Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Vida submersa

31 de maio de 2011 0


O escritor Dave Eggers - Foto: Michelle Quint, Divulgação


Aos 41 anos, Dave Eggers não é só um dos autores americanos mais importantes de sua geração. Ele é um dos responsáveis pelo próprio panorama da inteligência em seu país. Além de escritor, é também editor das consagradas revistas literárias e de crítica cultural McSweeney e Believer. É também, como comprova a leitura de seu mais recente livro a ser lançado no Brasil, Zeitoun, o mais próximo que a atual geração de autores americanos já produziu de um Truman Capote. Zeitoun narra uma história real: a do imigrante sírio Abdulrahman Zeitoun, de fé muçulmana, bem-estabelecido em Nova Orleans com uma firma de construção civil. Quando o furacão Katrina começa a se anunciar como um desastre de grandes proporções, Zeitoun despacha a mulher e as filhas para a casa de parentes, a salvo do furacão, e decide ficar para cuidar de sua casa e reparar ele mesmo os estragos que possam vir a ser causados pelo fenômeno. Confiante de que o Katrina nada teria de tão excepcional em uma área assolada constantemente por furacões, ele prevê menos complicações do que as antecipadas pela imprensa. No dia seguinte à passagem do Katrina, Zeitoun acorda com sua casa inundada – os diques que cercavam a cidade haviam se rompido, provocando a catástrofe que arrasou Nova Orleans em 2005.

É então que Zeitoun, inspirado tanto em sua fé religiosa como no exemplo de um irmão mais velho que sempre idolatrou — um nadador olímpico morto precocemente em um acidente —, passa a vagar pela sua vizinhança a bordo de um caiaque de alumínio comprado anos antes sem nenhum objetivo concreto A bordo de sua minúscula embarcação, ele oferece ajuda,  na retirada de vizinhos idosos que não haviam conseguido sair sozinhos de casa, procura as autoridades da Defesa Civil para tentar ser a ponte entre várias situações de crise em sua vizinhança relativamente tranquila – os dias selvagens de Nova Orleans sem  lei, à mercê de incendiários e saqueadores, parecem ter se concentrado nas áreas centrais da comunidade, e não no bairro suburbano em que Zeitoun morava. O que deveria ser um exemplo de heroísmo individual é confundido com más intenções quando Zeitoun cruza com a polícia. Estimuladas pela paranoia da era Bush pós-11 de Setembro, autoridades federais confundem-no com um possível terrorista muçulmano e o prendem — deixando mesmo sua família incerta sobre seu destino por meses.

Embora Eggers também atue como ficcionista — sua mais recente ficção lançada no Brasil foi Os Monstros, escrita com base no roteiro que fez para o filme “fofinho” Onde Vivem os Monstros, adaptado de um clássico infantil de Maurice Sendak Zeitoun comprova que é ao misturar ficção com realidade que o autor alcança seus melhores resultados. Usando técnicas de ficção que incluem o corte da narrativa em planos e a reconstituição de monólogos interiores, Eggers constrói em Zeitoun uma das grandes reportagens deste início de século 21. O livro se coloca em pé de igualdade com exemplares clássicos do gênero como e està à altura do que de melhor Egger produziu — obras que também cruzavam ficção, reportagem e memória: sua estreia em Uma Comovente Obra de Espantoso Talento, em que narrava a experiência de se ver responsável pelo irmão menor após a morte dos país, e O Que é o Quê, romance-reportagem no qual reconstitui, em primeira pessoa, as memórias de Valentino Achak Deng, um refugiado sudanês.

Eggers é um escritor e também um ativista político (ele tomou contato com a história de Zeitoun através de uma série de depoimentos coletados em um projeto de sua editora para colher testemunhos de cidadãos em áreas de crise). Seu ativismo, contudo, transparece em seus livros mas não os contamina a ponto de transformá-los em preleções didáticas. Sua visão política está mais na escolha dos temas (a questão da África, a situação dos muçulmanos durante as trevas da Era Bush, a negligência das autoridades durante o caos que se seguiu ao Katrina) do que em sua prosa, escrita com rigor, afeto e uma sinceridade desconcertante. Zeitoun segue com a maestria de um A Sangue Frio contemporâneo os passos da família Zeitoun nos dias que antecedem a chegada do furação – e o quanto os alertas vão ficando mais preocupantes à medida que a fúria da tempestade vindoura vai ficando mais clara.

A narrativa de Eggers, límpida, para ser lida com sofreguidão e curiosidade, é colorida com detalhes e minúcias que dão ao leitor a exata dimensão da humanidade de Zeitoun: a relação ao mesmo tempo afetuosa e distraída de Zeitoun com a mulher e as filhas; sua dúvida sobre se deveria ou não mudar o logotipo de sua empresa, à qual ele ingenuamente acrescentara um arco-íris, desavisado de que era um símbolo das lutas da comunidade gay (acabou não mudando); sua reação ao encontrar o andar térreo de sua residência alagado (soltar os peixes do aquário, afinal não teria como alimentá-los); sua obstinação em alimentar os cachorros abandonados que ele escuta do terraço de sua casa em alguma moradia das vizinhanças. Depois de se valer de tais pequenas astúcias ao longo de todo o livro para tornar o leitor familiarizado com Zeitou e sua família, o autor não precisa apelar para nenhum tom panfletário ou melodramático quando as autoridades desabam sobre eles. A maneira ao mesmo tempo neutra e intensa como Eggers narra o que aconteceu com os Zeitoun no auge da paranoia anti-islâmica é  o suficiente para despertar em qualquer leitor a indignação e a náusea que se sente diante de uma máquina estatal repressora dotada ao mesmo tempo de imenso poder e imensa burrice – como praticamente qualquer máquina estatal, a propósito.

Envie seu Comentário