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Avanço pelo retrocesso

03 de junho de 2011 2

Os dois livros mais recentes de Jonathan Franzen, As Correções e o recém-lançado Liberdade (Tradução de Sergio Flaksman. Companhia das Letras, 608 páginas, R$ 46,50), propõem como programa literário um interessante paradoxo: avançar pelo retrocesso. Franzen se coloca como alguém disposto a enfrentar a perda gradativa de relevância da literatura no debate das grandes ideias de seu tempo, e faz de seu Liberdade um caldeirão com os grandes temas que assombram nosso confuso século 21 _ usando para isso o grande realismo praticado no século 19

Liberdade é o macrocosmo americano pelo qual passam os integrantes da família Berdlung ao longo de três décadas: o casal de tendências liberais Walter e Patty, que se conhece nos anos 1970 na universidade, seus filhos, a autossuficiente e certinha Jessica e o ambicioso Joey, fruto acabado da juventude americana da era Bush seduzida pelas promessas da prosperidade econômica no mundo do grande capital. Franzen também enfoca os personagens secundários que gravitam em torno desse núcleo familiar, em especial a namorada de Joey, Connie, e  o roqueiro Richard Katz, colega de dormitório de Walter na universidade e terceiro vértice de um triângulo amoroso de juventude não resolvido com Patty e Walter — triângulo que terá consequências na vida da família muitos anos depois, já em plenos anos 2000. Todos, a seu modo, vivenciam as consequências do gradativo aumento da liberdade no período retratado — liberdade individual, social, de sexo, econômica. Mas essa irrestrita ausência de amarras parece ameaçadora para os personagens, todos relutantes em assumir responsabilidade por si mesmos.

Mesmo mais extenso do que seu livro anterior e escrito ao longo de um período maior (Franzen demorou nove anos para terminá-lo), Liberdade parece em desvantagem na comparação com As Correções. No livro anterior, Franzen assumia uma voz sarcástica e cruel para com seus personagens _ sem abdicar de dar-lhes humanidade. Já em Liberdade, Franzen opta por um amplo panorama tolstoiano, mas a articulação dos personagens desenhados com minúcia com o mundo em que se movimentam parecem mais frouxa _ o que não deixa de ser irônico em um livro tão autoconsciente de seus próprios méritos: a habilidade narrativa, o retrato vívido de personagens, o fôlego épico.

A certa altura, é Patty, por meio de um diário, quem passa a narrar uma boa parte da história _ um recurso que parece forçado, uma vez que Patty não tem voz própria, e o que ela escreve parece ter o mesmo tom do resto do livro. Mas não deixa de ser engraçado observar Franzen elogiando a si mesmo ao fazer outros personagens que leem o diário, mais adiante na trama, elogiarem a qualidade da prosa de Patty, que é a prosa de Franzen, em última instância.

Mas não vou só apontar defeitos. Liberdade é um grande romance em mais de um sentido: na extensão e no tratamento de seus personagens. É um daqueles romances nos quais se pode literalmente mergulhar, absorver-se no acompanhamento daquela realidade alternativa criada pelo autor de tal modo que o retorno à vida cotidiana se dá como quem lida com os efeitos de despressurização. No atual panorama da literatura, avulta pela ambição louvável e pela técnica de seu autor. Mas ainda não encontrou a fórmula mágica para avançar século 21 adentro enquanto retorna ao século 19.  Em outras palavras, a grande dúvida que vem tomando conta das discussões sobre o livro (e Franzen não deixa de ter méritos por provocar esse debate) é se, embora Tolstói ainda diga muito a nosso tempo, é obrigatório que alguém com coisas a dizer precise expressá-las à moda de Tolstói.

Quando falo em discussões, é porque o livro já foi resenhado por um bom número de gente, e aqui destaco três leituras em particular, a de Sérgio Rodrigues em seu blog Todo Prosa, a de Marcelo Moutinho para o blog Prosa Online, do Globo, e a de Antônio Xerxenesky no Diário de Pernambuco.


Comentários (2)

  • Alguns avisos de utilidade pública | Mundo Livro diz: 10 de junho de 2011

    [...] do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, por  João Carlos Brum Torres, em dobradinha com Liberdade, o mais recente romance de Jonathan Franzen, debatido por Flávio Moura. A mediação é de Felipe [...]

  • Henrique St.Claire diz: 6 de outubro de 2011

    Se é Hype ou não, Liberdade é um grande livro (não só em extensão) que mostra que os americanos pós 11 de Setembro estão afiadíssimo acerca deste novo momento histórico.

    Falei um pouco disso na resenha de Liberdade no meu blog:
    http://culdesacblog.com/2011/08/05/liberdade-jonathan-franzen/

    Abraços!

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