Li pela primeira vez O Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis, em 1993, exemplar comprado em um sebo da Rua da Ladeira que ainda existe (eu me referia ao sebo, que é o Beco dos Livros, mas ainda tenho o mesmo exemplar, então, tecnicamente, tanto o livro quanto a loja ainda existem). O livro vinha sendo muito comentado como o retrato definitivo do mal-estar da era yuppie da década anterior, e também havia desagradado muita gente e sido repudiado em massa por críticas à sua suposta amoralidade e à ultraviolência de suas descrições quase sádicas dos atos do protagonista, Patrick Bateman. Na época, li o livro e o achei vigoroso, bruto, com grandes qualidades, mas fundamentalmente superestimado, prejudicado por um excesso de autocomplacência - suas quase 500 páginas de ficção episódica poderiam ter sido editadas sem prejúizo do que o autor queria expressar se não estivesse tão enamorado de seus próprios achados.
Por algum motivo que desconheço, apesar de várias listas de doações feitas para abrir espaço ou ordenar as coisas ao longo de todos esses anos e um bom número de mudanças de residência (incluindo uma separação), esse livro sobreviveu nas minhas estantes (enquanto coisas que eu particularmente gostaria de ter mantido, como o primeiro exemplar que comprei de Anna Karenina ou Alta Fidelidade desapareceram). E arrumando algumas coisas dia desses abri uma gaveta de um armário cheia dos livros mais antigos do apartamento e deparei com o meu exemplar. Fiquei pensando em doar para algum lugar ou passar adiante, mas primeiro resolvi dar uma nova olhada na história da qual eu só lembrava episódios isolados, até para ver se confirmava algumas das impressões daquela longínqua primeira leitura de juventude.
E foi só aí, passada toda a falação da época, que pude mensurar de modo mais neutro o que havia lido, com os olhos mais abertos tanto para os muitos defeitos do livro quanto para algumas das suas qualidades técnicas - sim, técnicas, a maioria dos elogios que o livro colheu naquela época voltava-se para o quanto o tema era provocador e o quanto Ellis havia sido corajoso em enfrentá-lo, mas muitos ressalvavam que o autor não era necessariamente um primor de técnica (Norman Mailer chegou a lamentar que um tema daqueles não tivesse caído nas mãos de um escritor melhor). Mas Ellis fez sim escolhas eminentemente técnicas que ainda despertam o desconforto e a perplexidade dos leitores. E por incrível que pareça, não são as detalhadas descrições dos horrores cometidos por Bateman o que mais incomoda hoje. É a despersonalização crescente da sociedade ultracapitalista na qual ele vive (e também nós), na qual ele (e bem poucos de nós) nada com a elegância predatória de um tubarão, sem se importar com os peixes pequenos que vai recolhendo no caminho.
Basicamente, o livro é composto de longos e fragmentados episódios narrados em primeira pessoa por Patrick Bateman, jovem executivo do banco de investimentos P & P, de Wall Street. Bateman é rico, atlético, obcecado pela juventude e beleza do próprio corpo e pelas regras de moda e elegância para aqueles localizados no topo da pirâmide da grana. Até bem além de um terço do livro, o que temos são descrições de jantares, festas e noites de sexo de Bateman, em companhia de outros colegas de Wall Street, com sua namorada da alta sociedade, Evelyn, e com as namoradas dos colegas quando tem a chance. Bateman e os seus iguais discutem sobre a dificuldade de se conseguir boas reservas nos melhores restaurantes, sobre o quanto as garotas de determinadas universidades de elite são jogo duro na hora do sexo, comparam aparelhos de som de última geração, cartões de visita, os ternos que usam. E seria fácil apontar o quanto algumas das sacadas de Ellis são pouco sutis, quase pueris em sua obviedade, como fazer da primeira frase do romance, Abandon Hope All Ye Who Enter Here, uma paráfrase da inscrição acima das portas do Inferno na Comédia de Dante. A inscrição, pichada em letras cor-de-sangue na parede de um banco, é uma advertência ao leitor e uma carta de intenções: "não se engane, por baixo do vale-tudo yuppie aqui retratado, o que você verá é o inferno".
Na primeira vez em que li o livro, cheguei na metade já pulando sem dor na consciência as minuciosas enumerações de marcas que ordenam o mundo como visto pelos olhos de Bateman. O que eu não me lembrava de ter percebido na época era o quanto esse truque tedioso e diabolicamente simples fazia par com outro recurso muito utilizado pelo autor ao longo do livro: o fato de que os personagens vivem confundindo as identidades uns dos outros. Bateman vive encontrando um outro executivo chamado Paul Owen, que detém uma conta milionária e cobiçada, e a quem Bateman acabará por matar. E Owen sempre chama Bateman por outro nome, Marcus, bem como diversos outros personagens que cruzam o caminho de Bateman ao longo da história o cumprimentam declinando nomes que não são o dele. Embora por vezes se incomode de ser confundido, Bateman também vive incorrendo nesse equívoco, acenando para homens que de fato não conhece e trocando os nomes daqueles que conhece superficialmente. Uma nota curiosa é que alguns nomes do livro foram, sem um motivo aparentemente razoável, mudados na adaptação para o cinema de 2000 estrelada por Christian Bale – e Paul Owen virou Paul Allen, acrescentando uma nova camada a essa trama de identidades apenas vagamente conhecidas. Voltando ao livro e a suas identidades trocadas: o mesmo sujeito que consegue em um rápido olhar descrever se o paletó de um terno estilo jaquetão é Valentino Couture, Brooks Brothers ou Hugo Boss e declinar a marca de gravatas e sapatos bem como as regras elegantes de combinação entre elas não consegue memorizar o nome dos colegas de trabalho - e no fim das contas não são eles todos iguais, a seu modo?
É esse o pulo do gato que livra a obra das acusações de amoralidade que sempre lhe foram imputadas. Psicopata americano não deixa de ser a seu modo um livro moral, uma vez que Bateman não parece tomar precauções excessivas para não ser descoberto e ainda assim atravessa o livro numa escalada de sangue sem ser pego. Ele assassina mendigos, entregadores, prostitutas, em plena rua, até começar a mirar nos alvos de sua própria classe, como a vizinha de sua namorada ou o próprio Paul Owen. Ele manda lavar suas roupas e lençóis manchados em uma tinturaria, é flagrado por uma vizinha com os lençóis manchados de sangue e, com sucesso, apresenta a desculpa de que é suco de framboesa. Não parece haver choque nem surpresa moral, o que instala uma atmosfera nonsense.
Um último comentário: fui reencontrar a prosa de Easton Ellis em 2007, quando ele lançou Lunar Park, um livro no qual narra a história em primeira pessoa pela voz de um escritor chamado Bret Easton Ellis, tornado famoso e best-seller aos 21 anos de idade com a publicação de um romance que foi reconhecido como o retrato da geração yuppie. Repetindo um pouco a mesma estrutura de O Psicopata... - com um terço preparatório para uma eclosão de horror, Ellis entrega uma obra aí sim autocomplacente, vazia e de um horror malbaratado paródia dos mestres do gênero como Stephen King.


















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