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Lágrimas de bolso

06 de junho de 2011 3

Faraco na Rússia. Foto: Arquivo Pessoal

Lágrimas na Chuva, de Sergio Faraco, foi uma das experiências de leitura mais viscerais que tive na década passada. De 2002, o volume contém as memórias do período em que, nos anos 1960, Faraco passou internado em um hospício soviético para ser “reeducado” no bom caminho da revolução por meios estritamente científicos e “progressistas”: medicamentos e psiquiatrismo radical. Faraco não estava louco, apenas havia manifestado tendências ao “individualismo” que o tornavam uma figura não muito bem enquadrada na União Soviética para a qual havia ido como militante do partido comunista para fazer um curso (a foto acima, do arquivo pessoal do autor, foi tirada naqueles anos). Enquanto estava por lá, estourou o golpe de 1964 no Brasil, o que impediu o retorno de todos os que haviam viajado, afinal, voltar ao Brasil dos militares com um carimbo da União Soviética no passaporte era pedir pra ser preso. Enquanto esperavam as coisas se acalmarem e ouviam muito catecismo revolucionário, Faraco foi tendo cada vez mais dúvidas sobre a ideologia de fundo da utopia comunista, dúvidas que não hesitava, com seu jeito franco e desabrido, de manifestar nas assembleias e reuniões – e que lhe valeram uma internação no Kremlovski Bolnitso, um hospital mental que na prática, como a maioria dos manicômios, era ele próprio uma fábrica de insanos.

Essa temporada no inferno é narrada com o tom e a medida justa próprias de um dos maiores escritores do Brasil: com honestidade, mas sem deixar de lado uma profunda autoanálise. Com a emoção e o pudor unidos de tal forma que a obra jamais resvala para o sentimentalismo, e ainda assim é um relato comovente. Quando recebi, semana passada, o e-mail da L&PM anunciando que o livro está ganhando uma edição de bolso, não resisti a vir aqui e republicar esta entrevista concedida por Faraco em 2002 à setorista de livros do jornal na época, Cíntia Moscovich. No período da entrevista, publicada em agosto de 2002 no caderno Cultura, Faraco estava ainda com o trabalho do livro em processo, publicando-o em capítulos no jornal A Notícia, de São Luiz Gonzaga – só mais tarde as memórias seriam reunidas em livro.

Zero Hora – Como surgiu a idéia de escrever as memórias da época em que o senhor viveu na Rússia?
Sergio Faraco -
De volta ao Brasil, em 1965, quis escrevê-las, mas minhas emoções ainda estavam muito cruas e desordenadas. No final de maio fui preso pela Interpol. Enquanto estive recolhido à sede da organização, os policiais entraram em meu apartamento e apreenderam todos os meus papéis, inclusive a parte da história que, mal ou bem, eu começara a desenvolver. Usaram-na para me interrogar e aquelas páginas, para mim, tornaram-se pouco menos do que malditas. No ano seguinte, em Uruguaiana, publiquei meus primeiros contos. Meu tio, Eduardo Faraco, que foi reitor da UFRGS, mostrou-os a Erico Verissimo, que me escreveu uma carta, convidando-me a visitá-lo em Porto Alegre. Eu o fiz. Ele me perguntou se não pensava escrever sobre minha estada na União Soviética. Respondi que tinha essa intenção, embora minha experiência não fosse edificante. Ele ficou pensativo, depois disse que, se era assim, talvez fosse ainda menos edificante narrá-la enquanto vivíamos, no Brasil, sob uma ditadura militar. Ele tinha razão.

ZH – E o que o levou a retomar a história?
Faraco -
Dos anos 70 aos 90 não a retomei, foi a época da minha ficção, mas ela estava lá, palpitando, fazendo-se lembrar a cada instante como um outro corpo dentro do meu corpo. Tinha eu o direito de matá-la? Ou de permitir que morresse com minha morte? No filme de Ridley Scott Blade Runner, o andróide Roy Batty, na agonia da morte, evoca sua atuação em remotas paragens do universo: “Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro na Comporta Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva“. Então me compenetrei de que aquilo que eu tinha visto, num quintalejo de angústias terrestres, haveria de se perder pelos meus defeitos de escritor, mas não por ter deixado de narrá-lo. Era a vez da minha história, por isso eu tinha parado de escrever contos, que eram, afinal, as histórias dos outros.

ZH – Por que o sr. decidiu publicá-la em capítulos no jornal A Notícia, de São Luiz Gonzaga?
Faraco –
Fui para Moscou cursar o Instituto Internacional de Ciências Sociais, que pertencia ao PCUS. Tive muitos problemas, sobretudo depois que os russos me confinaram num quarto de hospital, de novembro de 1964 a fevereiro de 1965. Escrever era como viver aquilo outra vez, era como se me flagelasse. Eu começava e, acabrunhado, desistia. Ocorreu-me, então, esse expediente: escrever e, ao mesmo tempo, publicar semanalmente o que escrevia. Publicando, não podia parar, seria uma vergonha. Escolhi A Notícia porque é um jornal bonito, bem-feito, tem tradição – acaba de completar 68 anos – e sua circulação regional não esvaziaria o livro que viesse a ser editado. Sem a parceria de A Notícia, eu jamais teria escrito os 30 e tantos capítulos que já escrevi.

ZH – Quanto de verdade – ou pelos menos de fatos realmente acontecidos – e quanto de ficção existe nas memórias?
Faraco –
Em dadas passagens, terá prevalecido minha interpretação pessoal, que talvez não coincida com a de outras pessoas que, naqueles anos, estiveram ao meu lado, mas tais desencontros são normais, são humanos, e Lawrence Durrell lhes deu um belo cartograma no Quarteto de Alexandria, marcadamente em JustineBaltasar e . Se eu pudesse inventar, seria fácil. Ao contrário, tem sido difícil porque escrevo acorrentado ao que os meus olhos viram e o meu coração sentiu.

ZH – Há uma lenda que reza que, no final dos anos 60, o senhor andava em Alegrete com os cadernos desse diário debaixo do braço. É verdade? Quanto tempo lhe tomaram essas memórias?
Faraco
- Se contarmos as primeiras tentativas, trago-as debaixo do braço há 37 anos. A versão atual, que por certo é a última, comecei a escrevê-la em janeiro deste ano e o primeiro capítulo saiu em A Notícia no início de fevereiro. Ainda não terminei, faltam-me os capítulos finais, que narram o que me aconteceu no retorno ao Brasil.

Comentários (3)

  • Tania Carvalho diz: 6 de junho de 2011

    Eu AMO o escritor e este livro. É uma obra cinematográfica. Parabéns para todos nós.

  • PAULO ALEXANDRE diz: 7 de junho de 2011

    Olá Carlos André Moreira:

    Depois de ter visto pela primeira vez o teu blog, e ter colocado um post, fica impossível não dar umas olhadas por aqui, certo?
    Vamos por parte, afinal filósofo quando começa a escrever se perde as vezes nos pensamentos, ou faz uma salada de ideias, argumentos, reflexões, e de um assunto vai parar em outro que não tem nada a ver…rsrsrs…diria que são as loucuras de todo filósofo….rsrsrsr

    Primeiro dizer que o layout do blog é legal. Realmente não sou muito de reparar detalhes(grande falha), mas no Marketing dizemos que sempre é bom inovar, criar algo que agrade os OLHOS, e traga o $$$$ do Cliente..rsrsrsrs

    Sobre o Sérgio Faraco.
    Interssante, acho que sou um “FAROQUISTA” de carteirinha, pois dentro dos conceitos da Lógica, o Universal para mim é um pouco abstrato, e sempre parto da premissa que o INDIVIDUAL vale muito mais, pois traz suas características particulares.

    Selecionando uma parte do texto:
    “o volume contém as memórias do período em que, nos anos 1960, Faraco passou internado em um hospício soviético para ser “reeducado” no bom caminho da revolução por meios estritamente científicos e “progressistas”: medicamentos e psiquiatrismo radical.”

    Este é e será meu eterno questionamento em relação aos Governantes extremistas, ou os ditos “DEMOCRATAS”,que no fundo só querem mesmo nos doutrinarmos, rotularmos não como INDIVÍDUOS, mas sim como “um a mais” dentro do “COLETIVO”.
    Faraco tem muito a nos ensinar.
    Desde como manteve a sua condição mental de consciência sadia, sabedor que não era um louco, até mesmo na capacidade de avaliar, analisar a questão Comunista na época, e se opor totalmente.

    Este blog é muito bom, deveria ser indicado para os alunos de nosso Segundo Grau, como também das Faculdades.
    A tua capacidade Carlos de “resumir”, ou analisar os livros nos permite realmente viajarmos nos pensamentos.
    Como já falei anteriormente, é necessário que o clickrbs dê mais espaço de DIVULGAÇÃO deste blog.

    Vale sugestões? Porque você não faz sorteios de Livros e Revistas? Vi que há uma lista de Editoras e Revistas ao lado direito do blog.
    Pôxa, eles podem(E DEVEM) te ajudar a criar Promoções, né?

    Outra sugestão…já que você tem capacidade de apresentação dos livros, porque não há vídeos também aqui no clickrbs do blog?

    Na Verdade é preciso EDUCARMOS o nosso POVO, que anda muito carente não apenas de leituras, mas de PENSAR, ANALISAR, REFLETIR, ARGUMENTAR….
    As vezes me sinto mais um boi no rebanho chamado Sociedade…
    As vezes uma ovelha no meio dos bois….um pouco diferente, perdido…
    BEEEEEEEEÉÉÉÉÉÉÉÉ….rsrsrsrsrsr

    Um grande abraço.

    pauloalex61@hotmail.com

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