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Posts de abril 2011

O horror de Maupassant em tradução

30 de abril de 2011 0

A vida de Maupassant teve um final triste; antes de completar trinta anos, já era sifilítico. Quando estava com trinta e nove anos, a doença já lhe afetara o cérebro, e o escritor terminou seus dias em um manicômio, depois de haver tentado o suicídio. A história de horror mais terrível de sua autoria, o Horla, apresenta uma complexa relação com a enfermidade do autor, e com as consequências da mesma. Talvez o anônimo protagonista do livro seja um sifilítico, à beira da loucura, embora nada na narrativa de Maupassant autorize, diretamente, tal inferência. Narrada em primeira pessoa, O Horla apresenta-nos mais dados do que somos capazes de interpretar, uma vez que não entendemos bem o narrador, não sabemos se podemos confiar em suas impressões, das quais recebemos poucas abonações (ou mesmo nenhuma).

O trecho acima é de Harold Bloom, em sua obra Como e Por que Ler, analisando O Horla, uma das obras-primas do conto, urdida por um dos mestres da forma, o francês Guy de Maupassant. A história está no livro que a editora porto-alegrense Artes e Ofícios lança hoje às 17h na Palavraria (Vasco da Gama) como parte da programação para comemorar seus 20 anos de atividade. Guy de Maupassant: A Horla, A Cabeleira, A Mão, O Colar (112 páginas, R$ 27) apresenta quatro contos clássicos de Maupassant (1850 — 1893), com organização de Paola Felts Amaro e Adriane Sander.

Maupassant foi um dos primeiros escritores a perceber que os melhores contos eram os mais concisos, e que nem sempre um enredo linear é o mais eficiente em termos de impacto no leitor. Assumindo o ponto de vista do leitor, Maupassant, em uma linguagem correta e sóbria, mas sem a exuberância de seu mestre Flaubert, burilou seus enredos e tornou modelo o conto sem ornamentos, com uma história confinada em limites estritos que provocariam um efeito intenso de miniaturização da vida — nesse sentido, Maupassant tinha muito a ver com outro mestre da narrativa curta, Edgar Allan Poe, e sua teoria de que um conto deveria provocar no leitor uma “unidade de efeito”. Desconheço particularmente se Maupassant deixou por escrito alguma consideração sobre a obra de Poe, mas ele poderia ter tido contato com a obra do americano (Poe, que morreu um ano antes de Maupassant nascer, teve contos traduzidos para o francês por Baudelaire ainda em 1848, portanto seria possível que Maupassant o tivesse lido).

Maupassant morreu demente aos 43 anos, destruído pela sífilis, como vimos no trecho acima. E apesar da vida relativamente breve, espanta sua produção extensa e de altíssima qualidade.  Talvez o caso de Maupassant seja ainda mais assombroso porque discípulo de Flaubert, herdou dele a obsessão pela revisão incansável dos próprios textos, e só foi se considerar um ” escritor profissional” depois dos 30 anos. Em uma década, portanto, mesmo revisando seus escritos com a obsessão de um ourives, Maupassant produziu seis romances, três centenas de contos e um número quase igual de crônicas na imprensa.

Nesse conjunto, O Horla é uma pequena gema. Narra, em primeira pessoa e em forma de diário, o progressivo enlouquecimento de um gentil-homem normando que certo dia, da varanda de sua casa, em frente ao rio, vê passar um veleiro com bandeira do Brasil (é sério). Por brincadeira, o protagonista decide fazer uma saudação ao navio, tomado pela alegria da bela manhã, e com isso atrai para junto de si uma criatura obsessiva e invisível que começa a atormentá-lo durante o sono e a encher seu peito de uma angústia inexplicável. O ser sobrenatural, chamado O Horla, é uma criatura mística brasileira (cuma?) que, assemelhando-se a um vampiro, suga progressivamente a vitalidade daqueles que ataca. A espiral ascendente de insanidade em que o narrador mergulha termina com horror e tragédia.

As tradutoras da nova versão de O Horla incluída no livro da Artes e Ofícios estarão na Palavraria hoje para discutir os desafios da tradução. O que me pareceu um belíssimo pretexto para retomar nossa série de comparação entre traduções, comparando diferentes versões do conto publicadas no Brasil. Vamos começar com um trecho traduzido por Gustavo Feix com a supervisão de Paola Felts Amaro (logo do início do conto porque não queremos antecipar o final para quem ainda não leu a história):

12 de maio
Há alguns dias, tenho um pouco de febre e me sinto indisposto; na verdade, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em abatimento nossa felicidade e nossa confiança em aflição? Seria possível dizer que o ar, o ar invisível, está repleto de Forças Ocultas, cuja proximidade misteriosa suportamos? Acordo cheio de alegria, com uma vontade de cantar trancada na garganta. Por quê? Desço até a margem do rio e, de repente, depois de uma caminhada leve, volto desolado, como se algum infortúnio estivesse me esperando em casa. Por quê: Seria um arrepio frio que, deslizando por minha pele, teria deixado meus nervos em frangalhos e entristecido minha alma? Seria a forma das nuvens, ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, que, passando pelos meus olhos, teria confundido meus pensamentos? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem conhecer, tudo o que pegamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e através deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos rápidos, surpreendentes e inexplicáveis.

Agora, vamos dar uma olhada na tradução de Léo Schlafman para a coletânea As Grandes Paixões: contos de Guy de Maupassant, da Editora Record, publicada em 2005. As Grandes Paixões traz 23 histórias divididas em quatro seções temáticas: As pequenas manobras, Por trás da máscara, A loucura e a alienação e, por último, As libertinas ingênuas. A editora não se preocupa em apresentar, no volume, uma mínima biografia do tradutor (também responsável pela seleção e por um ensaio que abre o volume), por isso informo eu aqui: Schlafman é jornalista, tradutor e ensaísta, autor de A Verdade e a mentira, livro de ensaios publicado pela Civilização Brasileira. Na seção que Schlafman denominou A Loucura e a Alienação, é óbvio, está incluído o Horla — não em uma, mas em duas versões, uma primeira redação, sem data, e a versão considerada definitiva, de 1887. Embora o enredo básico fale de uma criatura que pula do barco para a vida do narrador, a estrutura é completamente outra: na versão primitiva  a história não é narrada em forma de diário, e sim de depoimento, pois o narrador está preso em um manicômio quando o conto começa e relata seu caso a um grupo de alienistas, algo que foi eliminado na segunda versão, melhor e mais longa. O trecho que escolhemos não estava lá na primeira versão, então vamos com a tradução de Schlafman para a considerada definitiva:

12 de maio
Há alguns dias tenho andado com febre. Sinto-me doente, ou melhor, triste.
De onde vêm estas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desânimo e nossa confiança em angústia? Parece que o ar, o ar invisível, está cheio de Forças desconhecidas de que sentimos a vizinhança misteriosa. Acordo cheio de alegria, com vontade de cantar — Por quê? — Desço até a beira da água  e, súbito, depois de curto passeio, volto para casa desolado, como se alguma infelicidade me aguardasse. — Por quê — Algum um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e tornou minha alma sombria? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e por intermédio deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis
.

Vocês podem ver que o trecho, embora conserve a estrutura, traz algumas diferenças importantes, como a própria supressão de duas frases constantes da primeira tradução: “a cor das coisas” e “tudo o que tocamos sem conhecer” — esta última fundida com o elemento seguinte. O ritmo escolhido pelo tradutor é também mais conciso, o que resulta em um trecho um pouco mais curto que o primeiro. Vamos dar uma olhada, agora, na tradução de Amilcar Bettega para o mesmo trecho, incluído na coletânea 125 Contos de Guy de Maupassant, naquela coleção da Companhia de volumões trazendo compilações extensas de contos por autor (Truman Capote, Scott Fitzgerald, Rubem Fonseca, entre outros) ou tema (Contos de Horror do Século XIX, Contos de Fadas, Contos de Amor do século XIX, por exemplo). Este volume também inclui a primeira versão de O Horla:

12 de maio
Faz alguns dias que tenho um pouco de febre; sinto-me indisposto, ou melhor, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desalento e nossa confiança em aflição? Diria que o ar, o ar invisível está repleto de Potências incognoscíveis, a cuja vizinhança misteriosa somos submetidos. Acordo cheio de alegria, com vontade de cantar. Por quê? Desço o longo da margem do rio e de repente, após um curto passeio, retorno angustiado, como se alguma desgraça me esperasse em casa. Por quê? Será um arrepio de frio que, roçando minha pele, abalou meus nervos e entristeceu minha alma? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou-me o pensamento? Sabe lá! Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, o que tocamos sem apalpar, o que encontramos sem distinguir, terá tudo isso sobre nós, sobre nossos órgãos e, por meio deles, sobre nossas ideias e mesmo sobre nosso coração, efeitos repentinos, surpreendentes e inexplicáveis?

Nota-se já nesta terceira comparação que os tradutores dos três textos transformam afirmações em interrogações e escolhem o passado do verbo ser na sequência de perguntas “será um arrepio” de acordo com seu melhor juízo sobre o ritmo e a propriedade do que querem para a tradução. O tom escolhido por Amilcar parece tão ágil quanto os demais, mas aquele “Potências incognoscíveis” de algum modo me soa estranho. Impressão pessoal, não técnica. Vamos agora dar um olhada na tradução incluída no volume Bola de Sebo e Outros Contos, reunião de 14 histórias em uma edição barata em papel-jornal publicada na coleção Clássicos Globo, de 1987 (quando a Globo já não era mais a Editora Livraria do Globo, de Porto Alegre, e seu catálogo havia sido adquirido pela empresa jornalística Globo do Rio). A tradução é de Mario Quintana (no volume que tenho, Casemiro Fernandes e Justino Martins aparecem identificados como tradutores no fim de alguns contos, levando à conclusão de que Quintana é o tradutor dos demais que não trazem o nome do responsável no fim (provavelmente as histórias traduzidas pelos outros dois foram acrescentadas para “engordar” nos anos 1980 o volume original traduzido por Quintana pelo menos duas ou três décadas antes, na época em que a Globo ainda era a “Globo da Rua da Praia”). Vejamos:

12 de maio
Há alguns dias que ando com um pouco de febre: sinto-me doente, ou antes, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo o nosso bem-estar, e a nossa confiança em desespero? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de Potências Incognoscíveis, de cuja misteriosa vizinhança nós sofremos a influência? Desperto cheio de alegria, com desejos de cantar. — Por quê? Desço até a margem do rio; e, súbito, após um curto passeio, regresso desolado, como se alguma desgraça me esperasse em minha casa. — Por quê: — Foi um frêmito de frio que tangenciando minha pele desequilibrou meus nervos e ensombreceu minha alma? Foi a forma das nuvens, ou a cor da atmosfera, a cor das coisas, tão variável, que, passando por meus olhos perturbou meu pensamento? Pode-se lá saber? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem palpar, tudo o que encontramos sem distinguir, causa em nós, em nossos órgãos e, por meio destes, em nossas idéias, em nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis.

Com mais uma tradução no cotejo (adoro essa palavra) fica mais fácil explicar a sensação que tive com o “potências incognoscíveis” escolhido por Amilcar. É uma opção que não me causa estranheza nenhuma nesse trecho de Quintana, com uma dicção mais formal, com um certo sabor do seu tempo (é a única a se valer de uma mesóclise, por exemplo, e a única a chamar “arrepio” de “frêmito”). Já na de Amilcar, que de modo geral aproxima mais a linguagem de seu leitor de hoje, parece deslocado. Vamos para mais uma tradução, então,  de Celina Portocarrero para a coletânea Os Melhores Contos Fantásticos, organizada por Flávio Moreira da Costa para a Nova Fronteira em 2006 para a coleção de antologias temáticas “escolha de mestre”. O interessante é que no ano seguinte, 2007, quando publicou a coletânea Os Melhores Contos de Loucura, Moreira da Costa publicou no volume o texto Um Louco, de Maupassant, e a primeira versão d’O Horla, para não repetir a que já havia saído na coletânea anterior.

12 de maio
Estou com um pouco de febre há alguns dias; sinto-me adoentado, ou talvez me sinta triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo nossa felicidade e nossa confiança em angústia? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de forças desconhecidas,cuja misteriosa proximidade nos afeta. Acordo cheio de alegria, com vontades de cantar em minha garganta — Por quê? — Desço o curso da água  e de repente, depois de um curto passeio, volto desolado, como se alguma infelicidade me aguardasse em casa. — Por quê — Algum um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e tornou minha alma sombria? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e por intermédio deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis.

Não deixo de notar que só agora, nessa versão, voltou um elemento cujo sumiço havia me intrigado lá no início. Na tradução de Gustavo Feix para a Artes e Ofícios, o narrador diz que acorda cheio de alegria e “com uma vontade de cantar trancada na garganta” — e essa menção à garganta é sistematicamente limada nos trechos posteriores até chegarmos a este. Quem sabe ler francês pode conferir que a menção à “garganta” está no original, como se comprova na transcrição abaixo do mesmo trecho no original francês, então não sei a razão pela qual os demais tradutores resolveram, se me permitem o trocadalho, cortar a garganta do personagem:

12 mai.
J’ai un peu de fièvre depuis quelques jours; je me sens souffrant, ou plutôt je me sens triste.
D’où viennent ces influences mystérieuses qui changent en découragement notre bonheur et notre confiance en détresse? On dirait que l’air, l’air invisible est plein d’inconnaissables Puissances, dont nous subissons les voisinages mystérieux. Je m’éveille plein de gaieté, avec des envies de chanter dans la gorge. – Pourquoi? – Je descends le long de l’eau; et soudain, après une courte promenade, jê rentre désolé, comme si quelque malheur m’attendait chez moi. – Pourquoi? – Est-ce un frisson de froid qui, frôlant ma peau, a ébranlé mes nerfs et assombri mon âme? Est-ce la forme des nuages, ou la couleur du jour, la couleur des choses, si variable, qui, passant par mes yeux, a troublé ma pensée? Saiton? Tout ce qui nous entoure, tout ce que nous voyons sans le regarder, tout ce que nous frôlons sans le connaître, tout ce que nous touchons sans Le palper, tout ce que nous rencontrons sans Le distinguer, a sur nous, sur nos organes et, par eux, sur nos idées, sur notre coeur lui-même, des effets rapides, surprenants et inexplicables.

Em tempo: pelo que eu me lembre, acho que ainda há pelo menos duas outras versões desse conto. Uma delas está com certeza em um volume chamado Contos Fantásticos: O Horla e Outras Histórias, da L&PM, e a segunda é provável que esteja em Contos Aterrorizantes, da coleção Leitura Jovem da Leitura XXI, mas eu não tenho exemplares de nenhum dos dois para transcrever aqui, então se encontrar,volto e atualizo este post.

Em tempo 2: Havia me equivocado na primeira redação deste texto quanto ao crédito da tradução da edição mais recente, da Artes & Ofícios. O tradutor, como agora está ali corrigido, é Gustavo Feix. Paola Felts Amaro foi a supervisora da tradução.

José Castello abre hoje a FestiPoa

28 de abril de 2011 0

O escritor José Castello - Foto: Joaquim de Carvalho, Divulgação

 

Tenho os 0lhos vazios. Um sopro ergue minha íris. Sou, como se diz, um Sampaku, alguém incapaz de ter uma reação adequada ao perigo e que, por isso, traz os olhos deslocados pelo pavor.
Também Franz Kafka se esquivou da luta contra Hermann, preferindo a mudez. Embora nervosos, seus olhos continuaram fixos, depositados bem no centro das órbitas. Talvez porque em seus escritos ele não parasse de gritar.
Minha íris não toca a parte inferior dos olhos. Ao contrário, ela se ergue — como se batesse asas, lutando pada escapar das pálpebras. Diz-se que os Sampakus habitam um espaço cinzento entre a a vida e a morte. Sempre me senti um pouco separado da existência.
Em situações de risco, congelo: nessas horas, meus olhos se erguem na esperança de não ver.
O que se esquece é que os Sampakus trazem uma ventania interior. Tumulto intenso, que desloca todo o corpo, não só os olhos. Os nervos sacolejam, os músculos esticam, os órgãos balançam e se chocam contra os ossos. Com seus olhos opacos, eles (nós) caminham no grande olhos de um ciclone.
Um dia, em um mercado, uma mulher — com olhos saltados de formiga — deu um nome (outro nome, sempre um abismo) ao que sou: “Você parece um peixe morto.” Estava nervosa porque, por um descuido, atirei o carrinho de compras aos seus pés.
A expressão “peixe morto” me choca, pois evoca um assassinato. Ao usá-la, a mulher me mata um pouco. “Assassina” — mas as palavras não me saem. Uma leve náusea as substitui.
Espanta-me que veja em mim um peixe, que é escorregadio e indecifrável. Peixes, você sabe, pai, morrem pela boca, asfixiados pelas palavras que não conseguem dizer. A boca aberta e os olhos arregalados pelo espanto inútil. Não por horror ao que veem, mas pela grande gosma que levam dentro de si.

A FestiPoa Literária começa hoje com um encontro promissor entre o homenageado desta 4ª edição, João Gilberto Noll, e o crítico e escritor José Castello, às 17h, na livraria Letras & Cia (Osvaldo Aranha, 444, telefone  51 3225-9944). Mais tarde, às 19h30min, no mesmo local, Castello vai lançar seu romance publicado no ano passado, Ribamar (do qual retiramos o trecho acima). Originalmente, o bate-papo seria conduzido pelo poeta Fabrício Carpinejar, mas, devido a um cancelamento de última hora por conta da agenda de Fabrício, este que vos escreve será o responsável pela apresentação de Castello (confira a programação  completa da Festipoa no post anterior).

Ribamar é uma obra ambiciosa na qual Castello, usando como estrutura a partitura musical de uma canção de ninar, entremeia duas narrativas centrais: a de José, escritor tentando resolver os problemas da relação com o pai,  Ribamar, e a do escritor checo Franz Kafka com seu pai Hermann, descrita na visceral Carta ao Pai que Kafka escreveu mas não enviou. Castello se compraz em embaralhar as noções de ficção e realidade, incluindo aí o fato de usar o próprio nome e o de seu pai na trama do romance. Como parte da nossa cobertura do FestiPoa, entrevistamos Castello por telefone.

Zero Hora — O senhor vem a Porto Alegre para uma conversa com João Gilberto Noll, um autor que está em atividade há quase quatro décadas e que, apesar da boa recepção crítica, sempre parece sofrer uma certa incompreensão pela singularidade de sua obra, avessa a classificações, difícil de enquadrar. O senhor concorda?
José Castello —
Eu acho que muito mais do que um autor difícil de enquadrar, o Noll é difícil de suportar, e é por isso que a maior parte dos leitores tem dificuldade com a obra dele. Acho que entre os narradores brasileiros vivos, creio que nenhum deles consegue chegar tão perto do drama contremporâneo quanto o Noll. Os personagens dele caminham sem saber em que direção estão indo, têm esse estado de um pouco de atordoamento, uma mistura de solidão e cegueira, de isolamento, uma coisa que  a gente sente muito no mundo de hoje, apesar de vivermos em um mundo hiperconectado. Mas as pessoas se sentem muito sozinhas nesse excesso de conexões. A contemporaneidade vive um momento de vazio. Vivemos num mundo de excesso de coisas, objetos, mercadorias, bens de consumo, informação, gente, cidades imensas, cheias de carros. O sentimento que define a nossa época é o do vazio. Psicanalistas amigos meus falam que muita gente chega hoje em um consultório sem nada a dizer, diferente da terapia clássica em que as pessoas falvam o tempo todo. Hoje as pessoas de hoje sabem que estão sofrendo  mas não sabem o quê ou por quê.  As síndromes contemporâneas são experiências de perder o centro, e as narrativas do Noll são sobre isso, seus personagens sentem uma fome que nunca se sacia, uma fome que parece não ter objeto de satisfação. Fazem as tentativas mais diversas, sempre fracassando, continuando sempre com a mesma inquietação.

ZH – Nesse sentido é interessante notar que a obra de Noll já tinha esse propósito coerente desde os anos 1980, quando muito do cenário atual não era o mesmo. Muitas das inovações tecnológicas responsáveis pelo excesso de informação não estavam por aí, e o país vivia com a anistia um momento de um certo otimismo. E Noll já apontava esse vazio.
Castello –
Concordo com você, a obra dele tem um caráter profético. Embora eu não acredite em profecias e premonições, não posso deixar de constatar isso. Com o avançar dos anos, a obra está ficando cada vez mais atual.

ZH – Seu romance Ribamar se vale de uma partitura de uma canção de ninar como a própria estrutura com a qual o livro é montado. Como o senhor chegou a essa estrutura?
Castello —
Levei quatro anos trabalhando no Ribamar. Até o terceiro ano, eu te confesso que não sabia que livro estava escrevendo. Eu estava fazendo várias coisas diferentes inspiradas por sonhos. Ora achei que o livro que eu faria era um ensaio sobre Kafka e sua relação com o pai, ora uma fantasia da infância do meu pai, ora eu iria abordar a relação difícil com meu pai. Eu não parava de sonhar, anotar aqueles sonhos, recriar, retrabalhar. Eu estava em um momento em que eu não sabia o que estava acontecendo comigo, confesso que estava um pouco assustado. Cheguei a achar que estava escrevendo vários livros ao mesmo tempo e que eu teria de optar por um deles até que um dia fui visitar a minha mãe. Minha mãe está muito desligada do mundo, fica entregue a longos silêncios. Eu me sentei ao lado dela e ela começou a cantarolar uma música. Eu perguntei que música era aquela. Ela me contou que era uma canção de ninar que o meu pai cantava para mim, que por sua vez o pai dele cantava para ele, e o meu bisavô cantava para o meu avô, era uma herança familiar. Eu anotei a música e decorei a melodia, e passei ambas por telefone para o meu irmão Marcos, que tem formação musical, e e ele transcreveu a partitura a música em uma partitura para mim. O fato de minha mãe cantar aquela música naquele momento foi muito simbólico para mim, porque eu não conversava com ela sobre as dificuldades do livro, e sessenta anos depois de o meu pai começar a cantá-la, essa música voltava para mim. Eu pensei: tenho de fazer alguma coisa com isso, não é à toa que isso surgiu para mim agora. E cantarolando a música, eu vi nas diferenças entre as notas as diferenças entre os temas que eu estava tratando. A nota Sol refere-se à viagem que eu fiz a Parnaíba atrás de coisas do meu pai, que nasceu por lá. Descobri sem querer que estava trabalhando numa forma musical, estava lidando com várias melodias ao mesmo tempo, e a maneira de unificá-las foi aquela partitura.

ZH – No livro, o personagem tem seu nome, algumas das suas características, o personagem do pai tem o nome de seu pai. Recentemente, em uma conversa com o escritor Michel Laub, ele comentou que está em uma fase de aceitação do fato de que ao usar retalhos selecionados de sua biografia em seu romances o leitor vai tomar aquela história como algo que de fato aconteceu na biografia do autor. E o senhor, como se sente com isso
Castello –
Gosto muito de uma ideia do Juan José Saer. A gente normalmente tem a ideia de que a ficção é pura imaginação — isso é inclusive um problema em oficinas literárias, porque os alunos têm a ideia de que é só inventar qualquer coisa que passe pela cabeça. O Saer dizia que a ficção, ao contrário, é uma escrita de fronteira, ela tem sempre um pé na realidade, é  uma reconstrução, um alargamento, uma expansão da realidade. Você está falsificando a partir do real, e não contra o real. Não é a partir do nada que você escreve, você trabalha com elementos que estão à sua frente. Claro, você pode imaginar que há coisas no meu livro que são biográficas pelo fato de o protagonista se chamar José, que é meu nome, e o pai se chamar Ribamar, como o meu pai, José Ribamar, mas qualquer elemento que entre ali no livro é retrabalhado, o meu compromisso é com a invenção. Parti do Kafka e da relação dele com o pai para falar da minha relação com o meu pai. Quando fui a Parnaíba, não fui lá como um repórter para anotar detalhes por detalhes. A Parnaíba que está no romance eu em grande parte inventei. Eu fui a Parnaíba para melhor inventá-la.

ZH – O senhor também cruza a ficção com A Carta ao Pai, de Kafka, que é um dos textos paradigmáticos dessa relação com o pai que está em praticamente toda a grande literatura. Misturar Kafka e o contraponto de sua relação com o pai na história é sua forma de dizer algo novo sobre esse tema tão presente?
Castello —
O Kafka também surgiu através de um acaso. Eu usei esse método: durante os quatro anos que eu trabalhei no livro, tudo o que me acontecia e que tinha a ver com o livro, voltava para o livro. Eu conto no livro a história de que volta às mãos do narrador um exemplar d’A Carta ao Pai que ele havia presenteado ao seu próprio pai trinta anos antes. Essa história de fato aconteceu comigo, e quando o livro que eu dera ao meu pai voltou à minha mão, me obriguei a  pensar: o que faço com a história desse livro? Só poderia ser outro livro. A volta às minhas mãos da Carta ao Pai foi o que me fez decidir a escrever o Ribamar. Trabalhei o tempo todo com o acaso, com coisas que me aconteceram durante o processo do livro, eu incluí no livro o próprio processo do livro para poder chegar a uma obra verdadeira. Porque para mim a literatura não é só ofício, é um ato antes de tudo, é algo que você vive e sobre o qual você produz uma escrita. A escrita é o resto do que você vive enquanto está escrevendo o livro. O livro resulta daquilo que você viveu. Hoje há uma ideia muito arraigada de que a literatura é procedimento, é entretenimento, os alunos de oficinas literárias estão à procura de técnica e carpintarias. E a literatura não é algo que se faz por fazer, é algo que ou você se joga na aventura ou não se joga, não tem receita de bolo. Cada livro é uma aventura pessoal, uma travessia única que você faz. É claro que por isso esse livro me modificou como pessoa.

ZH – Há, no entanto, ali, a verdade íntima de um autor que busca reinventar sua relação com o pai, mesmo que não seja biográfica. Mas em algum momento o nível de exposição lhe incomodou?
Castello –
Você tem razão. Embora o livro não seja um livro de memórias, uma autobiografia ou nada parecido, apesar disso, ele é baseado em coisas muito pessoais, como nas ficções do Noll, para voltarmos à pergunta do início. Se você for ler lá os livros dele, Harmada, Lorde, a pergunta aflora: aquilo aconteceu com o Noll? Você percebe, lendo o Noll, que ele empenhou naquilo sentimentos viscerais. Ele não escreve por divertimento, para fazer estilo, para escrever bem, para ganhar prêmios, ele escreve porque tem de escrever. Você lê  O Coração das Trevas, não importa se o Conrad em sua vida de marujo subiu o Congo. O que importa é que ali estão vivências muito fortes que o Conrad empenhou naquela escrita. Se você escreve para valer, você empenha algo de você na sua escrita. Isso não significa que o meu livro seja bom ou ruim, mas que eu empenhei muito de mim nele. E para mim a literatura é esse empenho. Se não, você esta fazendo gênero.

Veja a programação completa da Festipoa Literária

27 de abril de 2011 1

Começa a partir desta quinta-feira a Festipoa Literária, uma festa literária que, até o dia 8 de maio, vai mergulhar Porto Alegre na literatura. Em sua 4ª edição, com o escritor João Gilberto Noll como homenageado, a festa literária enfileira uma extensa programação com entrada franca que coloca a literatura no centro da esfera pública: debates, palestras, performances, leituras, intervenções, exposições, sessões de autógrafos e pura festa. Se os senhores já leem este blog há algum tempo, talvez lembrem que a Festipoa foi o evento que me transformou oficialmente num patife, e é o mesmo que traz todos os anos a Porto Alegre convidados de todo o Brasil, autores e leitores de projeção para uma diálogo com a atual produção contemporânea do Estado. Neste ano, a Festa tem, além de nomes locais da atual literatura, como Daniel Galera, Antônio Xerxenesky e Carol Bensimon, personagens como Antonio Cicero, Nelson de Oliveira, Xico Sá, Carlos Nejar, Paulo Scott e Nicolas Behr. A programação completa pode ser vista abaixo (com, quando foi o caso, um link para um texto já publicado sobre o autor aqui no blog). Mais informações sobre a Festa e os participantes, vá até a página oficial do evento. E não deixe de acompanhar por aqui a nossa cobertura.

QUINTA-FEIRA (28 de abril)
Na Letras & Cia (Osvaldo Aranha, 444, telefone 51 3225-9944)

17h — Abertura: João Gilberto Noll lê trechos de seus livros. Após, José Castello conversa com Noll, escritor homenageado da 4ª edição da FestiPoa Literária
19h — Homenagem ao coletivo Dulcinéia Catadora. Convidados: Lúcia Rosa e Peterson Marques (Dulcinéia)
19h30 — Lançamento de Ribamar, de José Castello.

Na Casa de Teatro (Garibaldi, 853, telefone 51 3029-9292)
21h30 — Festa em homenagem a João Gilberto Noll e ao coletivo Dulcinéia Catadora.

SEXTA-FEIRA (29 de abril)
Na Letras & Cia:
17h30 — Antônio Xerxenesky, Paulo Ribeiro e Nelson de Oliveira participam da mesa Zona de Confronto e Literatura de Invenção.

No Instituto Goethe
19h30 —
Sarau Rebeldes e Aventureiros, com Biblioteca Goethe Institut e Cirandar.

SÁBADO (30 de abril)
Na praça Alexandre Záchia (Em frente ao Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo. Avenida Capivari, 602, bairro Cristal)
Das 09h às 17h - A Volta do Povo à Praça: atividades culturais, saraus, leituras e lançamento do livro Imagens Faladas – uma reportagem fotográfica sobre a memória do bairro Cristal.

Na Letras & Cia
10h30 - Ricardo Silvestrin, Nicolas Behr e Edson Cruz participam da mesa Matéria de Memória e Poesia. Com lançamento do livro Bagaço da Laranja, de Nicolas Behr.
14h30 - Mesa Políticas Públicas para o Escritor, o Livro, a Leitura e a Literatura, com Fabiano Santos (Ministério da Cultura), Jéfferson Assumção (Secretaria de Estado da Cultura) e Ademir Assunção (poeta e editor da revista Coyote)
16h30 - Luíz Horácio conversa com Carlos Nejar sobre sua recente História da Literatura Brasileira. Após, lançamento dos livros História da literatura brasileira e Viventes.
18h54 - A melhor maneira de dizer tudo em 6 minutos: Leitura de Poemas com Diego Grando.
19h - Mesa Poéticas do Conto, com Deonísio da Silva, Charles Kiefer e Miguel Sanches Neto. Na sequência, lançamento de Contos Reunidos, de Deonísio; Então você quer ser escritor?, de Miguel Sanches Neto e Poética do Conto, de Charles Kiefer.

DOMINGO (1º de maio)
Na Palavraria (Vasco da Gama, 165, telefone 51 3268-4260)

15h - Mesa Poesia no Livro, no Palco e na Web, com Horacio Fiebelkorn, Ramon Mello e Ademir Assunção
16h54 – A melhor maneira de dizer tudo em 6 minutos: leitura de poemas com Ramon Mello
17h – Mesa Poesia Hispânica e Brasileira em Traduções e Publicações, com Virna Teixeira, Douglas Diegues e Cristian De Nápoli

No Pé Palito Bar (João Alfredo, 577, telefone 51 3225-7091)
20h - Festa, com lançamentos da coletânea O Melhor da Festa, Volume 3 e de outros livros. Show do Coletivo Avalanche e Entrega do II Prêmio Artistas Gaúchos (criado para reconhecer aqueles que fazem pela arte local. Informações no site www.artistasgauchos.com.br)
Leituras com Ademir Assunção, Horacio Fiebelkorn, Cristian De Nápoli, Douglas Diegues, Lúcia Santos, Virna Teixeira, May Pasquetti e 5XClarice

SEGUNDA-FEIRA (2 de maio)
Na Palavraria
18h30 –
Tailor Diniz, Samir Machado e Paulo Wainberg discutem literatura policial com mediação de Carlos André Moreira
20h – Carol Bensimon e Daniel Galera debatem Cidades inventadas, Cidades que inventamos, com mediação de Flávio Wild

Na Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736, telefone 51 3221-7147)
20h -
Show dos PoETs, com gravação de DVD e abdução de Antonio Cicero. No Teatro Bruno Kiefer

TERÇA-FEIRA (3 de maio)
Na Letras & Cia

18h30 - Mesa Literatura e adaptações, com Paula Mastroberti, Caio Riter e Izaura Cabral. Mediação de Daniel Weller.
19h54 - A melhor maneira de dizer tudo em 6 minutos: Leituras do grupo Nos Lemos
20h — Palestra-entrevista: Um Outro Pastoreio e as Novas Formas Narrativas: Rodrigo dMart e Índio San são entrevistados por Augusto Paim.

Cinebancários (Espaço Cultural Casa dos Bancários, General Câmara, 424, telefone 51 3433-1200)
19h
- Exibição do documentário Malditos Cartunistas, seguido de debate com os cartunistas Fábio Zimbres e Chiquinha e com os diretores do filme, Daniel Paiva e Daniel Juca

Matita Perê Bar (João Alfredo, 626, telefone. 51 3372-4749)
21h – Rubem Penz e Sergio Napp debatem a crônica.

QUARTA-FEIRA (4 de maio)
Na Casa de Cultura Mario Quintana

17h30 – Mesa e abertura da exposição Design da Cultura/Cultura do Design, com Fabriano Rocha, Samir Machado de Machado, Flávio Wild e Vitor Mesquita. Na Galeria Augusto Meyer.
19h - Mesa Literatura nas HQs, com Claudio Levitan, Eloar Guazzelli e Carlos Ferreira. No Quintana’s bar, no Mezanino.
20h30 - Café dos Cataventos: Santa Maria Sempre Chama Para Festa (ou Como e Por que Festejar um Bloomsday no RS). Debate com Aguinaldo Severino, Lu Thomé, Samir Machado e Antonio Xerxenesky.

Na Casa de Teatro
22h - Sarau do Bertoldo em homenagem a Antonio Cicero. Com Bianca Obino, Diego Petrarca, Cris Cubas, Lorenzo Ribas, Andréia Laimer, Ricardo Silvestin e Sidnei Schneider.

QUINTA-FEIRA (5 de maio)
Na Casa de Cultura Mario Quintana:
17h –
Mesa Canção e Letra de canção, com Antonio Cicero, Frank Jorge e Felipe Azevedo. No Auditório Luis Cosme.
18h30 -
Mesa Satolep/São Luís: literatura e música de Zeca Baleiro e Vitor Ramil. Com mediação de Guto Leite. No Auditório Luis Cosme.
20h –
Mostra Artística Cabaré do Verbo: escritores e músicos convidados da FestiPoa Literária. Lançamentos: L’Amore No, de Leonardo Marona, e Poesia sem Pele, de Lau Siqueira. No Quintana’s bar (Mezanino).

SEXTA-FEIRA (6 de maio)
Na Casa de Cultura Mario Quintana
16h30 -
Portuguesia: Apresentação da “contra-antologia” coordenada pelo mineiro Wilmar Silva e pelo português Luís Serguilha. No Auditório Luis Cosme.
17h - Portuguesia: Luis Serguilha provoca o poeta E. de Melo e Castro. Na pauta, intervenções, leitura de poemas e lançamento de Neo-Poemas-Pagãos, de Melo e Castro. No Auditório Luis Cosme.
18h – Portuguesia: Guesas livres, com Sandro Ornellas, Leonardo Marona e Ronald Augusto. No Auditório Luis Cosme
18h30 - Portuguesia: Ronald Augusto provoca seus colegas Reynaldo Bessa, Luis Serguilha, Wilmar Silva. O tema é A Poesia em transe: imaginários de resistência. No Auditório Luis Cosme.

Espaço OX/Ocidente (Osvaldo Aranha, 960, telefone 51 3312-1347)
20h30 às 23h — Sexta Básica: leituras e shows com Lima Trindade, Sandro Ornellas, Telma Scherer, Reynaldo Bessa, Marcelo Sahea, Maria Rezende e CasaMadre

SÁBADO (7 de maio)
No IEL (Instituto Estadual do Livro: Rua André Puente, 318, telefone. 51 3311-7311)

10h30 – Mesa Medula de diálogos: Experiências de linguagem & Imaginários de resistência. Com Sandro Ornellas, Maria Rezende, Telma Scherer e Rodrigo Garcia Lopes.
12h – Guesas livres: Reynaldo Bessa, Marco de Menezes, Maria Rezende e Telma Scherer
14h30 – Lançamento do livro Koa’e, de Luis Serguilha, que dialoga sobre sua obra com Jane Tutikian e Maria Luiza Berwanger
16h - Lançamento da contra-antologia Portuguesia (org. Wilmar Silva)

Na Bamboletras (Bamboletras – Lima e Silva, 776, telefone 51 3227-9930)
15 às 18h – Festinha Cidade Poema
, com Laís Chaffe, Marô Barbieri, Christina Dias, Alexandre Brito, Celso Gutfreind e Sandra Santos

Na Palavraria

16h - Mesa A literatura em Publicações Culturais, com os editores Rogério Pereira (jornal Rascunho), Victor Nechi (revista Norte) e Lima Trindade (revista Verbo21)
18h - Leitura dramática de Pedrarias, de Roberto Medina, com o Grupo Teatral Ninho de Escorpiões

Na Casa de Teatro
20h30 – Mesa Humor Sempre Humor, com Adão Iturrusgarai, Laerte e Xico Sá, seguida de lançamentos dos livros Aline e Antrologia, de Adão; Muchacha, de Laerte; Chadabadabá, de Xico Sá e Ordinário, de Rafael Sica.
23h – Macbar: Drama e Riso: Reginaldo Pujol Filho, Xico Sá, Marcelino Freire, Lu Thomé e Altair Martins fazem leituras improvisadas de Macbeth.

DOMINGO (8 de maio)
Na Palavraria
14h30
- Palestra de E. de Melo e Castro: O Paganismo em Fernando Pessoa e sua Projeção no Mundo Contemporâneo.
16h - Lançamento da revista Coyote e Pocket Show com Rodrigo Garcia Lopes (poeta e editor da revista).
16h26 – A melhor maneira de dizer tudo em 6 minutos: leituras de poemas com Eliana Mara Chiossi.
16h30 - Mesa Música e palavra na boca de poeta: Everton Behenck, Botika e Marcelino Freire.

No Beco (Independência, 936, telefone 51 3026-2126)
19h - Performance sonora NeoNão Poesia Biosonora: Wilmar Silva e Fracesco Napoli
19h30 – Mesa-homenagem a Laerte, com participação de Paulo Scott, Fábio Zimbres, Rafael Sica e Chiquinha.
20h30 - Lançamentos de O Minotauro e o Monstro, de Laerte e Paulo Scott, e de A Agramaticidade das Feridas do Coração, de E. de Melo e Castro, publicações com capas de papelão reciclado do coletivo Dulcinéia Catadora.
21h30 – Festa de encerramento. Com shows de Banda Rocartê, Ronald Augusto Trio e com o espetáculo A Timidez do Monstro, com Paulo Scott, Flu, Mauro Dahmer e convidados.

Carpinejar: o homem do lar

25 de abril de 2011 0

Carpinejar e a esposa Cínthya Verri em sua casa. Foto: Adriana Franciosi, ZH

“O marido mais torturador é o metido a faxineiro. Não vem com o caminhão de mudança, é o caminhão demudança. Aquele que entra em sua casa como namorado e, na primeira semana, promove uma limpeza geral,com o objetivo de recuperá-la dos vícios.Trata-se de um escorpiano ou um dominador.Ou os dois. A disposição é tanta que passa a temer sua intenção de preparar a salada de maionese do churrasco. (…)

Você (…) mal entra na sala, enxerga o piso brilhando, encerado, e bate o pavor: as pilhas de papéis importantes estão guardadas não se sabe onde, quer cortar a unha e a tesourinha desapareceu da mira, o prontuário de receitasrepousa em uma caixinha anônima na lavanderia.(…).E nem pode reclamar,nem pode xingar.Porque os piores atos são feitos para o bem.E isso é um costume do amor.”

Se como poeta de ofício Fabrício Carpinejar já se admitia um fingidor, é em suas crônicas que o autor vem se entregando a uma recriação ficcional metódica de si mesmo. Depois de cantar a doçura de um canalha e fazer o elogio do ciúme, agora Carpinejar se dedica a apresentar-se como um legítimo “homem da casa” no seu livro mais recente, Borralheiro (Bertrand Brasil, 256 páginas, R$ 29), que ele autografa hoje.

Borralheiro segue um projeto que Carpinejar vem pondo em prática em seus livros de crônicas: apesar de escritos e publicados um a cada dia no site que o escritor mantém na internet (www.carpinejar.blogspot.com), quando reunidos em livro os textos seguem uma linha temática, como se cada coletânea contasse uma história. Canalha!, o livro que valeu ao escritor o Jabuti de crônica em 2009, apresentava a visão masculina sobre amor e sexo. Mulher Perdigueira fazia o elogio do amor arrebatado, por vezes possessivo, mas sempre intenso.

Agora, como se levasse o personagem de suas crônicas (ele mesmo) a uma etapa posterior de sua vida, Carpinejar exalta com humor a inversão tradicional de papeis em um casamento: as mulheres lá fora, nas chefias de escritórios, empresas, até na presidência da República. Os homens, cansados do exercício cotidiano do poder, dedicando-se às atividades domésticas. Como o autor escreve na crônica Do Lar, incluída no novo livro:

“O que pretendemos é ser do lar. Não conhecemos nenhuma dona de casa que foi processada; é mais seguro. Já temos prática em lavar carro; aprontar o quarto é moleza.
O que nos atrai neste milênio é preparar o jantar consultando um livro de receitas.”

Como em obras anteriores, Carpinejar faz questão de borrar os limites do que, em sua prosa, é confessional e do que é ficcional. O cotidiano que o escritor inventa nas crônicas do livro é parte invenção, parte decalce de situações vividas no casamento com a médica e escritora Cínthya Verri – sim, no arranjo doméstico é ele quem faxina, estende roupas e lava a louça, enquanto ela troca chuveiros, aparafusa estantes e até conserta o carro. Para criar a narrativa desse cotidiano, Carpinejar não se furta de usar qualquer elemento pessoal:

– As crônicas são minha autobiografia inventada, eu chamo essas crônicas de minhas “conficções”, um misto de confissão e ficção. Às vezes eu estou numa DR com a Cínthya e começo a pensar que aquilo pode render uma crônica– brinca o autor

A partir de maio, Carpinejar assumirá como cronista titular às terças-feiras na página 2 de Zero Hora, espaço antes ocupado por Moacyr Scliar.

– É algo que me emociona muito, porque o Scliar sempre me encontrava em viagens e eventos e me dava recados do meu pai, colega dele na ABL. O Scliar era meu pai em trânsito.

No rastro da imortalidade

25 de abril de 2011 3


A jornalista Rebecca Skloot. Foto: Manda Townsend/Divulgação


Numa parede da minha casa, está pendurada a foto de uma mulher que nunca conheci, o canto direito rasgado e colado com fita adesiva. A mulher encara a câmera e sorri, mãos nos quadris, saia e blazer impecáveis passados a ferro, lábios pintados com batom vermelho-escuro. É o fim da década de 1940, e ela ainda não chegou aos trinta anos. Sua pele marrom-clara é macia, seus olhos ainda jovens e alegres, alheios ao tumor que cresce dentro dela — um tumor que deixará seus cinco filhos órfãos e mudará o futuro da medicina. Sob a foto, uma legenda revela seu nome: “Henrietta Lacks, Helen Lane, ou Helen Larson”.
Ninguém sabe quem tirou a foto, mas ela apareceu centenas de vezes em revistas e compêndios científicos, em blogs e paredes de laboratórios. Ela costuma ser identificada como Helen Lane, mas com frequência não possui nenhum nome. É  simplesmente chamada de HeLa, o codinome dado às primeiras células humanas imortais do mundo — suas células, retiradas do colo de seu útero meses antes de ela morrer.
Seu verdadeiro nome é Henrietta Lacks.

Passei anos contemplando essa foto, indagando que tipo de vida a retratada levava, o que teria acontecido com seus filhos e o que ela acharia de células do colo de seu útero vivendo para sempre — compradas, vendidas, embaladas e expedidas aos trilhões para laboratórios do mundo todo. Tentei imaginar como ela se sentiria se soubesse que suas células subiram nas primeiras missões espaciais, para os cientistas descobrirem o que aconteceria com células humanas em gravidade zero, ou que elas ajudaram em alguns dos avanços mais importantes da medicina: vacina contra pólio, quimioterapia, clonagem, mapeamento de genes, fertilização in vitro. Tenho certeza absoluta de que ela — como a maioria de nós — ficaria chocada se soubesse que há agora trilhões de células suas sendo reproduzidas em laboratórios, muito mais do que o número de células que um dia existiu em seu corpo.

Quando estava na escola, em uma aula de biologia, a hoje jornalista especializada em ciência Rebecca Skloot ouviu falar pela primeira vez das HeLa – uma linhagem de células que foram responsáveis por revolucionar a pesquisa da biomedicina. Cultivadas em um meio de cultura artificial, as HeLa tinham incrível capacidade de reprodução e sobrevivência desde que providas dos nutrientes necessários. Foi então que o professor de biologia que ministrava a aula apresentou um nome: Henrietta Lacks, uma jovem mulher negra de quem as primeiras células haviam sido retiradas em 1951, célulcas que continuavam se reproduzindo sem parar décadas depois. As HeLa haviam ajudado, basicamente, a entender como as células humanas reagiam em praticamente qualquer circunstância, porque podiam ser produzidas de modo barato, se reproduziam em velocidade assombrosa e resistiam ao envio pelo correio a laboratórios distantes. E essa verdadeira fábrica biológica havia nascido de um câncer cervical em uma mulher pobre nos Estados Unidos, uma mulher que morrera sem sequer saber que suas células haviam sido usadas para esse tipo de pesquisa.

A figura de Henrietta Lacks e suas células são os fios condutores para que Rebecca retrate, em A Vida Imortal de Henrietta Lacks (Companhia das Letras), uma ampla história da evolução não apenas das ciências biológicas como das próprias questões éticas que se apresentaram com o desenvolvimento promovidos pelas pesquisas com as células HeLa. Por telefone, entrevistamos Henrietta Lacks Rebecca Skloot sobre seu livro, que aborda biologia, ética, questões raciais e sociais dos Estados Unidos desde os anos 1950. Como a entrevista precisou ser editada devido às limitações da página do jornal impresso, publicamos aqui no blog a conversa na íntegra:

Zero Hora — No início do livro, a senhora conta como tomou conhecimento da existência das células HeLa e de como boa parte das mais importantes pesquisas na biomedicina devia-se a essas células extraídas de uma mulher anônima. Esta história lhe impressionou pelo caráter humano ou por essa história desconhecida e suas implicações éticas?
Rebecca Skloot —
Ambas as coisas. Eu sempre gostei de ciência quando eu era mais jovem. E quando eu tinha 16 anos, na escola, na mesma época em que ouvi falar das células HeLa pela primeira vez em uma aula de biologia, meu pai ficou muito doente, e se voluntariou para um estudo médico para tentar encontrar a cura para a doença, uma enfermidade misteriosa que não se sabia qual era. Eu cresci vendo meu pai ser usado em pesquisas, e pensando sobre a ética de pesquisas com pessoas. A pesquisa que foi feita com ele não era nada parecida com a que foi feita com a família de Henrietta, mas me deixou interessada no assunto. E também parte da minha família é judaica, e parentes meus foram vítimas do Holocausto e morreram em campos de extermínio. Desde bem cedo eu aprendi sobre as experiências que os nazistas realizaram com judeus e fiquei interessada na história das pesquisas. E ao mesmo tempo eu pensei que era importante contar a história daquela mulher, então foi uma combinação de ambas as coisas.

ZH — A senhora mencionou os campos nazistas. Uma das grandes discussões atuais no campo da ciência é sobre a validade de se utilizar determinados dados coletados pelos médicos de campos de concentração em suas experiências com prisioneiros judeus. A senhora vê algum paralelo entre essa questão e a levantada pela história de Henrietta, que gerou uma grande gama de pesquisas a partir de células retiradas sem autorização?
Rebecca —
Acho que são coisas diferentes. Quando as células HeLa foram retiradas de Henrietta nos anos 1950, era uma prática comum retirar amostras de tecidos de pacientes sem consentimento. Não havia parâmetros éticos a serem quebrados quando as primeiras amostras foram coletadas. Mas quando os cientistas voltaram nos anos 1970 para examinar a família de Henrietta e fizeram pesquisas com eles sem consentimento para tentar entender o que tornava as células de Henrietta especiais, era uma época diferente, já havia leis exigindo a autorização. Depende de que época das pesquisas com células HeLa estamos falando. A família Lacks, os filhos de Henrietta, eles ouvem com frequência essa pergunta: “você acha que as pesquisas com as células HeLa deveriam ser interrompidas devido às questões éticas envolvidas na forma como foram obtidas”? E eles acham que não. Eles se sentem muito bem com relação às células, eles acham que a contribuição que elas deram para a humanidade foi muito importante. Mas ao mesmo tempo eles permanecem insatisfeitos com o modo como as coisas foram feitas. Só que ao contrário da discussão sobre se os dados das pesquisas nazistas em judeus devem ser usadas ou mesmo de outras pesquisas feitas nos próprios Estados Unidos, Henrietta não foi morta como resultado das experiências, nem seus parentes sofreram qualquer dano. Nesse sentido, é muito difícil comparar as duas situações.

ZH — No livro, a senhora narra não apenas a evolução das pesquisas HeLa ou a história de Henrietta. Também se transforma em personagem e conta a difícil aproximação até ganhar a confiança da família dela para poder contar a história. Foi essa a parte mais difícil da elaboração do livro?
Rebecca —
Sim, essa foi definitivamente a parte mais difícil da pesquisa para o livro: obter a confiança da família. Eles já haviam confiado em outras pessoas antes, mas quando eu os procurei eles não tinham mais confiança em ninguém. Para eles, eu era apenas mais uma em uma longa lista de pessoas que os procuraram querendo alguma coisa deles. E no passado isso não funcionou muito bem. Então convencê-los e ganhar sua confiança ao ponto de eles se sentirem à vontade para falar comigo demorou anos. Foi a parte mais desafiadora do trabalho. A pesquisa para o livro levou muito tempo. Outro grande desafio foi compilar a história das pesquisas com as células HeLa, o que foi muito difícil. Há um número muito grande de pesquisas feitas com essas células, é um montante gigantesco de informações. Há bancos de dados onde são arquivados artigos científicos, e você pode fazer uma pesquisa por palavras-chave, como faria no Google, e se você for até um desses bancos de dados e pesquisar por “HeLa”, seria o mesmo que pesquisar “E” no Google ou alguma palavra muito comum. Há um aluvião de informações e é muito difícil distinguir o que no meio daquilo é importante mencionar, o que é interessante mas não necessariamente importante, então eu gastei um bom tempo fazendo isso.

ZH — A senhora também conta no livro que seu editor tentou convencê-la a reduzir ou mesmo eliminar a linha narrativa dos filhos de Henrietta. Qual foi o motivo?
Rebecca —
Era outro editor naquela época. Outro dos motivos pelos quais o livro demorou tanto tempo para ser publicado foi que esse editor queria que eu eliminasse completamente a família de Henrietta da história e me focasse apenas nas células. E eu precisei brigar para tirar o livro da editora e levar a obra para outra casa publicadora, o que acabou acontecendo. Acho que é difícil até mesmo imaginar o porquê dessa solicitação, uma vez que as maiores respostas emocionais que os leitores têm oferecido estão ligadas àquelas pessoas, e não à história científica. É na verdade uma história sobre uma família, sobre o que acontece quando você perde uma mãe muito cedo, é uma história sobre seres humanos e os efeitos da ciência sobre eles. E é isso o que as pessoas gostam nessa história, e é o que ajuda as pessoas a entenderem por si mesmas a importância da ciência. Eu acho com muito veemência que todas as histórias científicas deveriam ser entremeadas com as histórias das pessoas envolvidas, mas há algumas pessoas na área de edição de assuntos científicos que acham que o lado humano das histórias não interessa, é apenas o pano de fundo. Mas o público em geral precisa de histórias como essas para entender a ciência.

ZH — Por meio da história de Henrietta a senhora fala da própria evolução não de pesquisas científicas mas dos parâmetros éticos da ciência, além de lançar um olhar sobre a sociedade americana dos anos 1950 e estender o olhar à geração dos filhos da doadora. É um projeto bastante amplo. Em algum momento durante a execução a senhora chegou a ficar apreensiva com a enormidade da tarefa?
Rebecca —
É engraçado, porque esse livro demorou tanto tempo para ser escrito justamente por ser sobre sobre tantas coisas, pela complexidade da história que eu tentei colocar dentro dele. Há questões de medicina, questões raciais e sociais, é sobre tantas coisas diferentes. Enquanto eu escrevia o livro meus pais brincavam comigo perguntanso se eu não podia ter começado com um projeto menor para um primeiro livro. E eu tenho andado tão ocupada desde que o livro saiu nos Estados Unidos, em fevereiro de 2010, e eu tenho viajado, dado entrevistas e conferências, feito sessões de autógrafo, ido a eventos literários sem parar sobre esse livro por mais de um ano. A atividade tem sido tão constante que não tive tempo de parar e olhar para trás. O sentimento que consigo identificar é o alívio por haver acabado, eu tenho trabalho nesse livro desde os 19 anos (hoje ela tem 38), e agora estou contente por as pessoas o estarem lendo e falando sobre ele.

ZH — Sobre o modo que as pessoas têm falado sobre o livro, como foi a recepção na comunidade científica?
Rebecca —
Tem sido muito positiva. Muitas pessoas do chamado grande público achavam que a recepção entre os cientistas não seria boa porque o livro conta algumas histórias com aspectos negativos resultantes da ciência, achavam que os cientistas se sentiriam expostos e que não gostariam que essas histórias fossem contadas. Mas a maioria dos cientistas tem se mostrado satisfeita de o livro ter contado essa história, de as pessoas estarem discutindo ética na ciência e pesquisas sobre células. Nos Estados Unidos e em outros países há um enorme abismo separando as minorias e os cientistas. Há medo das pesquisas, as pessoas não participam de pesquisas, então muitos cientistas estão satisfeitos de o livro estar circulando e dando a oportunidade a eles de falar sobre essa história, como uma forma de superar alguns dos erros cometidos no passado e reparar alguns dos danos provocados. E há milhões de cientistas que estão contentes com a publicação do livro porque há anos trabalhavam em pesquisas com as células HeLa e não sabiam de onde elas haviam vindo, os que sabiam achavam que eram de uma mulher chamada Helen Lane, que é um nome fictício. Uma das coisas que eu tentei com muito afinco foi deixar claro que havia um ser humano atrás daquelas amostras biológicas, mas que os cientistas envolvidos também eram seres humanos, eu tentei contar todos os lados da história para mostrar que os cientistas também estavam bem-intencionados, não eram cientistas malévolos tentando prejudicar aquela família. É uma história sobre a ciência se movendo mais rápido dos que códigos éticos ou as regulamentações governamentais.

Afogando em números

20 de abril de 2011 1

Alex Bellos em Porto Alegre. Foto de Adriana Franciosi/ ZH

Depois de morar anos no Rio de Janeiro como correspondente do jornal The Guardian no Brasil, o jornalista inglês Alex Bellos voltou a seu país natal e tentou, sem muito sucesso, como costuma acontecer com muitos jornalistas, lançar-se em uma vida de empreendedor: “Vendi camisetas de jogadores de futebol brasileiros, comecei um blog, acalentei o plano de importar frutas tropicais”, escreve ele no prefácio de seu livro mais recente. No fim, Bellos protagonizou uma dupla volta ao passado. Nos anos 1990, antes de ingressar no jornalismo, ele havia se formado em filosofia e matemática. Juntando essa formação à experiência de correspondente, e após uma temporada de pesquisas e estudos para retomar contato com a matemática da qual estivera distante nos últimos anos, Bellos, 41 anos, agora apresenta-se no livro Alex no País dos Números como um correspondente no mundo da Matemática.

Alex no País dos Números tem o título original Alex in Numberland, que considero uma forma mais bem-sucedida de remeter ao clássico de Lewis Carroll Alice in Wonderland — até porque a pronúncia inglesa ÁLex remete mais facilmente à de ÁLice no mesmo idioma. Em português, a relação na cabeça do leitor médio pode não ser imediata. A obra é um livro de divulgação científica que honra seu gênero — porque divulga mas não vulgariza. Escrito com a prosa leve e ágil que Bellos desenvolveu em seus anos como jornalista, mas com a familiaridade natural com números que boa parte da profissão não tem, o livro é um passeio curioso pela onipresença da matemática como um sinal evidente da civilização. Bellos começa falando com um linguista francês, ex-aluno de Noam Chomsky, que passa meses por ano no Brasil estudando o idioma de uma tribo mundurucu, que desconhece números acima de cinco — na vida comunal dos indígenas, em que tudo é de todos e todas as crianças são responsabilidade coletiva, não faz sentido contar além dos dedos da mão nem mesmo os próprios filhos.

Bellos é também o autor de Futebol: O Brasil em Campo (Jorge Zahar, 2002), escrito durante seu período de residência no Brasil, e que incluía viagens e grandes deslocamentos atrás dos aspectos mais pitorescos de o quanto a paixão pelo futebol estava entranhada na mentalidade brasileira. Alex no País dos Números vale-se de expediente semelhante. Ao longo dos 12 capítulos do livro — o primeiro é identificado com o número zero, conquista matemática dos indianos que o escritor define como “uma das maiores realizações intelectuais da história da humanidade” —, Bellos viaja não apenas pelo mundo físico (da Alemanha ao Japão, da Índia ao Oklahoma), mas pelas diversas províncias do universo matemático: as análises combinatórias, a aritmética, a álgebra, a geometria, a etnomatemática (o “estudo de como diferentes culturas abordam a matemática”), a estatística.

Bellos esteve ontem em Porto Alegre para um bate-papo no Salão de Atos da UFRGS (Avenida Paulo Gama, 110) como parte de uma das ações paralelas do Fronteiras do Pensamento 2011: o Fronteiras Educação — Diálogos com Professores. Ele conversou comigo e com o editor do Cultura, Luiz Antônio Araújo, um papo de meia hora que precisou ser enxugado para a edição de hoje do jornal, mas que vocês podem ler aqui na íntegra:

Zero Hora — O livro é dividido em 12 capítulos, cada um deles sobre um aspecto que o senhor pretende abordar no mundo da matemática. É uma estrutura que ao mesmo tempo facilita a leitura e torna o livro mais rigoroso. Foi difícil chegar a ela? Como foi o planejamento?
Alex Bellos —
Eu pensava em fazer uma obra explicando tudo o que você precisa aprender na escola sobre matemática até os 16 anos. Na época de redigir a proposta para a editora, eu tinha um sobrinho que, com 18 anos, estava se preparando para exames obrigatórios com uma apostila de estudos que se dividia em quatro seções: Aritmética, Geometria, Álgebra e Estatísticas. Então eu estruturei a proposta copiando diretamente as divisões dessa apostila, mudando os nomes para Números, Formas, Dados e Símbolos. Mandei para a editora, eles gostaram, assinei o contrato. Levei os primeiros dois ou três meses só lendo todos os outros livros sobre a área. E percebi muito rápido que não poderia estruturar meu livro como obra didática. Para ser gostoso de ler, para ser interessante para o leitor, ele precisaria de uma narrativa. Então passei a procurar os assuntos que poderiam render uma boa história, o que implicaria também em viagens geográficas. Eu queria ir à Índia para explicar o zero, que surgiu por lá. Li numa revista que saiu nos anos 1980 sobre dois irmãos que construíram um computador para calcular o Pi em um apartamento nos Estados Unidos, e pensei: quero entrevistar esses dois. Então ao longo do tempo fui viajando, incluindo temas e histórias e cheguei a 10 capítulos _ que terminaram sendo 12, porque dois deles eu dividi ao meio. 

Zero Hora _ Você tem formação universitária em matemática, mas você também é repórter. E seu livro é uma história da matemática contada por um repórter. Como se deu esse trânsito da matemática para o jornalismo?
Bellos —
Foram vários fatores. Na Inglaterra você não precisa cursar faculdade de jornalismo para ser jornalista. Na minha época não existia muito essa coisa de estudar jornalismo. Você vai para a faculdade, estuda o que você quiser, e depois começa a fazer jornalismo escrevendo. Antigamente, quando havia muitos jornais regionais, você aprendia no pequeno jornal da região. Comigo foi assim. Agora estão fechando muitos jornais regionais, então o curso na faculdade está se tornando mais comum. Quando eu era criança era muito bom em matemática. Mas se você é bom em matemática, você não precisa trabalhar muito. Porque ou você entende ou não entende. E se você entende vem muito rápido. Então eu tinha boas notas em matemática, mas trabalhei menos que em outros assuntos. Então o que eu gostava de fazer era com relação a jornal. Eu adorava jornais e revistas, fiz e editei a revista da escola. Quando fui para Oxford, editei o jornal de lá. E a maior parte dos jornalistas que trabalha nos grande jornais nacionais em Londres  estou em Oxford ou Cambridge. Então com esse passado de ter feito o jornal da faculdade, me deu uma confiança de que “se posso fazer na faculdade, posso fazer na vida”. Fui trabalhar em um jornal em Brighton e esqueci da matemática, porque estava fazendo jornalismo o tempo todo. E eu gostava de estudar línguas. Meu pai é professor de francês na faculdade, minha mãe nasceu na Hungria mas é francesa. Sempre ouvi muitos idiomas na minha família. Eu me sinto bem com números e com palavras. Por isso quando me perguntam como eu decidi escrever dessa forma sobre matemática, eu respondo que não saberia escrever de outra forma. Depois de 20 anos de jornalismo, sei que faço muito melhor uma matéria se, ao fazer uma entrevista, eu viajar para lá. Quando eu soube que a Índia inventou o zero, falei: tenho de ir à Índia.

ZH — Sim, em todos os capítulos você narra ao menos uma viagem relativa ao tema que está abordando: Índia, Estados Unidos, Japão…
Bellos —
Sim, tem que ter. É isso que dá um sabor diferente de outros livros sobre matemática. Um matemático e escritor que escreva livros para popularizar a matemática trabalha na própria cabeça. Ele fica em casa e escreve, pesquisa outros livros, mas não sai muito. Como jornalista, você sabe que uma entrevista é muito melhor ao vivo do que por telefone. Só lendo um livro, você não vai fazer. Você tem de ir lá e entrevistar a pessoa,  você pega tantas outras coisas… A questão do zero de novo, na Índia. Você pode dizer: “A Índia inventou o zero.” Mas é muito melhor dizer: “Chego ao templo, o guru desce, veste tal coisa, tem um cherio de não sei o quê, e ele me diz: ‘Aqui inventamos o zero.’” Isso o leitor vai gostar muito mais, é muito mais interessante. Então acho que é uma feliz coincidência ser um jornalista escrevendo sobre matemática. Acho que deu certo. E eu não sabia, ao redigir a proposta, que poderia dar certo. Pensei que o jornalismo e a matemática não fossem se encaixar. Foi muito mais difícil de escrever do que eu pensei, mas acho que consegui esse encaixe, o da história intelectual dos números e minhas viagens físicas para encontrar essas histórias.

ZH — Alguns escritores, como Robert M. Pirsig, em Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas, dizem que o Ocidente separou em determinado momento o pensamento técnico, matemático, do pensamento artístico, linguístico, o que seria a razão pela qual profissionais de humanas teriam dificuldade com os números. Nas suas viagens pelo Oriente você de fato viu um modo diverso, orgânico, de entender essa questão?
Bellos —
Acho que lá é diferente. Quando falei com o guru indiano, ele comentou que acha a matemática é a fonte de tudo. Não é que tem duas fontes, a matemática é uma única fonte para tudo, tudo o que é religioso ou cultural vem da matemática. Quando fui para o Japão, visitei escolas de ábaco. Muita gente todo ano, um milhão de crianças, vai para essas escolinhas para aprender a usar o ábaco. Não é só os nerds ou os cientistas, é muito heterogêneo. Eu fui entrevistar esses meninos, e eles têm escolinha de alguma coisa todo o dia à tarde: um dia é ábaco, outro dia é violino, outro dia é beisebol. Não era uma atitude do tipo: “Eu gosto de matemática, então vou para a escola de ábaco todos os dias e não gosto de esportes.” A matemática era mais um elemento da cultura, normal. Nos Estados Unidos e na Inglaterra a cultura é a de que quem ama matemátiva é o nerd. Eu passei só duas semanas lá e não falo japonês, mas me pareceu que não há essa divisão. O próprio inventor do Sudoku, com quem falei, era um cara óculos estilo John Lennon, cheio de estilo. O cara mais cool que eu vi no Japão era o cara dos números.

ZH — Você fala no livro sobre as interligações entre matemática e religião, principalmente no Islã, que desenvolveu métodos de cálculo precisos pela necessidade de determinar a direção de Meca em qualquer ponto do mundo. Isso pode indicar que haja algum tipo de afeição ou inclinação no Oriente pela matemática do que no Ocidente, onde ela é vista como impenetrável?
Bellos —
Acho difícil dizer isso porque depois do ano Mil, quando os árabes eram os melhores em matemática, a situação mudou. Não sei se se pode dizer isso. Porque onde estão os grandes matemáticos árabes dos últimos 500 anos? Todos os grandes avanços matemáticos contemporâneos vêm de Europa, Estados Unidos, Rússia, Japão. Historicamente a cultura árabe é muito voltada à matemática, mas… talvez… A religião deixou eles fazerem tudo isso porque a geometria ajudava a erguer as mesquitas, mas agora é outra época, e a religião está parando com os estudos. O que liberou o Ocidente foi essa separação entre religião e educação, não apenas na área da matemática.Os árabes eram muito bons até a Renascença e o fim do Império Otomano. E isso se perdeu.

ZH — Seu livro mostra que a matemática têm vários aspectos fascinantes, próprios para despertar o encanto e a admiração, então por que na escola o ensino da ciência muitas vezes passa longe dessa capacidade de fascínio da matemática, por que não se consegue despertar essa admiração e apenas se empurram fórmulas?
Bellos —
Acho que há várias razões. Não sei como é aqui, mas na Inglaterra, a maioria dos professores de nível primário não são formados em matemática. São formados em Pedagogia ou ligados às areas de Humanidades e Artes. Então se até os oito anos você tem uma pessoa que não é apaixonada lhe ensinando, é óbvio que você não vai ficar apaixonado. Isso é um problema, o background dos professores. Em matemática, as pessoas aprendem com velocidades diferentes. É muito difícil ensinar uma aula de matemática porque todo mundo tem nível diferente. Então você tem que ensinar no ritmo médio, e assim as pessoas da linha de cima, que têm facilidade, vão achar a aula chata, devagar. E as da linha de baixo, que têm ritmo mais lento, vão achar tudo muito difícil. É difícil de agradar todo mundo. Você vai construindo o aprendizado aula a aula. Se você ficar doente de cama por duas semanas em casa, quando você volta, perdeu alguns dos tijolos intermediários e não consegue acompanhar. Eu não sou professor, não estudei muito pedagogia, é só minha intuição. Não tenho recomendações de como melhorar, porque muita gente que está trabalhando nisso, não tenho uma pilula mágica para melhor o ensino. No meu caso, eu era bom em matemática, e todo dia tinha teste de aritmética, e tinha uma classificação que colavam na parede da aula. E eu era sempre o primeiro ou o segundo, e eu adorava aquilo. Mas e quem não era? Então essa coisa de fazer testes competitivos é bom para quem é bom, mas não para a maioria que não é tão boa.

ZH — A matemática é o campo do “é como é”. Ou se sabe ou não se sabe. É o reino em que não há espaço para enrolação. Com formação em matemática você de algum modo estranhou viver no Brasil, que se pauta por regras bem menos lógicas e onde muitas vezes vigora o chamado “jeitinho”?
Bellos —
Na verdade você poderia pensar que o matemático está sempre procurando o “jeitinho”. Sempre, porque você quer tornar a coisa mais eficaz. Você tem esse sistema meio burocrático de números e fórmulas e você quer inventar um sistema para burlar tudo isso e chegar a uma resposta mais rápida. Talvez o despachante seja o matemático do Brasil (risos). Porque o que me impressionou aqui foi a burocracia. É uma terra em que as pessoas podem fazer o que quiserem, mas mesmo assim a burocracia é absurda. Eu me lembro que não podia entrar no escritório uma pessoa que estava querendo falar comigo porque estava de bermuda. E isso com 40 graus lá fora, pra que essas regras e leis? Então acho muito criativo esse jeitinho do brasileiro de “burlar a lei”.

ZH — Pensando bem, seu método para escrever este livro sobre matemática é muito semelhante ao usado no seu livro Futebol, o Brasil em Campo: buscar não um grande quadro, mas as grandes histórias.
Bellos —
Concordo. Quando estava pesquisando e escrevendo não pensei que fossem semelhantes, só mais no final do projeto, com um olhar panorâmico, foi que vi as semelhanças. O que eu faço em meus livros? Eu vou a um lugar que as pessoas desconhecem, onde eu falo a língua, e explico. Eu falo português, fui para Manaus, Roraima, Amapá, Pará, e depois traduzi aquilo para quem não fala a língua, o livro foi feito originalmente para o público inglês. Eu também falo a língua matemática, então eu posso ir entrevistar um matemático e meu papel é traduzir o que o ele diz.

ZH — Mas o impacto do livro no Brasil foi grande. Isso o surpreendeu de alguma forma?
Bellos—
Eu tinha muito medo de que não tivesse entendido bem o Brasil. Temia que um brasileiro lesse e dissesse: “ele não entendeu nada, esta é uma abordagem racista”, assim por diante. Mas percebi que há muito poucos livros sobre futebol no Brasil. A maior parte do que é escrito sobre futebol é veiculada nos jornais, e não há nenhum jornal nacional, há apenas jornais regionais, e a abordagem é meio partidária. Para mim tanto fazia o papel de Vasco, Flamengo, perde-se muito das grandes histórias por trás dessas rusgas por times. Até o Ruy Castro, que escreveu a grande biografia do Garrincha, fez questão de aparecer na foto de orelha com uma flâmula do Flamengo ao fundo para não deixar dúvida de que não era botafoguense. Eu acho isso muito interessante, porque até um grande escritor, como ele, cai nessa coisa de meu time é esse, não aquele. É uma coisa que vende jornal, mas para mim não fazia diferença. Eu não tenho time no Brasil. Houve épocas que gostei mais de um ou de outro por causa de uma namorada ou de um determinado jogador, mas não dá para ter um time do coração quando se chega a um lugar com 28 anos. E acho difícil o jornalismo brasileiro abordar o futebol sem tomar partido. Quando se escreve sobre os Gaviões da Fiel, ou você é corintiano e diz: “é a torcida mais legal, melhor do que as outras”, ou você é anticorintiano e afirma: “eles são hooligans brasileiros”. Por isso acho que era necessário o olhar de alguém de fora. Cidade de Deus, melhor filme feito no país sobre o Rio, foi feito por um paulista. O futebol está tão perto do brasileiro, tem tantas ligações com a própria identidade que essa abordagem mais panorâmica, mais fria, de um gringo, talvez dê certo. Eu assino a New Yorker. De três em três meses, tem alguma reportagem muito grande sobre o que está acontecendo na Inglaterra. E eu já sei tudo o que vão dizer ali, mas é legal ler, ver um outro olhar, de outra pessoa, escrevendo sobre você de outra forma.

Rascunhos da literatura nacional

14 de abril de 2011 1

Há uma década, um grupo de abnegados jornalistas radicados no Paraná mantém o Rascunho, jornal mensal cujo assunto é exclusivamente literatura, com foco em ficção inédita, resenhas de fôlego e longas e abrangentes entrevistas.  Algumas dessas últimas foram reunidas em uma antologia que é, ao mesmo tempo, um dos melhores “rascunhos” já traçados sobre o atual panorama literário. As Melhores Entrevistas do Rascunho: Volume 1 (Arquipélago Editorial, 288 páginas, R$ 39) é mais do que um livro de entrevistas, é um vigoroso retrato parcial das linhas de força que cruzam a atual literatura.

Organizado por um dos editores do jornal, Luís Henrique Pellanda, o volume traz longas entrevistas com 15 escritores e intelectuais brasileiros: Altair Martins, Bernardo Carvalho, Cristóvão Tezza, Elvira Vigna, Fausto Wolff, Fernando Monteiro, João Gilberto Noll, João Ubaldo Ribeiro, José Castello, Luiz Ruffato, Mario Sabino, Milton Hatoum, Nelson de Oliveira, Sérgio Sant’Anna e Wilson Martins.  Com exceção dos recentmente falecidos Fausto Wolff e Wilson Martins, todos ainda produzindo no aqui e agora do cenário nacional.  Os bate- papos revelam não só questões pontuais sobre a obra de cada autor, mas reflexões sobre fazer literário, modo de ver a literatura, valores artísticos.  São retratos dos artistas, mas conseguem ser mais: as conversas radiografam também o quanto o autor imprimiu a si mesmo na própria obra (há uns meses comentei sobre esse livro com o escritor Antônio Xerxenesky e ele comentou algo parecido, sobre o quanto o livro permitiu que ele entendesse por que gostava tanto da obra de alguns dos incluídos naquela lista e por que não gostava tanto assim de outros – ele escreveu sobre isso neste post).

O formato livro também permite uma leitura muito mais “dialógica”. Ler as entrevistas ordenadas, uma na sequência da outra, com a memória ainda fresca da leitura da anterios, permite que o leitor monte por si próprio os pontos de contato e atrito entre a visão dos produtores da atual literatura, promovendo conexões insuspeitas que a publicação mensal, uma por vez, talvez não deixasse perceber. É um livro que mapeia com argúcia o” momento literário” – para usar o nome do conjunto de entrevistas que João do Rio fez para mapear a literatura da primeira década do século 20.

Peguemos como exemplo a entrevista concedida por Fausto Wolff ao também escritor Luíz Horácio. A determinada altura, Wolff, ao comentar seu engajamento social, afirma:

Você precisa entender como eu vejo a realidade. Vejo a realidade como uma distorção da verdade. A realidade é sempre a do mais forte. É como a História. Cabe ao poeta, cabe ao jornalista, cabe ao historiador colocá-la em seu devido lugar.” (página 89)

Essa declaração imediatamente volta à cabeça quando, em outro contexto, algumas páginas adiante, João Gilberto Noll declara para seu entrevistador José Castello, a respeito de seu então recém lançado Berkeley em Bellágio:

Estou mais realista nesse livro, mas uma coisa não exclui a  outra. É uma questão também de discutir a linguagem, onde a linguagem se encontra nesse momento. A gente não sabe mais como dar conta de um mundo ou da nossa experiência através da linguagem.  [...] Então, só na experiência palpável é que se pode ter o conhecimento do mundo, e a linguagem é que se pode ter o conhecimento do mundo, e a linguagem é para esconder realmente a coisa em si“. (pp. 123-124)

Algumas linhas adiante, o mesmo Noll afirma, como sabe quem já leu seus livros:

O que me move é a linguagem. Não são situações, não são enredos. Não me pergunte sobre o que será meu próximo livro, não tenho a menor ideia. O que me move realmente é a atividade da escrita.” (página 124)

Mote que ecoa no que dizem o pernambucano Fernando Monteiro

a gente escreve sobre o que não sabe exatamente para ficar sabendo. Basta pensar no prazer que existe nisso, mesmo para um romancista que trabalhe com rígidos esquemas. Ainda assim, acredito que ele obtém seu maior prazer naquelas zonas de sombra onde nunca sabemos o que vai acontecer com as personagens, por exemplo. Elas se desenvolvem e, se são verdadeiras, escapam ao nosso controle , exatamente ali onde é mais misterioso o prazer (meio maldito) do ato de escrever” (pp. 113-114)

… e a carioca Elvira Vigna, ao responder sobre  que tipo de literatura não lhe interessa:

As de enredo. Acho um saco saber ‘o que aconteceu’. Gosto de conhecer gente, gosto quando são as pessoas descritas que levam até a ação, e não o contrário.” (página 79)

José Castello, desta vez como entrevistado, autor do romance Fantasma, e não como entrevistador, dirá algo semelhante em entrevista de 2002:

Louis-Ferdinand Céline (1894 — 1961), um escritor que admiro muito, dizia que, enquanto a sociedade espera do escritor grandes rupturas, novidades, choques, ele é capaz de lhe oferecer, ao longo de toda uma vida de dedicação, se tiver empenho e liberdade interior, nada mais que duas ou três pequenas coisas novas. Para Céline, o que importa não é a novidade, nem o enredo, mas a música — aquela tonalidade particular que um escritor atinge e que o distingue de todos os outros. Creio que ele tinha razão” (pp. 171-172)

A tentação de fazer paralelism0s e afastamentos como esses é grande ao longo de toda a leitura, proporcionando o prazer de um confronto de ideias entre os autores que fazem a atual literatura. Como toda peça jornalística, no entanto, algumas entrevistas são reféns do tempo, mostrando um retrato que, embora detalhista, já se encontra defasado pelo correr dos acontecimentos. A conversa com Altair Martins, por exemplo, é de 2008, quando o romance A Parede no Escuro recém havia saído e, nas palavras do autor, sido recebido com um ” silêncio aterrador”. A entrevista foi feita por Márcio Renato dos Santos antes de a obra receber o Prêmio São Paulo e angariar atenção da mídia do centro do país. Assim como Cristóvão Tezza, entrevistado por Marco Vasques, ainda não era o fenômeno de público e crítica na esteira de O Filho Eterno, mas o escritor de grande reputação crítica e vendagem modesta que apenas planejava O Fotógrafo.

Provando que qualquer tentativa de fixação do momento literário será sempre rascunho.

Quatro reedições bacanas

12 de abril de 2011 2

A Entrevista, de Millôr Fernandes
Reedição em livro de uma extensa entrevista concedida por Millôr Fernandes aos então jovens homens de imprensa Ivan e José Antônio Pinheiro Machado, Paulo Lima, José Onofre e Jorge Polydoro. Os três primeiros fundamentais para a criação da L&PM. José Onofre e Polydoro são até hoje nomes referenciais do jornalismo do Estado.  A conversa de Millôr com o quinteto, realizada em uma noite de 1981, durou sete horas e foi publicada na revista Oitenta, publicação cultural da própria L&PM que marcou época em Porto Alegre lançando ficção inédita, resenhas, entrevistas de grandes autores. Lembro que era uma das coisas que representava um oásis na bilbioteca da Fabico, entre as milhares de obras sobre Teoria da Comunicação. Durante a entrevista,  Millôr fala sobre sua trajetória, sobre a política e o cenário de um Brasil numa era pré- internet e até pré- democracia, uma vez que ainda vigorava a ditadura militar no país.  Ficaria aí uma sugestão para Lima e Ivan Pinheiro Machado, responsáveis pela L& PM e ambos amigos do profeta do Méier: quem sabe o lançamento de um segundo volume do livro com Millôr revendo seus posicionamentos da época e acrescentando considerações sobre o que viu daquela época para cá? L&PM 104 páginas, R$ 22.

Suor, de Jorge Amado
Reedição de um dos primeiros livros de Jorge Amado, escrito em 1934, quando o autor tinha apenas 22 anos e já havia publicado O País do Carnaval ( 1931) e Cacau (1933).  Ainda não é o Jorge Amado sensualista da maturidade o autor que se apresenta neste livro, e sim o crítico social contundente por vezes aparentado com a crueza do naturalismo. Em um casarão colonial do Pelourinho, deteriorado em um cortiço com mais de 600 habitantes, Jorge Amado entrelaça o cotidiano sórdido de personagens marginalizados. O “suor” do título é tanto literal como metafórico: o suor dos corpos empilhados em condições insalubres na tórrida Salvador e o suor derramado na dura rotina do trabalho (mal) assalariado, uma vez que operários compõem boa parte dos moradores do edifício (e, dado que este é um romance de um jovem comunista, é inevitável que a história se encaminhe para a “tomada de consciência proletária”). Aluísio Azevedo e seu O Cortiço também são uma referência presente, mas aqui Amado se vale da atmosfera peculiar de seu retrato da Bahia e de um olhar político bem menos sutil que seu modelo. Companhia das Letras, 160 páginas, R$ 38.

A Ilha do Dia Anterior, de Umberto Eco
Livro que conta a aventura de Roberto Pozzo di San Patrizio, jovem da nobreza piemontesa que recebe uma missão estrangeira por ordens do cardeal Mazarino. A missão é o equivalente do século 16 a uma intriga de espionagem: Roberto parte no encalço de um inglês que teria desenvolvido um método preciso de calcluar a longitude no mar (grande dificuldade técnica para a navegação do período). Depois do naufrágio de seu barco, o Amarílis, nos mares do sul, Roberto fica vários dias à deriva sobre uma tábua até que encontra um navio deserto, o Daphne, ancorado no outro lado de uma ilha situada na linha divisória do mundo. Aparentemente, a tripulação do navio sumiu, embora haja mantimentos a bordo para garantir a sobrevivência do rapaz. Como Eco costuma problematizar na forma os períodos que aborda em seus romances históricos (estes dias mesmo eu discutia com três escritores daqui a estratégia de Eco de tornar seus livros “difíceis” no começo para espantar o leitor que não se adapta a seu estilo), o romance, ambientado no século áureo do barroco, faz do barroco o tom para sua prosa, com muitas inversões frasais, sintaxe rebuscada e narrativa polifônica. A reedição é em formato bolso. BestBolso, 433 páginas, R$ 15,90.

Fazes-me Falta, de Inês Pedrosa – Com uma linguagem sutil e envolvente, a escritora portuguesa Inês Pedrosa constrói o insólito diálogo amoroso entre um homem e uma mulher.  Ela está morta, e do além ampara seu companheiro pela perda e pela solidão.  Ele, vivo, busca o conforto e conta os dias de sua vida como horas a menos para reencontrar a amada.  A obra é estruturada em capítulos curtos, nos quais se alternam a voz dele e a dela, identificados por letras de fontes diferentes. É na leitura que o leitor vai descobrindo a trama, aos poucos: ela era uma jovem e idealista professora de História, recém entrada na casa dos trinta, que também preparava seu envolvimento na política. Ele, um veterano das infames guerras coloniais travadas por Portugal em África, na casa dos 50, vê o mundo pelo contexto amargo de suas experiências. Assombrado pela guerra (como praticamente todos os que voltaram dela), o homem decide retomar a faculdade e é lá que ambos se encontram. A unir os dois, um afeto oscilante: ele não a escuta, o que não impede que ela se dirija a ele de um incerto lugar no limbo da morte. Alfaguara, 272 páginas, R$ 37,90.