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Padecimentos de um leitor que perambula

19 de julho de 2011 5

Kiera Knightley como Elizabeth na versão de "Orgulho e Preconceito"

Ainda na adolescência, em São Gabriel, desenvolvi a habilidade – que mais tarde seria muito útil – de ler andando, ou de caminhar lendo, como queiram. Desde então, a maioria das pessoas de minhas relações (parentes, namoradas, amigos, colegas de trabalho e até um que outro desconhecido que simplesmente passou por mim na rua) condenou a temeridade do procedimento e vaticinou para muito breve o dia em que eu seria vítima desse estranho hábito: cairia em um buraco, meteria o pé num bueiro, seria atropelado, bateria em algum obstáculo do caminho (e isso que na época nem havia os contêineres esses da Prefeitura), seria vítima de um batedor de carteira, seria vítima de um assaltante, etc. Ainda não aconteceu, felizmente para mim.

Ler caminhando não é tão difícil quanto parece depois que se pega a prática, e cada um terá seu próprio método para ajustar o ritmo das passadas ao da leitura. No meu caso, como leio enquanto venho a pé para a Zero Hora, carregando minha pasta de trabalho dependurada  no ombro, mantenho as mãos livres o máximo possível, mas seguro o livro com apenas uma delas, geralmente a direita. A lombada do livro se acomoda na mão na concha formada pelos dedos e pela palma enquanto o polegar faz pressão sobre as páginas no interior do livro, mantendo-o aberto. Para virar as páginas, usa-se a outra mão, ergue-se o polegar como se fosse uma cancela e depois da folha virada retorna-se o dedo à mesma posição. Depois de algum tempo e dependendo de alguns fatores como a antiguidade do livro, a qualidade do papel e a umidade relativa do ar, é possível também virar a página apenas com o polegar que se está usando para manter o livro aberto.

Enxergar o caminho enquanto se lê, obviamente, é impossível, por isso é bom manter os demais sentidos alertas aos ruídos da rua – que identificam se uma aglomeração de pessoas vem na tua direção, se o som dos carros está ficando mais intenso, indicando aproximação da esquina. E, claro, pontualmente dar uma leve conferida erguendo o olhar do livro por alguns instantes e memorizando os obstáculos dos próximos metros. Com essa nesga do caminho memorizada, é só observar o caminho com a visão periférica e o canto de olho para tentar reconhecer os potenciais perigos avistados quando do conferes preventivo.

Não, ao contrário do que os desavisados possam pensar, não são as dificuldades inerentes a andar em cabra cega os maiores obstáculos à leitura ambulante. É, sim o grande número de tijolões literários lançados no último ano. Segurar o livro com uma mão só, mantendo-o aberto com o concurso único e exclusivo do polegar pode até dar certo com os livros mais recentes do Rubem Fonseca, por exemplo, os dois com menos de 200 páginas (e sobre os quais teremos textos em Zero Hora até a semana que vem) ou com as menos de 300 de Orgulho e Preconceito (cuja adaptação cinematográfica ilustra este post e, além de uma leitura sensacional, é um livro curto e direto sem abrir mão da complexidade). Agora, já tentaram fazer isso com as 900 páginas de Sangue Errante, de James Ellroy; as 700 de Freedom, de Jonathan Franzen; as 1000 da biografia de Hitler, as 850 de 2666 de Roberto Bolaño, as 500 de A Viúva Grávida, de Martin Amis, as 700 cada volume de A Guerra dos Tronos?  Portanto, esse é o único conselho que posso dar para quem pretende dominar as artes arcanas da leitura ambulante: escolham livros curtos, sob pena de destroncarem um dedo.

Comentários (5)

  • Rodolfo diz: 19 de julho de 2011

    Desenvolvi a mesma habilidade durante a faculdade, Carlos. Foram dezenas de livros assim enquanto eu ia pra (ou me deslocava dentro da) UnB, lá em Brasília. Acho que bati num poste uma vez, mas a lembrança é vaga.

    Pra quem pretende tentar, a minha dica: quando se conhece o caminho, a coisa fica bem mais fácil — não me arrisco a ler andando por onde nunca passei. Agora que me mudei pra São Paulo, cheia de ladeiras, cruzamentos e dejetos animais, a leitura ficou mais difícil, mas ainda rola.

  • pan diz: 20 de julho de 2011

    meu pai cortou um livro no meio pra facilitar andar com ele, e ele nem anda lendo. acho q era um tolstoi

  • Iuri Palma diz: 29 de julho de 2011

    Muito doido. O que eu não consigo é ficar em fila ou em transporte coletivo sem um livro.

  • Marcel Citro diz: 9 de agosto de 2011

    Quanto a mim, Carlos, terei que desenvolver o hábito. Minha família reclama que passo tempo demais enfurnado com os livros, e preciso achar meios para conciliar vida social com vida literária. Seria bom que alguém inventasse um GPS com detector de obstáculos para leitores com déficits temporais.

  • A solução dos meus problemas | Mundo Livro diz: 9 de agosto de 2011

    [...] eu escrever sobre os problemas que acometem o sujeito que lê caminhando, bem como sobre a dificuldade de manter aberto o livro seguro pelo polegar quando o exemplar é de [...]

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