Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

O tamanho de Borges

14 de junho de 2011 1

A influência de Joyce sobre seu pensamento já é evidente no ensaio “Después de las imágenes”, que reitera sua crença em que as vanguardas espanhola e argentina eram limitadas demais por sua obsessão com a metáfora. Afirmava qeu o poeta deveria fazer mais do que criar metáforas: deveria “alucinar cidades e espaços de uma realidade unificada”; e a cidade que Borges tinha em mente era Buenos Aires, que ainda não fora imortalizada em poesia: “Em Buenos Aires, ainda não aconteceu nada, e sua grandeza não é autorizada por um símbolo ou uma fábula maravilhosa, nem mesmo por um destino individual comparável ao Martin Fierro.
Mas para fazer por Buenos Aires o que Joyce fizera pro Dublin era preciso uma interpretação imaginativa e sustentada do mundo. Essa era a ideia que preocupava Borges nos últimos meses de 1924 e que pode ser encontrada num ensaio sobre o poeta barroco Francisco de Quevedo, cujos conceitos brilhantes ele admirara outrora, mas agora comparava de forma desfavorável a Cervantes: “Em vez da visão abrangente que Cervantes gera através do desdobramento amplo de uma ideia, Quevedo pluraliza visões numa espécie de fuzilaria de lampejos parciais”. Ela ressurge numa resenha das memórias de Ramón Gómez de la Serna, na qual ele observa que o “entusiasmo onívoro” de Ramón individualiza cada objeto, em vez de buscar “uma visão total da vida”, “uma concórdia”, “uma síntese”. Para Borges, Ramón carecia do tipo de princípio unificador que na nova matemática era representado pelo signo do “Alef [sic]“, o número infinito que abrange todos os outros.
Em retrospecto, essa referência ao Aleph é de enorme significação para uma compreensão de Borges como escrtor. O Aleph viria a representar uma aspitação permanente de alcançar a unidade de ser em que o eu poderia se realizar plenamente, ainda que integrado à realidade objetiva do mundo. No devido tempo, essa aspiração seria articulada de forma mais completa em um de seus principais contos, intitulado precisamente “O Aleph” (1945), no qual ele procuraria expressar a totalidade extática do eu e do mundo. Mas, nesse estágio inicial, o Aleph significava uma visão unificadora que lhe permitiria escrever uma obra substancial que, tal como o Ulisses de Joyce, identificaria o autor com o mundo específico que o havia moldado, ao mesmo tempo em que daria uma qualidade universal a sua experiência.

Faz 25 anos hoje que morreu, em Genebra, o escritor argentino Jorge Luis Borges. Naquela época, sua obra já havia alcançado fama e reconhecimento, mas as inúmeras querelas em que se envolveu ao longo de seus quase 90 anos haviam deixado suas marcas em sua reputação como figura humana. Seu nome não era consenso na Argentina ainda dominada pela força do Peronismo, ao qual havia se oposto. Também no restante da América Latina sua pessoa provocava reações perplexas: era admirado pelo que havia escrito, mas seu flerte com os regimes ditatoriais do continente, em especial o de Videla na Argentina e o de Pinochet no Chile, levantavam contra ele as restrições de praxe. Não apenas na América Latina, a bem dizer. A esse respeito, leiam a narrativa que o inglês Christopher Hitchens faz em seu livro de memórias Hitch 22 (Nova Fronteira) de uma entrevista que realizou com Borges em 1978, quando cobria a Copa do Mundo na Argentina. Hitchens encontrou aquele que para ele era um ídolo, teve o prazer de ler para ele ao longo da tarde e, já no momento da despedida, ouviu seu herói literário elogiando o regime que fazia uma multidão de opositores desaparecer. A maneira como Hitchens constrói e colore tal narrativa é brilhante.

Pois hoje, duas décadas e meia após sua morte, fica claro que, à medida que o homem se distancia no tempo, mais gigantesca se torna sua presença no panorama literário do continente. Borges está mais presente do que nunca em qualquer questionamento sério que se faça sobre os rumos da literatura na contemporaneidade, para a qual apontou ainda na primeira metade do século 20 com seus contos magistrais e suas leituras acuradas da própria tradição literária. Borges é o tema não apenas da biografia Borges: uma Vida, de Edwin Williamson, de onde foi retirado o trecho acima (Companhia das Letras), ou em um dos episódios mais saborosos da biografia de Hitchens. Ele está nas Entrevistas da Paris Review recentemente relançadas pela própria Companhia das Letras (entrevistado na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires, da qual foi por anos diretor); teve praticamente toda sua obra reeditada pela mesma editora; teve três volumes de diálogos com Osvaldo Ferrari lançados em formato bolso pela Editora Hedra (Sobre os Sonhos e Outros Diálogos; Sobre a Amizade e Outros Diálogos e Sobre a Filosofia e Outros Diálogos); foi objeto de um ensaio de Luís Augusto Fischer em Machado e Borges (Arquipélago Editorial), um de Ana Cecília Olmos (Por que ler Borges, Editora Globo) e de outro de Beatriz Sarlo, em Borges: um Escritor na Periferia (Iluminuras). Neste último, a principal crítica em atividade na Argentina , na qual defende que “Borges quase perdeu sua nacionalidade” e “no atual estado das coisas, a imagem de Borges é mais poderosa que a da literatura argentina, ao menos de um ponto de vista europeu.” É verdade. Borges é hoje tomado muitas vezes como o protótipo ideal de um “autor do mundo”, um autor não de uma literatura em particular, mas da literatura, ponto.

A biografia de Williamson, embora minuciosa (e para este leitor em particular bastante polêmica, uma vez que busca na vida do autor as chaves para sua ficção, o que é, na minha opinião, um caminho certo para o desastre), é uma entre um grande número de obras dedicadas à vida do autor. Em 2009, saiu  Olhar De Borges: Uma Biografia Sentimental, de Solange Fernandes Ordoñez, filha de um advogado amigo de Borges por anos. Há também uma fotobiografia: Borges: uma biografia em Imagens, de Alejandro Vaccaro, outro de seus biógrafos. Quem garimpar em sebos ainda pode encontrar muita coisa lançada na esteira do centenário de nascimento de Borges, comemorado em 1999, entre eles o depoimento de Maria Esther Vásquez, sua amiga pessoal, na biografia Esplendor e Derrota (na qual faz duras críticas à viúva de Borges, Maria Kodama).

Hoje faz 25 anos que morreu Borges. E sua presença é tão avassaladora que quase nem se nota.

Comentários (1)

  • Cesar diz: 21 de novembro de 2011

    Borges é o maior escritor da América Latina em todos os tempos, e em Ficciones e Aleph estão abarcados os contos mais profundos de toda a literatura mundial, apenas os diálogos de Platão competem em profundidade metafórica.

Envie seu Comentário