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Posts de junho 2011

A arte em Praga e em Havana

30 de junho de 2011 7

Em 2007, um projeto de nome Amores  Expressos enviou 16 escritores a diferentes cidades do mundo para que voltassem de lá com um romance na bagagem. Depois de haver lançado os livros passados em Buenos Aires, São Petersburgo, Lisboa, Cairo e Tóquio, a coleção chega agora ao sexto e sétimo volumes, com Nunca Vai Embora, de Chico Mattoso, passado em Havana, e O Livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna. São obras que representam polos distintos da produção contemporânea. Sérgio Sant’Anna é um veterano respeitado pela solidez de sua obra pregressa, como O Voo da Madrugada e Um Romance de Geração. Mattoso é uma “jovem promessa”, como se costuma dizer. Teve sua estreia no romance, Longe de Ramiro (Editora 34), indicada ao Jabuti, em 2007. Em que pesem as óbvias diferenças, contudo, ambos os romances parecem comungar de uma certa pressa na execução – estranha quando se pensa que foram publicados quatro anos após as respectivas viagens.

Sérgio Sant’Anna narra O Livro de Praga valendo-se de um artifício metaficcional: o protagonista é, como o autor, um escritor brasileiro em viagem de 45 dias por Praga com o compromisso de produzir um romance em sua volta ao Brasil. A jornada tem o patrocínio de um jovem“bastante rico, bem-humorado e que gosta de seu trabalho” chamado “Roberto” — referência provável ao idealizador do projeto, Rodrigo Teixeira, e às críticas que o Amores Expressos recebeu quando foi anunciado, por pleitear recursos da Lei Rouanet. Devido à enxurrada de críticas, Teixeira desistiu da captação de recursos públicos e financiou todo o Amores Expressos com patrocínio privado. A mim enquanto leitor, contudo, ficou a dúvida de por que Sant’Anna fica no meio do caminho com sua narrativa metaficcional, uma vez que o personagem é claramente calcado na sua situação como autor visitante em Praga mas Sant’Anna não assume seu próprio nome, preferindo batizar seu artista em trânsito como Antônio Fernandes.

Em O Livro de Praga (Companhia das Letras, 144 páginas, R$ 37,50), Fernandes vivencia uma jornada sexual ao longo de seus 45 dias na cidade. Em uma visita ao Museu Kampa, assiste a uma inusitada apresentação musical de uma pianista que logo se transforma de experiência estética em erótica. Contemplando as estátuas que ornam a ponte do Rio Moldávia após ouvir um poema sinfônico com o mesmo nome do rio, Fernandes encontra uma jovem com pretensões suicidas a quem tentará salvar – outra experiência destinada a ser uma exaltação da carne. O livro é estruturado em sete capítulos interligados mas autônomos. Em todos, uma experiência artística é seguida de um intenso encontro erótico, variando apenas o caráter das parceiras – não apenas mulheres mais ou menos problemáticas, mas também visões beatíficas e objetos inanimados. A estrutura formulaica do conjunto, contudo, logo torna a leitura dos episódios repetitivos, permanecendo de interessante o clima kafkiano temperado com humor desbragado de algumas passagens.

Em Nunca Vai Embora (Companhia das Letras, 128 páginas, R$ 34), o paulistano (nascido na França) Chico Mattoso também se vale de um pretexto artístico para pôr a trama em andamento e justificar a presença de seu protagonista, um dentista brasileiro, em Havana. Sobre isso, uma nota curiosa: de todos os livros até agora publicados pela série Amores Expressos que este seu blogueiro leu (ou seja, todos menos o livro de João Paulo Cuenca passado em Tóquio), apenas Bernardo Carvalho em O Filho da Mãe ousou contar sua história pela voz de habitantes locais. Todos os  demais apostaram na transcrição de seu olhar de estrangeiro por meio de um personagem brasileiro transferido para a cidade retratada por um pretexto qualquer (um lançamento de livro em Cordilheira, uma migração em busca de melhores possibilidades em Estive em Lisboa e Lembrei de Você, duas viagens em busca de obsessões em Do Fundo do Poço se Vê a Lua).

Mas voltando ao livro de Mattoso: Renato, um jovem dentista, namorado de Camila, uma estudante de cinema, é convencido por ela a acompanhá-la até Havana, onde ela pretende dirigir um “documentário-verdade” impregnado dos conceitos sobre a “legitimidade da narrativa documental” e “ética do olhar cinematográfico” à moda de Eduardo Coutinho. Enquanto ela filma pelas ruas da cidade, ele caminha sem rumo, e as visões conflitantes de ambos, a jovem cineasta engajada artística e politicamente, e o profissional liberal classe média de mentalidade burguesa convencional, não demoram a entrar em conflito. Na única vez em que ele a encontra no
decorrer de uma filmagem e conhece seus companheiros de produção, o abismo entre ambos se aprofunda pelo senso de deslocamento e pelo ciúme dele em relação aos interessantes amigos artistas que ajudam Camila em seu filme.

A partir desse encontro e de seus desdobramentos desagradáveis para a relação do casal, Nunca Vai Embora (título que remete a uma fala de Jack Nicholson em A Chave do Enigma, continuação de Chinatown, único elo comum nos gostos cinematográficos de ambos) se concentra em um pastiche vertiginoso de romance policial no qual Renato não busca apenas a resolução de um mistério, mas seu próprio lugar naquele universo. A resolução (ou antes irresolução), contudo, se dá de modo abrupto – o epílogo posto lá mais como uma justificativa enfraquece o mistério do conjunto, tornando este mais um livro no meio do caminho, indeciso entre abraçar o pesadelo absurdo que desenha da metade em diante ou continuar a narrativa mais convencional mas bastante interessante que havia armado na primeira metade.

Recuperando coisa boa

28 de junho de 2011 0

Quando começamos este blog, a ferramenta de edição era outra, e não comportava quantidades de texto muito grandes (alguns colegas que acham que escrevo posts longos demais para um blog provavelmente prefeririam que tivéssemos continuado com aquela). Na época, portanto, os posts eram menores, o que não chegava a ser um problema. Problema mesmo era quando tentávamos encaixar a íntegra de uma entrevista bacana: não era possível colocar a todo o matérial, e ficávamos com o recurso algo capenga de ter de enfiar apenas as perguntas que não haviam cabido na edição impressa.

Como algumas dessas entrevistas até tinham seu valor, vamos aos poucos retrabalhar aqueles posts para finalmente termos na íntegra em um único registro o material que havia saído editado nas páginas impressas do jornal. Quando eu tiver feito algumas dessas alterações, avisarei por aqui.

Por ora, quem quiser ler, finalmente colocamos no blog as íntegras

* De uma entrevista com o historiador americano Robert Darnton, datada de 2007, quando ele veio para o Fronteiras do Pensamento, aqui em Porto Alegre.

* De outra entrevista, feita por Priscilla Ferreira com o português Mário de Carvalho, em 2006, por ocasião do lançamento aqui no Brasil de Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde.


Interpretação autoral

25 de junho de 2011 3

Cristopher Plummer como Tolstói

Um filme que eu, particularmente, tinha muita curiosidade de ver desde que fiquei sabendo que estava em produção era A Última Estação – uma adaptação do romance de mesmo nome de Jay Parini (leia mais aqui mesmo no blog) que dramatiza o último ano da vida do conde russo León Tolstói, vivido por Christopher Plummer. A produção demorou eras para estrear aqui em Porto Alegre, mas finalmente está nos cinemas da Capital a partir deste fim de semana. Minha curiosidade se dá tanto pela franca e apaixonada admiração que tenho desde a adolescência pela obra de Tolstói quanto pela curiosidade de ver o que foi feito de um livro razoável sobre uma história fascinante. Tolstói, retratado no filme e no livro como uma espécie de protocelebridade em seu tempo, viveu seus últimos anos às turras com a mulher — aristocrata de posses, Tolstói, no fim da vida, converteu-se em uma espécie de guru de um culto religioso antimaterialista com laivos revolucionários. O conde libertou seus servos e decidiu vender todas as suas propriedades como exemplo de sua doutrina que valorizava a liberdade e condenava a posse de bens materiais – algo a que Sônia Andreiévna, sua mulher, opôs-se firmemente para tentar preservar algo da fortuna da família. Desgostoso com as constantes discussões, Tolstói resolveu fugir de casa e viajar pelo interior da Rússia – empreitada que, compreensivelmente para um homem de 82 anos, não foi muito longe.

É essa a história que o filme conta, e, ao menos nas fotos, a caracterização de Plummer como Tolstói está acertada. Mas para comemorar a estreia do filme, decidi lembrar aqui no Mundo Livro 10 outras produções marcantes protagonizadas por escritores reais como personagens em histórias inventadas ou não. Obviamente a escolha se deu muito mais por critérios subjetivos do que práticos: alguns são ótimos filmes, outros, mais obscuros, mas gosto da interpretação dada pelo ator a um escritor que eu particularmente admire.

Brilho de Uma Paixão (2009)

Dirigido pela às vezes cansativa Jane Campion (vide, por exemplo Fogo Sagrado), esta cinebiografia carrega nas tintas românticas para abordar a relação entre o poeta John Keats e sua primeiramente vizinha e mais tarde amada Fanny Brawne. Mas ora bolas, Keats foi um dos expoentes do romantismo inglês na literatura, então talvez uma dose um pouco maior neste filme em particular não seja um grande prejuízo. Pelo contrário. Campion faz um drama clássico, enfocando com muita propriedade as relações altamente codificadas da sociedade do período: o flerte casto porém intenso, as regras rígidas para o comportamento de um casal interessado e o quanto se podia fazer para burlá-las. E, principalmente, Campion retira da sabedoria de Jane Austen uma lição fundamental: uma história de amor em uma sociedade tão rigidamente estratificada sempre será também uma história de dinheiro. O drama que mantém Keats (interpretado por uma versão inglesa de Gael García Bernal, Ben Wishaw) separado de sua musa é pecuniário: ele não tem recursos financeiros para um dote.

Capote (2005)

Philip Seymour Hoffmann, já se destacara como um dos grandes atores de sua geração em produções anteriores como Felicidade (1998), Magnólia (1999) e Quase Famosos (2000), mas foi com esta personificação da figura ao mesmo tempo cativante e profundamente desagradável de Truman Capote que ele recebeu o prêmio de melhor ator pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles e o Oscar da mesma categoria. Capote é um dos escritores modernos mais facilmente caricaturáveis: era baixinho, com um ego gigantesco e uma voz manhosa e anasalada. O que torna ainda mais difícil o feito de Hoffmann: o de conseguir retratar tal figura com algumas camadas a mais do que a simples caricatura, algo que ele consegue magistralmente na segunda metade da película, quando Capote parece estar sendo tragado pelo que precisa fazer para publicar seu grande livro, A Sangue Frio. A linda Catherine Keener, devidamente desgraciosa, está no mesmo filme como a amiga mais próxima de Capote, Harper Lee, autora de O Sol é Para Todos. O curioso é que praticamente a mesmíssima história com a mesmíssima abordagem  virou outro filme apenas um ano depois: Confidencial (2006), com Toby Jones como Capote e Sandra Bullock como Harper Lee. Jones é ainda mais fisicamente parecido com o Capote real do que Hoffmann, mas parece um pouco mais caricato, para minha apreciação pessoal.

Nora (2000)

Lembrado incessantemente por seus intrincados jogos formais e por seu experimentalismo que intriga críticos há “mais de cem anos”, como ele mesmo vaticinara, James Joyce também viveu com sua mulher, Nora Barnacle, um amor intenso, carnal e de um erotismo desbragado, de que são testemunhas suas belas porém quase impublicáveis cartas. É o lado um pouco mais aguado e menos ousado dessa faceta que se vê neste filme europeu dirigido por Pat Murphy, com Susan Lynch como Nora e o astro Ewan McGregor como Joyce. O filme narra a chegada de Nora a Londres, seu encontro com Joyce em 1904 – no dia que ele viria a imortalizar em Ulisses –, o casamento e a vida trágica do casal. Não é o Joyce que você conhece dos livros, mas esse é melhor conhecer nos livros mesmo.

Contos Proibidos do Marquês de Sade (2000)

Se o nome do “divino Marquês” no título nacional (que traduz o original “Quills“, ou “Penas de escrita”) não deixou claro, a encenação pesada de Phillip Kauffman não deixa dúvida de que se verá um drama sombrio. No final do século 18, o asilo de Charenton, na França, serve de prisão e moradia para o Marquês de Sade, que, mesmo mantido recluso por Napoleão, segue escrevendo seus livros. As obras são impressas clandestinamente e disputadas pelos curiosos pelo seu teor pornográfico. O filme começa com uma impressionante seqüência de decapitação que expõe, com brevidade, a significação do termo “sadismo”, derivado do nome de Donatien-Alphonse-François de Sade. O que começa com a aparência de uma cena erótica se transforma em uma imagem da violência. O filme de Kaufman é fértil nesses achados, que se constituem no ponto alto da realização, toda ela voltada para a composição de imagens que confrontam o belo e o horrendo. Sade, intepretado pelo grande Geoffrey Rush, é proibido de escrever. Tiram-lhe o papel, ele escreve no tecido de sua roupa e mesmo nas paredes. Tiram-lhe a tinta, ele dilui suas fezes em água. O ator interpreta com fúria e magnetismo a história de um artista decidido a continuar produzindo mesmo contra todas as interdições morais, legais ou sociais. Ah, sim, e tem a Kate Blanchet, quer mais o quê?

Wilde (1997)

Stephen Fry empresta seu carisma para o mais controverso autor de seu tempo, em um filme que vai gradativamente da leveza espirituosa cultivada por Oscar Wilde nos salões ao declínio melancólico de uma vida derrotada. Arrogante, mordaz, desafiador, Wilde era, como todo cavalheiro de seu tempo, casado, mas também era homossexual, e sua ligação com Alfred Douglas (Jude Law no filme, dirigido por Brian Gilbert), filho de um poderoso nobre, foi sua ruína. Acusado de obscenidade pelo pai do amante, resolveu processar o homem por calúnia, e não faltaram aí testemunhos a corroborar o que era considerado sua “vida dissoluta”. Como toda sociedade hipócrita, o problema não era a homossexualidade de Wilde, e sim seu pendor para o escândalo. Fry tem uma interpretação tão vibrante que ainda não sei se esse filme é bom ou se é a presença do ator na tela que dá essa impressão a uma produção algo capenga. Uma curiosidade é que o ator Ioan Gruffud, à época desconhecido e mais tarde famoso por seus papeis como Lancelot em Rei Arthur e Reed Richards nos filmes do Quarteto Fantástico, interpreta o poeta John Gray, que, diz-se, foi a inspiração de Wilde para sua obra O Retrato de Dorian Gray.

O Círculo do Vício (1994)

Os anos 1920 e os escritores do período parecem extremamente atraentes para o cinema, e não apenas sua vertente mais conhecida, a dos loucos anos parisienses, recentemente retratada em Meia Noite em Paris, de Woody Allen. Este filme aborda outra mítica turma de escritores e intelectuais: a mesa do Hotel Algonquin, em Nova York, ponto de encontro de jornalistas, poetas e intelectuais. Neste filme de Alan Rudolph, produzido por Robert Altman, então surfando em uma onda nova de prestígio devido a seus recentes sucessos O jogador e Short Cuts, o centro emocional da mesa do Algonquin é Dorothy Parker, uma das maiores contistas americanas e uma das figuras femininas mais fortes da primeira metade do século 20. Dorothy é flagrada ainda jovem, mas já com o humor ácido, a língua ferina e a propensão a afogar as dores na garrafa que caracterizariam sua biografia. O filme foi meio detonado pela crítica na época, mas Jenniffer Jason Leigh foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz de 1994 pela sua caracterização. Quando vi o filme, durante as poucas semanas em que ele passou em Porto Alegre na época, me incomodei um pouco com aquele sotaque arrastado que Leigh fazia para a personagem, mas depois, pesquisando alguns vídeos no Youtube para esta matéria, encontrei uma gravação da voz da autora que justifica e torna preciso o retrato feito pela atriz. Uma curiosidade: o fundador da New Yorker, Harold Ross, é interpretado no filme por Sam Robards, filho de Jason Robards, intérprete de Dashiell Hammett em Júlia (1977), sobre o qual falamos mais para baixo.

Terra das Sombras (1993)

Atualmente, pelo que sei, há, com esse mesmo nome, dois romances abomináveis para adolescentes impressionáveis escritos por Meg Cabot e Alyson Noël, mas em 1993 o clássico-quase-a-ponto-de-ser-chato Richard Attenborough dirigiu este drama romântico no qual Anthony Hopkins interpreta o escritor britânico C.S. Lewis, o autor de As Crônicas de Nárnia. É um filme com uma condução conservadora, mas ainda assim sutil, e tira sua força da interação entre a sisudez algo sem jeito do Lewis vivido por Hopkins faz de Lewis, um rígido acadêmico britânico na Oxford dos anos 1930, e o brilho gracioso de Debra Winger como a americana Joy Gresham, admiradora dos livros de Lewis. Claro que não se está livre da mão pesada de Attenborough quando, no terço final do filme, descobrimos que a jovem está com um câncer terminal, mas Hopkins ainda assim entrega uma interpretação contida que por si só redime os eventuais excessos melodramáticos desse filme. Senti falta de uma menção que fosse a Tolkien, com quem Lewis se correspondia, mas aí é meu lado nerd falando.

Henry & June (1990)

Se o já mencionado Meia Noite em Paris, de Woody Allen, transporta magicamente seu protagonista para a Paris dos anos 1920, Philip Kauffman (sim, de novo ele) flagra neste filme a capital francesa em um momento posterior, mas nem por isso menos efervescente, o início dos anos 1930. Narrado pelo ponto de vista de Anaïs Nin, interpretada pela deleitável mignon Maria de Medeiros, Henry & June mostra a influência que o encontro com Henry Miller e com a esposa deste, June, teve para o despertar artístico e erótico da autora. Casada,  em Paris, vivendo uma vida burguesa na qual tanto ela quanto o marido se veem atraídos pelo estilo boêmio dos artistas à sua volta, Nin começou um tórrido caso com Miller, na época um ainda angustiado autor pouco conhecido lutando para dar forma a seu Trópico de Câncer. Na abordagem escolhida por Kauffman, tanto o livro de Miller quanto os primeiros diários de Anaïs devem muito à experiência compartilhada por ambos numa Paris retratada em tons feéricos, de sonho e absurdo, repleta de luxuosos e misteriosos bordéis e carnavais de rua orgiásticos. A interpretação de Fred Ward, de cabeça raspada para viver Miller, tende um pouco ao exagero em certos momentos, um exagero que até casa muito bem com a comicidade extravagante de certas passagens do filme. O filme preserva o drama valendo-se de um humor preciso que teria feito muito bem à obra de Anaïs se estivesse presente em seus escritos. Os diários de Anaïs foram a base do script, ao lado da trilogia Sexus, de Miller.

Mishima: uma Vida em Quatro Atos (1985)

Yukio Mishima foi um dos artistas mais impactantes do século 20, não apenas pela qualidade literária e poética de sua obra ficcional (destaque para Confissões de Uma Máscara e O Templo do Pavilhão Dourado). Seu trabalho, contudo, era uma versão artisticamente depurada de sua visão de mundo, que é, a seu modo, desconcertante. Mishima acreditava na disciplina do corpo como uma disciplina também do espírito (algo que ele defende em seu ensaio Sol e Aço, no qual critica a ênfase dedicada pelo intelectual à mente muitas vezes em detrimento do corpo). Mishima foi poeta, dramaturgo, romancista, ator, diretor de cinema, e um inquieto renovador do que havia de mais tradicional na arte japonesa – as tradições de seu país, brutalmente transformadas após a derrota na II Guerra, foram uma questão central da vida de Mishima na última década de sua vida. Montou seu próprio exército nacionalista, a Tatenokai, dedicado a recuperar a grandeza do Japão por meio de um retorno ao Hagakure, o caminho do samurai. Em novembro de 1970, ele e quatro outros integrantes de seu grupo tomaram o quartel-general da Força de Defesa de Tóquio. Mishima pronunciou um discurso da sacada do prédio que pretendia conclamar os soldados a um golpe de estado para restaurar a grandeza do Império. Não convenceu ninguém e terminou por cometer suicídio ritual. O filme de Schrader é uma narrativa fragmentada, episódica, como o nome já entrega, flagrando Mishima em quatro momentos cruciais de sua vida, da infância até o haraquiri cometido após o golpe de Estado fracassado. Mishima é interpretado por mais de um ator, com destaque para o nacionalista de meia idade vivido por Ken Ogata.

Júlia (1977)

Lilian Hellman não era uma grande escritora, estava mais para uma oportunista que se agarrou como carrapato ao mestre do noir Dashiell Hammett e pegou carona na fama e na integridade dele. Mas durante algum tempo a imagem heroica e altruista que ela construiu de si mesma chegou a prevalecer para muita gente, até o ponto de ser cristalizada nesta produção dos anos 1970 dirigida por Fred Zinnemann baseada em Pentimento (1973), o pretenso livro de memórias da escritora. Lilian Hellman retrata a si mesma em uma ousada aventura na tentativa de ajudar uma amiga em perigo. Durante uma viagem para um congresso de escritores na Rússia, Lilian reeencontra a psicanalista Júlia, sua amiga de infância, que lhe pede para aproveitar a viagem e levar consigo dinheiro que será usado na resistência contra os nazistas. Lilian também tenta encontrar a filha da amiga, perdida em algum lugar da Alsácia, sem sucesso. Após voltar aos Estados Unidos, Lilian é informada que Júlia foi assassinada em circunstâncias misteriosas. Depois da publicação do livro e do barulho criado com o filme, vencedor do Oscar daquele ano, Muriel Gardiner, uma psicanalista de verdade e bem viva, apareceu para denunciar que a “Júlia” do título era ela, que Lilian e ela jamais haviam se conhecido e que Lilian ficara sabendo da história de vida da primeira por meio de um advogado em comum e dela se apropriara na cara dura. Lilian é interpretada por Jane Fonda, que consegue ser uma personagem particularmente irritante mesmo antes de sua apropriação indébita haver sido desmascarada. Este filme está aqui, na verdade, pela interpretação de Jason Robards para Dashiell Hammett, cansado, misantropo, angustiado e ainda assim um grande “mentor” para Hellman – ao menos como ela o retratou em Pentimento, lembrando ainda que Hammett já estava morto há anos quando o livro saiu e não poderia desmenti-la em nada.

PS Número 1: por mim eu teria incluído também o nacional Memórias do Cárcere, no qual Carlos Vereza entrega uma interpretação fantástica como Graciliano Ramos, mas não achei trailer na internet.

Ps Número 2: É sempre estranho ver imagens de um gigante há muito falecido da literatura se mexendo e fazendo as coisas que todo mundo (inclusive ele) faz. Foi mais ou menos minha impressão ao ver o vídeo abaixo, uma compilação de imagens feitas em 1909, 1910 sobre os últimos dias do León Tolstói que deu origem a este post, mostrando desde sua última visita a Moscou até a morte em Astapovo:

Aí vem mais Potter

23 de junho de 2011 0

Desde cedo a internet está em polvorosa devido ao anúncio de J.K. Rowling sobre o projeto Pottermore, um portal que deve reunir fãs em uma experiência de “leitura colaborativa” da saga Harry Potter: ou seja, o sujeito entra no site, escolhe um nome bruxo e vai passando pela leitura da história podendo acessar textos inéditos escritos para o portal pela própria autora. O leitor será “sorteado” pelo chapéu seletor no site para uma das quatro “casas” em que são distribuídos os alunos de Hogwarts: Grifinória, Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa. Nos livros, Harry faz parte da “Grifinória”, e portanto a maior parte da história é narrada do ponto de vista dessa casa, incluindo os dormitórios e a sala comum. Se o leitor for sorteado para uma casa que não a de Harry nos livros, será direcionado para uma seção do portal com novos pontos de vista narrativos escritos especialmente para o Pottermore.

O portal estará aberto a todos os internautas a partir de outubro, mas um milhão de fãs selecionados que tenham cadastrado seu e-mail no portal do projeto (www.pottermore.com) serão escolhidos para participar a partir de 31 de julho da própria construção do site – a data é o aniversário do próprio Harry Potter na saga.   O portal também será, em uma amostra do implacável tino comercial de Rowling, o local “exclusivo” de venda online de audiolivros e e-books dos exemplares da saga — eliminando o papel de fortes intermediários do setor, como a Amazon.

Já li a saga Harry Potter (até já escrevi a respeito do último capítulo da série aqui mesmo no blog). Mas não tenho essa paixão toda para ir participar de uma gincana na internet em busca de novas emoções relacionadas à leitura. Não sou um crítico implacável de Rowling, mas o livro não fez parte das minhas leituras de formação, então minha relação com ele é outra. Por isso, pedi à jovem colega Juliana Palma, estudante de jornalismo que começou a ler os primeiros Potters com oito anos de idade (senhor, como estou velho!) que escrevesse sobre a experiência. Vai abaixo o texto dela:

Juliana Palma. Foto: Jean Schwartz, ZH

Quem acompanha os lançamentos dos livros e filmes da série Harry Potter há, no mínimo, dez anos, recebeu uma notícia emocionate. No momento em que a saga está prestes a chegar ao fim nos cinemas, J. K. Rowling finalmente anunciou a possibilidade de publicar conteúdo inétido no portal Pottermore para seus ansiosíssimos leitores ao redor do mundo. A princípio, a iniciativa, que é apenas online, não pareceu ser tão emocionante quanto os livros, a não ser pelo fato de ter sido idealizada por Rowling, de quem podemos esperar as mais criativas ideias. O site colaborativo pode vir a se tornar a grande enciclopédia sobre o mundo bruxo.

A questão da enciclopédia já havia sido discutida pelos fãs antes, mas essa não seria como as que conhecemos. J. K. Rowling promete revelar histórias que nunca foram contadas nos livros e outras coisas que os fãs sequer imaginam. Desde que foi aberto, o site está completamente atolado de acessos, tornando praticamente impossível registrar e-mails para receber novas diretrizes sobre o projeto. Depois de mais cinco horas tentando ininterruptamente, deixei para me cadastrar outra hora. Os fãs de Harry Potter só falam nisso, mas o que mais me apaixona é a possibilidade de poder ajudar na construção do conteúdo que será disponibilizado em outubro através de um desafio sobre a série no fim do mês que vem. No próximo dia 15, todos estarão ávidos pelo lançamento do último filme e no dia 31 — data do aniversário do bruxo e da própria J. K. — o mundo estará em polvorosa para resolver o tal jogo que, provavelmente, fará um milhão de fãs mais felizes. Julho será definitivamente um mês agitado.

Um dia na vida

22 de junho de 2011 0


Primeiro veio a curiosidade: um anúncio publicitário de meia página na Piauí reunia elogios rasgados ao best-seller Um Dia, de David Nicholls, como se fosse um livro absolutamente imperdível. Depois veio a opinião de um amigo, em cujo gosto confio: “Não consegui passar das 30 primeiras páginas. Muito chato“.

E só então cheguei ao livro, preparada para me decepcionar com o quedeveria ser mais um fenômeno vazio do mercado editorial. De fato, as primeiras páginas, talvez não as 30 primeiras, um pouco menos, eram mesmo um pouco chatas. Estão lá, na madrugada de 15 de julho de 1988, depois de uns amassos na festa da formatura da faculdade, dois velhos estereótipos, o da guria com conteúdo e um tanto desajeitada, escondendo suas fragilidades com tiradas irônicas, e um cara bonito, o popular da turma, com um charme meio superficial e arrogante. Eles jamais haviam se aproximado antes daquela noite, véspera do começo do resto da vida de cada um, que para ela terá início em subempregos em Londres, e, para ele, em uma viagem pelo mundo. São opostos, enfim, que para o bem das comédias românticas, combinam-se e criam situações inusitadas e, geralmente, diálogos meio artificiais.

Mas a partir daí, Emma Morley e Dexter Mayhew, ganham mais e mais vida e a capacidade de desconcertar, divertir, enternecer e tocar o leitor, seguindo a estrutura do livro que mostra, a cada capítulo, como eles estão, o que pensam e como se relacionam um com o outro nos próximos dias 15 de julho, por 20 anos. E aqui cabe avisar o leitor deste blog que esta não é uma resenha que se pretende puramente analítica, ou melhor, talvez nem seja uma resenha, e sim apenas um depoimento de uma leitora desconcertada e enternecida.

Fora alguns achados, o texto não prima pelo brilhantismo, não carrega ambiguidades, tudo está dito claramente: o narrador despe os personagens, revela seus pensamentos, mesmo os mais mesquinhos ou inconfessáveis. Insegura, desfazendo da própria beleza, frustrada por passar de aluna promissora a garçonete em um restaurante mexicano, Emma ama Dexter em segredo, ironiza seus maneirismos de playboy, desculpa seus cartões-postais lacônicos. Ele flana pela vida, sem saber muito para onde, até se ver como uma celebridade na condição de apresentador de um programa B na TV, às vezes julga se Emma ainda combina com seu estilo de vida, outras precisa desesperadamente dela. Mas, a cada ano/capítulo, o que se vê é mais do que um amor que ainda não se definiu (tomando emprestada a expressão de Erico Verissimo). Esse relacionamento travestido de amizade é o fio condutor para narrar como as miudezas do cotidiano, os imprevistos, a doença, as escolhas equivocadas levam a nossa vida para longe das nossas expectativas ou dos ideais dos tempos da formatura. Aquilo que não é narrado nas elipses de tempo fica, assim, subentendido.

A cada ano, os personagens se encaram no espelho e tentam entender como mesmo foram parar ali, se há tempo para uma virada ou se é hora de simplesmente continuar em frente. Questões que ecoam principalmente naqueles que, como Emma e Dexter, estão na idade em que se julgam velhos demais para se reinventar mas ainda novos demais para se conformar com isto.

Se você leu até aqui, é preciso fazer um reparo. O livro é em muitos momentos (talvez a maioria) solar, bem-humorado, com algumas boas tiradas (Emma queria mesmo ser escritora, ao rascunhar ideias em seus elegantes cadernos de capa dura ou, como ela mesma se pergunta, era apenas alguém com fetiche por papelaria?), mas permeado por melancolia, dúvidas, inseguranças e alguns arrependimentos. Assim, como é a vida.

No desfecho, muitos dirão – e acho que eu concordo -, o livro apela para o nosso lado mais sentimentaloide (chorões, preparem seus lenços para a versão que está sendo feita para o cinema, com Anne Hathaway). Mas, terminada a trama, menos do que em Emma e Dexter, pensei em mim e tentei lembrar o que exatamente eu pensava fazer do futuro, naquele 2 de abril, data da minha formatura. E o que gostaria (e teria tempo?) para reinventar hoje passados… bem, muitos anos. E esta, acho, é uma das razões por que se diz que um livro é um bom livro: quando, ao fim, ele nos faz refletir sobre a nossa própria vida.

Mas não, este não será o livro da sua vida, como parecem prometer os anúncios. Mas vou dizer ao meu amigo que vale a pena passar da 30ª página.

Livro aberto, bola rolando

20 de junho de 2011 2

Lu Thomé, Frizon, Gonzaga e Carlos André

A coisa toda começou no ano passado, quando se aproximava a final da primeira edição do Gauchão de Literatura. Um dia num evento qualquer na Palavraria, Lu Thomé e Rodrigo Rosp, os organizadores do certame, vieram com a ideia maluca de que a final deveria ser “ao vivo”, ou seja, uma resenha feita na raça pelo árbitro em algum lugar público, em um palco na frente da galera, com o juiz improvisando de peito aberto e sujeito a levar na cacunda lata de cerveja (ou de outras substâncias não publicáveis em um blog de família). Achei que eles estavam brincando e cometi a temeridade de dizer: “olha, se vocês conseguirem marcar um lugar para isso e me quiserem na final, podem contar comigo“.

Passaram-se algumas semanas e a Lu me procurou já com a data marcada e a proposta de onde e quando seria realizada a partida final do Gauchão: três juízes convidados arbitrariam a partida final entre Pó de Parede, de Carol Bensimon, e Veja se você responde essa pergunta, de Alexandre Rodrigues. Os árbitros seriam este que vos fala, meu colega e camarada Luiz Gonzaga Lopes, do Correio do Povo, e o professor Marcelo Frizon. Bom, palavra empenhada, encrenca arranjada, e agora não tinha mais como recuar, então lá fui eu participar do que foi uma experiência bastante legal e, devo dizer, diferente para quem, como eu, exerce há tanto tempo a função de crítico (conto mais sobre isso aqui). Participei também do amistoso de “abertura”  do programa futebolístico do dia, ao lado de Antônio Xerxenesky e de Tatiana Tavares, um confronto internacional entre O Passado, de Alan Pauls, e Flores Azuis, de Carola Saavedra, que havia vencido a edição anterior da Copa de Literatura Brasileira. O “estádio” escolhido para esse embate ludopédico nunca antes visto em terras sulinas foi o Studio Clio (José do Patrocínio, 698, Cidade Baixa, Porto Alegre)

Lu Thomé, Xerxenesky, Tatiana e Carlos André

O lance é que um dos coordenadores do espaço, o professor Francisco Marshall, gostou tanto da ideia que inspirou-se nela para um novo ciclo de atividades do Stúdio, o Sport Club Literatura, que começa amanhã com um super clássico entre dois… bom, clássicos. Os juízes Milton Ribeiro e Joana Bosak apitam um confronto entre duas autoras referenciais para seu tempo na literatura inglesa: Jane Austen e George Eliot, que se enfrentam representadas por suas obras mais conhecidas: Orgulho e Preconceito e Middlemarch. Milton, inclusive, já publicou em seu blog um ótimo aquecimento de pré-jornada: algumas anotações comparativas da leitura de ambos os livros. A cada edição do encontro (haverá uma por mês, serão realizadas duas partidas: o jogo histórico opondo clássicos literários, chamado de Coliseu, o programa nobre da noite, e uma Pelada literária como preliminar, opondo os Com-ca e os Sem-ca (espero que todo mundo aí jogasse futebol ou tivesse irmãos que jogassem). A pelada, ao contrário da partida histórica, opõe livros mais modernos, de autores muitas vezes vivos, e pode ser pautada até mesmo pelo zunzunzum literário mais recente. É o caso de pelada de amanhã, na qual se enfrentam Liberdade, de Jonathan Franzen, e 2666, de Roberto Bolaño, tijolões recentes de dois autores contemporâneos aclamados como os novos expoentes da literatura produzida em seus respectivos idiomas. Os juízes seremos, outra vez, este seu editor e Antônio Xerxenesky.

Portanto, marquem na agenda que tem futebol literário amanhã e os ingressos já estão à venda:

Sport Club Literatura – 19h30min
Ingressos: R$ 5 (coreia), R$ 10 (arquibancada), R$ 15 (social) e R$ 20 (camarote) e podem ser adquiridos pela página www.studioclio.com.br.
Informações: (51) 3254-7200 ou no Studio Clio (Rua José do Patrocínio, 698, em Porto Alegre).

Quintuplus

20 de junho de 2011 5

Nestes efêmeros tempos de internet, cinco anos é quase meia idade

Pois este é o tempo que o Mundo Livro está em atividade, desde 20 de junho de 2006. Agradecemos a todos os leitores e amigos que durante este lustro – aposto que fazia anos que você não via alguém com menos de 60 usar essa palavra – nos apoiaram com suas sugestões, críticas, comentários e com sua visitação. Teremos este ano novidades na estrutura do blog: estamos estudando a publicação de resenhas do público e o uso de alguns recursos em vídeo. Tudo isso vocês serão informados no seu devido tempo, mas por ora, o que queremos dizer é muito obrigado e continuem conosco. Ah, e isso não significa nenhuma pausa nas atividades, continuamos com nosso ritmo normal (que de normal não tem nada, mas vocês entenderam.

P.S.: A foto, uma imagem  clicada por Alexandre Duret-Lutz e exibida em sua galeria no Flickr (no perfil Gadl) sob licença Creative Commons de compartilhamento, é do interior da mítica livraria parisiense Shakespeare & Company, que eu, particularmente, sempre considerei a coisa mais próxima que existe de um “Mundo Livro” no universo real.

Três décadas de bom humor e bate-boca
Três horas de Cândido no ar


O Sala de Redação em seus primórdios tinha uma estrutura diferente da atual. Idealizado pelo jornalista Cândido Norberto, o programa surgiu em 1971 como um espaço que mesclaria noticiário, entrevistas, reportagens e comentários. A diferença era a apresentação, feita pelo próprio Cândido, de modo informal, como alguém que conversasse com o ouvinte, comentando as notícias do dia. Era apresentado de 11h a 14h.
Munido de um microfone móvel, Cândido Norberto e os demais participantes falavam diretamente da redação de Zero Hora, em um espaço de não mais do que 12 metros quadrados, com uma mesa redonda. Outro microfone, suspenso no teto por um cabo, ocupava o centro da mesa. Cândido deixava o estúdio e falava com os repórteres e editores do jornal, comentando as reportagens em pauta para o dia seguinte.
O programa agradou com sua estrutura simples e descompromissada e foi se consolidando com a adesão de outros nomes ao elenco de participantes, como Ibsen Pinheiro e Paulo Sant’Ana.
Eles inaugurariam a dicotomia entre gremistas e colorados, tradição no Sala até hoje. Depois que Cândido deixou a apresentação, o programa passou a ter uma hora e a se concentrar no esporte.

A discussão é antiga

17 de junho de 2011 1

Ao revelar a data em que foi originalmente publicado o texto que havíamos colocado no ar no último post, terminamos nossa verificação empírica e bem pouco científica com a impressão de que sim, os temas do debate literário se repetem há décadas, inclusive no tom cético e por vezes alarmista que enxerga a cada geração o fim do período áureo anterior.

Como havia comentado, o post havia sido originado pelo que vinha pensando a respeito da polêmica recente dos novos autores vs. Alcir Pécora, que acusou a mediocridade da atual produção literária, de acordo com ele sem nenhuma originalidade e muito voltada para o “antiquado romanesco do século 19″. Como era de se esperar de uma declaração tão genérica, a carapuça serviu em muita gente que se apresentou para rebater as declarações de Pécora mas não com o vigor argumentativo necessário, a meu ver.

Aí estava lendo Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios, a mais recente coletânea de textos de imprensa de George Orwell publicada pela Companhia das Letras, e topei com o artigo intitulado Em Defesa do Romance, publicado na New English Weekly em duas partes, em 12 e 19 de novembro de 1936. Foi muito interessante ver muitos dos mesmos argumentos brandidos por Pécora (e por outros) enumerados por Orwell para lamentar a literatura de seu tempo.  Incluindo aí o grande número de resenhas sobre todo tipo de livro, e a publicação cada vez mais numerosa de títulos por mês (fico imaginando o que ele diria agora):

Tendo iniciado com o pressuposto de que todos os romances são bons, o resenhista é empurrado sempre para cima, numa escada sim fim de adjetivos [...]. É possível ver resenhista após resenhista seguindo o mesmo caminho. Após dois anos de um início com algum grau de intenções moderadamente honestas, ele proclama com gritos maníacos que Crimson Night, da srta. Barbara Bedworthy, é a obra-prima mais estupenda, incisiva, pungente, inesquecível do mundo, e assim por diante que jamais etc. etc. etc. Não como escapar disso depois que se cometeu o pecado inicial de fingir que um livro ruim é bom.  Mas não se pode resenhar romances para ganhar a vida sem cometer esse pecado. E, enquanto isso, os leitores inteligentes dão as costas, enfastiados, e desprezar romances se torna uma espécie de dever esnobe. Daí o fato esquisito de ser possível que um romance de verdadeiro valor passe despercebido, simplesmente porque foi elogiado nos mesmos termos que uma besteira.

O que prova duas coisas: A primeira é que tendemos a encarar as dificuldades do presente como únicas, dificuldades que os antigos, vivendo em um mundo idealizado, não tinham. A segunda é que um dos atributos do gênio é do homem arguto é, de fato, prever o futuro. Não tanto pelas capacidades místicas de um homem como esse, mas pelo conhecimento essencial que ele tem da sociedade de seu tempo, formada pelos homens de seu tempo – uma essência capaz de se manter por décadas.

Como imaginei, o número de acertos não foi unânime.

Quatro leitores responderam que o texto era de 1986.

Dois, que ele havia sido escrito em 2010.

Três comentaristas acertaram: Marcelo Xavier, Gabriela Nascimento e um Gabriel sem sobrenome mas que já é frequentador deste espaço há um bom tempo. Menção honrosa aos dois xarás porque mataram também o autor do texto.

Teste cronológico

15 de junho de 2011 9

“Não é preciso enfatizar que, neste momento, o prestígio do romance é extremamente baixo, tão baixo que as palavras ‘eu nunca li romances’, que há uma dúzia de anos costumavam ser pronunciadas com uma ponta de desculpa, são agora sempre ditas num tom de orgulho consciente. É verdade que ainda existem alguns romancistas contemporâneos ou mais ou menos contemporâneos que a intelligentsia considera permissível ler: mas a questão é que o romance bom-ruim comum é habitualmente ignorado, enquanto o livro de versos ou de crítica bom-ruim comum ainda é levado a sério. Isso significa que, se você escreve romances, automaticamente faz jus a um público menos inteligente do que se tivesse escolhido outra forma literária. Há duas razões bastante óbvias para que seja impossível hoje escrever bons romances. O romance está visivelmente se deteriorando e continuará a se deteriorar com mais rapidez se a maioria dos romancistas tiver alguma ideia sobre quem lê seus livros.”

O problema é que o romance está sendo morto aos gritos. Perguntemos a qualquer ser pensante por que “nunca lê romances” e descobriremos geralmente que, no fundo, isso se deve às bobagens repulsivas escritas por resenhistas promocionais. Não há necessidade de multiplicar os exemplos. Eis um espécime, do Sunday Times da semana passada: “Se você é capaz de ler este livro e não dar urros de prazer, então sua alma está morta”. Isso ou algo parecido é escrito agora sobre todos os romances publicados, como se pode ver observando as citações das sobrecapas dos livros. Para alguém que leva o Sunday Times a sério, a vida deve ser uma longa luta para se pôr em dia. Os romances são disparados contra você à taxa de quinze por dia, e cada um é uma obra-prima inesquecível que se você deixar de ler estará pondo sua alma em perigo. Isso deve dificultar demais a escolha de um livro na biblioteca e você deve se sentir muito culpado quando não urra de prazer. Porém, na verdade ninguém relevante é enganado por esse tipo de coisa, e o desrespeito em que recaiu a resenha de romances se estendeu aos próprios romances. Quando todos os romances são despejados sobre nós como obras de gênio, é natural supor que todos são lixo. No meio da intelligentsia literária, essa suposição é agora líquida e certa.”

Tive a ideia deste post à luz de uma leitura recente e após acompanhar a momentosa e um tanto inefetiva polêmica entre Beatriz Resende, Alcir Pécora e a nova geração de autores sobre o fim da literatura brasileira.

O considerado leitor  é capaz de adivinhar em que ano foram escritos os trechos que abrem este post? Alternativas abaixo:

a) 1892

b) 1936

c) 1963

d) 1986

e) 2010

Respondam com seus palpites nos comentários. Quando divulgar o resultado, retomo a conversa e explico o que me levou a esta pequena experiência.

O tamanho de Borges

14 de junho de 2011 1

A influência de Joyce sobre seu pensamento já é evidente no ensaio “Después de las imágenes”, que reitera sua crença em que as vanguardas espanhola e argentina eram limitadas demais por sua obsessão com a metáfora. Afirmava qeu o poeta deveria fazer mais do que criar metáforas: deveria “alucinar cidades e espaços de uma realidade unificada”; e a cidade que Borges tinha em mente era Buenos Aires, que ainda não fora imortalizada em poesia: “Em Buenos Aires, ainda não aconteceu nada, e sua grandeza não é autorizada por um símbolo ou uma fábula maravilhosa, nem mesmo por um destino individual comparável ao Martin Fierro.
Mas para fazer por Buenos Aires o que Joyce fizera pro Dublin era preciso uma interpretação imaginativa e sustentada do mundo. Essa era a ideia que preocupava Borges nos últimos meses de 1924 e que pode ser encontrada num ensaio sobre o poeta barroco Francisco de Quevedo, cujos conceitos brilhantes ele admirara outrora, mas agora comparava de forma desfavorável a Cervantes: “Em vez da visão abrangente que Cervantes gera através do desdobramento amplo de uma ideia, Quevedo pluraliza visões numa espécie de fuzilaria de lampejos parciais”. Ela ressurge numa resenha das memórias de Ramón Gómez de la Serna, na qual ele observa que o “entusiasmo onívoro” de Ramón individualiza cada objeto, em vez de buscar “uma visão total da vida”, “uma concórdia”, “uma síntese”. Para Borges, Ramón carecia do tipo de princípio unificador que na nova matemática era representado pelo signo do “Alef [sic]“, o número infinito que abrange todos os outros.
Em retrospecto, essa referência ao Aleph é de enorme significação para uma compreensão de Borges como escrtor. O Aleph viria a representar uma aspitação permanente de alcançar a unidade de ser em que o eu poderia se realizar plenamente, ainda que integrado à realidade objetiva do mundo. No devido tempo, essa aspiração seria articulada de forma mais completa em um de seus principais contos, intitulado precisamente “O Aleph” (1945), no qual ele procuraria expressar a totalidade extática do eu e do mundo. Mas, nesse estágio inicial, o Aleph significava uma visão unificadora que lhe permitiria escrever uma obra substancial que, tal como o Ulisses de Joyce, identificaria o autor com o mundo específico que o havia moldado, ao mesmo tempo em que daria uma qualidade universal a sua experiência.

Faz 25 anos hoje que morreu, em Genebra, o escritor argentino Jorge Luis Borges. Naquela época, sua obra já havia alcançado fama e reconhecimento, mas as inúmeras querelas em que se envolveu ao longo de seus quase 90 anos haviam deixado suas marcas em sua reputação como figura humana. Seu nome não era consenso na Argentina ainda dominada pela força do Peronismo, ao qual havia se oposto. Também no restante da América Latina sua pessoa provocava reações perplexas: era admirado pelo que havia escrito, mas seu flerte com os regimes ditatoriais do continente, em especial o de Videla na Argentina e o de Pinochet no Chile, levantavam contra ele as restrições de praxe. Não apenas na América Latina, a bem dizer. A esse respeito, leiam a narrativa que o inglês Christopher Hitchens faz em seu livro de memórias Hitch 22 (Nova Fronteira) de uma entrevista que realizou com Borges em 1978, quando cobria a Copa do Mundo na Argentina. Hitchens encontrou aquele que para ele era um ídolo, teve o prazer de ler para ele ao longo da tarde e, já no momento da despedida, ouviu seu herói literário elogiando o regime que fazia uma multidão de opositores desaparecer. A maneira como Hitchens constrói e colore tal narrativa é brilhante.

Pois hoje, duas décadas e meia após sua morte, fica claro que, à medida que o homem se distancia no tempo, mais gigantesca se torna sua presença no panorama literário do continente. Borges está mais presente do que nunca em qualquer questionamento sério que se faça sobre os rumos da literatura na contemporaneidade, para a qual apontou ainda na primeira metade do século 20 com seus contos magistrais e suas leituras acuradas da própria tradição literária. Borges é o tema não apenas da biografia Borges: uma Vida, de Edwin Williamson, de onde foi retirado o trecho acima (Companhia das Letras), ou em um dos episódios mais saborosos da biografia de Hitchens. Ele está nas Entrevistas da Paris Review recentemente relançadas pela própria Companhia das Letras (entrevistado na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires, da qual foi por anos diretor); teve praticamente toda sua obra reeditada pela mesma editora; teve três volumes de diálogos com Osvaldo Ferrari lançados em formato bolso pela Editora Hedra (Sobre os Sonhos e Outros Diálogos; Sobre a Amizade e Outros Diálogos e Sobre a Filosofia e Outros Diálogos); foi objeto de um ensaio de Luís Augusto Fischer em Machado e Borges (Arquipélago Editorial), um de Ana Cecília Olmos (Por que ler Borges, Editora Globo) e de outro de Beatriz Sarlo, em Borges: um Escritor na Periferia (Iluminuras). Neste último, a principal crítica em atividade na Argentina , na qual defende que “Borges quase perdeu sua nacionalidade” e “no atual estado das coisas, a imagem de Borges é mais poderosa que a da literatura argentina, ao menos de um ponto de vista europeu.” É verdade. Borges é hoje tomado muitas vezes como o protótipo ideal de um “autor do mundo”, um autor não de uma literatura em particular, mas da literatura, ponto.

A biografia de Williamson, embora minuciosa (e para este leitor em particular bastante polêmica, uma vez que busca na vida do autor as chaves para sua ficção, o que é, na minha opinião, um caminho certo para o desastre), é uma entre um grande número de obras dedicadas à vida do autor. Em 2009, saiu  Olhar De Borges: Uma Biografia Sentimental, de Solange Fernandes Ordoñez, filha de um advogado amigo de Borges por anos. Há também uma fotobiografia: Borges: uma biografia em Imagens, de Alejandro Vaccaro, outro de seus biógrafos. Quem garimpar em sebos ainda pode encontrar muita coisa lançada na esteira do centenário de nascimento de Borges, comemorado em 1999, entre eles o depoimento de Maria Esther Vásquez, sua amiga pessoal, na biografia Esplendor e Derrota (na qual faz duras críticas à viúva de Borges, Maria Kodama).

Hoje faz 25 anos que morreu Borges. E sua presença é tão avassaladora que quase nem se nota.