Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de maio 2011

Vida submersa

31 de maio de 2011 0


O escritor Dave Eggers - Foto: Michelle Quint, Divulgação


Aos 41 anos, Dave Eggers não é só um dos autores americanos mais importantes de sua geração. Ele é um dos responsáveis pelo próprio panorama da inteligência em seu país. Além de escritor, é também editor das consagradas revistas literárias e de crítica cultural McSweeney e Believer. É também, como comprova a leitura de seu mais recente livro a ser lançado no Brasil, Zeitoun, o mais próximo que a atual geração de autores americanos já produziu de um Truman Capote. Zeitoun narra uma história real: a do imigrante sírio Abdulrahman Zeitoun, de fé muçulmana, bem-estabelecido em Nova Orleans com uma firma de construção civil. Quando o furacão Katrina começa a se anunciar como um desastre de grandes proporções, Zeitoun despacha a mulher e as filhas para a casa de parentes, a salvo do furacão, e decide ficar para cuidar de sua casa e reparar ele mesmo os estragos que possam vir a ser causados pelo fenômeno. Confiante de que o Katrina nada teria de tão excepcional em uma área assolada constantemente por furacões, ele prevê menos complicações do que as antecipadas pela imprensa. No dia seguinte à passagem do Katrina, Zeitoun acorda com sua casa inundada – os diques que cercavam a cidade haviam se rompido, provocando a catástrofe que arrasou Nova Orleans em 2005.

É então que Zeitoun, inspirado tanto em sua fé religiosa como no exemplo de um irmão mais velho que sempre idolatrou — um nadador olímpico morto precocemente em um acidente —, passa a vagar pela sua vizinhança a bordo de um caiaque de alumínio comprado anos antes sem nenhum objetivo concreto A bordo de sua minúscula embarcação, ele oferece ajuda,  na retirada de vizinhos idosos que não haviam conseguido sair sozinhos de casa, procura as autoridades da Defesa Civil para tentar ser a ponte entre várias situações de crise em sua vizinhança relativamente tranquila – os dias selvagens de Nova Orleans sem  lei, à mercê de incendiários e saqueadores, parecem ter se concentrado nas áreas centrais da comunidade, e não no bairro suburbano em que Zeitoun morava. O que deveria ser um exemplo de heroísmo individual é confundido com más intenções quando Zeitoun cruza com a polícia. Estimuladas pela paranoia da era Bush pós-11 de Setembro, autoridades federais confundem-no com um possível terrorista muçulmano e o prendem — deixando mesmo sua família incerta sobre seu destino por meses.

Embora Eggers também atue como ficcionista — sua mais recente ficção lançada no Brasil foi Os Monstros, escrita com base no roteiro que fez para o filme “fofinho” Onde Vivem os Monstros, adaptado de um clássico infantil de Maurice Sendak Zeitoun comprova que é ao misturar ficção com realidade que o autor alcança seus melhores resultados. Usando técnicas de ficção que incluem o corte da narrativa em planos e a reconstituição de monólogos interiores, Eggers constrói em Zeitoun uma das grandes reportagens deste início de século 21. O livro se coloca em pé de igualdade com exemplares clássicos do gênero como e està à altura do que de melhor Egger produziu — obras que também cruzavam ficção, reportagem e memória: sua estreia em Uma Comovente Obra de Espantoso Talento, em que narrava a experiência de se ver responsável pelo irmão menor após a morte dos país, e O Que é o Quê, romance-reportagem no qual reconstitui, em primeira pessoa, as memórias de Valentino Achak Deng, um refugiado sudanês.

Eggers é um escritor e também um ativista político (ele tomou contato com a história de Zeitoun através de uma série de depoimentos coletados em um projeto de sua editora para colher testemunhos de cidadãos em áreas de crise). Seu ativismo, contudo, transparece em seus livros mas não os contamina a ponto de transformá-los em preleções didáticas. Sua visão política está mais na escolha dos temas (a questão da África, a situação dos muçulmanos durante as trevas da Era Bush, a negligência das autoridades durante o caos que se seguiu ao Katrina) do que em sua prosa, escrita com rigor, afeto e uma sinceridade desconcertante. Zeitoun segue com a maestria de um A Sangue Frio contemporâneo os passos da família Zeitoun nos dias que antecedem a chegada do furação – e o quanto os alertas vão ficando mais preocupantes à medida que a fúria da tempestade vindoura vai ficando mais clara.

A narrativa de Eggers, límpida, para ser lida com sofreguidão e curiosidade, é colorida com detalhes e minúcias que dão ao leitor a exata dimensão da humanidade de Zeitoun: a relação ao mesmo tempo afetuosa e distraída de Zeitoun com a mulher e as filhas; sua dúvida sobre se deveria ou não mudar o logotipo de sua empresa, à qual ele ingenuamente acrescentara um arco-íris, desavisado de que era um símbolo das lutas da comunidade gay (acabou não mudando); sua reação ao encontrar o andar térreo de sua residência alagado (soltar os peixes do aquário, afinal não teria como alimentá-los); sua obstinação em alimentar os cachorros abandonados que ele escuta do terraço de sua casa em alguma moradia das vizinhanças. Depois de se valer de tais pequenas astúcias ao longo de todo o livro para tornar o leitor familiarizado com Zeitou e sua família, o autor não precisa apelar para nenhum tom panfletário ou melodramático quando as autoridades desabam sobre eles. A maneira ao mesmo tempo neutra e intensa como Eggers narra o que aconteceu com os Zeitoun no auge da paranoia anti-islâmica é  o suficiente para despertar em qualquer leitor a indignação e a náusea que se sente diante de uma máquina estatal repressora dotada ao mesmo tempo de imenso poder e imensa burrice – como praticamente qualquer máquina estatal, a propósito.

Maigret se defende

31 de maio de 2011 0

Por mais que Simenon tenha sido um autor policial de corte mais “realista”, utilizando-se de Maigret como o pretexto perfeito para escrever livros que abarcam panoramicamente várias camadas da sociedade francesa (a classe média estagnada no meio de uma ascensão social tímida, a classe proprietária decadente usando a pose e a história para driblar suas dívidas, os pobres fazendo o necessário para sobreviver no redemoinho indiferente da grande cidade), há um elemento no qual Maigret se assemelha a qualquer detetive da chamada “escola clássica” do romance policial (segundo Howard Haycraft o período “clássico” do policial vai de 1918 a 1930, antes, portanto, do surgimento de Maigret, cujas primeiras aventuras foram publicadas em 1931): a inviolabilidade do agente.

Embora seja uma ficção policial extremamente verossímil ao transformar o comissário em um policial chefiando uma equipe de colaboradores que por vezes são tão fundamentais para a realização dos trabalhos tediosos de vigilância e coleta de informações, a saga de Maigret raramente transgride a regra de ouro do gênero para dar a entender que seu protagonista corre algum risco — físico ou moral. No livro que comentamos semana passada, em que Maigret se vê enviado à Holanda para uma investigação, ocorre uma das poucas confrontações físicas de Maigret com um suspeito encolerizado – o fazendeiro pai da jovem Beertje. O comissário, mesmo descrito como corpulento e pesadão e pouco afeito à atividade física, não tem dificuldade em desarmar o sujeito e dominá-lo. Maigret está sempre à salvo, e sua autoridade moral e intelectual é devastadora depois de chegar ao âmago do mistério – raramente um culpado deixa de admitir seu delito depois de encurralado com a história do crime. E mesmo sendo o comissário uma figura pública conhecida e muitas vezes dependente de terceiros (não dirige), nunca é alvo de um atentado ou de uma tentativa de homicídio. Não consta em sua ficha, ou ao menos não me lembro, nem mesmo ferimentos de ofício como a cicatriz de uma facada ou a marca de uma bala desferida contra ele no passado, e isso que, como qualquer policial de seu tempo, Maigret começou debaixo na escala funcional e trabalhou como policial de rua (“No metrô, nas lojas de departamento, nas estações, na delegacia de costumes, na fiscalização dos jogos de azar...”, relata a certa altura de Maigret se Defende). Às vezes ele pode se sentir perdido em meio a uma investigação, mas em momento algum está em perigo.

Este Maigret se Defende é uma das raras exceções em que o comissário  se vê fragilizado e correndo um risco real de eliminação – não física, mas profissional. O livro abre com uma longa cena doméstica burguesa, na qual Maigret e sua esposa recebem para jantar a família do dr. Pardon, amigo e médico pessoal do investigador. É um livro que já estabelece desde o início um tom de melancolia e finitude. Escrito em 1964, flagra um Maigret um pouco exausto com a vida que viveu, recebendo recomendações enfáticas de seu médico para tentar estabelecer uma rotina mais saudável, beber menos , emagrecer. O comissário diz textualmente que tem 52 anos. e que está a três anos da aposentadoria compulsória na Polícia Judicária. Embora o tempo corresse de modo diferente no universo do comissário, seus leitores só tiveram mais o dobro desse tempo para desfrutar de suas  histórias. O personagem foi abandonado por Simenon depois da publicação de O Sumiço do Sr. Charles, de 1970.

Na conversa entre Maigret e o médico, Pardon indaga se em seus anos de polícia o inspetor já havia encontrado alguém puramente mau. Fiel a seu estilo compassivo, de “entender sem julgar”, como diz em As Memórias de Maigret, o comissário responde que não, apenas pessoas confusas que tomaram decisões erradas nos piores momentos. Ao longo do romance, Maigret  recordará dessa conversa em dúvida sobre se não encontrou de fato um caso de maldade genuína, depois que sua carreira é ameaçada após ser acusado de tentar abusar de uma jovem.

Maigret se Defende não deixa de ser, a seu modo, o confronto do velho policial com a juventude – justamente nos anos 1960 que mais tarde se tornariam praticamente sinônimo do “poder jovem”. A melancolia com a proximidade da aposentadoria não advém apenas do fim de uma carreira de 30 anos, mas é tornada um pouco mais amarga pela forma como o mundo à volta de Maigret parece estar em franca desintegração. Seus superiores são jovens sem a sua experiência, oriundos da estrutura burocrática – o que não os impede de ter a arrogância de quem se sente senhor de sua própria época. Chamado à sala do chefe de polícia, Maigret reflete, com algo de amargura:

O chefe de polícia era também um novato. Dez anos no cargo. Um jovem. Essa era a moda. Não tinha sequer quarenta anos, mas, depois de passar pela escola normal, acumulara o suficiente de diplomas para assumir a direção de qualquer serviço público.
“Chefe-vassoura”, era como os jornais o apelidaram, depois da sua primeira entrevista coletiva. Pois os chefes de polícia, bem como as vedetes de cinema, davam agora entrevistas coletivas para as quais eles não se esqueciam de convidar as redes de televisão.

Depois de chegar com a pontualidade de sempre no gabinete do superior e ser submetido a uma espera para marcar autoridade, Maigret é admitido no escritório do homem e ouve as acusações que pesam contra si: na noite anterior, teria abordado em um bar a jovem Nicole Prieur, 18 anos, de boa e riquíssima família, filha de um magistrado e sobrinha de um membro do Conselho de Estado. De acordo com as acusações da própria jovem, Maigret a encontrou em um bistrô, a embriagou, levou-a para um hotel vagabundo e tentou violentá-la. A versão da jovem é agravada pelo fato de que Maigret de fato esteve no café, sentou-se à mesa da jovem e levou-a para o hotel. Sua versão dos acontecimentos, contudo, é diferente: a própria jovem lhe telefonou de madrugada pedindo ajuda. Disse que havia fugido de sua casa no interior e que havia sido vítima de uma armadilha de uma amiga e do noivo desta, terminando sozinha sem bagagens e sem conhecidos nas ruas de Paris. Embora já estivesse dormindo ao lado da sra. Maigret quando o telefone tocou, o comissário foi até o bistrô indicado por ela e a instalou em um hotel – precisou levar a moça, muito embriagada, até o quarto. Para ser surpreendido pela acusação da manhã seguinte.

Não há ambiguidade na situação. Desde o início a narrativa está próxima do ponto de vista de Maigret, então não há na mente do leitor dúvida alguma sobre quem está mentindo. A grande questão reside nos motivos para a armação montada contra o comissário – motivos difíceis de descobrir, uma vez que, na qualidade de investigado, Maigret é proibido pelo chefe de polícia de interrogar de novo a jovem ou conduzir ele próprio um inquérito sobre o caso. Também, fazendo (ab)uso de sua autoridade, o jovem chefe ordena que Maigret não comente o caso com ninguém no Quais des Orfèvres. Orientações, claro, que Maigret tentará descumprir na surdina, sem sucesso, uma vez que está sendo vigiado. Maigret se vê afastado de suas funções e passa pela experiência de ser desta vez ele o homem a quem os policiais seguem. O tempo todo ao longo da investigação, que passa também por um por um ex-criminoso e sua mulher e por um “clube jovem” de elite no centro de Paris para as folias da juventude dourada, Maigret oscila entre laivos de sua astúcia de sempre e uma melancolia mórbida de quem se sente tentado a desistir.

Talvez a melancolia do personagem não deixe de representar, a seu modo, o cansaço do próprio Simenon, que vivia nos anos 1960 um dos períodos mais turbulentos de sua vida: sua segunda mulher, Denyse Ouimet, sofrera várias crises psiquiátricas e terminaria por sair de casa justamente naquele ano de 1964. Cansado do próprio Maigret, talvez o autor já preparasse o terreno para a aposentadoria de fato do personagem, mostrando que o estilo algo truculento mas correto do detetive, baseado numa ética em vias de desaparecer, não teria como levar sempre a melhor diante da egolatria inexperiente da nova geração. Embora neste caso em particular, Maigret consiga desvendar o cérebro por trás da trama na qual foi enredado e salvar sua carreira e sua reputação.

Maigret se Defende: L&PM, 174 páginas. Tradução de Alessandro Zir.

Na próxima semana: As Testemunhas Rebeldes.

A visão dos assassinos

30 de maio de 2011 4

A recente notícia da prisão do criminoso de guerra mais procurado da Europa, o general sérvio Ratko Mladic, despertou em mim uma série de indagações sombrias que me acompanham desde a primeira vez que ouvi falar dessa guerra que ocorreu nos bálcãs: era 1992 e eu trabalhava como redator do jornal do meio-dia da Rádio Batovi, em São Gabriel, e vasculhava as edições de Zero Hora e Correio do Povo atrás de uma ou duas notas internacionais que pudessem completar o noticiário sobre as mazelas da política semicoronelista local.

Os anos passaram, aquela guerra que parecia tão confusa e tão absurda (e que no fim tinha muito a ver com religião, como a maioria das guerras) primeiro chacinou milhares e depois acabou. E começaram a aparecer as contribuições literárias para refletir sobre aquela (mais uma) insanidade europeia. Foi um momento em que problemas étnicos, religiosos ou ódios ancestrais levaram legiões a cometerem atrocidades com pessoas que eram, naquele momento, totalmente diversas delas, embora não houvesse à primeira vista para um observador externo parcamente informado, como eu, diferença alguma.

Provavelmente uma dos melhores contribuições sobre o conflito veio do injustamente relegado campo dos gibis, com Joe Sacco e seu Área de Segurança: Gorazde, uma visceral reportagem em quadrinhos sobre a guerra, e uma das coisas mais fundamentais que se escreveram sobre aquela confusão que, confessem, a maioria de vocês também não entendeu muito bem na época. Sacco voltaria ao tema em Uma História de Sarajevo, em que se dedicava a apresentar os três principais “senhores da guerra” das milícias sérvias — não me lembro se Ratko era citado. Como jornalista e como artista gráfico Sacco é minucioso mas não excessivamente didático ao explicar quem, naquela guerra, estava matando quem e por quê. E um dos pontos mais impressionantes no relato de Área de Segurança: Gorazde é sua narrativa dos massacres perpetrados contra a população bósnia no auge do conflito.

De um dia para outro, todos os sérvios adultos pareciam haver abandonado suas casas em Gorazde, deixando apenas os bósnios na cidade. E  dias depois, sem nenhum aviso, os sérvios retornaram cruzando o rio Drina, que limita a cidade separando-o de bosques e florestas na outra margem, e atacaram de maneira fulminante, chachinando bósnios que até então eram seus vizinhos. Mais de um depoimento colhido por Sacco conta que muitos, assassinos e vítimas, freqüentavam as próprias casas uns dos outros antes do conflito. A Iugoslávia já era uma coisa só desde pouco depois da Segunda Guerra,ou seja, quase meio século antes, e nas cidades como Gorazde as mesmas famílias moravam já havia tempo o bastante para que ambas as etnias houvessem criado juntas seus filhos. A maioria dos guerreiros e milicianos de um exército normalmente é jovem, então de onde brotou essa noção tão sólida a separar sérvios, croatas e bósnios, todos nascidos no mesmo território, ao ponto de na calada da noite parte deles simplesmente sumir para atacar os outros desprevenidos e dizimá-los? (a palavra dizimar e sua ressonância com “dízimo”, aqui, não deixa de ser morbidamente adequada, uma vez que a religião foi um dos motores do ódio. E mais: como eles sabiam se diferenciar uns dos outros? Pelo simples sobrenome?

Foi a mesma questão que me assaltou ao ler o dilacerante Gostaríamos de Informá-lo de que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias, reportagem de Philip Gourevitch sobre o massacre que os hutus de Ruanda praticaram contra os tutsins nos anos 90. Lá estão os mesmos elementos que na Bósnia chocavam o Ocidente por se tratar de europeus de olhos azuis de cabelo clarinho se matando, mas que na África teve uma dimensão tão ou mais trágica. Na época, contudo, enquanto o massacre ocorria, a indiferenca foi generalizada, mesmo nas Nações Unidas. O entendimento era que “aqueles lá” viviam se matando mesmo e nunca superariam suas “divergências tribais” (palavras textuais do até hoje inexplicavelmente tido como “porta-voz da inteligência” Paulo Francis). Novamente, no livro de Gourevitch (que ganhou recentemente uma reedição em formato bolso), o que temos é o relato de como de um dia para outro um pesadelo parecia haver tomado o cotidiano de pessoas comuns, gente que chegava ao trabalho e era evitada pelos colegas como se uma lepra repentina houvesse descido sobre eles. Gente que pedia refúgio em igrejas e era queimada viva lá dentro, muitas vezes com a própria anuência do missionário (cristão – e muito cristão que eu conheço que adora falar do “fundamentalismo islâmico” não tem a decência de se lembrar desse fato, bem como dos massacres de cristãos contra muçulmanos no Líbano, retratados no filme Incêndios, ainda em cartaz em Porto Alegre). E à noite, nas aldeias, uma parte dos negros de Ruanda invadia as casas da outra parte, arrastavam-nos para fora e os liquidavam com um nível de requinte surpreendente para tão toscas ferramentas utilizadas: paus, enxadas, machados, machetes, facões e vez por outra até armas de fogo.

E o que me asssalta é a dúvida sobre se um Tutsi poderia se refugiar em cidade que não fosse a sua e passar como Hutu, já que, pelo que conta Gourevitch, já não havia, naquela época, diferença física significativa entre as duas tribos, ambas falavam a mesma língua e havia centenas de casos de casamentos mistos. Há até casos relatados no livro de Tutsis que escaparam do massacre nas estradas simplesmente se dizendo hutus e alegando que haviam perdido as identidades durante a viagem (um dos solertes estratagemas do governo Hutu já visando ao massacre foi o recadastramento da população acrescentando na carteira de identidade a informação da etnia de origem).

E sendo assim, me pergunto quais são os sinais externos que te transformam em uma vítima, uma vez que todo mundo se parece muito fisicamente nesses casos de pessoas chachinadas por vizinhos próximos – seja a vizinhança o país ou a casa do lado. Vivendo em um Brasil em que o que mais se tem é variedade de traços físicos e sobrenomes improváveis aplicados às pessoas com as características mais diversas do que se associaria a eles, a idéia de etnia para mim é não só imprópria como vagamente alarmante.

O que, de uma hora pra outra, torna tanta gente merecedora da morte na mente distorcida de seus algozes?

Acho que grande parte da minha inquietação é que, quase vinte anos depois daquela primeira notícia lida em 1992, ainda não sei.

Franzen e a Banda Mais Bonita da Cidade

27 de maio de 2011 2

Sim, como muita gente residente em território nacional nas últimas duas semanas – e mesmo algumas não residentes mas com acesso à internet – eu vi o clipe Oração, da Banda Mais Bonita da Cidade, achei o vídeo extremamente engenhoso e bem-feito. Como um número um tanto menor de pessoas, a julgar pelos depoimentos entusiasmados, achei a música extremamente tediosa, repetitiva e característica de um tipo de som que com certeza não tem nada a ver comigo. Eu não curto Los Hermanos, eu detestava os Tribalistas e acho a alegria uma emoção supervalorizada, logo, não houve jeito de eu me conectar com aquela turma. Na adolescência eu ouvia rock pesado e a música era um canal para a frustração e a raiva, não para comunhão e alegria, e acho que isso não mudou para mim até hoje.

Não pude deixar de pensar nisso quando topei com esta passagem na tradução de Liberdade, o romanção de Jonathan Franzen sobre o qual escreverei para o jornal impresso na semana que vem. Dando um pouco do contexto da coisa, o trecho em questão narra a visita de dois velhos amigos a um clube em Washington no qual está rolando um show dos Bright Eyes, a banda indie supertriste de Conor Oberst (como lembra meu grande amigo Gabriel Brust, Oberst esteve em Porto Alegre em 20 de julho de 2008 com seu novo grupo, The Mystic Valley Band, e tocou no Átrio do Santander Cultural. Quem quiser ver, clique aqui para um dos muitos videos do Youtube dessa apresentação. Nesse vídeo, em particular, Oberst interpreta a melancólica Lua, sucesso do Bright Eyes).

Mas eu falava do romance. Os personagens na plateia da apresentação são duas figuras centrais em Liberdade. Walter Berdlung é o patriarca da família disfuncional que está no centro da trama, um ativista ecológico completamente equivocado em suas estratégias e alianças para preservar da extinção um pássaro raro, a Mariquita azul (presente na capa do romance em inglês, mas ausente da edição brasileira, como vocês podem ver nas imagens que ilustram este post. Achei a supressão feita pela Companhia esteticamente adequada, uma vez que aquele passarinho na capa me pareceu terrivelmente brega). O segundo personagem (meu coadjuvante favorito no livro) é Richard Katz, um roqueiro inconstante e inconsequente que, depois de duas décadas de uma vida errante e de álbuns vendidos para apenas um punhado dos mesmos fãs independentes, emplaca um disco de sucesso com sua nova banda e se vê um pouco perdido em decorrência disso. Walter e Richard são amigos e foram colegas de quarto na faculdade, quando viveram uma tensão a três com a então jovem estrela do basquete universitário Patty – depois de abandonar a carreira devido a um acidente, ela termina por se casar com Walter, mas, anos depois, se vê novamente nos liames da atração nunca resolvida entre ela e Richard.

Richard, que reside em Nova Jérsey, foi visitar o amigo para ajudá-lo em uma reunião que pretende criar um programa de conscientização para o que Berglund considera a questão premente do século XXI: a superpopulação. Depois de uma tarde particularmente maçante discutindo o programa de um festival de música sobre o tema (provavelmente uma referência a coisas como o SWU, uma vez que Franzen se lança em seu livro à missão de ser um “cronista ficcional” da contemporaneidade, por complexa que seja), ambos vão até o clube 9:30 para assistir ao show de Oberst, por insistência de Walter, que espera ser apresentado ao músico pelo amigo rockstar e recrutá-lo para sua cruzada. E uma das reflexões amargas feitas por Katz ao ver a jovem plateia do Bright Eyes casou bem com o que eu mesmo vinha refletindo acerca dessa onda toda em cima da Banda Mais Bonita. Vai abaixo (A tradução é de Sérgio Flaksman, e se o linguajar lhes parecer vulgar, lembrem-se de que este é um ponto em que a narrativa em terceira pessoa de certo modo assume o discurso de Katz, o que justifica a virulência):

A trilha sonora do intervalo, cuja escolha era prerrogativa do artista principal da noite, era impecavelmente  surpreendente (Katz, quando se apresentava como artista principal da noite, sempre detestou a pose e o didatismo da escolha da trilha do sonora no intervalo, a pressão para se mostrar atualizado em seu gosto de ouvinte, e deixava a decisão para seus companheiros de banda.) Os ajudantes de palco estavam ajustando dezenas de microfones e instrumentos, enquanto Walter não parava de falar da história de Conor Oberst: como ele tinha começado a gravar aos onze anos, como ainda morava em Omaha, como sua banda era antes um coletivo, ou uma família, que uma banda de rock habitual. Jovens invadiam a plateia por todas as entradas, os olhos brilhantes (em h0menagem aos nome babaca e francamente ridículo de tão congratulatório à juventude usado pela banda, pensou Katz) e as xerecas bem depiladas. A sensação que tinha de deslocamento não resultava exatamente em inveja, não inteiramente na impressão de ter vivido além da conta. Era mais uma espécie de desespero diante do esfacelamento do mundo. Os Estados Unidos estavam travando duas guerras terrestres e feias em dois países, o planeta estava se aquecendo como um forno elétrico, e ali no 9:30, ao seu redor, havia centenas de meninos e meninas do mesmo molde que Sarah, a assadora de bolos de banana, com suas suaves aspirações, sua ideia inocente de que tinham pleno direito — a quê? À emoção. À adoração invariável muito especial. A poder ficar a sós uns com os outros e repudiar por uma ou duas horas de uma noite de sábado, como num rito, a desfaçatez e o ódio a seus pais e avós. Pareciam, como Jessica tinha sugerido mais cedo na reunião, que não traíam nada da fúria e do desgosto das plateias de que tinha participado quando era mais novo. Congregavam-se não na raiva mas na celebração de terem descoberto, como geração, um modo mais suave e respeitoso de ser. Um modo de vida, não por acaso, que se harmonizava muito melhor com o consumo. E que, por isso, dizia a Katz: morra.

Aí é luta, patuleia

27 de maio de 2011 1

O Dia. Crimes:
Ô, Leda, se “pograma”. Ô, Ane! Ó, se cela falasse!
Sós. Só. Doninha.
Irene ri. À rua, ladeira, a cidade das Amélias.
Ô, Sodoma!
Ane, possamos amar tu!
E o Deus só relato: O São Mateus, a mãe, Ariet soberba.
“Água-se e sauga”.
Ãn?
Ou: “lenha-se!”
“Aluguem”. Ué, li lá grande.
Ednar. Galileu. Meu! Gula.
És? Ah?!
Nê Luona
“Água-se e sauga.”
“Abre bosteira”. E ama. Sue, tá, moa só o tal Eros.
Sue. Doeu?
Trama somas, só pena, amô do só.
Sai, lema! Sade dá dica. Ari, Éda, Laura. Irene ri.
Ah, nino dos sós!
Essa lá falece só. E não?
Amargo pesadelo. Sem ir. Caído.

Há duas grandes vertentes, duas linhas de força centrais na produção literária: a narração e a invenção. A narração é o partido dos que pretendem “contar uma história”, e costuma ser mais popular no presente e mais desdenhado no futuro. A invenção é o time dos que pretendem, por meio de seu trabalho, descobrir novas formas de contar uma história, fazer o que se pensa ser impossível em termos formais — embora menos lidos em sua própria época, esses vão sendo redescobertos à medida que aquilo que eles fizeram primeiro começa a se contrabandear para dentro do mainstream literário como prática. A divisão é apenas para fins de categoria, lembrando que entre esses dois extremos, a bem dizer bem pouco povoados, há uma multidão intermediária que alia as duas coisas: tentando descobrir uma forma fresca e nova e que seja ao mesmo tempo a melhor para estruturar aquela história que gostaria de contar.

Embora os dois grupos reivindiquem prevalência um sobre o outro cada um com ótimos argumentos, minha opinião é, antes de ser murista ou conciliadora, de síntese: as duas são necessárias, cada qual com sua função para garantir a vida de um sistema literário (note que eu escrevi um “sistema”, não um “mercado”. O mercado é outra coisa, estou falando aqui de livros de valor literário, não comercial, mesmo entre a turma que inventa menos na forma). Os grandes narradores são aqueles responsáveis por cativar a maioria para a literatura, enquanto os inventores questionam a validade de repetir o antigo e tentam encontrar o novo, de fazer algo que em um primeiro momento choque, surpreenda, pareça absurdo ou provoque admiração mais pela enormidade técnica do feito do que por sua fruição.

É definitivamente a esta categoria que pertence a desconcertante novela O Tal Eros Só – Osso Relato (BelasLetras), do gaúcho Paulo Ribeiro. Uma narrativa em que boa parte de seus capítulos é escrita — como vocês puderam ver no trecho ali de cima — em forma de palíndromo. Palíndromo, acredito que vocês saibam, são palavras ou frases que, graficamente, apresentam as mesmas letras na mesma ordem  da esquerda para a direita e da direita para e esquerda, permitindo uma leitura de trás para diante idêntica à do sentido normal da leitura. Podem ser palavras, inclusive nomes como Bob e Menem, até sentenças mais longas, frases espelhadas das mais simples e quase infantis, como “Roma me tem amor” ou “A bola da Loba“, até exemplares sofisticados como “Assim a aia ia à missa“, de autoria de Millôr Fernandes, ou “Rir, o breve verbo rir“, do cartunista Laerte. Consta que o mais antigo palíndromo do mundo é a frase latina Sator Arepo Tenet Opera Rotas – que, voltando aos exemplares máximos do experimentalismo literário nacional, serve como base estrutural para o intrincado romance de Osman Lins, Avalovara.

Compôr uma frase palindrômica já é bastante complexo (sobre as agruras e as delícias de compôr palíndromos, a propósito, recomendo esta excelente reportagem de Vanessa Bárbara no número 2 da revista Piauí, que pode ser lida online no site da revista). O que Paulo Ribeiro faz em O Tal Eros Só — Osso Relato, é ainda mais impressionante porque ele consegue tecer capítulos inteiros que podem ser lidos de trás para frente. Claro, com tal proeza técnica,nem sempre o sentido do que se lê  é claro — em alguns momentos duvida-se até que algumas daquelas frases tenham algum sentido, mas mesmo essa dificuldade imposta pela forma é contornada na montagem do romance. Os capítulos em palíndromos formam a segunda parte do romance — escrita por seu protagonista, Sore, empregado de uma marcenaria que, de tanto pensar, delira e é visto com estranheza e desconfiança pelos que o cercam. A história de Sore é narrada na primeira parte em uma prosa em terceira pessoa com a densidade poética característica de Ribeiro, mas sem o recurso formal dos palíndromos. Na segunda metade do romance, temos a visão palindrômica de Sore feito Eros, e o que se lê é um texto muito aproximado da poesia, tanto a lírica quanto a mais experimental, dadaísta.

Uma realização formal que nada fica a dever aos rigorosos exercícios do grupo francês Oulipo, do qual faziam parte Raymond Queneau, autor do clássico Zazie no Metrô, e Georges Pérec, autor de La Disparition, um romance de 300 páginas escrito sem que a letra “E” apareça – uma façanha considerável, uma vez que em francês, bem como no nosso português, é uma vogal de grande incidência no idioma.

Um Crime na Holanda

24 de maio de 2011 0

O artifício narrativo que estrutura Um Crime na Holanda, nosso Maigret da Semana (sendo publicado agora com algumas horas de atraso devido à correria pessoal da vida deste blogueiro) é bem parecido com o que vimos em Maigret na Escola, o livro que analisamos no primeiro post da série. Trata-se de jogar um policial famoso pela sua intuição e pelo seu conhecimento da natureza criminosa em um ambiente com o qual ele não está minimamente familiarizado e não poderá contar com os elementos que compõem sua rotina e seu universo – e que não deixam de ser eles próprios responsáveis por dar a Maigret o lastro mental e emocional para seus palpites certeiros. Fora de Paris, Maigret não tem seu escritório azulado de fumaça de cachimbo, com o fogão a lenha que usa para torná-lo superaquecido. Não tem os sanduíches da brasserie próxima ao Quais des Orfèvres; não tem os seus bistrôs habituais para a cerveja, o vinho ou o grogue, de acordo com a circunstância; não tem a compreensiva senhora Maigret, para quem o marido volta à noite aéreo e distraído, tentando entender a atmosfera de cada caso. E principalmente: longe de Paris Maigret não tem a ajuda inestimável de Janvier, Lucas e outros intregrantes menos brilhantes da equipe a seu serviço.

Tenho, inclusive, a impressão de que estas viagens de Maigret eram mais do que um mero artifício para que o autor Georges Simenon variasse os cenários de suas tramas, e sim uma forma de recapitalizar o valor do própri0 comissário junto ao leitor. Uma vez que em alguns dos livros mais conhecidos do autor uma boa parte do trabalho braçal, de recolher informações e correr sola de sapato pela rua é feita por Janvier, Lucas, Moers, Lapointe, Torrence, Lourtie e outros investigadores assistentes apresentados ao longo da série. Parece, a este leitor, que às vezes Simenon talvez sentisse a necessidade de experimentar tramas nas quais o comissário provava que poderia ser igualmente eficiente sem essa estrutura com a qual tanto ele quanto os leitores se acostumaram ao longo dos anos.

Um Crime na Holanda radicaliza o procedimento de submeter Maigret a uma atmosfera hostil. Não apenas o comissário precisará visitar uma comunidade estranha e fechada que o verá como elemento estrangeiro potencialmente perigoso e estará pouco inclinada a colaborar. Maigret vai a outro país, no qual a sua fama de pouco vale, ele não tem nenhuma jurisdição e sequer sabe o idioma local. Criatura de hábitos, é portanto com um tremendo mau humor que Maigret desembarca em Deflzijl, pequena cidade portuária na qual Conrad Popinga, um respeitado professor da Escola Naval, foi assassinado em sua própria casa. O crime ocorreu após uma conferência sobre responsabilidade criminal ministrada no salão da cidade por um pedante professor francês, Jean Duclos, catedrático da Universidade de Nancy. Após a conferência, um grupo de moradores da cidade se reuniu na casa da família Popinga pra uma recepção ao convidado francês — Duclos estava, de qualquer forma, hospedado na casa daquela família. Popinga ausentou-se por algum tempo para acompanhar de bicicleta até em casa uma das visitantes, Beetje Liewens, a atraente filha de um fazendeiro. Ao voltar, foi alvejado a tiros em seu próprio jardim enquanto rumava para o galpão para guardar sua bicicleta. No tumulto que se seguiu, com a casa toda acorrendo ao barulho, o professor Duclos foi visto descendo a escadaria da casa com a arma do crime na mão. Embora não estivesse sendo formalmente acusado,uma vez que alegou ter encontrado a arma no caminho, Duclos a partir daquele momento estava retido na Holanda à disposição da polícia. Por meio de seus contatos na universidade, no entando, o professor conseguira que um observador da polícia francesa fosse enviado para acompanhar o caso, e esse é o motivo de o pesadão e mal-humorado Maigret desembarcar na estação ferroviária da cidade — bem mais ao norte de Amsterdam, e portanto com pouca coisa a ver com a Holanda estereotipada dos moinhos e campos de tulipa:

Ele chegou num ambiente que nada tinha em comum com os cartões-postais holandeses e cujo aspecto era cem vezes mais nórdico do que ele imaginara.
A cidade era pequena: dez ou quinze ruas, no máximo, pavimentadas com bonitos tijolos vermelhos tão regularmente alinhados quanto os azulejos de uma cozinha. Casas baixas, também de tijolos, enfeitadas com uma profusão de painéis em cores claras e alegres.

A tarefa de Maigret não é, contudo, tão ingrata quanto possa parecer a princípio. Um Crime na Holanda é um dos livros mais antigos de toda a série, foi publicado em 1931, ano em que saíram os primeiros romances com Maigret como protagonista — e também época em que o francês ainda era a língua internacional das pessoas bem-educadas, e por isso não apenas a mulher de Popinga como sua irmã mais nova, cunhada da vítima, falam francês. Além da jovem Beetje, que passara uma temporada de estudos em Paris, do inspetor holandês encarregado do caso, Pijpekamp, e do próprio francês posudo monsieur Duclos. Maigret, portanto, não está tão perdido como parece de princípio, embora não tenha o que fazer quando, para evitar interrogatórios, algumas pessoas que ele pensava saberem francês simplesmente fingem não entendê-lo. Individualista, Maigret precisa às vezes confiar em Pijpekamp, a quem claramente considera inepto, como seu intérprete, o que aumenta seu mau humor.

Ainda assim, Maigret não perdeu seus talentos: os olhos treinados para perceber no emaranhado íntimo de uma cidade pequena as conexões subterrâneas de ódios e paixões que ligam os personagens da comunidade. Logo fica claro para Maigret que Beetje e a vítima eram por demais próximos para levantar suspeitas — e Beetje também se deixa cortejar por um estudante da escola naval chamado Cornelius. De algum modo, seja qual for, a jovem camponesa quer sair daquela cidade para ela sufocante depois de haver conhecido as luzes de Paris. E por isso a jovem flerta com mais de uma possibilidade de sair da cidade: fosse como fugitiva com Cornelius fosse como possível amante de Popinga. Cornelius, claro, logo se torna suspeito, bem como a mulher de Popinga, e o pai de Beetje, e talvez a própria Beetje, os suspeitos se multiplicam uma ve que Maigret encontra um ponto para puxar a meada das relações comunitárias. Nesse meio tempo, o inábil porém esforçado Pijpekamp se desvia em suas próprias investigações, e o que se tem no fim da narrativa é um procedimento não muiito comum nos livros de Maigret: o inspetor monta uma reconstituição do crime para tentar entender o que se passou naquela noite, levando todos os que presenciaram o crime primeiro para o salão de conferências e depois para a casa da vítima. Aquela reencenação é antes um modo de Maigret entender sua própria intuição do que uma forma de esclarecer aspectos pontuais do crime, como costumam ser tais reconstituições.

O romance é outra bem-sucedida incursão de Simenon no mundo das localidades isoladas da zona rural europeia, cidades pequenas com número reduzido de casas e habitantes, onde todos se conhecem como vizinhos mas onde fermentam por baixo da capa de civilidade as mesmas paixões sombrias que animam muitos dos crimes da cidade grande.

Um Crime na Holanda: L&PM, 160 páginas, tradução de Júlia da Rosa Simões.

Na próxima semana: Maigret se Defende.

Em tempo: Um Crime na Holanda descreve Delfzijl com  a atmosfera de uma cidade inventada, mas o local de fato existe –  lá foi inaugurada, em 1966, com a presença do próprio Simenon, uma estátua de Maigret em homenagem à visita do inspetor, assinada por Pieter d’Hont. Você pode vê-la na foto abaixo.

Estátua de Maigret em Delfzijl. Fonte: Wikipedia - autor: Gerardus

Editor de Polpa

23 de maio de 2011 0

Escritor e design gráfico, responsável pelo projeto gráfico da maioria dos livros da Não Editora e autor do blog especializado em capas de livros Sobrecapas, Samir Machado de Machado é também o editor dos quatro volumes publicados até agora da coleção Ficção de Polpa, reunindo contos de horror, fantasia, ficção científica e mistério (o nome é uma tradução literal de Pulp Fiction, que décadas antes de ser o nome de um filme já velho do Tarantino era o nome pelos quais eram chamadas as revistas de papel vagabundo e preço baixo, feitas com as partes moles da madeira, que publicavam histórias de crime, faroeste e ficção científica nos anos 1930 nos Estados Unidos). Foi por essas credenciais que eu o procurei para a matéria e ele respondeu as três perguntas que seguem abaixo, nas quais fala sobre o cenário da ficção produzida contemporaneamente:

Zero Hora – Como editor de quatro coletâneas voltadas para a literatura de gênero, como você vê o panorama de tais obras aqui no Rio Grande do Sul? Há algo próximo a uma cena semelhante de algum modo aos fandoms de São Paulo, por exemplo?
Samir Machado de Machado
– Quando lancei o primeiro volume de Ficção de Polpa em 2007, no RS parecia ser uma iniciativa isolada. Agora já há também a coleção Sagas, da editora Argonautas. Tendo dupla, já podemos dar as mãos e dançar, mas é cedo para se dizer que dá para organizar um baile.

ZH —  Os blogs são hoje uma ferramente poderosa para a divulgação de obras que não entram no radar das grandes editoras, mas que podem criar seu público. Podem também servir de algum modo para diminuir o preconceito quanto a esse tipo de literatura e garantir a chegada de tais livros ao público?
Machado —
Leitor que tem preconceito com literatura de gênero vai continuar chamando Admirável Mundo Novo de “fábula distópica” pra não ter que admitir que leu um livro de ficção científica, por exemplo. O que blogs de resenhas ajudam é a tirar a dúvida do leitor se vale a pena ou não investir seu tempo de leitura naquele livro, independente de gênero. Até porque o preconceito maior as vezes não é necessariamente com literatura de gênero, mas pelo fato de ela ser braslieira.

ZH –  É grande atualmente a força da literatura fantástica no interior – vários autores contemporâneos de fantasia no Estado. Que palpite você arriscaria para essa força do fantástico junto a autores de fora de Porto Alegre?
Machado —
Vergonhoso admitir, mas não conheço bem o cenário da literatura fantástica no interior do Estado, não o bastante pra opinar.

Vozes do Fantástico

23 de maio de 2011 2

Tiago (à esquerda) e Rafael Casanova. Imagem: Arquivo pessoal

No Segundo Caderno de Zero Hora de hoje, vocês puderam ler uma matéria sobre a atual cena de literatura fantástica e ficção científica que ainda luta por se consolidar no Estado. Entrevistamos escritores, editores e blogueiros responsáveis por fazer e divulgar a ficção fantástica no Rio Grande do Sul e, como é comum nessas matérias com pretensão de abarcar um tema por demais amplo, o texto final no jornal impresso é uma depuração concentrada da boa quantidade de material bruto que amealhei. Por isso, decidi compartilhar neste e nos próximos posts algumas coisas interessantes pesquisadas para o texto, e uma delas é estra entrevistas com os jovens Tiago e Rafael Casanova, 23 anos, moradores da cidade de Encantado e que mantêm um dos blogs de crítica literária especializada na literatura de gênero, o Sobre Livros. A página tem  uma média de 4.493 visitas e 11.594 visualizações por dia e conta com um grupo de colaboradores de vários pontos do Brasil, responsáveis por resenhas e artigos sobre a ficção fantástica contemporânea. Gentilmente, eles toparam responder a umas perguntas sobre o site — que agora eu publico aqui na íntegra. A entrevista foi concedida por e-mail, as respostas de ambos foram redigidas em conjunto, a não ser no caso da segunda pergunta:

Zero Hora — Como surgiu a ideia do Sobre Livros?
Rafael e Tiago Casanova —
 A ideia inicial para a criação do Sobre Livros surgiu no fim de 2009, quando planejávamos criar uma rede social literária. Começamos pesquisando possíveis parceiros e constatamos que não havia muitos sites voltados apenas para literatura de gênero no país. Depois nos perguntamos que tipo de notícias e informações gostaríamos de ler, e como nenhum dos poucos sites encontrados preenchia os requisitos pensados por nós, decidimos criar o Sobre Livros, para tentar conseguir e propagar essas informações. Hoje o site alimenta não só os gaúchos, mas a todos brasileiros com notícias e conteúdo literário diferenciado diariamente.

ZH – Vocês conseguem lembrar o momento em que tiveram despertado o gosto pela literatura de gênero?
Rafael —
Meu gosto pela leitura em si surgiu no início do 2º grau com Arthur Conan Doyle e seu famoso personagem Sherlock Holmes, um dos meus favoritos. Porém foi com Harry Potter que a literatura de gênero deu aquele estalo, aliás, Harry Potter e O Senhor dos Anéis são os responsáveis pela iniciação de pelo menos 98% das pessoas de minha faixa etária nesse tipo de literatura.
Tiago -  Despertei o interesse pela leitura, como a maioria dos leitores da minha época, com a febre por Harry Potter, isso foi mais ou menos no ínicio do ensino médio.

ZH — Como é o processo de edição do blog? Vocês realizam algo como uma “pauta” ou vai muito do gosto e da disponibilidade do que estiverem lendo no momento?
Rafael e Tiago —
A equipe do Sobre Livros é ampla, temos vários resenhistas, colunistas, tradutores e legendadores de diversos estados, o que gera muito conteúdo de qualidade. Resenhas são programadas e colunas possuem dias fixos para serem postadas durante a semana, já as notícias e informações são colocadas no ar conforme vão surgindo. Eu posso não gostar de algo, mas pode ter algum leitor que goste. Temos conteúdos especiais como jogos, tirinhas e entrevistas, todos voltados para a área literária, esses sim vão surgindo conforme a disponibilidade da equipe. Em um desses especiais surgiu o Libris, um personagem fictício com uma personalidade diferenciada criado por nós, ele é um dos xodós dos visitantes e já apresentou a primeira premiação do site, o Sobre Livros Awards, dividindo o palco com várias personalidades literárias como Marvin, Galdalf, Emilía e até mesmo a Morte.

ZH — Os blogs são hoje uma ferramenta poderosa para a divulgação de obras que não entram no radar das grandes editoras, mas que podem criar seu público e cativar leitores. A internet hoje é a ferramenta do boca-a-boca literário que pode fazer uma obra se transformar em sucesso de venda, como os livros de André Vianco ou os de Eduardo Spohr?
Rafael e Tiago —
Concordamos que a internet ajude bastante a divulgar trabalhos, inclusive até para conseguir contratos com editoras, como é o caso do Eduardo Spohr e seu A Batalha do Apocalipse, e até mesmo do escritor gaúcho Fábio Henckel e seu Binno Oxz, esses são excessões. Para se tornar um sucesso de vendas grandioso como André Vianco há vários fatores determinantes como um enredo instigante, escrita de qualidade e muita divulgação focada em leitores assíduos, como por exemplo nos próprios sites literários, é uma tríade que deve ser mantida. O boca-a-boca literário serve mais como uma “apresentação” do escritor para uma faixa de leitores, se o seu livro tiver qualidade, as vendas virão naturalmente, cedo ou tarde.
 
ZH — É grande atualmente a força da literatura fantástica no interior – vários autores contemporâneos de fantasia no Estado – muitos deles citados na própria lista de vocês dos “brazucas”. Vocês mesmos moram no Interior do Estado. Que palpite vocês arriscariam para essa força do fantástico junto a autores de fora de Porto Alegre?
Rafael e Tiago — 
Na nossa opinião é algo praticamente confirmado: autores do interior, muitos até auto-publicados, não teriam qualquer força de divulgação fora de seu âmbito regional se não tivessem acesso a uma principal ferramenta, a internet, e em consequência a colaboração e ajuda dos sites literários. Posso dar um exemplo recente que ocorreu esse mês: como eu saberia do lançamento do livro Morgan: O Único, do escritor gaúcho Douglas Eralldo, que mora em Pantano Grande se não fosse através da internet? Não teria como saber. O livro nunca chegaria aqui e eu não tomaria conhecimento do mesmo, então a internet possibilita que esses autores possam se divulgar mais facilmente. O principal desafio agora é quebrar o preconceito que os leitores tem com autores nacionais: já estou há bastante tempo com o site para saber que nossos escritores são tão bons como os de fora, basta dar uma chance.

O conto segundo H.P. Lovecraft:

19 de maio de 2011 0

Quanto a como eu escrevo um conto: não há um único modo. Cada um de meus contos tem uma história diferente. Uma ou duas vezes, eu literalmente relatei um sonho; mas usualmente eu começo com uma atmosfera ou uma ideia que gostaria de expressar, e a reviro em minha mente até que eu possa pensar em uma boa maneira de incorporá-la em alguma sequência de ocorrências dramáticas capaz de ser relatada em termos concretos. Costumo fazer uma lista mental das condições ou situações básicas melhor adaptáveis a essa atmosfera, ou ideia, ou imagem, e então começo a especular a respeito das explicações lógicas e naturais de uma certa atmofera ou ideia ou imagem nos termos das condições e situações básicas escolhidas.

O mestre do horror psicológico H.P. Lovecraft no ensaio Notas sobre a escrita de ficção de horror. O trecho acima foi traduzido meio na corrida por mim mesmo. O ensaio na íntegra pode ser lido, em inglês, aqui.


Bagagem humana

18 de maio de 2011 4


A romena Herta Müller - Foto Jens Meyer/AP


Ganhadora do Nobel em 2009, Herta Müller era bem pouco conhecida no Brasil — a própria Lya Luft, tradutora de O Compromisso, seu único romance publicado no Brasil naquela época, declarou a um jornal não lembrar sequer de haver traduzido livro, há muito tempo esgotado àquela altura. A visibilidade obtida pelo Nobel, contudo, animou o mercado editorial brasileiro a dar nova chance a seus livros já editados e a publicar seus inéditos. A Globo reeditou no ano passado O Compromisso e a coletânea de contos Depressões. Agora, a Companhia das Letras põe em circulação um poderoso romance: Tudo o que Tenho Levo Comigo.

Tudo o Que Tenho Levo Comigo é um livro no qual a autora enumera fragmentos que tentam passar, na totalidade, a experiência traumática do narrador, um romeno de origem alemã deportado para um campo de trabalho soviético ao fim da II Guerra. O livro começa com a arrumação de uma mala: a do jovem Leo Auberg que, aos 17 anos, prepara-se para a viagem até os campos russos. São os últimos dias da guerra e os nazistas estão sendo derrotados em toda a Europa. Até então aliada dos fascistas, a Romênia muda de lado e recebe os soviéticos de braços abertos _ atendendo à exigência de deportar para os campos todos os cidadãos de origem alemã entre 17 e 45 anos. É nessa leva que Auberg embarca para o que será uma temporada de cinco anos de trabalhos forçados e tentativas de sobrevivência acossada pelo “Anjo da Fome”. É nessa mala que Auberg levará “tudo o que tem” – e não apenas as roupas emprestadas pelos vizinhos, mas uma humanidade florescida no segredo (o rapaz é homossexual, o que era perigoso durante o nazismo e continuou perigoso durante o comunismo).

O livro é construído com base nos depoimentos que Herta colheu de um sobrevivente real, Oskar Pastior, para o que seria um livro de não ficção escrito a quatro mãos por ambos. A morte de Pastior, em 2006, mudou os planos. Depois de anos com o projeto paralisado, Herta decidiu retomá-lo como um romance. Se, como lembrou Benjamin, o horror da guerra não se presta à visão narrativa totalizante, Herta Müller não oferece uma narrativa linear ou unívoca. Cada capítulo opta por focar um aspecto da longa experiência do campo, relatada ora no passado ora no presente _ assim como as lembranças do Auberg já idoso e em liberdade também se misturam à narrativa da viagem aos campos. Auberg conhece a fome, o cansaço, a necessidade de esperteza para negociar ou roubar itens suplementares à mirrada ração fornecida pelos russos. À medida que luta para se manter vivo, Auberg também luta para se manter humano colecionando palavras. E é na mescla entre o presente do idoso Auberg e suas recordações de juventude que a primeira frase do livro, “Tudo o que tenho levo comigo” (o título original em alemão, Atemschaunkel, remete ao ritmo da respiração), assume novo significado: também os anos de fome são algo que o prisioneiro sobrevivente levará consigo.