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Mortos que andam

09 de junho de 2011 4

Confesso que não me entusiasmei quando li Apocalipse Z – O Princípio do Fim, livro de zumbis do espanhol Manel Loureiro. Ao final da leitura de suas quase 400 páginas, fiquei mesmo foi bravo com a maneira como ele tratou um determinado acontecimento da história que, ao meu ver, era importante demais para merecer o que considerei pouco caso _ sem contar aquela horrível sensação de “fui enganado”. Nem uma mísera resenha eu me animei a fazer, de tão pistola que estava com o autor.

O autor Manel Loureiro em um… cemitério

Mas passados alguns dias da conclusão da cruzada do sujeito (sem nome) que assiste ao mundo ser devorado por um vírus que transformar os vivos em mortos-vivos (ou não vivos, como Manel prefere), outros aspectos da história ficaram maiores que essa primeira má impressão e me animaram a ler sua continuação, o recém-lançado Apocalipse Z – Os Dias Escuros.

E digo que Manel está construindo _ tomara que ele continue, há franca abertura para tanto _ uma das melhores sagas de zumbis com que me deparei. A começar pelo protagonista, um advogado na faixa dos 30 anos que sai de sua casa em busca de ajuda como um John Wayne às avessas, vestido com um roupa de mergulho de neoprene, um arpão cruzado nas costas e seu gato persa a tiracolo. Nem herói, nem anti-herói, apenas um suburbano qualquer, assustado e perdido, tentando sobreviver (e se acostumar) a um mundo em ruínas.

Eis aqui outro lado explorado com vigor e vitória por Manel: como seriam as coisas após um apocalipse zumbis? Pouquíssimos filmes ou livros mostram com tanta clareza o limbo que o planeta se tornaria no caso do desaparecimento dos seres humanos — ou na sua substituição por criaturas em estado semi-catatônico. Que fim levariam os serviços essenciais? Como se comportariam os ambientes onde sempre existiu — para o bem ou para o mal — a intervenção do homem? Qual o perfil dos sobreviventes e que tipo de arquitetura social tentariam erguer?

O autor não é otimista em nenhuma das respostas que oferece, isso pode ser adiantado. Para Manel, o homem será lobo do homem até o fim dos tempos ou durante ele. Em muitos momentos, os protagonistas se questionam se não estariam melhores entre os não mortos do que sob a “proteção” dos vivos. Mesmo assim, há espaço para humor negro involuntário e até um lampejo de flerte.

O primeiro livro foi escrito em sistema de diário — começa no computador e depois, por razões óbvias, passa para um livro. O segundo abandona esse artifício e parte pra simples narrativa, ora em primeira pessoa _ quando o protagonista está no comando — ora em terceira pessoa — quando a ação é vista pelos olhos de outros, incluindo os de um zumbi. Mas em ambos reinam o suspense, o horror e a sensação de que tudo, dali por diante, sempre está por uma mordida contaminada. Os parágrafos acabam funcionando como esquinas tapadas por espigões: não dá pra saber o que iremos encontrar até dobrarmos e, quando o fizermos, estaremos por nossa conta e risco, como os personagens de Manel.

As duas brochuras também tem o mesmo (talvez único) problema: o tamanho. O autor às vezes exagera nas minúcias e gasta linhas demais descrevendo o estado de putrefação de um zumbi — coisa de quem leu muito Stephen King, acredito. É OK para, por exemplo, mostrar o quanto de tempo se passou desde que se transformaram — alguns estão completamente nus e encardidos, outra coisa que dificilmente é sugerida em histórias do gênero —, mas cansa quando se trata de um simples contato visual. Faz realmente diferença saber quantos dentes restam ao monstro se arrastando numa esquina qualquer de Madri? Ou se o braço está inteiro ou pendurado por um tendão? É pura curiosidade mórbida misturada a um certo cacoete cinematográfico: deixe o leitor imaginar, livro não é cinema, ora essa…

Mesmo assim, a leitura de Apocalipse Z é recomendada com força. Ainda mais em tempos da retomada das filmagens de The Walking Dead

Comentários (4)

  • Daniel diz: 9 de junho de 2011

    Já leu por acaso World War Z? Como esse livro se compara com o WWZ?

  • Carlos André Moreira diz: 9 de junho de 2011

    Olha, Daniel, eu, particularmente, não li. Mas vou pedir para o Gustavo, autor da resenha, responder à tua pergunta. Abraço.

  • Fernando de Oliveira diz: 15 de junho de 2011

    Tchê, mas esse Apocalipse Z é simplesmente um fenômeno! Comecei a ler na quinta-feira e terminei na terça da semana seguinte. Devorei! Não conseguia parar até saber como o sujeito sairia da casa. E depois quis saber como ele solucionaria o problema do Zaren Kibish. Depois, do hospital, etc… Q jornada maluca! Eu imergi tanto na leitura q tinha momento q eu chegava a sentir uma cosia ruim só de visualizar a situação em q o cara estava metido. Mas não dá pra negar: o q esse advogado não teve de sorte ao longo da vida, ficou creditado para qdo o mundo todo fosse pro car****, como ele gosta muito de dizer.

    Do 2º e 3º volumes só espero q a história não fique mirabolante demais, imprópria para um mundo tomado de não mortos, e q o Manel tenha o mesmo sangue frio q o autor de The Walking Dead, Robert Kirkman, teve ao não ter piedade nem dos bonzinhos: qdo alguém tiver q ser mutilado ou morrer, q aconteça. Nada de reviravoltas homéricas para salvar os personagens. É justamente esse nível de frieza (o autor matar até quem jamais imaginaríamos q poderia morrer) q deixa a história tão angustiante, q nos aproxima tanto desse mundo onde cada amanhecer vivo é um motivo para comemorar… ou ficar extremamente preocupado em como sobreviver até o dia seguinte.

    Concluindo, se os filmes de Romero são o há de top no cinema no gênero morto-vivo, e The Walking Dead é o q há de melhor nos quadrinhos, não tenho dúvidas de Apocalipse Z já coloca uma de suas mãos pútridas na taça de the best dentre os livros. Aguardemos a sequencia.

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