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O Quintana de seus livros

15 de julho de 2011 0

Mario Quintana em foto de Dulce Helfer

E já que eu falava de reedições: volto da rua depois de uma maratona corrida de entrevistas para uma pauta que deve estar no jornal na semana que vem e sou surpreendido pelo barulho provocado pela notícia de que a obra literária de Mario Quintana vai ser editada pelo selo Alfaguara da Objetiva  a partir do ano que vem. Ainda me lembro de quando a Globo começou a publicar as novas edicões comemorativas ao centenário do poeta, em abril de 2005, coordenadas pela professora Tânia Franco Carvalhal, que também trabalhou na fixação de texto das várias versões de um mesmo livro de Quintana publicados ao longo de sua extensa carreira. Quintana era o tipo de autor que mexia em um livro na reedição, acrescentava um poema, mudava outro, pegava poemas de seus primeiros livros que ele acreditava merecerem um tipo diferente de ressonância, e os republicava em suas obras mais recentes…

Apenas seis anos depois, a obra muda de editora, o que significa a volta dos livros às livrarias com nova cara e mesmo nova ordem. A diretora-editorial da Objetiva, Isa Pessôa, em um comunicado à imprensa, explicou algumas das diretrizes que vão nortear a mudança de casa de Quintana, e não pude deixar de notar, sem que vá aqui nenhum juízo de valor, as concepções diferentes que movem uma e outra série de edições do poeta. A de 2005 se pautava por um critério cronológico: os primeiros três livros lançados foram aqueles que Quintana publicou primeiro: A rua dos cataventos, de 1940; Canções, de 1946; e Sapato florido, de 1948. A Antologia Poética dos anos 1980 só foi sair no fim da série — justamente porque, de acordo com Tânia Carvalhal, Quintana vinha sofrendo uma certa antologização excessiva, que impedia a visão de sua obra no contexto.  Já Isa Pessôa anunciou quais devem ser os dois livros a abrir a coleção:

Nossa ideia inicial, ainda sujeita a alterações, é iniciar a série com dois lançamentos simultâneos. O primeiro: a Antologia poética, clássico do autor, editada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos nos anos 60. A meta é fazer um resgate da edição original, assinada por dois titãs da literatura brasileira, sem intermediários – recuperando ainda a fortuna crítica da época (a antologia foi publicada em homenagem aos 60 anos do autor, junto a uma célebre saudação feita em sua homenagem na Academia Brasileira de Letras, onde Quintana, por mais inacreditável que pareça, nunca foi eleito imortal).
Com o título provisório
No retrato que me faço, primeira linha de um poema do autor, o outro volume de estreia será criado a partir de frases e haicais do poeta, famoso por suas tiradas anticonvencionais, em que nunca perdoava os chatos nem o tédio de existir.

Ou seja, mudou o foco. Além da reedição integral da obra, a antologia sai primeiro, e anuncia-se além disso duas outras coletâneas. Imagino que No Retrato que me Faço será uma antologia biográfica ao modelo do que a Alfaguara já fez com João Cabral e com Fernando Pessoa (com bom resultado no primeiro caso e estranhíssimo no segundo), misturando trechos de sua obra que possam dar um panorama da vida e da personalidade do autor, e uma coletânea de Poemas para Ler na Escola. Não que isso seja bom ou ruim, ainda não vi as edições da Alfaguara, que tem feito um belo trabalho com autores de quem gosto particularmente, como Lobo Antunes, H.G. Wells, Mario Vargas Llosa.

A ideia de uma coletânea com ditos e haikais que forme um “perfil poético” de Quintana pode funcionar muito bem. Quintana caiu fácil no gosto do público, mas isso não chega a ser demérito – ele trabalhava de modo obsessivo e consciente a simplicidade da enunciação tentando não comprometer a complexidade do enunciado. No ano do centenário de Quintana, 2006 (as edições da Globo saíram em 2005 justamente para ter a obra integral disponível ao público no ano seguinte), o caderno Donna ainda publicava uma série chamada Autorretrato com um determinado número de perguntas fixas, inspiradas no célebre questionário de Proust – por falar nisso, ídolo de Quintana. No fim de semana em que se completavam os cem anos de nascimento de Quintana, fizemos dele nosso entrevistado – repetindo algo que havíamos feito no ano anterior no centenário de Erico Verissimo, catamos as respostas para as perguntas fixas da seção nas obras de cada um.

As respostas de Erico vieram das memórias Solo de Clarineta – me pareceria forçado escolher trechos de sua ficção, mas nas memórias e nos livros de viagem Erico era “ele próprio”, então achei mais apropriado à homenagem. No caso de Quintana, usei por base não as edições uma a uma da Globo, mas meu exemplar da antologia integral da obra completa pela Nova Aguillar. Na época achei que a entrevista com Quintana, justamente por sair de material poético, havia ficado melhor do que a de Erico. Relendo hoje, confirmei a impressão. E resolvi republicá-la já que se volta a falar do escritor esta semana não apenas pela mudança de casa editorial mas pelos 105 anos de seu nascimento (a Casa de Cultura com o nome do poeta, em Porto Alegre, via ter uma programação especial para comemorar a efeméride, com apresentações e performances, dança, teatro de marionetes, leituras de poesias, malabares… Um clima de circo, o circo que Quintana também cantava em seus poemas.

Segue a entrevista imaginária:

Pergunta — Qual a sua lembrança de infância mais remota?
Mario Quintana –
Fui um menino por trás de uma vidraça – um menino de aquário. Via o mundo passar, como numa tela cinematográfica, mas que repetia sempre as mesmas cenas, as mesmas personagens.

Pergunta — Onde você passou as suas férias inesquecíveis?
Quintana —
O que estraga as viagens, agora, é o seu rápido destino: de repente já estás em Pequim… Benditos, mil vezes benditos aqueles carrosséis que ensinaram aos meninos de meu tempo a pura alegria de viajar!

Pergunta – Qual a sua idéia de um domingo perfeito?
Quintana
— No céu é sempre domingo. E a gente não tem outra coisa a fazer senão ouvir os chatos.

Pergunta — O que você faz para espantar a tristeza?
Quintana —
O único problema da solidão consiste em como conservá-la.

Pergunta — Que som acalma você?
Quintana —
Quando os sapatos ringem…

Pergunta — Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Quintana —
Clair de lune, chiaro de luna, claro de luna… jamais os franceses, os italianos e os espanhóis saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de um trago numa palavra só.

Pergunta — Que livro você mais cita?
Quintana —
Livro bom é aquele de que às vezes interrompemos a leitura pra seguir – até onde? – uma entrelinha… Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.

Pergunta — Que filme você sempre quer rever?
Quintana —
…devia ser proibido fazer desenhos animados depois de Walt Dysney.

Pergunta — Um gosto inusitado.
Quintana
— O que eu mais adoro, depois da precisão, são os expletivos.

Pergunta — Um hábito de que você não abre mão.
Quintana —
Alarmar senhoras gordas é um dos maiores encantos desta e da outra vida.

Pergunta — Um hábito de que você quer se livrar.
Quintana —
O que eles chamam de nossos defeitos é o que temos de diferente deles. Cultivemo-los, pois, com o maior dos carinhos – esses nossos benditos defeitos.

Pergunta — Um elogio inesquecível.
Quintana —
Poeta de amplo espectro, como se diz nas bulas farmacêuticas. Assim se expressou um dia a respeito deste escriba o seu cúmplice em poesia e colendo crítico Guilhermino César. O que bastou para que alguém me interpelasse: “como é? Ele está te chamando de fantasma?”

Pergunta — Em que situação você perde a elegância?
Quintana —
O mais irritante de nos transformarem um dia em estátua é que a gente não pode coçar-se.

Pergunta — Em que outra profissão consegue se imaginar?
Quintana —
…eu queria ser um pajem medieval… Mas isso não é nada. Pois hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu mesmo!

Pergunta —Eu sou…
Quintana — Eu não sou eu, sou o momento: passo.

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