Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

A arte em Praga e em Havana

30 de junho de 2011 7

Em 2007, um projeto de nome Amores  Expressos enviou 16 escritores a diferentes cidades do mundo para que voltassem de lá com um romance na bagagem. Depois de haver lançado os livros passados em Buenos Aires, São Petersburgo, Lisboa, Cairo e Tóquio, a coleção chega agora ao sexto e sétimo volumes, com Nunca Vai Embora, de Chico Mattoso, passado em Havana, e O Livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna. São obras que representam polos distintos da produção contemporânea. Sérgio Sant’Anna é um veterano respeitado pela solidez de sua obra pregressa, como O Voo da Madrugada e Um Romance de Geração. Mattoso é uma “jovem promessa”, como se costuma dizer. Teve sua estreia no romance, Longe de Ramiro (Editora 34), indicada ao Jabuti, em 2007. Em que pesem as óbvias diferenças, contudo, ambos os romances parecem comungar de uma certa pressa na execução – estranha quando se pensa que foram publicados quatro anos após as respectivas viagens.

Sérgio Sant’Anna narra O Livro de Praga valendo-se de um artifício metaficcional: o protagonista é, como o autor, um escritor brasileiro em viagem de 45 dias por Praga com o compromisso de produzir um romance em sua volta ao Brasil. A jornada tem o patrocínio de um jovem“bastante rico, bem-humorado e que gosta de seu trabalho” chamado “Roberto” — referência provável ao idealizador do projeto, Rodrigo Teixeira, e às críticas que o Amores Expressos recebeu quando foi anunciado, por pleitear recursos da Lei Rouanet. Devido à enxurrada de críticas, Teixeira desistiu da captação de recursos públicos e financiou todo o Amores Expressos com patrocínio privado. A mim enquanto leitor, contudo, ficou a dúvida de por que Sant’Anna fica no meio do caminho com sua narrativa metaficcional, uma vez que o personagem é claramente calcado na sua situação como autor visitante em Praga mas Sant’Anna não assume seu próprio nome, preferindo batizar seu artista em trânsito como Antônio Fernandes.

Em O Livro de Praga (Companhia das Letras, 144 páginas, R$ 37,50), Fernandes vivencia uma jornada sexual ao longo de seus 45 dias na cidade. Em uma visita ao Museu Kampa, assiste a uma inusitada apresentação musical de uma pianista que logo se transforma de experiência estética em erótica. Contemplando as estátuas que ornam a ponte do Rio Moldávia após ouvir um poema sinfônico com o mesmo nome do rio, Fernandes encontra uma jovem com pretensões suicidas a quem tentará salvar – outra experiência destinada a ser uma exaltação da carne. O livro é estruturado em sete capítulos interligados mas autônomos. Em todos, uma experiência artística é seguida de um intenso encontro erótico, variando apenas o caráter das parceiras – não apenas mulheres mais ou menos problemáticas, mas também visões beatíficas e objetos inanimados. A estrutura formulaica do conjunto, contudo, logo torna a leitura dos episódios repetitivos, permanecendo de interessante o clima kafkiano temperado com humor desbragado de algumas passagens.

Em Nunca Vai Embora (Companhia das Letras, 128 páginas, R$ 34), o paulistano (nascido na França) Chico Mattoso também se vale de um pretexto artístico para pôr a trama em andamento e justificar a presença de seu protagonista, um dentista brasileiro, em Havana. Sobre isso, uma nota curiosa: de todos os livros até agora publicados pela série Amores Expressos que este seu blogueiro leu (ou seja, todos menos o livro de João Paulo Cuenca passado em Tóquio), apenas Bernardo Carvalho em O Filho da Mãe ousou contar sua história pela voz de habitantes locais. Todos os  demais apostaram na transcrição de seu olhar de estrangeiro por meio de um personagem brasileiro transferido para a cidade retratada por um pretexto qualquer (um lançamento de livro em Cordilheira, uma migração em busca de melhores possibilidades em Estive em Lisboa e Lembrei de Você, duas viagens em busca de obsessões em Do Fundo do Poço se Vê a Lua).

Mas voltando ao livro de Mattoso: Renato, um jovem dentista, namorado de Camila, uma estudante de cinema, é convencido por ela a acompanhá-la até Havana, onde ela pretende dirigir um “documentário-verdade” impregnado dos conceitos sobre a “legitimidade da narrativa documental” e “ética do olhar cinematográfico” à moda de Eduardo Coutinho. Enquanto ela filma pelas ruas da cidade, ele caminha sem rumo, e as visões conflitantes de ambos, a jovem cineasta engajada artística e politicamente, e o profissional liberal classe média de mentalidade burguesa convencional, não demoram a entrar em conflito. Na única vez em que ele a encontra no
decorrer de uma filmagem e conhece seus companheiros de produção, o abismo entre ambos se aprofunda pelo senso de deslocamento e pelo ciúme dele em relação aos interessantes amigos artistas que ajudam Camila em seu filme.

A partir desse encontro e de seus desdobramentos desagradáveis para a relação do casal, Nunca Vai Embora (título que remete a uma fala de Jack Nicholson em A Chave do Enigma, continuação de Chinatown, único elo comum nos gostos cinematográficos de ambos) se concentra em um pastiche vertiginoso de romance policial no qual Renato não busca apenas a resolução de um mistério, mas seu próprio lugar naquele universo. A resolução (ou antes irresolução), contudo, se dá de modo abrupto – o epílogo posto lá mais como uma justificativa enfraquece o mistério do conjunto, tornando este mais um livro no meio do caminho, indeciso entre abraçar o pesadelo absurdo que desenha da metade em diante ou continuar a narrativa mais convencional mas bastante interessante que havia armado na primeira metade.

Comentários (7)

  • Laura diz: 30 de junho de 2011

    Eu achei o livro do Sérgio Sant’Anna fantástico. Ele tira sarro do projeto, o que é genial. Mas “A suicida”, talvez o “conto” mais “sério” (quantas aspas) é o melhor, pelo clima sombrio, ausência de respostas, perplexidade etc.
    “A boneca” também é muito bom, a escrita do Sérgio é muito absurda. Só “A tenente” que achei meio sem graça.

    Quanto ao “Nunca vai embora”, concordo bem. Também estava curtindo a narrativa mais convencional do início. Personagens bem construídos, bom ritmo, boa história. Gostei do livro, mas sim, ele perde o fôlego. Ou se perde em Havana, talvez.

  • Natália diz: 1 de julho de 2011

    Olá!!! Acompanho o seu blog sempre que possível e estou sentindo falta do Maigret da semana…. O que aconteceu?
    Ah! Outra sugestão… Apesar de gostar muito de ler, acho os teus posts muito extensos. Sugiro textos mais resumidos sobre livros e autores, como faz o blog Palavra Escrita… O que acha?? De qualquer forma, parabéns pelo blog!!!!

  • Maria diz: 5 de julho de 2011

    Eu gostei do livro do Mattoso. Acho que o cara tem mão de narrador: tem ritmo, estilo, leveza, talento descritivo. As ferramentas estão todas ali, e pra mim a leitura revelou um escritor interessante e de bastante potencial. Mas entendo as tuas restrições. A virada do meio do romance pode soar esquisita mesmo. Pra mim desceu bem, achei que era uma reviravolta condizente com a piração do protagonista. E achei o epílogo bonito…

    No mais, fiquei curiosa pra ler o livro do Sant’anna, nem que seja pra me decepcionar no final. Parabéns pela resenha.

  • Mundo Livro » Arquivo » Conhecendo os 20 mais diz: 11 de julho de 2012

    [...] Nunca vai embora, parte do projeto Amores Expressos, resultado de uma estadia do autor em Havana.  Publicamos uma resenha desse livro aqui (em combo com O Livro de Praga, de Sérgio Sant'Anna, também resultado do [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » O diabo na rua, no meio do labirinto diz: 22 de julho de 2013

    [...] Daniel Pellizzari publicou recentemente seu romance Digam a Satã que o Recado foi Entendido (Companhia das Letras, 180 páginas, R$ 37), romance resultado do projeto Amores Expressos. Com o lançamento, o escritor interrompe um silêncio literári que se prolongava desde 2005, com Dedo Negro com Unha (embora, nesse meio tempo, não tenha parado, efetivamente, e sim trabalhado em um projeto de quadrinhos ainda inédito com Rafael Grampá e em um bom número de traduções – a mais recente delas a ganhar edição é a coletânea de ensaios Pulphead, de John Jeremiah Sullivan, vertida para o português por Pellizzari e por Chico Mattoso, autor de outro romance do Amores Expressos, Nunca Vai Embora). [...]

Envie seu Comentário