A vida de Maupassant teve um final triste; antes de completar trinta anos, já era sifilítico. Quando estava com trinta e nove anos, a doença já lhe afetara o cérebro, e o escritor terminou seus dias em um manicômio, depois de haver tentado o suicídio. A história de horror mais terrível de sua autoria, o Horla, apresenta uma complexa relação com a enfermidade do autor, e com as consequências da mesma. Talvez o anônimo protagonista do livro seja um sifilítico, à beira da loucura, embora nada na narrativa de Maupassant autorize, diretamente, tal inferência. Narrada em primeira pessoa, O Horla apresenta-nos mais dados do que somos capazes de interpretar, uma vez que não entendemos bem o narrador, não sabemos se podemos confiar em suas impressões, das quais recebemos poucas abonações (ou mesmo nenhuma).
O trecho acima é de Harold Bloom, em sua obra Como e Por que Ler, analisando O Horla, uma das obras-primas do conto, urdida por um dos mestres da forma, o francês Guy de Maupassant. A história está no livro que a editora porto-alegrense Artes e Ofícios lança hoje às 17h na Palavraria (Vasco da Gama) como parte da programação para comemorar seus 20 anos de atividade. Guy de Maupassant: A Horla, A Cabeleira, A Mão, O Colar (112 páginas, R$ 27) apresenta quatro contos clássicos de Maupassant (1850 — 1893), com organização de Paola Felts Amaro e Adriane Sander.
Maupassant foi um dos primeiros escritores a perceber que os melhores contos eram os mais concisos, e que nem sempre um enredo linear é o mais eficiente em termos de impacto no leitor. Assumindo o ponto de vista do leitor, Maupassant, em uma linguagem correta e sóbria, mas sem a exuberância de seu mestre Flaubert, burilou seus enredos e tornou modelo o conto sem ornamentos, com uma história confinada em limites estritos que provocariam um efeito intenso de miniaturização da vida — nesse sentido, Maupassant tinha muito a ver com outro mestre da narrativa curta, Edgar Allan Poe, e sua teoria de que um conto deveria provocar no leitor uma "unidade de efeito". Desconheço particularmente se Maupassant deixou por escrito alguma consideração sobre a obra de Poe, mas ele poderia ter tido contato com a obra do americano (Poe, que morreu um ano antes de Maupassant nascer, teve contos traduzidos para o francês por Baudelaire ainda em 1848, portanto seria possível que Maupassant o tivesse lido).
Maupassant morreu demente aos 43 anos, destruído pela sífilis, como vimos no trecho acima. E apesar da vida relativamente breve, espanta sua produção extensa e de altíssima qualidade. Talvez o caso de Maupassant seja ainda mais assombroso porque discípulo de Flaubert, herdou dele a obsessão pela revisão incansável dos próprios textos, e só foi se considerar um " escritor profissional" depois dos 30 anos. Em uma década, portanto, mesmo revisando seus escritos com a obsessão de um ourives, Maupassant produziu seis romances, três centenas de contos e um número quase igual de crônicas na imprensa.
Nesse conjunto, O Horla é uma pequena gema. Narra, em primeira pessoa e em forma de diário, o progressivo enlouquecimento de um gentil-homem normando que certo dia, da varanda de sua casa, em frente ao rio, vê passar um veleiro com bandeira do Brasil (é sério). Por brincadeira, o protagonista decide fazer uma saudação ao navio, tomado pela alegria da bela manhã, e com isso atrai para junto de si uma criatura obsessiva e invisível que começa a atormentá-lo durante o sono e a encher seu peito de uma angústia inexplicável. O ser sobrenatural, chamado O Horla, é uma criatura mística brasileira (cuma?) que, assemelhando-se a um vampiro, suga progressivamente a vitalidade daqueles que ataca. A espiral ascendente de insanidade em que o narrador mergulha termina com horror e tragédia.
As tradutoras da nova versão de O Horla incluída no livro da Artes e Ofícios estarão na Palavraria hoje para discutir os desafios da tradução. O que me pareceu um belíssimo pretexto para retomar nossa série de comparação entre traduções, comparando diferentes versões do conto publicadas no Brasil. Vamos começar com um trecho traduzido por Gustavo Feix com a supervisão de Paola Felts Amaro (logo do início do conto porque não queremos antecipar o final para quem ainda não leu a história):
12 de maio
Há alguns dias, tenho um pouco de febre e me sinto indisposto; na verdade, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em abatimento nossa felicidade e nossa confiança em aflição? Seria possível dizer que o ar, o ar invisível, está repleto de Forças Ocultas, cuja proximidade misteriosa suportamos? Acordo cheio de alegria, com uma vontade de cantar trancada na garganta. Por quê? Desço até a margem do rio e, de repente, depois de uma caminhada leve, volto desolado, como se algum infortúnio estivesse me esperando em casa. Por quê: Seria um arrepio frio que, deslizando por minha pele, teria deixado meus nervos em frangalhos e entristecido minha alma? Seria a forma das nuvens, ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, que, passando pelos meus olhos, teria confundido meus pensamentos? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem conhecer, tudo o que pegamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e através deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos rápidos, surpreendentes e inexplicáveis.
Agora, vamos dar uma olhada na tradução de Léo Schlafman para a coletânea As Grandes Paixões: contos de Guy de Maupassant, da Editora Record, publicada em 2005. As Grandes Paixões traz 23 histórias divididas em quatro seções temáticas: As pequenas manobras, Por trás da máscara, A loucura e a alienação e, por último, As libertinas ingênuas. A editora não se preocupa em apresentar, no volume, uma mínima biografia do tradutor (também responsável pela seleção e por um ensaio que abre o volume), por isso informo eu aqui: Schlafman é jornalista, tradutor e ensaísta, autor de A Verdade e a mentira, livro de ensaios publicado pela Civilização Brasileira. Na seção que Schlafman denominou A Loucura e a Alienação, é óbvio, está incluído o Horla — não em uma, mas em duas versões, uma primeira redação, sem data, e a versão considerada definitiva, de 1887. Embora o enredo básico fale de uma criatura que pula do barco para a vida do narrador, a estrutura é completamente outra: na versão primitiva a história não é narrada em forma de diário, e sim de depoimento, pois o narrador está preso em um manicômio quando o conto começa e relata seu caso a um grupo de alienistas, algo que foi eliminado na segunda versão, melhor e mais longa. O trecho que escolhemos não estava lá na primeira versão, então vamos com a tradução de Schlafman para a considerada definitiva:
12 de maio
Há alguns dias tenho andado com febre. Sinto-me doente, ou melhor, triste.
De onde vêm estas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desânimo e nossa confiança em angústia? Parece que o ar, o ar invisível, está cheio de Forças desconhecidas de que sentimos a vizinhança misteriosa. Acordo cheio de alegria, com vontade de cantar — Por quê? — Desço até a beira da água e, súbito, depois de curto passeio, volto para casa desolado, como se alguma infelicidade me aguardasse. — Por quê — Algum um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e tornou minha alma sombria? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e por intermédio deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis.
Vocês podem ver que o trecho, embora conserve a estrutura, traz algumas diferenças importantes, como a própria supressão de duas frases constantes da primeira tradução: "a cor das coisas" e "tudo o que tocamos sem conhecer" — esta última fundida com o elemento seguinte. O ritmo escolhido pelo tradutor é também mais conciso, o que resulta em um trecho um pouco mais curto que o primeiro. Vamos dar uma olhada, agora, na tradução de Amilcar Bettega para o mesmo trecho, incluído na coletânea 125 Contos de Guy de Maupassant, naquela coleção da Companhia de volumões trazendo compilações extensas de contos por autor (Truman Capote, Scott Fitzgerald, Rubem Fonseca, entre outros) ou tema (Contos de Horror do Século XIX, Contos de Fadas, Contos de Amor do século XIX, por exemplo). Este volume também inclui a primeira versão de O Horla:
12 de maio
Faz alguns dias que tenho um pouco de febre; sinto-me indisposto, ou melhor, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desalento e nossa confiança em aflição? Diria que o ar, o ar invisível está repleto de Potências incognoscíveis, a cuja vizinhança misteriosa somos submetidos. Acordo cheio de alegria, com vontade de cantar. Por quê? Desço o longo da margem do rio e de repente, após um curto passeio, retorno angustiado, como se alguma desgraça me esperasse em casa. Por quê? Será um arrepio de frio que, roçando minha pele, abalou meus nervos e entristeceu minha alma? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou-me o pensamento? Sabe lá! Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, o que tocamos sem apalpar, o que encontramos sem distinguir, terá tudo isso sobre nós, sobre nossos órgãos e, por meio deles, sobre nossas ideias e mesmo sobre nosso coração, efeitos repentinos, surpreendentes e inexplicáveis?
Nota-se já nesta terceira comparação que os tradutores dos três textos transformam afirmações em interrogações e escolhem o passado do verbo ser na sequência de perguntas "será um arrepio" de acordo com seu melhor juízo sobre o ritmo e a propriedade do que querem para a tradução. O tom escolhido por Amilcar parece tão ágil quanto os demais, mas aquele "Potências incognoscíveis" de algum modo me soa estranho. Impressão pessoal, não técnica. Vamos agora dar um olhada na tradução incluída no volume Bola de Sebo e Outros Contos, reunião de 14 histórias em uma edição barata em papel-jornal publicada na coleção Clássicos Globo, de 1987 (quando a Globo já não era mais a Editora Livraria do Globo, de Porto Alegre, e seu catálogo havia sido adquirido pela empresa jornalística Globo do Rio). A tradução é de Mario Quintana (no volume que tenho, Casemiro Fernandes e Justino Martins aparecem identificados como tradutores no fim de alguns contos, levando à conclusão de que Quintana é o tradutor dos demais que não trazem o nome do responsável no fim (provavelmente as histórias traduzidas pelos outros dois foram acrescentadas para "engordar" nos anos 1980 o volume original traduzido por Quintana pelo menos duas ou três décadas antes, na época em que a Globo ainda era a “Globo da Rua da Praia”). Vejamos:
12 de maio
Há alguns dias que ando com um pouco de febre: sinto-me doente, ou antes, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo o nosso bem-estar, e a nossa confiança em desespero? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de Potências Incognoscíveis, de cuja misteriosa vizinhança nós sofremos a influência? Desperto cheio de alegria, com desejos de cantar. — Por quê? Desço até a margem do rio; e, súbito, após um curto passeio, regresso desolado, como se alguma desgraça me esperasse em minha casa. — Por quê: — Foi um frêmito de frio que tangenciando minha pele desequilibrou meus nervos e ensombreceu minha alma? Foi a forma das nuvens, ou a cor da atmosfera, a cor das coisas, tão variável, que, passando por meus olhos perturbou meu pensamento? Pode-se lá saber? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem palpar, tudo o que encontramos sem distinguir, causa em nós, em nossos órgãos e, por meio destes, em nossas idéias, em nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis.
Com mais uma tradução no cotejo (adoro essa palavra) fica mais fácil explicar a sensação que tive com o "potências incognoscíveis" escolhido por Amilcar. É uma opção que não me causa estranheza nenhuma nesse trecho de Quintana, com uma dicção mais formal, com um certo sabor do seu tempo (é a única a se valer de uma mesóclise, por exemplo, e a única a chamar "arrepio" de "frêmito"). Já na de Amilcar, que de modo geral aproxima mais a linguagem de seu leitor de hoje, parece deslocado. Vamos para mais uma tradução, então, de Celina Portocarrero para a coletânea Os Melhores Contos Fantásticos, organizada por Flávio Moreira da Costa para a Nova Fronteira em 2006 para a coleção de antologias temáticas "escolha de mestre". O interessante é que no ano seguinte, 2007, quando publicou a coletânea Os Melhores Contos de Loucura, Moreira da Costa publicou no volume o texto Um Louco, de Maupassant, e a primeira versão d'O Horla, para não repetir a que já havia saído na coletânea anterior.
12 de maio
Estou com um pouco de febre há alguns dias; sinto-me adoentado, ou talvez me sinta triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo nossa felicidade e nossa confiança em angústia? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de forças desconhecidas,cuja misteriosa proximidade nos afeta. Acordo cheio de alegria, com vontades de cantar em minha garganta — Por quê? — Desço o curso da água e de repente, depois de um curto passeio, volto desolado, como se alguma infelicidade me aguardasse em casa. — Por quê — Algum um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e tornou minha alma sombria? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e por intermédio deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis.
Não deixo de notar que só agora, nessa versão, voltou um elemento cujo sumiço havia me intrigado lá no início. Na tradução de Gustavo Feix para a Artes e Ofícios, o narrador diz que acorda cheio de alegria e "com uma vontade de cantar trancada na garganta" — e essa menção à garganta é sistematicamente limada nos trechos posteriores até chegarmos a este. Quem sabe ler francês pode conferir que a menção à "garganta" está no original, como se comprova na transcrição abaixo do mesmo trecho no original francês, então não sei a razão pela qual os demais tradutores resolveram, se me permitem o trocadalho, cortar a garganta do personagem:
12 mai.
J’ai un peu de fièvre depuis quelques jours; je me sens souffrant, ou plutôt je me sens triste.
D’où viennent ces influences mystérieuses qui changent en découragement notre bonheur et notre confiance en détresse? On dirait que l’air, l’air invisible est plein d’inconnaissables Puissances, dont nous subissons les voisinages mystérieux. Je m’éveille plein de gaieté, avec des envies de chanter dans la gorge. – Pourquoi? – Je descends le long de l’eau; et soudain, après une courte promenade, jê rentre désolé, comme si quelque malheur m’attendait chez moi. – Pourquoi? – Est-ce un frisson de froid qui, frôlant ma peau, a ébranlé mes nerfs et assombri mon âme? Est-ce la forme des nuages, ou la couleur du jour, la couleur des choses, si variable, qui, passant par mes yeux, a troublé ma pensée? Saiton? Tout ce qui nous entoure, tout ce que nous voyons sans le regarder, tout ce que nous frôlons sans le connaître, tout ce que nous touchons sans Le palper, tout ce que nous rencontrons sans Le distinguer, a sur nous, sur nos organes et, par eux, sur nos idées, sur notre coeur lui-même, des effets rapides, surprenants et inexplicables.
Em tempo: pelo que eu me lembre, acho que ainda há pelo menos duas outras versões desse conto. Uma delas está com certeza em um volume chamado Contos Fantásticos: O Horla e Outras Histórias, da L&PM, e a segunda é provável que esteja em Contos Aterrorizantes, da coleção Leitura Jovem da Leitura XXI, mas eu não tenho exemplares de nenhum dos dois para transcrever aqui, então se encontrar,volto e atualizo este post.
Em tempo 2: Havia me equivocado na primeira redação deste texto quanto ao crédito da tradução da edição mais recente, da Artes & Ofícios. O tradutor, como agora está ali corrigido, é Gustavo Feix. Paola Felts Amaro foi a supervisora da tradução.



















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