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Rascunhos da literatura nacional

14 de abril de 2011 1

Há uma década, um grupo de abnegados jornalistas radicados no Paraná mantém o Rascunho, jornal mensal cujo assunto é exclusivamente literatura, com foco em ficção inédita, resenhas de fôlego e longas e abrangentes entrevistas.  Algumas dessas últimas foram reunidas em uma antologia que é, ao mesmo tempo, um dos melhores “rascunhos” já traçados sobre o atual panorama literário. As Melhores Entrevistas do Rascunho: Volume 1 (Arquipélago Editorial, 288 páginas, R$ 39) é mais do que um livro de entrevistas, é um vigoroso retrato parcial das linhas de força que cruzam a atual literatura.

Organizado por um dos editores do jornal, Luís Henrique Pellanda, o volume traz longas entrevistas com 15 escritores e intelectuais brasileiros: Altair Martins, Bernardo Carvalho, Cristóvão Tezza, Elvira Vigna, Fausto Wolff, Fernando Monteiro, João Gilberto Noll, João Ubaldo Ribeiro, José Castello, Luiz Ruffato, Mario Sabino, Milton Hatoum, Nelson de Oliveira, Sérgio Sant’Anna e Wilson Martins.  Com exceção dos recentmente falecidos Fausto Wolff e Wilson Martins, todos ainda produzindo no aqui e agora do cenário nacional.  Os bate- papos revelam não só questões pontuais sobre a obra de cada autor, mas reflexões sobre fazer literário, modo de ver a literatura, valores artísticos.  São retratos dos artistas, mas conseguem ser mais: as conversas radiografam também o quanto o autor imprimiu a si mesmo na própria obra (há uns meses comentei sobre esse livro com o escritor Antônio Xerxenesky e ele comentou algo parecido, sobre o quanto o livro permitiu que ele entendesse por que gostava tanto da obra de alguns dos incluídos naquela lista e por que não gostava tanto assim de outros – ele escreveu sobre isso neste post).

O formato livro também permite uma leitura muito mais “dialógica”. Ler as entrevistas ordenadas, uma na sequência da outra, com a memória ainda fresca da leitura da anterios, permite que o leitor monte por si próprio os pontos de contato e atrito entre a visão dos produtores da atual literatura, promovendo conexões insuspeitas que a publicação mensal, uma por vez, talvez não deixasse perceber. É um livro que mapeia com argúcia o” momento literário” – para usar o nome do conjunto de entrevistas que João do Rio fez para mapear a literatura da primeira década do século 20.

Peguemos como exemplo a entrevista concedida por Fausto Wolff ao também escritor Luíz Horácio. A determinada altura, Wolff, ao comentar seu engajamento social, afirma:

Você precisa entender como eu vejo a realidade. Vejo a realidade como uma distorção da verdade. A realidade é sempre a do mais forte. É como a História. Cabe ao poeta, cabe ao jornalista, cabe ao historiador colocá-la em seu devido lugar.” (página 89)

Essa declaração imediatamente volta à cabeça quando, em outro contexto, algumas páginas adiante, João Gilberto Noll declara para seu entrevistador José Castello, a respeito de seu então recém lançado Berkeley em Bellágio:

Estou mais realista nesse livro, mas uma coisa não exclui a  outra. É uma questão também de discutir a linguagem, onde a linguagem se encontra nesse momento. A gente não sabe mais como dar conta de um mundo ou da nossa experiência através da linguagem.  [...] Então, só na experiência palpável é que se pode ter o conhecimento do mundo, e a linguagem é que se pode ter o conhecimento do mundo, e a linguagem é para esconder realmente a coisa em si“. (pp. 123-124)

Algumas linhas adiante, o mesmo Noll afirma, como sabe quem já leu seus livros:

O que me move é a linguagem. Não são situações, não são enredos. Não me pergunte sobre o que será meu próximo livro, não tenho a menor ideia. O que me move realmente é a atividade da escrita.” (página 124)

Mote que ecoa no que dizem o pernambucano Fernando Monteiro

a gente escreve sobre o que não sabe exatamente para ficar sabendo. Basta pensar no prazer que existe nisso, mesmo para um romancista que trabalhe com rígidos esquemas. Ainda assim, acredito que ele obtém seu maior prazer naquelas zonas de sombra onde nunca sabemos o que vai acontecer com as personagens, por exemplo. Elas se desenvolvem e, se são verdadeiras, escapam ao nosso controle , exatamente ali onde é mais misterioso o prazer (meio maldito) do ato de escrever” (pp. 113-114)

… e a carioca Elvira Vigna, ao responder sobre  que tipo de literatura não lhe interessa:

As de enredo. Acho um saco saber ‘o que aconteceu’. Gosto de conhecer gente, gosto quando são as pessoas descritas que levam até a ação, e não o contrário.” (página 79)

José Castello, desta vez como entrevistado, autor do romance Fantasma, e não como entrevistador, dirá algo semelhante em entrevista de 2002:

Louis-Ferdinand Céline (1894 — 1961), um escritor que admiro muito, dizia que, enquanto a sociedade espera do escritor grandes rupturas, novidades, choques, ele é capaz de lhe oferecer, ao longo de toda uma vida de dedicação, se tiver empenho e liberdade interior, nada mais que duas ou três pequenas coisas novas. Para Céline, o que importa não é a novidade, nem o enredo, mas a música — aquela tonalidade particular que um escritor atinge e que o distingue de todos os outros. Creio que ele tinha razão” (pp. 171-172)

A tentação de fazer paralelism0s e afastamentos como esses é grande ao longo de toda a leitura, proporcionando o prazer de um confronto de ideias entre os autores que fazem a atual literatura. Como toda peça jornalística, no entanto, algumas entrevistas são reféns do tempo, mostrando um retrato que, embora detalhista, já se encontra defasado pelo correr dos acontecimentos. A conversa com Altair Martins, por exemplo, é de 2008, quando o romance A Parede no Escuro recém havia saído e, nas palavras do autor, sido recebido com um ” silêncio aterrador”. A entrevista foi feita por Márcio Renato dos Santos antes de a obra receber o Prêmio São Paulo e angariar atenção da mídia do centro do país. Assim como Cristóvão Tezza, entrevistado por Marco Vasques, ainda não era o fenômeno de público e crítica na esteira de O Filho Eterno, mas o escritor de grande reputação crítica e vendagem modesta que apenas planejava O Fotógrafo.

Provando que qualquer tentativa de fixação do momento literário será sempre rascunho.

Comentários (1)

  • Mundo Livro » Arquivo » Cony, cães, máquinas de escrever e navios diz: 28 de agosto de 2012

    [...] em 2010, é um dos mais saborosos livros de entrevistas sobre literatura disponíveis no pedaço (leia resenha aqui), com autores relevantes da produção contemporânea discorrendo sobre suas motivações para [...]

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