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Tramas de Gelo, Fogo e Aço

05 de julho de 2011 9

A série As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin, teve seu primeiro livro lançado nos anos 1990 nos Estados Unidos (de um total previsto de sete, quatro já foram publicados, dois deles traduzidos no Brasil). De lá para cá, a série se tornou uma das histórias de fantasia mais vendidas internacionalmente nos últimos anos, condição que deve se ampliar com a repercussão positiva da adaptação para a TV produzida pelo HBO. Vi apenas os primeiros cinco episódios, mas posso dizer que minha impressão é de que a série tem, sobre o livro, algumas vantagens consideráveis. O programa de TV condensa os principais méritos dos romances, como os diálogos afiados, personagens cativantes e uma trama inteligente e imprevisível, e ao mesmo tempo abrevia alguns de seus problemas, como uma certa pomposidade na prosa que frequentemente escorrega em clichês. Acrescente-se a isso os problemas graves e específicos da edição brasileira da Leya, sobre os quais falarei com mais calma daqui a alguns parágrafos, e ainda assim preciso tirar o chapéu para a inventividade da trama, capaz de capturar o olhar do leitor mesmo com tantos obstáculos

A saga se passa em um mundo imaginário, com inspiração nas sociedades feudais da Europa medieval. Uma diferença é que nesse mundo coisas mágicas e ameaçadoras espreitam das sombras e as estações do ano não são regulares – depois de um verão que durou nove anos, a série começa com um ameaçador inverno à espreita. A maior parte da ação transcorre no continente Westeros, no qual estão localizados “os sete reinos” que obedecem ao poder central de um monarca chamado Robert Baratheon. Antes dele, a linhagem real era exercida pela família Targaryen, descendentes do primeiro rei a conquistar e unificar os antigos sete reinos autônomos. Muitos anos antes do tempo em que a narrativa se desenrola, Robert e seus aliados levantaram-se em rebelião contra os desmandos de um rei Targaryen particularmente tirano chamado Aerys II, o louco. O louco foi deposto, seu filho, herdeiro do trono, assassinado, e seus últimos dois filhos foram levados por um nobre leal até as terras “além do mar estreito” — um outro continente a leste de Westeros. Não é, contudo, a clássica idealizada história de monarquia: Robert, embora tivesse motivos justos para se sublevar contra seu soberano juramentado (inclusive vingar o assassinato de seu irmão e o rapto, estupro e morte da mulher que amava), tornou-se um rei fraco e negligente, mais interessado em bebedeiras e bordéis (às vezes bebedeiras em bordéis) do que em administrar os negócios do Estado. Tampouco Viserys Targaryen, o herdeiro deposto, seria um rei melhor se retornado ao trono a que tinha direito. É um jovem fraco, mimado e arrogante, que tiraniza a sua irmã mais nova, Daenerys, e, para garantir as alianças militares necessárias para financiar seu retorno a Westeros, não hesita em cafetinar a garota entregando-a como esposa a um bárbaro de um povo guerreiro.

Martin é minucioso na criação de uma história pregressa para seu mundo medieval, apresentada ao longo da trama maior desenhada para os romances. Quando a história começa, Robert sobe em direção ao reino mais ao Norte, Winterfell, a terra gelada onde mesmo o verão é frio, para pedir a seu melhor amigo e aliado na conquista do trono, Eddard Stark, que retorne com ele à capital do Reino e assuma o posto de Mão do Rei, executor de suas ordens e chefe do conselho de governo. Stark não quer ir, não acha que se adaptaria à vida de conspirações palacianas na Corte, mas muda de ideia quando recebe uma carta da irmã de sua esposa. A cunhada acusa a família da mulher do rei, os Lannister, de assassinar o último homem a ocupar o posto de “Mão do Rei”, Jon Arryn, a quem Stark devotava respeito e amizade filiais. Stark avalia que, com os poderes vastos de “Mão do Rei” e morando na Corte, poderá descobrir o que aconteceu a seu mentor, e por aceita a nomeação – decisão que trará consequências drásticas para ele e sua família a partir dali.

Frente a esse pano desenrolam-se traições, batalhas, ameaças e crimes que podem vitimar qualquer um, não importa o quão fundamental seja seu papel para a trama, narrada em capítulos curtos que alternam os pontos de vista entre diversos personagens — a maioria deles pertencente à “casa Stark”: o próprio Eddard; sua mulher, Catelyn; as duas filhas de ambos, Arya e Sansa; um dos filhos mais novos, Bran; o primogênito, Robb; e por fim o filho bastardo de lorde Stark, Jon. Há outros personagens que também conduzem os olhos do leitor na narrativa, como já citada Daenerys e o carismático Tyrion Lannister, o irmão anão da rainha Cersei, esposa de Robert – o personagem tornou-se cativante também na série de TV, na qual o ator Peter Dinklage tem colhido muitos elogios com sua interpretação para o homúnculo, que pode ser tanto sarcástico e cruel quanto comovente em certas passagens.

Martin tem muitos méritos técnicos (a narração alternada é um artifício que dinamiza a narrativa e facilita a empatia com os personagens), mas não é um mestre da prosa. Ele não se detém tanto sobre as descrições do mundo que está criando, como o faz o J.R.R Tolkien com quem vem sendo incessantemente comparado. Mas quando o faz, ficam claras suas dificuldades para encontrar meios expressivos que não fujam das metáforas mais óbvias. Mais de um personagem é  descrito com cabelos “negros como a noite” (quem ainda usa isso a não ser Bianca e Sabrina?). Há claros problemas oriundos da tradução na edição nacional da Leya. Alguns deles são, como o próprio tradutor Jorge Candeias contou em seu blog, fruto de uma desastrada ideia de não contratar um tradutor brasileiro e sim usar uma versão já pronta, portuguesa, adaptando-a para o “brasilês” sem nem ao menos consultar o responsável pela tradução lusitana. Há, contudo, outros problemas que não podem ser debitados apenas a essa falha de percurso entre Portugal e Brasil.

O próprio título do primeiro volume, A Guerra dos Tronos, embora de aparência mais imponente, não funciona como deveria para traduzir A Game of Thrones – literalmente Um Jogo de Tronos. Em uma das passagens cruciais da narrativa, Eddard Stark confronta a rainha Cersei com um segredo que descobriu — o mesmo que levou Jon Arryn à morte — e recebe como resposta uma ameaça bem mais do que velada: “Quando se joga o jogo dos tronos, ou se ganha ou se morre“. A frase tem sua veracidade comprovada mais além e é repetida em diferentes contextos outras duas vezes, justificando seu emprego pelo autor como título e aumentando o questionamento sobre qual a razão para a mudança na tradução. Até por que a legítima Guerra dos Tronos também não se dá no primeiro livro, e sim no segundo, quando o reino se esfacela e mais de um personagem exige ser reconhecido como soberano dos sete reinos em todo ou em parte. O que nos leva ao título traduzido do segundo livro: A Fúria dos Reis. Embora também soe épico, não se adapta ao original A Clash of Kings. Como se trata da marcha para uma guerra total entre mais de uma casa, cada uma com pretensões ao trono, o sentido literal do título, Um Choque de Reis (ou a versão com o artigo direto, mais eufônica em português, O Choque dos Reis), seria mais adequado.

Há problemas de incongruência com a própria proposta esboçada pelos livros: o mundo criado por Martin é, embora fictício, um universo que compila características de vários períodos medievais da história ocidental, com ênfase no que Le Gofy e Duby classificam como Alta Idade Média, aquele logo em sequência à queda do Império Romano. Em Westeros há um poder central em conflito com as relações feudais de suserania e vassalagem entre nobres menores e maiores. Há torneios, uma elaborada heráldica e guerras disputadas com a estratégia militar clássica do período — movimentos de cavalaria e infantaria cobertos com a artilharia de companhias de arqueiros. Não há canhões, como não os houve na Idade Média até  o século XIV, devido principalmente ao primitivismo das técnicas de metalurgia (os melhores itens de metalurgia no universo de A Guerra dos Tronos são feitos do chamado “aço valiriano”, cujas refinadas técnicas de fusão, liga e forja se perderam com o passar dos séculos, como muitos avanços feitos pelos romanos regrediram a nada nos primeiros anos do Medievo). Se não há canhões, nem peças de artilharia, não há muito uso para barris de pólvora. Pois é exatamente a um “barril de pólvora” que a narrativa compara a instabilidade que se segue no reino após Catelyn Stark decidir, no primeiro livro, capturar um personagem para levá-lo preso até Winterfell. Comparar situações políticas turbulentas a um “barril de pólvora” já seria um clichê por si só desagradável, mas se torna particularmente estranho no contexto específico da série.

A prosa, já vimos, é um problema, mas é possível ignorar tal dificuldade em certa medida. É na agilidade dos diálogos, na riqueza de motivos de seus personagens, e na firmeza com que sustenta às vezes cinco focos narrativos simultâneos (em uma teia que se expande em direção aos confins de seu mundo imaginário) que Martin demonstra as qualidades que fazem o leitor virar a página ansioso pelo que virá em seguida. O desapego do autor por seus personagens é admirável, uma vez que não garante imunidade a ninguém. Se por um lado isso é louvável, por manter a expectativa do leitor em suspenso sobre os destinos do alto número de personagens, por outro parece ser um recurso do qual o autor abusa, eliminando abruptamente em ao menos dois casos pontuais figuras que poderiam ter rendido muito mais.

Sean Bean como Eddard Stark na série Game of Thrones

Comentários (9)

  • Simone Saueressig diz: 5 de julho de 2011

    Ah! Ainda bem que não fui só eu que tropecei nas páginas! Ainda bem! E tem mais coisas, Carlos, muitas mais! Carvalhos (sempre carvalhos, por quê?!? Tá, eu sei porque, já convivi com um bosque de carvalhos, eu sei o que eles valem, mas os pinheiros também são misteriosos pra caramba e ninguém dá bola pra eles!), acho que vi até algum pau-brasil, lá pelas tantas (mas não tenho certeza, devia ter assinalado). Obrigadão pela crítica!

  • Paulo Ricardo Willrich diz: 5 de julho de 2011

    Acabo de assinar a SKY e peguei a série desde o começo.Não li os livros,mas procuro me informar da abrangência do mundo/trama criados pelos autores.Parabéns e obrigado pelo texto !

  • mariana diz: 5 de julho de 2011

    faltou o aviso de spoiler no começo !

  • Everson diz: 5 de julho de 2011

    Carlos André,

    Respondeste uma questão que me afligia: se eu embarcar nesta, devo ler no original em inglês. A tradução manca me tira do prumo e do rumo.

    A série de TV é muito boa. E, me disseram, bastante fiel ao livro. Sobre as qualidades e defeitos, também já estava informado.

  • Samir diz: 6 de julho de 2011

    Pior que eu até entendo uma certa motivação comercial na escolha dos titulos em português, “A guerra dos tronos” soa mais pomposo e heróico do que “Um jogo de tronos”, embora seja também mais genérico. E traduzir “Clash” como “Fúria” me fez pensar em Fúria de Titãs na mesma hora… parece ter seguido uma lógica de vicio de titulo de filme de locadora.

    Quanto às questões de linguagem, me retrato: por mais que tenha implicâncias com a verborragia de professor chato do Tolkien, ele de fato tinha um trabalho com linguagem infinitamente superior (afinal, o sujeito era linguista e inventou uma lingua nova por conta própria). Ainda não li os livros do George R. R. Martin, mas lerei em breve motivado pela excelente série mais do que pelos méritos literários dela.

  • Luís Fernando Bittencourt diz: 9 de julho de 2011

    Não deixe de assustir aos outros episódios :-)

  • Iuri Palma diz: 29 de julho de 2011

    Só vou ler este livro quando surgir uma tradução para pt-br.

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