro, e corram para ler o livro tentando não prestar atenção nas matérias sobre o filme. Não que isso seja fundamental, mas será, confiem em mim, um ganho na experiência de leitura.

Ishiguro é japonês de nascimento, mas sua literatura aborda as camadas e mais camadas de que se compõe a sociedade britânica e o quanto esse estamento social até pouco tempo bastante rígido servia como uma ferramenta de imobilização do indivíduo ou de uma desculpa para sua alienação. Basta lembrar sua obra mais conhecida, Resíduos do Dia (na nova tradução, na antiga era Vestígios do Dia, o mesmo nome dado no Brasil à adaptação cinematográfica com Emma Th0mpson e Anthony Hopkins), na qual um mordomo obcecado pelos códigos de neutralidade e sobriedade de sua profissão não percebe nem o caráter dúbio de seu empregador, apoiador dos nazistas no período pré-Segunda Guerra, nem a paixão sutil mas real que nutre por ele a governanta da residência.

Falei de sutileza, e por isso sugeri que vocês tentem evitar por um tempo o barulho que inevitavelmente se fará ao redor do filme. Para sentir um pouco da estranheza provocada pela construção sutil do romance. O centro de Não Me Abandone Jamais é o triângulo amoroso entre três jovens, Ruth, Kath e Tommy, e as idas e vindas sentimentais na relação entre eles desde que se conheceram, ainda na infância, em um colégio interno tipicamente britânico chamado Hailsham. Quem narra a história é Kath, muitos anos depois, quando já saiu da escola e atua como uma espécie de enfermeira (espécie porque, como em outras coisas, neste caso a realidade não é o que parece).

A estranheza sutil do relato se dá pela forma como Ishiguro vai acrescentando detalhes que à primeira vista parecem normais no cotidiano de um colégio interno: as pressões do grupo sobre os deslocados, o rígido controle dos professores sober as transgressões dos alunos, como cigarros, por exemplo… E aos poucos vamos percebendo que há algo muito estranho naquela escola, algo que não fecha, algo que não se enquadra, algo que o autor só descortina por completo na página 100. Portanto, até antes disso, o que se tem são momentos como os que se viu no trecho que abre este post (e que, com admirável simetria e controle de ritmo, está na página 50): a narradora nos contando quando tomou conhecimento de algo que definiria sua vida inteira e seu propósito no mundo, mas por meio de elipses e torneios que acabam protelando a revelação do que de fato importa.

E por que eu disse para evitarem os textos de imprensa sobre o filme? Porque esse “algo estranho” que o autor elabora pacientemente até a página 100 está em praticamente todas as sinopses que já vi a respeito da adaptação em sites e revistas.

Saber disso com antecipação prejudica a leitura? Não, como eu disse. Mas é diferente. Eu nao trocaria a leitura com esse entendimento pela leitura que eu fiz quando o livro saiu no Brasil, há uns anos.

Gerações em queda

21 de março de 2011 3

Michel Laub em Porto Alegre. Foto de Fernando Gomes, ZH

 

O porto-alegrense Michel Laub é um dos autores contemporâneos para quem a memória é elemento chave. Em sua ficção, a narrativa se estrutura em torno das memórias dos protagonistas, podendo, assim, estar sujeita a erros, imperfeições e até mesmo a um sentimentalismo elegante que jamais resvala no piegas. Como Laub lança hoje na Livraria Cultura do Shopping Bourboun Country seu quinto romance, Diário da Queda, estive na semana passada na casa dos pais do escritor, em Porto Alegre (ele mora em São Paulo, mas está na capital gaúcha para o lançamento). Diário da Queda narra a tentativa de um homem, aos 40 anos, de reconstruir por meio da escrita as relações repletas de tragédia e ambiguidade de três gerações de sua família judaica: a dele próprio com o pai, que a certo momento será diagnosticado com Alzheimer, e a do pai com o avô, sobrevivente de Auschwitz.

Experientes de entrevistas anteriores (uma delas deu origem a uma matéria que pode ser lida aqui), conversamos durante 40 minutos, num diálogo que fluiu fácil. Como o material precisou ser editado para o Segundo Caderno de hoje, compartilho com vocês a íntegra, abaixo. As poucas intervenções feitas na entrevista abaixo foram efetuadas para retirar da conversa menções a um ponto que, revelado no fim do livro, constitui uma certa surpresa que resolvi não sonegar ao leitor.  

Zero Hora — Neste livro, assim como em romances anteriores, o tema é a memória, um personagem mais velho reconstruindo na narrativa memórias de seu tempo de juventude. Entretanto, é o primeiro livro em que você trata da questão judaica. Por que agora? Não era um tema que interessava antes e agora interessa?
Michel Laub —
Já me perguntaram isso e é muito difícil dizer. Acho que na verdade é um mistério. Acredito que em qualquer livro que alguém escreva, haverá muito do autor, e isso provavelmente é uma parte importante de mim, embora não pareça, porque eu não sou religioso e até culturalmente não tenho um interesse tão grande pelas questões judaicas, elas me interessam em um nível razoável, como interessam a todo mundo, não necessariamente a judeus. Mas pelo fato de eu escrever sobre mim, em algum momento isso começou a aparecer como algo importante. Não sei se isso é uma motivação inicial que te faz sentar e escrever. Acho que o meu impulso inicial foi mais com a questão do Alzheimer, do esquecimento. Auschwitz acabou entrando depois porque é um tema que tem muito a ver com memória, o Alzheimer uma questão da memória individual, biológica, e Auschwitz como a memória coletiva. Mas essa contraposição entre esses dois elementos só fui perceber quando eu já estava escrevendo o livro, porque normalmente você vai escrevendo a história e a partir daí vai vendo os significados dela.

ZH — A cena inicial é a do protagonista evocando um momento de vergonha individual, quando ele e outros colegas conspiram para uma brincadeira de mau gosto que acaba por ferir gravemente outro colega numa festa de aniversário. Esse ponto de partida foi o mote inicial do livro ou foi algo que surgiu na escrita?
Laub —
Foi surgindo. É curioso, minha vontade inicial não era fazer mais um livro com um protagonista lembrando a adolescência, eu já havia escrito romances assim, eu queria outra coisa. Na verdade, pensando bem, a gente vai falando e vai lembrando. O Segundo Tempo, que é meu livro de 2006, foi escrito depois de eu ganhar uma bolsa, e o projeto original era uma trilogia: uma história de adolescentes, uma história de adultos e uma história de pessoas mais velhas. E aí O Segundo Tempo cresceu, ficou pronto bem antes e parecia uma narrativa autônoma, e acabei publicando como um único romance. O Gato Diz Adeus aproveita a ideia da história dos adultos, um casamento de meia-idade. E no projeto original a terceira história, dos personagens mais velhos se passava numa clínica geriátrica, eu queria até fazer pesquisa sobre isso. O impulso inicial, pensando bem, foi esse, e daí surgiu o personagem que tem Alzheimer. Mas claro, no escrever você vai vendo o que funciona ou não. E depois do planejamento inicial nunca cheguei a considerar a hipótese de fazer essa história em uma clínica com todo mundo morrendo, porque eu não queria fazer uma coisa tão pesada a princípio. Fui tentando fugir disso, embora o resultado final possa ter ficado provavelmente ainda mais pesado.

ZH _ E essa decisão de tirar o personagem da clínica tem algo a ver com o Leite Derramado, cujo ponto de partida é também um idoso numa enfermaria?
Laub -
Não porque foi bem antes. Na época do Leite Derramado eu já estava escrevendo esse livro. Mas às vezes tem isso, também, você lê algo e pensa, até inconscientemente, que aquele assunto já está sendo tratado… É um mistério o porquê de escolher ou não um assunto. A história de Auschwitz entrou rapidamente na história do Alzheimer, achei que tinham a ver. Mas a partir daí a memória de infância do protagonista apareceu por acaso. À medida que eu fui escrevendo vi que havia uma história boa a contar, fui atrás e quando vi terminei de novo com um personagem adolescente que ocupa metade do livro.

ZH — A certo ponto do livro o narrador fala como dentro de sessenta anos Auschwitz será uma história distante de violência e massacre, como Sobibor, por exemplo, sem mais nenhuma testemunha viva. É uma contraposição com a desaparição gradual da memória do pai do protagonista, com Alzheimer?
Laub —
Isso não era proposital no início, mas fui percebendo essa relação ao escrever. E quando você percebe você começa a se direcionar para isso. O livro todo é assim, embora possa parecer que ele é um tanto fragmentado, no fundo cada bloquinho foi muito bem pensado e bem montado depois que eu estava escrevendo. Porque eu escrevia um episódio, inseria no meio de alguns blocos daqueles, com uma técnica para não parecer muito abrupto ir de um assunto para outro, mas inicialmente é um impulso que você faz sem pensar muito. Mas essa associação é muito evidente.

ZH — É perceptível no livro que cada uma das três gerações retratadas no romance parece herdar uma tragédia, como se a violência e a tragédia original de Auschwitz de alguma forma voltasse com suas próprias características para cada personagem, o avô, o pai e o narrador. É um paralelo que você faz com a própria transmissão da memória do Holocausto na comunidade judaica, algo que o narrador aborda no livro?
Laub —
Sim. Talvez até a questão de ter achado o resultado pesado venha de que foi muito pesado para mim escrever esse livro, por causa do tema judaico. Auschwitz, claro, mas o tema judaico em geral. Porque quando você é judeu, você sabe que está falando de temas que vão afetar muito pessoas próximas, não por autobiografia, mas porque um escritor judeu escrevendo um livro em que personagens judeus aparecem fazendo coisas indevidas será imediatamente confrontado. Eu senti muita resistência interna minha ao escrever. Talvez tenha sido o livro no qual mais esforço eu tenha feito para ir contra a resistência. Porque os outros narravam histórias bem fictícias. O Segundo Tempo é bem fictício. Claro que o pai do Segundo Tempo é terrível, e há a ideia de que meu pai possa ler e achar que tenha alguma coisa a ver com ele, e isso é um tipo de resistência, mas isso é menor diante de uma coisa… assim… que…

ZH — Uma coisa que de fato faz parte de sua vida?
Laub —
Acho que sim. Tanto que foi o livro que eu mais tive crises durante a escrita, achando que ia jogar fora. Em nenhum momento, ao contrário de outros livros, essa crise foi por achar que o livro estava ficando ruim, que não prestava, mas porque em determinado momento eu comecei a pensar: “por que estou escrevendo um livro sobre Auschwitz?”. “O que eu tenho de relevante para dizer sobre isso se tanta gente já falou, tantos filmes já foram feitos”. A solução para isso foi introduzir essa própria questão no livro pela voz do narrador, porque era uma dúvida que eu tinha o tempo inteiro. É que nem se você fosse escrever um livro sobre, sei lá, a ditadura militar brasileira. Ou você faz uma história única sobre aquilo ou você vai patinar no lugar comum. N’O Segundo Tempo eu tive um problema parecido com o futebol, que era fugir da narrativa tradicional sobre futebol, que é aquela narrativa metafórica, meio piegas, o tempo inteiro eu me esforcei para não usar o tipo de imagem que se usa quando se escreve sobre futebol. Então acabei fazendo um livro meio ao contrário. Em vez de celebrar a coisa do futebol ele faz ao contrário. Com Auschwitz agora eu tive o mesmo problema. Não sei se resolvi ou não, mas as soluções que arrumei para esse impasse foram relativas aos personagens: tornar os personagens mais individuais do que vítimas da História, apenas. É o caso do avô, que é uma vítima, por um lado, mas no fundo não é, o que o livro revela depois.

ZH — Sim, ele sai de Auschwitz, forma família, tem filho, e comete erros como qualquer pessoa.
Laub —
Exatamente, ele se torna um indivíduo e não uma vítima da História. Mas também não é muito fácil, porque é complicado você escrever um livro cujo personagem não é apenas uma vítima de Auschwitz. Acho que para qualquer escritor é complicado, para um escritor judeu eventualmente pode ser mais complicado. Ou não, não sei. E embora eu não me sinta religioso, tem uma hora em que a coisa da identidade pega de modo muito profundo. Então aquela primeira pergunta sobre porque eu nunca pensei nisso: não sei, mas quando comecei a escrever fui me dando conta de que aquilo era parte de mim.

ZH — Analisando seus livros é fácil notar que, embora isso não ocupe o centro da narrativa, em pelo menos três deles você constrói uma espécie de memória dos anos 1980, e o quanto algumas coisas eram diferentes naquela época. É algo que se vê em Longe da Água, em O Segundo Tempo, e agora neste livro. É um projeto consciente?
Laub —
Nesse caso é minha própria memória mesmo. Tem a coisa da autobiografia. É curioso, muitos leitores acham que meus livros são biográficos, e talvez eu mesmo force um pouco isso, colocando personagens que têm a mesma profissão que eu, etc. Mas se você ler esses livros, meus quatro romances excluindo O Gato Diz Adeus, vai encontrar todos esses elementos em histórias diferentes entre si. Só como exemplo, O Segundo Tempo é uma história em que o narrador tem 15 anos e os pais estão se separando. Neste agora o narrador tinha 13 anos, mas os pais não estão separados, o pai é judeu, a história é outra, são tramas coerentes entre si, o que prova que a base delas é autobiográfica. O que vai ser biográfico são esses elementos que colorem as cenas, que aí  realmente, eles vêm do que eu sei. Eu até poderia tentar fazer outra coisa, mas não vejo muito sentido em fazer alguém muito mais velho para falar dos anos 1970 quando eu não preciso pesquisar para falar dos anos 80. E esse livro pedia um personagem dessa faixa etária, mais ou menos. Se fosse fazer uma memória dos anos 1960 seria outro tipo de livro.

ZH — O próprio encadeamento das gerações provavelmente situava a juventude do narrador naquela época.
Laub —
Ele tinha um poblema, em certo momento, que era o fato de o personagem, para lembrar dos anos 1980, precisaria ter uns 38, 40 anos, como eu tenho. O avô tudo bem que houvesse sobrevivido, era um personagem que já havia morrido, poderia ter qualquer idade, mas o pai só poderia ter nascido no Brasil, então estava limitado a nascer a partir de 1945. E de 1945 para cá temos 65 anos, e essa não é uma idade em que Alzheimer é tão comum. Eu falo isso no livro, inclusive. Todos os problemas que enfrentei de algum modo foram discutidos pelo protagonista no próprio livro. Mas existe, existe gente com Alzheimer até com 30 anos. E uns 2% ou 3% dos pacientes tem 60 anos. É verossímil, mas eu tive de encaixar bem essa questão das gerações, porque no fundo o pai dele não é muito velho. O melhor talvez fosse que o personagem do pai fosse bem mais velho.

ZH — Os capítulos do livro são estruturados em parágrafos numerados que formam tópicos. A Bíblia é uma referência de algum modo?
Laub —
Não, isso é curioso. Eu tinha nos outros livros um problema que eu via. Pegando O Segundo Tempo, por exemplo, que é dos livros anteriores que eu considero mais redondinho, ele fecha todo direitinho. Por questões minhas, técnicas, eu acho que aquele livro só fecha com aquele tom e com aquele tipo de narrativa, meio circular, meio elegante. No Segundo Tempo não dava tanto espaço para eu sair da narrativa, da história em si para digredir sobre futebol ou outras coisas. Toda vez que eu fiz isso, tem aqui e ali alguma coisa, é muito curto, porque tem de voltar, a estrutura do Segundo Tempo pede que a narrativa ande. E no caso do Diário da Queda eu tinha de ter considerações históricas. Estou narrando a história de um moleque que se machuca naquela festa, e daqui a pouco eu vou ter de falar com algum vagar sobre o Holocausto, sobre o livro É Isto Um Homem?, do Primo Levi, e eu achei que em um texto seguido, corrido, era mais difícil ou ia ficar meio truncado, forçado. A coisa de dividir a história em tópicos foi uma solução técnica de narrativa mesmo, eu às vezes eu interrompo uma linha e vou para outra sem precisar fazer grandes transições que dariam mais trabalho e seriam apenas artifícios técnicos. A estrutura de tópicos facilitou muito, eu pude dizer muito mais do que eu diria normalmente numa narrativa corrida. Claro que há algumas adaptações. Como é em tópicos e eu não quero escrever um livro inteiro em minitópicos, os números facilitam a inventar listas: “algumas coisas que eu sei sobre meu avô”, e assim você pode numerar. E como é uma memória, o sujeito está contando sua vida, então tem como abrir notas: como eram os táxis em Porto Alegre, eu poderia ter falado de qualquer coisa, como é o gosto de uma maçã. Aí ele acabou ganhando coerência. Escrever um livro é sempre uma confusão até um determinado momento, mas tem uma hora em que você acha o caminho e aí conspira a favor. Daí tendo alguma experiência de escritor você ajeita. Eu tirei fora da versão final do livro vários trechos que poderiam até ser bons mas não funcionavam nesse esquema que o livro pedia.

ZH — Seus livros têm como protagonistas homens que normalmente trabalham nas mesmas coisas que você: editor, escritor, roteirista. Isso entra como aquelas memórias que você falou que preenchem um detalhe ou outro sem necessidade de pesquisa?
Laub —
Em livros curtos como os que eu escrevo, às vezes um paragrafozinho é importante. Não é um romanção de mil páginas que você possa cortar bastante. Então você poder descrever como era entrar em um táxi em Porto Alegre nos anos 1980, eu acho que o leitor gosta disso. É melhor do que ser genérico e dizer qualquer coisa. Às vezes pode ser um detalhe mesmo, para salvar uma página do livro. Se não faz mal para a trama, melhor fazer assim mesmo. Até porque isso ilumina tudo o que ele falou antes, a voz dele fica coerente. Ele é um narrador culto, com instrução completa, não poderia ser, sei lá, o pai do outro menino do livro, que é cobrador de ônibus. Tem esse lado da verossimilhaça do livro e tem também o lado que eu gosto de confundir o leitor, fazer ele achar que é autobiografia.

ZH — Você gosta de semear essa confusão?
Laub —
Não é que eu goste, mas eu parei de lutar contra isso. Sabe aquela coisa de que o escrever são os teus defeitos? No início todo mundo falava e eu ficava assim: “pô, tenho de fazer um negócio diferente”. Mas uma hora eu me dei conta de que sou eu ali escrevendo, então deixa as pessoas acharem. Você força mais ainda a situação. Por um lado, lendo só aquele livro, a pessoa que leia apenas aquele livro ela vai ter essa ideia de que é totalmente autobiográfico. Duvido que alguém que nunca tenha me visto na vida ao ler esse livro não ache que é autobiográfico. Todo o livro de memórias na primeira pessoa causa esse efeito, é natural. Só que quem leu os quatro livros talvez perceba que não pode ser autobiográfico, que algum deles está mentindo porque um fala o contrário do outro. Eu misturei muito. Todos os livros meus têm a presença do litoral. Longe da Água se passa em Albatroz. O Segundo Tempo o personagem planeja fugir para Tramandaí, e este agora tem umas cenas em Capão da Canoa. E na verdade a praia em que eu sempre passei os veraneios era outra, era Santa Terezinha, não era nenhuma dessas. No caso de O Diário da Queda tinha de ser Capão porque era a praia dos judeus. Provavelmente se eu voltar a escrever um livro sobre o Rio Grande do Sul eu vou colocar de novo o litoral, e não será Santa Terezinha, agora já virou uma brincadeira pessoal, vai ser Mariluz ou sei lá qual.

ZH — Essa presença do litoral também mostra a relação do Estado com o mar, algo ao mesmo tempodistante e presente, um cenário melancólico.
Laub —
É um cenário muito sugestivo. Eu poderia ficar escrevendo livros só sobre o litoral gaúcho, porque todo mundo que é daqui entende e sabe do que estou falando: o cinema, o artesanato na praça de Capão. É engraçado como esse cenário não é mais explorado, porque é um litoral tão diferente. Tem o filme do Jorge Furtado [Era uma vez dois verões], mas é pouco. É no Brasil, é uma praia, e é melancólico. Porque narrar uma história de memórias de infância em Porto Alegre não é muito diferente de uma cena em São Paulo. Mudam os nomes mas você está falando de um bairro, um microcosmo. E o litoral não. Todos os anos a classe média passava dois meses lá, então se for somar, você morou lá boa parte da vida, e a maioria das pessoas que estava por lá, por essas circunstâncias de verão, teve primeiras experiências, amizades, primeiros namoros, tudo na praia. E a volta para a cidade separava essas ligações. É uma experiência também de perda muito presente. Agora já faz anos que não vou para a praia, minha família não tem mais casa lá, não moro em Porto Alegre, e se morasse provavelmente iria para Santa Catarina. Então é uma parte da sua vida que acaba, o que também tem relação com os meus livros, o que funciona. Tem uma história, um conto longo que eu nunca publiquei, talvez inclua em algum livro, que é uma história dos fliperamas da praia, que para mim é um mundo à parte. Aquela coisa de moleques que roubavam lacre de placa de carro, derretiam e faziam fichas. E havia os técnicos dos fliperamas que eram meio que policiais dos flipers e se pegavam algum moleque trapaceando desciam pancada. A memória é um material muito rico. Essas coisas estão aí, uma hora eu vou escrever esse livro. Eu passei um ano inteiro no exército e não escrevi ainda sobre isso, tirando um conto do meu primeiro livro. Mas é um material muito vasto que está na tua cabeça e que vai acabar sendo usado. O Tropa de Elite meio que abordou esse universo, mas antes disso estava aí pronto.

ZH — É também uma tarefa que você se propõe como escritor de buscar esses campos que ainda estão inexplicavelmente inexplorados?
Laub —
O Longe da Água, não digo que seja o melhor livro sobre surfe, mas acho que eu ainda não vi muitos outros sobre esse universo depois dele.

ZH — E O Segundo Tempo aborda o futebol…
Laub —
Futebol tem… aí é um problema como Auschwitz, muita gente já tinha escrito.

ZH — Mesmo na ficção?
Laub —
É curioso, porque o futebol tem essa fama de que ninguém nunca escreveu o grande romance sobre futebol, o que é claro que te motiva como escritor, mas ao mesmo tempo você abre o jornal e todo estão falando nisso. E tem, sei lá, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, todo mundo uma hora tem um conto em que apareceo futebol… Mas como é uma experiência muito comum de todo mundo, é complicado você escrever sobre isso sem resvalar no lugar comum. O problema é parecido com o de Auschwitz, da II Guerra, todo mundo conhece mais ou menos o assunto. Acho que quando você vai para um mundo que pouca gente conhece. Tipo o quartel: as pessoas conhecem mas ouvem falar pouco, você vai conseguir chamar uma pessoa de fora que vai ler aquilo e vai conseguir mostra algo novo, olha, o nome desse casaco é gandola. É mais rico nesse sentido de descoberta.

ZH — E até de recuperar o próprio sentido do romance, de comunicar uma experiência?
Laub —
Exatamente. É uma operação diferente: uma é você mostrar algo que as pessoas conhecem pouco, e a outra é pegar um tema que todo mundo conhece, como futebol ou Auschwitz e fazer daquilo algo diferente. São desafios diversos para um livro. E esse de pegar um tema como futebol ou Auschwitz eu acho mais difícil. Como sensibilizar um leitor sobre Auschwitz nos tempos de hoje?

ZH — Talvez por isso a literatura brasileira não tenha também um grande romance político, sobre Brasília, que está todo dia nos noticiários?
Laub —
Pode ser, para escrever sobre Brasília ou você tem uma vivência de bastidores que vai explicar como é de verdade, e isso os jornais já fazem, ou você tem de criar um personagem único, você vai mais pelo personagem do que pelo tema, se for pelo tema você está ferrado.

ZH — Seus últimos romances foram lançados ao ritmo de um a cada dois anos, uma produção bastante regular. Você tem algum método para alcançar essa regularidade?
Laub —
São livros pequenos, também, isso facilita. Lembro que o João Gilberto Noll, agora ele parou um pouco, mas ele publicou muitas novelas seguidas, nos anos 1980 e 1990. Teve o A Fúria do Corpo, que é grande, e depois foram muitas novelas curtas. O livro pequeno facilita porque no fundo, por mais que seja difícil, você altera, mas mexe sobre uma base que não é tão grande. No caso de um livro pequeno, a decisão de mandar para a editora, publicar ou não, tem a ver com o número de versões que você quer fazer daquilo. O trabalho mesmo é no início, depois é trabalho de editor, e isso eu tenho muita experiência, qualquer jornalista tem. Você pega seu texto, deixa descansando dois meses, você vai pegar de novo mais tarde e ver o que está errado com mais clareza.

ZH — Mas ao mesmo tempo não é uma sensação que também assalta o escritor depois que o livro já está pronto?
Laub —
É uma das coisas que a gente vai aprendendo evitar. Quando sai o livro a gente sempre dá uma olhada e acha alguma coisa. O Diário da Queda mesmo eu olhei e achei. Mas cada vez mais me dou conta de que são detalhes, que o importante é que na hora em que escreveu você fez o melhor que você pôde. Pode não ser o livro perfeito, e nunca vai ser, porque se fosse você parava de escrever, tem gente que vai gostar, tem gente que não, mas fiz o melhor que eu pude na época. Alguns deles você tem mais sensação de que acertou do que outros na época do lançamento.

ZH — Você já se referiu ao Segundo Tempo mais de uma vez nesses termos.
Laub —
É curioso, eu nem sei o que eu falei, porque a tua própria opinião sobre os livros vai mudando, mas O Segundo Tempo foi um livro que eu quase joguei fora muitas vezes durante a escrita. Depois que ficou pronto eu passei a gostar dele, mas teve muita problema no processo. O Gato diz Adeus talvez seja meu livro que eu menos goste, mas é um livro que eu tinha plena consciência na época de que eu precisava dele, eu precisava experimentar um pouco, escrever sobre um universo que não era o meu regular. Isso foi importante até para escrever O Diário da Queda, eu soltei muito mais a mão agora. Mas eu sei que O Gato Diz Adeus é um livro que as pessoas têm bem mais resistência, porque é mais cerebral de certa maneira e o tema dele não é muito carismático, é sexual, meio pervertido, meio difícil, são vários narradores… É um livro curto e não dá tempo às vezes de de desenvolver um arco narrativo. Eu tinha consciência disso na época do lançamento, mas você tem de lançar, lança e ouve depois. Muita gente não gostou teve gente que gostou, também. Passou o tempo mas ele me serviu muito agora. Se você pegar O Segundo Tempo e o Longe da Água são livros fortes, O Segundo Tempo até mais fechado do que o Longe da Água, mas a linguagem neste Diário da Queda, a linguagem da prosa, eu não diria que ela é mais apurada, pelo contrário, é mais suja, mas ela é uma linguagem mais solta na qual eu consigo falar mais coisas do que antes, porque eu ficava me escondendo no estilo. E O Gato Diz Adeus foi importante para isso, porque foi o livro no qual eu me libertei da ânsia pelo texto elegante.

O futuro dos livros e dos autores

20 de março de 2011 0

Como vocês puderam ler neste sábado, eu e o repórter Luís Bissigo realizamos uma reportagem sobre a questão dos Direitos Autorais e as últimas polêmicas envolvendo o assunto e a nova gestão do Ministério da Cultura (leia neste link, no blog do Cultura, entrevistas com dois advogados especialistas nas questões jurídicas envolvidas). É um tema amplo que diz respeito a praticamente todos os setores da criação intelectual artística: imagens, músicas, livros, expressão por meios eletrônicos, cópias de obras, uso de obra como base para outras obras, licenciamento de direito intelectual. A proposta de revis’ao da lei, que estava com a Casa Civil para repasse ao Congresso, foi devolvida para o MinC e deve ser alvo de novas discussões

Aproveitando a oportunidade, este blog dedicado ao livro foi ouvir também a opinião da nova diretora da Câmara Brasileira do Livro, Karine Panza, sobre o assunto. A CBL congrega editores, livreiros e demais entidades do setor. Vocês leem abaixo, na íntegra, a entrevista concedida por e-mail:

Mundo Livro — Como a senhora vê a posição atual do Ministério da Cultura em relação à Lei de Direito Autoral que, depois de debatida por dois anos e encaminhada à Casa Civil, volta a ser tema de discussões e de possíveis revisões dentro do ministério?
Karine Panza —
É muito bem-vinda a intenção do Ministério da Cultura de rever o anteprojeto de emenda à Lei de Direitos Autorais, antes de o encaminhar ao Congresso Nacional. A despeito das várias audiências públicas e do encaminhamento de aproximadamente oito mil sugestões, mantiveram-se na polêmica proposta, aspectos negativos diagnosticados pelo mercado, intelectuais, escritores e juristas.  Nós mesmos temos discutido o aperfeiçoamento da Lei de Direito Autoral há mais de um ano por meio do Fórum do Livro e Leitura pelo Direito Autoral, composto por mais de 20 entidades da cadeia produtiva do livro e que é coordenado pela CBL. No entanto, detectamos uma série de equívocos no anteprojeto. O fato é que ficou a frustrante sensação de que a palavra de todos esses interlocutores não foi auscultada na busca de um consenso, ao qual, portanto, não se chegou. Assim, será muito pertinente analisar de modo mais profundo essa rica contribuição para o aperfeiçoamento da propositura.

Mundo Livro — A questão da propriedade intelectual na internet é um dos grandes desafios a serem enfrentados pelo setor do livro, em face às novas tecnologias e aos serviços de digitalização de livros como o Google Books. O modelo de direitos autorais como o conhecemos sofrerá alguma mudança irreversível devido a essas novas tecnologias?
Karine —
Neste aspecto, será necessário um novo ordenamento dos direitos autorais. Sem tal providência, a ser normalizada internacionalmente, ficará difícil desenvolver e consolidar este segmento de mercado. Segurança quanto à autenticidade e legalidade dos conteúdos também será fundamental. Vejam o que acontece no mercado de filmes e música em CD e DVD, muito prejudicado pela pirataria. Não há dúvida de que a digitalização de conteúdos editoriais sob a tutela de direitos legais suscitará facilidades para a falsificação e reprodução ilegal, ampliando a ameaça de falsificação muito além das máquinas copiadoras que enfrentamos hoje. As dificuldades e problemas a serem superados, contudo, não devem impedir o avanço da tecnologia. É preciso conviver com as transformações, adaptar-se a elas e as converter em real oportunidade. Claro que esse processo de adequação é mais fácil quando o mercado atua de maneira coesa e sinérgica. Nesse sentido, é fundamental o trabalho das entidades de classe, como tem feito a Câmara Brasileira do Livro (CBL), por meio de eventos e debates voltados ao assunto com a participação do setor editorial, especialistas e governo.

Mundo Livro — Na sua opinião, em que sentido a proposta representa um progresso e em que outros aspectos ainda poderia avançar mais?
Karine —
Um dos principais problemas que diagnosticamos no documento são as redundâncias e as complexidades apresentadas no texto e a superposição com outras leis, como, por exemplo, ocorrem nos artigos 1º e 3º. Nesse ponto, era melhor ter mantido o que está vigorando. Outro equívoco flagrante verifica-se no Artigo 46º da proposta de emenda, que autoriza a “reprodução integral de qualquer obra legitimamente adquirida, quando destinada a garantir a sua portabilidade ou interoperabilidade, para uso privado e não comercial”. Apesar das limitações especificadas no texto proposto, controlar a atividade de cópia configura-se como tarefa quase impossível.  Portanto, é sensato e pertinente examinar de modo mais profundo as mudanças necessárias para o aperfeiçoamento da lei. A revisão do anteprojeto é essencial para garantir que os Direitos Autorais no país sejam respeitados, e para manter o Brasil alinhado às convenções e tratados internacionais de Direitos Autorais dos quais é signatário.

Mundo Livro — Já se percebe nos Estados Unidos um movimento de escritores insatisfeitos com os rumos da atual discussão a respeito do livro eletrônico. O argumento levantado recentemente pela canadense Margaret Atwood é que se o custo de produção e armazenagem de um livro se torna menor para um livro eletrônico, por que não se poderia aumentar a percentagem do autor na negociação? Qual sua opinião sobre este ponto?
Karine —
Inicialmente, é importante avaliar que as editoras são gestoras de conteúdo. Elas são responsáveis pela avaliação, seleção, contratação, edição e promoção da obra literária. Isso tem um custo fixo para ser realizado, independente da plataforma que será utilizada para a veiculação do livro. Portanto, é prematuro avaliar que o custo de produção diminuirá com o livro eletrônico.  O que acontece com o livro digital (texto escrito em suporte eletrônico) é que ele não tem custo de impressão como os livros impressos. Além disso, a sua distribuição pode ser feita eletronicamente, sem necessidade de uso de meio de transporte tradicional, armazenagem etc.. Sem estes custos de produção e comparados aos impressos tradicionais, há uma enorme possibilidade de que os preços dos livros digitais se tornem ainda mais acessíveis ao consumidor, permitindo o incremento da produção literária e o aumento do número de leitores no país. No entanto, não creio numa regra universal em torno da questão. Por isto, acredito que o entendimento entre autores e editores poderá ser diferente em cada caso. Haverá aqueles que decidirão dentro da lógica que impõe a tecnologia, ou seja, vender a milhares de consumidores por preços muito baixos. Assim como também haverá outros modelos de negócio, onde poucos exemplares serão oferecidos a preços maiores.

Mesa manchada de sangue

14 de março de 2011 0

Ralo de matadouro. Foto de Daniel Marenco. BD: 19/06/2008

Toda escolha é moral. Para o escritor americano Jonathan Safran Foer, 33 anos, isso inclui comer animais — mesmo que muitos prefiram não pensar no frango em seu prato como a ave real que será torturada para se transformar em produto para consumo. Essa é a tese central que o autor defende no misto de ensaio, reportagem e memória Comer Animais (Tradução de Adriana Lisboa, Rocco, 320 páginas, R$ 41,50).

Foer, autor dos elogiados romances Tudo se Ilumina e Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, começou o escrever livro depois que ele e a mulher, a também escritora Nicole Krauss, tiveram um filho. Entre as muitas reflexões provocadas pela condição de pai recente, estavam aquelas sobre como alimentar sua cria. Depois do nascimento do filho, o autor mergulhou em uma pesquisa de quatro anos sobre a indústria alimentícia e o tratamento que esta dispensa aos animais como forma de entender seu próprio vegetarianismo para explicá-lo ao filho. Comer Animais é uma reportagem de fôlego que também se apresenta como uma narrativa de sujeição, a dos bichos ao homem. O resultado é um livro do qual é preciso muito sangue frio para permanecer impassível.

Foer relata histórias de horror. A hegemônica indústria da carne norte-americana alcança produtividade recorde com torturas: frangos geneticamente modificados cujo peso fragiliza os ossos ao ponto de se quebrarem, encarcerados em gaiolas coletivas sem poder se mexer; animais de grande porte criados em galpões fechados com iluminação artificial e sem nenhuma vegetação, porcos entupidos de hormônios, animais tão manipulados geneticamente que só sobrevivem ao custo de muitos antibióticos – e o uso indiscriminado de medicação do tipo em animais para abate como porcos e frangos torna cada vez mais próximo o dia em que um micro-organismo resistente a antibióticos possa pular dos animais para o homem, com um resultado devastador. O autor não apenas maneja frias estatísticas (que estão lá e são impressionantes mesmo atrás da face fria dos números. Ele também vai a campo, entrevista uma militante de direitos animais que, usando as brechas da lei de propriedade no que diz respeito a crueldade animal, invade fazendas para alimentar animais deixados em condições degradantes; fala com produtores menores, cada vez mais raros no pantagruélico cenário da produção de carne por meio industrial – qualquer um que já viu uma galinha de verdade sabe que elas são muito diferentes entre si e menores do que as que andamos comprando no mercado.

Aclamado como um dos mais talentosos autores de sua geração, Safran Foer faz de Comer Animais um livro “engajado” – palavra que assumiu conotações diversas no século 20, nem todas positivas. Mas o engajamento do escritor não compromete a forma. Seu livro é escrito com muito da perplexidade que o autor tornou característica de seus romances. Ele não tem a engenhosidade e a elegância formal de um J.M. Coetzee, mestre da literatura que também milita pelos direitos dos animais em artigos ou obras ficcionais como Elizabeth Costello e A Vida dos Animais. Mas o texto de Safran Foer é franco, aberto, direto, alinha estatísticas sombrias  sem deixar que elas tomem conta da prosa, é veemente sem ceder à indignação histérica. É na verdade de sua comoção serena que ele se diferencia e por vezes se destaca em uma comparação com o cerebral Coetzee.

Ponderado, Foer insiste em um ponto que ficará martelando na cabeça de qualquer um de seus leitores honestos, onívoros ou não: um consumidor ciente do que passam os animais em abatedouros e fazendas industriais que escolha continuar consumindo carne e tocar a sua vida numa boa está fazendo a escolha moral de aceitar a tortura animal como um “mal menor” necessário para a alimentação humana. Uma escolha que afeta o que há de humano em qualquer consumidor de gôndola de supermercado. Sabendo o que se sabe sobre o que os animais passam para chegar à mesa dos humanos, não se pode alegar ignorância nem afetar inocência sem constrangimento. Ou, como o escritor coloca, com propriedade, a certa altura de seu livro: “é sempre possível acordar alguém que está dormindo, mas nenhum barulho vai acordar alguém que finge estar”.

Da necessidade de agradecer

11 de março de 2011 2

Aviso: este é um post curto, singelo e até bobo, se preferirem.

Estamos acostumados a ler agradecimentos e epígrafes, nas quais escritores prestam suas homenagens àqueles que os inspiram. Pois quando terminei de ler O Segundo Tempo, do Michel Laub, percebi que nunca tinha agradecido a um autor pelo seu trabalho.

Talvez porque um dos princípios da arte seja modificar o nosso comportamento, nosso olhar para uma determinada questão (perdão pelo clichê). E também porque existem muitos livros que efetivamente cumprem essa e outras tantas funções que possamos atribuir à literatura. A questão é que nem todos são tão certeiros.

Muitos livros comovem. A parte difícil, me parece, é uma obra ser lida em momento tão preciso a ponto de fazer o leitor ter consciência, enquanto lê, do quanto aquele livro é importante para ele.

Dessa vez não farei nenhuma espécie de resenha, pra evitar o risco da confissão. O ilustre editor deste blog já escreveu sobre o título aqui.

Obrigada, Carlos, pelo empréstimo do livro.

Michel Laub, obrigada por ter escrito O Segundo Tempo, lá em 2006.

Texto de Tassia Kastner

A mãe de todas as armas

10 de março de 2011 0

Kalashnikov com sua invenção. Foto de Stefan Thomas, AFP, 25/07/2002

Mikhail Timofeevich Kalashnikov derrotou os americanos na Coreia e no Vietnã, serviu de símbolo para bandeiras, moedas e monumentos, frequenta o cancioneiro pop, é idolatrado por Hollywood e virou mobília descolada. Tudo isso, segundo ele mesmo, pelo motivo errado: em vez do fuzil de assalto AK-47, Kalashnikov queria mesmo era ter inventado um cortador de grama. Mas esta reflexão viria tarde, como mostra o jornalista norte-americano Larry Kahaner no livro AK-47: a Arma que Transformou a Guerra (tradução de Mário Pina, Record, 266 páginas, R$ 44,90). Atual apesar do lançamento tardio no Brasil (a primeira edição nos EUA é de 2007), a história de ascensão e predomínio da AK nos campos de batalha pós-Guerra Fria é narrada com detalhes e ajuda a entender o próprio conceito de combate moderno criado pelo projeto de Kalashnikov.

Hoje com 91 anos, Kalashnikov só conheceu o tamanho da fama (e do estrago) de sua criação na década de 1990, quando a União Soviética veio abaixo. Até então, o ex-piloto de tanque, que desenvolveu numa cama de hospital a mais perfeita arma de matar, estava convicto de que suas intenções eram legítimas e voltadas para manter a paz em seu país. A Avtomat Kalashnikova modelo 1947 — ou AK-47 — havia sido concebida para derrotar os nazistas durante a II Guerra. Com a queda de Hitler antes do lançamento oficial, ela serviria, então, para dar baixa nos imperialistas liderados pelos EUA durante a Guerra Fria. Serviu bem a esse propósito: levou à vitória os norte-coreanos na Guerra da Coreia e  os vietcongues durante a Guerra doVietnã. Nesta última, além infligir uma vergonhosa derrota ao exército norte-americano, obrigou os EUA à primeira revisão do seu arsenal em quase um século. Segundo relatos de oficiais, o fuzil soviético usado pelo inimigo funcionava mesmo depois de meses enterrado na lama,enquanto os M16 americanos “precisavam ser limpos em um hospital ou então emperravam”.

Segurança, confiabilidade e durabilidade estavam, de fato, no projeto de Kalashnikov — além do baixo custo de produção e facilidade de manutenção e manuseio. Mas a arma oficial do Exército Vermelho era também moeda política e acabou liberada, sem custos, para ter versões produzidas pelas nações do Pacto de Varsóvia — mais China e Cuba, aliadas dos soviéticos — que precisavam se armar para o inevitável conflito entre EUA e URSS. Só que a guerra não aconteceu, a União Soviética ruiu e os Estados comunistas, sem dinheiro e com os paióis abarrotados, não viram outra alternativa a não ser soterrar o mercado negro de armas com milhões de Kalashnikovs. A oferta era tanta que, na primeira metade dos anos 1990, era possível comprar uma AK-47 por até US$ 10 — ou trocá-la por um saco de arroz, dependendo do nível de carência da nação onde ela seria usada.

E foi justamente nas nações mais miseráveis  de Oriente Médio, América Latina e África que ela virou um símbolo — primeiro de liberdade e depois de genocídio e barbárie. Suas propriedades a tornaram a arma preferida para conflitos urbanos, usada tanto pelos exércitos oficiais que defendiam ditaduras sanguinárias quanto pelas milícias que queriam derrubá-los (para depois instaurar novos regimes de terror). Estes, junto a traficantes e terroristas, foram tão diligentes no uso da AK-47 que a inscreveram no rol da infâmia ao descobrir que crianças podiam utilizá-la. Sua fama cruzou os campos de batalha e ela virou estrela em letras de rap – 50 Cent, AkonNAS e funkeiros cariocas exaltam a AK-47 em suas canções. No cinema, Quentin Tarantino a celebrizou em Jackie Brown (1997) na fala do traficante de armas vivido por Samuel L. Jackson: “Ak-47. A melhor que há. Quando você precisa matar absoluta e positivamente todos os filhos-da-puta no recinto, não aceite substitutos“.  Nicolas Cage a elege como principal item de exportação da Rússia em O Senhor das Armas (2005): “Após a Guerra Fria, a AK-47 se tornou o maior produto de exportação da Rússia. Depois vinham vodca, caviar e escritores suicidas.“.  Até um caríssimo abajur dourado ela virou, criação do designer francês Philippe Starck. Com Kalashnikov gostando ou não de tudo isso, é difícil imaginar tamanha influência de um cortador de gramas.

Sessenta anos este mês

09 de março de 2011 2

Contaram-me que, no fundo do sertão de Goiás, numa localidade de cujo nome não estou certo, mas acho que é Porangatu, que fica perto do rio de Ouro e da serra de Santa Luzia, ao sul da Serra Azul — mas também pode ser Uruaçu, junto do rio das Almas e da serra do Passa Três (minha memória é traiçoeira e fraca; eu esqueço os nomes das vilas e a fisionomia dos irmãos; esqueço os mandamentos  as cartas e até a amada que amei com paixão) — mas me contaram em Goiás, nessa povoação de poucas almas, as casas são pobres e os homens pobres, e muitos são parados e doentes e indolentes, e mesmo a igreja pequena, me contaram que ali tem — coisa bela e espantosa — um grande sino de ouro.
Lembrança de antigo esplendor, gesto de gratidão, dádiva ao Senhor de um grã-senhor — nem Chartres, nem Colônia, nem S. Pedro ou Ruão, nenhuma catedral imensa com seus enormes carrilhões tem nada capaz de um som tão lindo e puro como esse sino de ouro, de ouro catado e fundido na própria terra goiana nos tempos de antigamente.
É apenas um sino, mas é de ouro. De tarde seu som vai voando em ondas mansas sobre as matas e os cerrados, e as veredas de buritis, e a melancolia do chapadão, e chega ao distante e deserto carrascal, e avança em ondas mansas sobre os campos imensos, o som do sino de ouro. E a cada um daqueles homens pobres ele dá cada dia sua ração de alegria. Eles sabem que de todos os ruídos e sons que fogem do mundo em procura de Deus — gemidos, gritos, blasfêmias, batuques, sinos, orações, e o murmúrio temeroso e agônico das grandes cidades que esperam a explosão atômica e no seu próprio ventre negro parecem conter o germe de todas as explosões – eles sabem que Deus, com especial delícia e alegria, ouve o som alegre do sino de ouro perdido no fundo do sertão. E então é como se cada homem, o mais mesquinho e triste, tivesse dentro da alma um pequeno sino de ouro.
Quando vem o forasteiro de olhar aceso de ambição, e propõe negócios, fala em estradas, bancos, dinheiro, obras, progresso, corrupção — dizem que esses goianos olham o forasteiro com um olhar lento e indefinível sorriso e guardam um modesto silêncio. O forasteiro de voz alta e fácil não compreende; fica, diante daquele silêncio, sem saber que o goiano está quieto, ouvindo bater dentro de si, com um som de extrema pureza e alegria, seu particular sino de ouro. E o forasteiro parte, e a povoação continua pequena, humilde e mansa, mas louvando a Deus com sino de ouro. Ouro que não serve para perverter, nem o homem nem a mulher, mas para louvar a Deus.
E se Deus não existe, não faz mal. O ouro do sino de ouro é neste mundo o único ouro de alma pura, o ouro no ar, o ouro da alegria. Não sei se isso acontece em Porangatu, Uruaçu ou outra cidade do sertão. Mas quem me contou foi um homem velho que esteve lá; contou dizendo: “eles têm um sino de ouro e acham que vivem disso, não se importam com mais nada, nem querem mais trabalhar; fazem apenas o essencial para comer e continuar a viver, pois acham maravilhoso ter um sino de ouro”.
O homem velho me contou isso com espanto e desprezo. Mas eu contei a uma criança e nos seus olhos se lia seu pensamento: que a coisa mais bonita do mundo deve ser ouvir um sino de ouro. Com certeza é esta mesmo a opinião de Deus, pois ainda que Deus não exista, ele só pode ter a mesma opinião de uma criança. Pois cada um de nós quando criança tem dentro seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria e pecado e corrupção, vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra, e lama e podridão.

Comprei no último fim de semana a coletânea 200 Crônicas Escolhidas de Rubem Braga (Record, 2007), edição que já não é das mais recentes e provavelmente por isso estava com um preço ridículo abaixo de 20 pilas, o que me fez feliz e, mais do que isso, um feliz comprador. Reúne crônicas garimpadas nas coletâneas em livro que Braga publicou ao longo da vida (a que vocês leram acima estão no volume A Borboleta Amarela, mas há textos de O Conde e o Passarinho; Ai de Ti, Copacabana!; A Traição das Elegantes, entre outras). Uma seleção que abrange, devidamente datadas, crônicas de Janeiro de 1935 (Sentimento do Mar) até abril de 1977 (Os Sons de Antigamente).

E quando, na leitura, cheguei a essa crônica específica transcrita acima, não pude deixar de estacar por um momento e ficar à espreita de um fio de pensamento que teimava em fugir. O Sino de Ouro, que vocês leram ali em cima, traz a data de março de 1951. Cinquenta Sessenta anos. Mais de meio século, palavras mais velhas do que eu, mais velhas do que muita gente que eu conheço, chegando até mim pela imortalidade da obra de um dos homens que elevou a crônica a peça literária no Brasil – e um dos responsáveis indiretos pela profusão obscena de “cronistas do cotidiano” na imprensa nacional, mas isso é já outro papo (a nascente não tem culpa do entulho que polui o curso d’água mais adiante).

A bem da verdade eu já havia lido O Sino de Ouro no colégio, antigo 1º Grau. Assim como outras crônicas reunidas no livro: Aula de Inglês, Ai de Ti, Copacabana!, Um Pé de Milho, Conversa de Abril. Mas na época a data em si não me impressionava. Talvez fosse jovem demais para reparar no tempo, não sei, o fato é que por algum motivo essa circunstância fortuita à qual estou dando uma significação assumidamente arbitrária despertou-me curiosidade pelo sino de ouro. Não deixa de ser uma crônica que faz o elogio de algo que eu particularmente não defendo, o embevecimento paralisante da transcendência religiosa, mas como é… bonito.

E como ressoa ainda hoje, pensando bem. Certa vez, em Brasília, ouvi um profissional classe média local usar o termo “goiano” em sentido pejorativo para se referir a migrantes de baixas instrução e renda, o mesmo sentido que em São Paulo ouvi certa vez aplicado a “baiano” ou que aqui no Rio Grande do Sul cansei de escutar como “nordestino” — idiotas de qualquer região sempre acham que o problema é o outro, que a diferença do outro os torna de algum modo inferiores e que essa inferioridade justifica seus próprios pensamentos preconceituosos acéfalos.  “Goiano” ser um termo pejorativo em Brasília, cidade que se empanturra de abuso de poder e corupção até explodir, maior equívoco socio-político do Brasil (e que também já passou de meio século), me pareceu… simbolicamente apropriado. Simbolismo de um Brasil que ainda busca conciliar uma nostalgia de fé e inocências perdidas (e imaginárias) com um Brasil para quem o progresso material a qualquer custo é acenado como panaceia. E a mim pareceu que 50 60 anos depois o Brasil ainda não passou da fase de fazer essas duas matrizes, a fé e a ambição, de alguma forma conviverem, quanto mais funcionarem juntas (algumas correntes evangélicas conseguem uni-las para seus propósitos, a fé e a ambição material, mas delas é melhor nem falar).

Sei lá. Pode ser um otimismo bobo achar que algo aponta um caminho melhor porque dura 50 anos – num país ainda em formação como o nosso é muito, muito tempo.

Mas por algum motivo que eu não consigo expressar, eu acho.