Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Bagagem humana

18 de maio de 2011 4


A romena Herta Müller - Foto Jens Meyer/AP


Ganhadora do Nobel em 2009, Herta Müller era bem pouco conhecida no Brasil — a própria Lya Luft, tradutora de O Compromisso, seu único romance publicado no Brasil naquela época, declarou a um jornal não lembrar sequer de haver traduzido livro, há muito tempo esgotado àquela altura. A visibilidade obtida pelo Nobel, contudo, animou o mercado editorial brasileiro a dar nova chance a seus livros já editados e a publicar seus inéditos. A Globo reeditou no ano passado O Compromisso e a coletânea de contos Depressões. Agora, a Companhia das Letras põe em circulação um poderoso romance: Tudo o que Tenho Levo Comigo.

Tudo o Que Tenho Levo Comigo é um livro no qual a autora enumera fragmentos que tentam passar, na totalidade, a experiência traumática do narrador, um romeno de origem alemã deportado para um campo de trabalho soviético ao fim da II Guerra. O livro começa com a arrumação de uma mala: a do jovem Leo Auberg que, aos 17 anos, prepara-se para a viagem até os campos russos. São os últimos dias da guerra e os nazistas estão sendo derrotados em toda a Europa. Até então aliada dos fascistas, a Romênia muda de lado e recebe os soviéticos de braços abertos _ atendendo à exigência de deportar para os campos todos os cidadãos de origem alemã entre 17 e 45 anos. É nessa leva que Auberg embarca para o que será uma temporada de cinco anos de trabalhos forçados e tentativas de sobrevivência acossada pelo “Anjo da Fome”. É nessa mala que Auberg levará “tudo o que tem” – e não apenas as roupas emprestadas pelos vizinhos, mas uma humanidade florescida no segredo (o rapaz é homossexual, o que era perigoso durante o nazismo e continuou perigoso durante o comunismo).

O livro é construído com base nos depoimentos que Herta colheu de um sobrevivente real, Oskar Pastior, para o que seria um livro de não ficção escrito a quatro mãos por ambos. A morte de Pastior, em 2006, mudou os planos. Depois de anos com o projeto paralisado, Herta decidiu retomá-lo como um romance. Se, como lembrou Benjamin, o horror da guerra não se presta à visão narrativa totalizante, Herta Müller não oferece uma narrativa linear ou unívoca. Cada capítulo opta por focar um aspecto da longa experiência do campo, relatada ora no passado ora no presente _ assim como as lembranças do Auberg já idoso e em liberdade também se misturam à narrativa da viagem aos campos. Auberg conhece a fome, o cansaço, a necessidade de esperteza para negociar ou roubar itens suplementares à mirrada ração fornecida pelos russos. À medida que luta para se manter vivo, Auberg também luta para se manter humano colecionando palavras. E é na mescla entre o presente do idoso Auberg e suas recordações de juventude que a primeira frase do livro, “Tudo o que tenho levo comigo” (o título original em alemão, Atemschaunkel, remete ao ritmo da respiração), assume novo significado: também os anos de fome são algo que o prisioneiro sobrevivente levará consigo.

Comentários (4)

  • Luí­s Fernando Bittencourt diz: 19 de maio de 2011

    Tenho quase certeza que essa foto já foi utilizada em outra capa. Não te recordas qual, Carlos?

  • Luís Fernando Bittencourt diz: 24 de junho de 2011

Envie seu Comentário