Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Sexo, repressão e arte

07 de julho de 2011 1

Isabelle Huppert em A Professora de Piano (2001)

Quando recebeu o Nobel de Literatura, em 2004, a escritora austríaca Elfriede Jelinek ainda não fora publicada no Brasil — e seu único texto vertido para o português, a narrativa curta Paula, estava programada para uma antologia do conto alemão que a L&PM previa para dali a duas semanas. De lá para cá, mais nenhuma obra da autora austríaca havia sido traduzida para o português — situação que muda com a publicação de A Pianista (Tradução de Luis Krausz. Tordesilhas, 336 páginas), romance editado pela recém-fundada Tordesilhas (em uma leva de lançamentos que inclui também Os Trinta e Nove Degraus, de John Buchan). A Pianista é a obra mais conhecida de Elfriede Jelinek, 64 anos, não tanto pela popularidade do romance, mas por haver sido adaptado para o cinema em 2001 em um perturbador drama dirigido pelo também austríaco Michael Haneke e estrelado por Isabelle Huppert – que ganhou pela sua intepretação o prêmio de melhor atriz em Cannes.

O impacto provocado pelo filme não é de modo algum resultado exclusivo do estilo cruel de Haneke — o filme é bastante fiel ao livro, e portanto todo aquele desconforto já estava na obra literária, como os leitores menos sensíveis descobrirão. A pianista do título, Erika Kohut, foi criada pela mãe para ser um talento iluminado do piano, uma virtuose internacional. Aos poucos, mergulha na árdua realidade de que não tem o que seria preciso para elevá-la à grandeza. Aos 40 anos, sustenta a si e à mãe dando aulas de piano no conservatório de Viena, a “Cidade da Música” — apelido da capital austríaca há séculos, usado no romance com uma devastadora carga irônica, uma vez que a história que se quer contar não é a da sublime beleza da música, e sim da música como sublimação dos instintos subterrâneos mais predatórios da sociedade austríaca.

Erika, apesar da meia-idade, ainda vive com a mãe, com quem mantém uma relação de sadismo e dependência – ambas têm brigas selvagens nas quais a mãe rasga os vestidos novos que a filha compra na cidade, trocam tapas e empurrões e puxões de cabelo para mais tarde fazerem as pazes em jantares melancólicos. Erika também frequenta cabines de peep-shows, corta os genitais com giletes, dirige todo o recalque pela sua mediania contra o mundo que a cerca – sejam seus temporários colegas de viagem nos corredores de ônibus, a quem gosta de ferir com o peso de um violencelo, sejam as alunas com potencial para irem além do que própria foi — uma delas em particular é vítima de uma sabotagem cruel por parte da mestra. Quando o universo instável e já desequilibrado de Erika precisa reacomodar em seu âmbito o interesse dirigido a ela por um jovem aluno que a corteja, a vida da personagem se precipita em uma espiral de sexo e violência, rompendo o frágil dique de sua sanidade.

Comentários (1)

  • Iuri Palma diz: 29 de julho de 2011

    O filme é fantástico. Vou ler o livro.

Envie seu Comentário