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Posts de julho 2011

O psicopata e eu

27 de julho de 2011 2

Li pela primeira vez O Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis, em 1993, exemplar comprado em um sebo da Rua da Ladeira que ainda existe (eu me referia ao sebo, que é o Beco dos Livros, mas ainda tenho o mesmo exemplar, então, tecnicamente, tanto o livro quanto a loja ainda existem). O livro vinha sendo muito comentado como o retrato definitivo do mal-estar da era yuppie da década anterior, e também havia desagradado muita gente e sido repudiado em massa por críticas à sua suposta amoralidade e à ultraviolência de suas descrições quase sádicas dos atos do protagonista, Patrick Bateman. Na época, li o livro e o achei vigoroso, bruto, com grandes qualidades, mas fundamentalmente superestimado, prejudicado por um excesso de autocomplacência – suas quase 500 páginas de ficção episódica poderiam ter sido editadas sem prejúizo do que o autor queria expressar se não estivesse tão enamorado de seus próprios achados.

Por algum motivo que desconheço, apesar de várias listas de doações feitas para abrir espaço ou ordenar as coisas ao longo de todos esses anos e um bom número de mudanças de residência (incluindo uma separação), esse livro sobreviveu nas minhas estantes (enquanto coisas que eu particularmente gostaria de ter mantido, como o primeiro exemplar que comprei de Anna Karenina ou Alta Fidelidade desapareceram). E arrumando algumas coisas dia desses abri uma gaveta de um armário cheia dos livros mais antigos do apartamento e deparei com o meu exemplar. Fiquei pensando em doar para algum lugar ou passar adiante, mas primeiro resolvi dar uma nova olhada na história da qual eu só lembrava episódios isolados, até para ver se confirmava algumas das impressões daquela longínqua primeira leitura de juventude.

E foi só aí, passada toda a falação da época, que pude mensurar de modo mais neutro o que havia lido, com os olhos mais abertos tanto para os muitos defeitos do livro quanto para algumas das suas qualidades técnicas – sim, técnicas, a maioria dos elogios que o livro colheu naquela época voltava-se para o quanto o tema era provocador e o quanto Ellis havia sido corajoso em enfrentá-lo, mas muitos ressalvavam que o autor não era necessariamente um primor de técnica (Norman Mailer chegou a lamentar que um tema daqueles não tivesse caído nas mãos de um escritor melhor). Mas Ellis fez sim escolhas eminentemente técnicas que ainda despertam o desconforto e a perplexidade dos leitores. E por incrível que pareça, não são as detalhadas descrições dos horrores cometidos por Bateman o que mais incomoda hoje. É a despersonalização crescente da sociedade ultracapitalista na qual ele vive (e também nós), na qual ele (e bem poucos de nós) nada com a elegância predatória de um tubarão, sem se importar com os peixes pequenos que vai recolhendo no caminho.

Basicamente, o livro é composto de longos e fragmentados episódios narrados em primeira pessoa por Patrick Bateman, jovem executivo do banco de investimentos P & P, de Wall Street. Bateman é rico, atlético, obcecado pela juventude e beleza do próprio corpo e pelas regras de moda e elegância para aqueles localizados no topo da pirâmide da grana. Até bem além de um terço do livro, o que temos são descrições de jantares, festas e noites de sexo de Bateman, em companhia de outros colegas de Wall Street, com sua namorada da alta sociedade, Evelyn, e com as namoradas dos colegas quando tem a chance. Bateman e os seus iguais discutem sobre a dificuldade de se conseguir boas reservas nos melhores restaurantes, sobre o quanto as garotas de determinadas universidades de elite são jogo duro na hora do sexo, comparam aparelhos de som de última geração, cartões de visita, os ternos que usam. E seria fácil apontar o quanto algumas das sacadas de Ellis são pouco sutis, quase pueris em sua obviedade, como fazer da primeira frase do romance, Abandon Hope All Ye Who Enter Here, uma paráfrase da inscrição acima das  portas do Inferno na Comédia de Dante. A inscrição, pichada em letras cor-de-sangue na parede de um banco, é uma advertência ao leitor e uma carta de intenções: “não se engane, por baixo do vale-tudo yuppie aqui retratado, o que você verá é o inferno”.

Na primeira vez em que li o livro, cheguei na metade já pulando sem dor na consciência as minuciosas enumerações de marcas que ordenam o mundo como visto pelos olhos de Bateman. O que eu não me lembrava de ter percebido na época era o quanto esse truque tedioso e diabolicamente simples fazia par com outro recurso muito utilizado pelo autor ao longo do livro: o fato de que os personagens vivem confundindo as identidades uns dos outros. Bateman vive encontrando um outro executivo chamado Paul Owen, que detém uma conta milionária e cobiçada, e a quem Bateman acabará por matar. E Owen sempre chama Bateman por outro nome, Marcus, bem como diversos outros personagens que cruzam o caminho de Bateman ao longo da história o cumprimentam declinando nomes que não são o dele. Embora por vezes se incomode de ser confundido, Bateman também vive incorrendo nesse equívoco, acenando para homens que de fato não conhece e trocando os nomes daqueles que conhece superficialmente. Uma nota curiosa é que alguns nomes do livro foram, sem um motivo aparentemente razoável, mudados na adaptação para o cinema de 2000 estrelada por Christian Bale – e Paul Owen virou Paul Allen, acrescentando uma nova camada a essa trama de identidades apenas vagamente conhecidas. Voltando ao livro e a suas identidades trocadas: o mesmo sujeito que consegue em um rápido olhar descrever se o paletó de um terno estilo jaquetão é Valentino Couture, Brooks Brothers ou Hugo Boss e declinar a marca de gravatas e sapatos bem como as regras elegantes de combinação entre elas não consegue memorizar o nome dos colegas de trabalho – e no fim das contas não são eles todos iguais, a seu modo?

É esse o pulo do gato que livra a obra das acusações de amoralidade que sempre lhe foram imputadas. Psicopata americano não deixa de ser a seu modo um livro moral, uma vez que Bateman não parece tomar precauções excessivas para não ser descoberto e ainda assim atravessa o livro numa escalada de sangue sem ser pego. Ele assassina mendigos, entregadores, prostitutas, em plena rua, até começar a mirar nos alvos de sua própria classe, como a vizinha de sua namorada ou o próprio Paul Owen. Ele manda lavar suas roupas e lençóis manchados em uma tinturaria, é flagrado por uma vizinha com os lençóis manchados de sangue e, com sucesso, apresenta a desculpa de que é suco de framboesa. Não parece haver choque nem surpresa moral, o que instala uma atmosfera nonsense.

Um último comentário: fui reencontrar a prosa de Easton Ellis em 2007, quando ele lançou Lunar Park, um livro no qual narra a história em primeira pessoa pela voz de um escritor chamado Bret Easton Ellis, tornado famoso e best-seller aos 21 anos de idade com a publicação de um romance que foi reconhecido como o retrato da geração yuppie. Repetindo um pouco a mesma estrutura de O Psicopata… – com um terço preparatório para uma eclosão de horror, Ellis entrega uma obra aí sim autocomplacente, vazia e de um horror malbaratado paródia dos mestres do gênero como Stephen King.


Scliar disfarça o conto na crônica

26 de julho de 2011 0


Moacyr Scliar em 1990. Foto de José Doval, ZH


Moacyr Scliar (1937 – 2011) foi um atleta de triatlo da literatura brasileira. Nadava, pedalava, corria. Escreveu mais de 80 livros em praticamente todos os gêneros. Só não publicou em poesia para não humilhar seus colegas. Romancista que renovou o imaginário judaico, autor de clássicos como O Centauro no Jardim, quatro vezes premiado com Jabuti, Scliar mantinha seu condicionamento literário pelas crônicas, publicadas quase que diariamente nos jornais Zero Hora e Folha de S. Paulo.

Os relatos afetivos e coloquiais formavam uma espécie de diário de seu conhecimento enciclopédico, em que ele comentava sobre qualquer assunto e nome, desde medicina até sociologia, de Antônio Vieira a J. K. Rowling. O escritor gaúcho, falecido em fevereiro ( e que vai virar nome de prêmio literário anunciado pelo governo do Estado no dia 18 do mês que vem), não era um generalista, mas um sábio à moda antiga, com cultura geral sólida, pronto para qualquer discussão e cafezinho. Não se intimidava diante da complexidade das questões. Ao contrário de intelectuais que se tornaram referência, tal Paulo Francis na década de 1980, jamais escorregou em perfil conservador, mantendo-se sempre curioso e ávido pelas mudanças tecnológicas e de comportamento e aberto a diferentes pontos de vista.

A coletânea de 1984 A Massagista Japonesa (128 páginas, R$ 13), relançada agora pela L&PM, por vias tortas acena para o lado contista de Scliar, possibilitando o reencontro com sua capacidade de mimetizar dilemas do cotidiano e propor um suspense de pensamento. São 35 textos de natureza híbrida entre a narrativa curta e o ensaio. Poderiam constar facilmente em seus livros de contos as tramas de Muitos e Muitos Graus Abaixo de Zero, A Massagista Japonesa, O Ocaso da Delação e O Homem que Corria. O núcleo contístico traduz o ponto alto da obra, pelas histórias visível e invisível, concisão da ação e exagero da caracterização, além do final imprevisível. Scliar maneja a arte de criar lógica da incoerência. Ele nos convence do absurdo a ponto de parecer normal. Como a trama do advogado que se apaixona pela maratona a ponto de transformar o casamento, o escritório e os filhos em meras linhas de chegada de uma corrida interminável pelo melhor tempo. E não é uma metáfora, o sujeito pretende fazer tudo mesmo correndo por Porto Alegre.

Uma das virtudes da trajetória do ficcionista, demonstrada com astúcia em A Orelha de Van Gogh e O Carnaval dos Animais, é justamente exumar metáforas: converter parábolas em situações literais, objetivar o figurado. Na contramão bíblica, transforma o vinho em água, leva a sério a chuva de rãs, traz à tona os efeitos colaterais dos milagres. Magistral contador de causos, flaubertiano assumido, não deixa nenhum ponto sem nó, nunca desperdiça migalha jogada ao chão (é caminho de volta), não despreza informação abordada antes. Se uma personagem tricota um pulôver é que a roupa vai fazer a maior diferença no desfecho. Nada é avulso. Sua competência é desviar atenção a um contexto de maior movimentação, para que outra zona exploda secretamente e surpreenda o leitor. Exemplo é a antipatia que ajuda a alimentar pelo delator da escola. Afinal, não existe motivo para admirar o guri que dedura por prazer. Toda hora alerta o professor para colegas colando na prova, trocando bilhetes de amor, conversando no fundo. Nem o professor suporta tamanha alcaguetagem e pede que ele procure se concentrar no conteúdo. Ao cabo, o fofoqueiro é pego fumando no banheiro e sumariamente expulso da instituição. O alívio dá lugar a um mal-estar, já que se descobre que o próprio delator se denunciou por bilhete anônimo e tudo aquilo que o movia era uma absoluta carência.

Scliar é cruel sendo emotivo. Um engano supor que A Massagista Japonesa servirá para matar saudade do seu trabalho. De modo nenhum: apenas aumenta sua falta.


Texto de Fabrício Carpinejar

Dois programas legais

22 de julho de 2011 1

* Amanhã, sábado, dia 22, o editor deste blog, estará às 9h no Teatro Renascença (Av. Erico Verissimo, 307) para mediar o encontro entre a psicanalista Lúcia Serrano Pereira e o professor Eduardo Wolf, como parte da programação do seminário Livros que Abalaram o Mundo, da Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultural. Lucia Serrano falará sobre A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, e Eduardo Wolf sobre O Apanhador no campo de Centeio, de J. D. Salinger.

* Um dos bons novos autores recentes na área literatura é um homem que migrou da arte para as letras. Lourenço Mutarelli, quadrinista referência do underground autoral, estreou na literatura em 2002, com O Cheiro do Ralo (Devir na primeira edição, Companhia das Letras na mais recente), e nesta última década tornou-se um dos mais prolíficos autores em atividade, tendo publicado os romances Jesus Kid (Devir), O Natimorto (primeira edição: DBA; segunda edição: Companhia das Letras), A Arte de Produzir Efeito sem Causa; Miguel e os Demônios e Nada me Faltará (estes últimos pela Companhia das Letras). Pois Mutarelli estará no projeto Palavra Inquieta do Clube de Autores, uma série de encontros e debates semanais transmitidos online. O bate-papo será realizado na próxima terça-feira, dia 26 de julho, a partir das 17h30, e pode ser acompanhado na página da editora Clube de Autores no Facebook (clique aqui). Quem estiver acompanhando o papo, pode enviar perguntas pelo twitter da editora: @clubedeautores, enviando perguntas e impressões.


Leitura em alta velocidade

22 de julho de 2011 0

Assaltar o banco Wachovia, no centro da Filadélfia, era um trabalho ousado, devido às ruas estreitas e as poucas rotas de fuga. Mas 650 mil dólares que estavam por ser depositados na instituição bancária compensavam o risco e uniram o irlandês Patrick Lennon, aparentemente mudo, e seus dois comparsas, Bling e Harlen. O assalto não foi tão difícil como parecia, nem a rota de fuga um empecilho, principalmente porque Lennon, o protagonista de O Motorista — do jornalista e escritor norte-americano Duane Swierczynski — era um mestre na condução de carros utilizados em assaltos a bancos. No entanto, aquele não era um dia de sorte para Lennon, e o dinheiro acabou se tornar o seu menor problema.

Lennon perdeu os 650 mil dólares, foi agredido e dado como morto e isso era apenas o começo de uma trama que não para de surpreender o leitor. Lennon é o anti-herói, mas é impossível não torcer para que se safe das muitas armadilhas que tem que enfrentar em meio à perseguição do FBI.

As mudanças de tempos narrativos, as viradas da trama e as revelações inesperadas chegam a despertar no leitor de O Motorista a vontade de montar uma espécie de organograma para entender quem é quem e qual o objetivo de cada um dos envolvidos no crime, que coloca em cena um matador contratado, um policial corrupto, estudantes universitários e até as máfias russa e italiana.

Duane Swierczynski dá um ritmo ágil à narrativa. Mantém o leitor em estado de alerta, tenso, à espera de um novo desfecho, que se abre em outra ação e mais uma surpresa. Ler O Motorista (Rocco. Tradução de Antônio E. de Moura Fiho, 224 páginas) é como conduzir um carro em alta velocidade, por ruas estreitas e poucas rotas de fuga, depois de um milionário assalto a banco.

Texto de Bete Duarte

Novas mulheres, mas as mesmas

20 de julho de 2011 2

No ano passado, fiz um post recomendando cinco livros sem edição recente mas que valiam, na opinião deste blogueiro, um garimpo ao sebo mais próximo ou um cadastro na Estante Virtual. Um desses livros, o primeiro deles, melhor dizendo, era Mulheres, de Charles Bukowski. O post inteiro pode ser lido aqui, mas reproduzo o que escrevi especificamente sobre esse livro:

Muito da reputação de Bukowski como “velho safado” – reputação que ele mesmo gostava de espalhar com um tanto de vaidade e outro tanto de ironia – vem de livros como este. Baseado em grande medida em experiências autobiográficas, Mulheres flagra o alter ego de Bukowski, Henry Chinaski, já entrado na idade madura e escritor de ofício, pulando de um relacionamento a outro com mulheres loucas, fantásticas e até certo ponto incompreensíveis para a mentalidade de um beberrão da velha escola como ele, um cinquentão tendo que lidar com as novas mulheres que emergem da consolidada revolução sexual e comportamental. É também um dos livros mais engraçados que Bukowski escreveu, com sua ironia feroz dirigida a tudo e a todos, inclusive a si mesmo, Em uma das cenas, ao visitar a família de sua namorada vinte anos mais nova, Lydia, no estado do Utah, Chinasky/Bukowski insiste em passear pelo bosque que circunda a propriedade em que está hospedado e se perde – e é hilário o modo como ele imagina as notícias de jornal sobre sua morte ou, como depois de abrir a pedradas o cadeado de uma cabine metálica achando que lá havia um telefone, encontra apenas interruptores que, acionados, abrem as comportas de uma represa. Chinaski brinca com a ideia de deixar a água correr e ser salvo quando a polícia montada for chamada para cuidar do problema. E também imagina as manchetes, garrafais:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR, INUNDA METADE DE UTAH PARA SALVAR SEU DELICADO RABO DE LOS ANGELES. Um clássico.

Publicado nos Estados Unidos em 1978 e lançado no Brasil em 1984 em uma edição muito presa da Brasiliense — hoje dificílima de achar, Mulheres está de volta às prateleiras de livrarias depois de mais de duas décadas fora de catálogo. A L&PM lançou faz pouco uma nova edição pocket do livro, com a mesma tradução também clássica do Reinaldo Moraes, autor de Tanto Faz e Pornopopeia (o escritor relata a experiência de traduzir o livro em um depoimento no site da L&PM).

O escritor e seus fantasmas

20 de julho de 2011 0

Antônio Xerxenesky. Foto de Jean Schwarz/ZH

Amanhã o escritor Antônio Xerxenesky, 26 anos, autografa, na Palavraria (Vasco da Gama, 165) seu terceiro livro, A Página Assombrada por Fantasmas (Rocco, 126 páginas), uma coletânea de nove história na qual volta ao conto, gênero no qual estreou em um livro editado pela Movimento há alguns anos. Xerxenesky tornou-se conhecido nacionalmente com a recepção de seu primeiro romance, Areia nos Dentes, história que sobrepõe camadas de escrita para narrar em paralelo uma invasão de zumbis em um povoado poeirento do Velho Oeste e a história de um mexicano decaído, autor da primeira narrativa, nos tempos contemporâneos.

Em A Página Assombrada por Fantasmas Xerxenesky apresenta nove narrativas que continuam enfocando os dilemas da representação do mundo pela escritura. Pelos nove contos passeiam alguns escritores, muitos leitores e vários seres que são ambas as coisas. Da primeira história, que relata a ansiedade de um jovem escritor prestes e encontrar seu maior ídolo, um autor renomado de Buenos Aires, à última, em que um personagem deficiente faz a crônica de uma jovem e brilhante geração de autores a quem conheceu quando todos eram jovens intelectuais algo posudos, Xerxenesky transita por vários retratos de leitores e por vários gêneros de conto. Para falar do livro, sobre o qual você pode ler mais no Segundo Caderno de hoje, o autor concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora, por e-mail:

Zero Hora — Seu livro de estreia, Entre (Movimento) é uma coletânea de contos à qual você sempre se referiu de modo desabonador (inclusive, indiretamente, em um dos contos deste livro). Depois de um romance bastante bem recebido, sua volta ao conto tem algum desejo de, de alguma forma, provar a si mesmo numa forma na qual seu trabalho anterior o desagradava?
Antônio Xerxenesky —
Eu comecei escrevendo contos (para o livro Entre) porque não tinha fôlego para escrever um romance, não porque achava que aquele era o formato mais adequado. Voltar aos contos não foi tanto para “provar alguma coisa”, foi apenas para saciar o desejo de escrever um livro de contos mais consciente das especificidades das narrativas breves. Além disso, o Entre não foi um livro “planejado”, não tem unidade temática ou estética, enquanto A página assombrada por fantasmas tem todo um projeto por trás.

ZH — As narrativas de A Página Assombrada por Fantasmas se constroem sobre o ofício e o trabalho da escrita: personagens escritores, diálogo com outros livros e autores, aberta ou veladamente. Qual sua relação com esses “predecessores”, na terminologia de Bloom: confronto, como ele aventa, ou paixão e, de alguma forma, mímese?
Xerxenesky —
Há “influência”, sem dúvida. É um livro que não existiria sem todas as minhas leituras de Vila-Matas e Bolaño. Mas essa influência se dá tanto em forma de homenagem como em forma de crítica. E, claro, há toda a minha bagagem pessoal pesando na hora de escrever.

ZH — Talvez em seu primeiro conto, que narra a ansiedade de um jovem escritor ao encontrar o mestre literário por quem sempre teve admiração e passa o conto inteiro a imaginar como será esse encontro, haja uma chave para a leitura de seu livro como um todo. Você está escrevendo sobre os jogos de aparências e influências do universo literário?
Xerxenesky —
Sim, sem dúvida. Sinto que escrevi também um livro sobre o desencanto, sobre a separação entre o mundo abstrato da literatura e o mundo de “carne e osso” dos escritores. O primeiro conto tem um jovem idealista conhecendo ao vivo uma pessoa que admira pela suas obras. Os outros contos, por sua vez, mostram um lado mais desabonador dessas figuras literárias.

ZH — Seu livro, embora ainda invista em referências metaficcionais, parece tirar mais partido do humor, da sátira, como em Esse Maldito Sotaque Russo ou mesmo em narrativas potencialmente mais “sisudas” como A Breve História de Charles Mankuviac ou Sequestrando Cervantes.Você está ficando mais confortável para rir?
Xerxenesky —
Olha, não querendo discordar da pergunta, mas o humor sempre esteve presente no meu trabalho – tem contos de humor no “Entre” e tem vários momentos cômicos no Areia nos dentes. Eu diria que continuo usando humor na mesma proporção – nem mais, nem menos.

ZH — Sequestrando Cervantes imagina um futuro no qual um governo conspiratório trabalha para reescrever os clássicos — empreitada tornada fácil pelo desaparecimento do livro de papel (numa atmosfera que provavelmente remete às distopias de Philip K. Dick). É de algum modo uma sátira aos alarmados com a possibilidade de desaparição do livro físico ou uma preocupação sua como autor?
Xerxenesky —
É sátira, sem dúvida. Apesar de eu gostar das belas edições em papel, sou um feliz usuário do Kindle e admiro toda a praticidade do livro digital. Mas, apesar da sátira, há discussões sérias naquele conto – sobre a relação entre poder político e literatura, sobre o contraste entre a força mítica dos livros e a seriedade da ciência.

ZH — Além de diálogo com o romance O Passado, de Alan Pauls, o conto A Morta-viva é uma forma bem-humorada de, mesmo fazendo algo totalmente diverso, continuar ainda que metaforicamente no universo dos zumbis?
Xerxenesky —
Sim, sem dúvida. Acho a figura do morto-vivo muito mal explorada pelas artes, especialmente a partir dessa nova mania de zumbis dos últimos anos. Parece que virou um recurso de filme trash e só. Se formos parar para pensar, esse monstro que não se encontra em lugar nenhum (está entre o mundo dos vivos e o dos mortos) é riquíssimo em significado.

ZH — Muito se discute se o fato de a literatura estar cada vez mais voltada para seus próprios jogos e tradições não estaria tornando a arte literária mais hermética e menos relevante no chamado “mundo real”. Como um escritor que escreve sobre outros livros, qual sua posição no debate?
Xerxenesky —
Essa é a pergunta mais importante de todas e foi pensando nesse dilema que norteei toda a escrita do meu livro. A metaficção parece inescapável para mim. Em Areia nos Dentes, usei todo um cenário de velho oeste para discutir as funções das narrativas, as motivações secretas dos narradores etc. Já em A Página Assombrada por Fantasmas, resolvi fazer o caminho inverso. Falar de literatura como desculpa para chegar ao ser humano. Acho que a literatura não pode, de modo algum, se deixar levar pelo “jogo pelo jogo”, o “artifício pelo artifício”. E esse é um erro que até um dos meus “mestres pessoais”, Vila-Matas, caiu, uma que outra vez. Portanto, minha preocupação ao escrever “A página assombrada” foi de fazer um livro que sim, tem como tema central a própria literatura, mas que fosse extremamente humano – e acessível. Não quero ser lido apenas por outros escritores e críticos. Quero trabalhar com a relação entre literatura e vida, mas não quero, de modo algum, esquecer a parte da “vida”.

ZH — A publicação de seu trabalho por uma editora nacional de alguma forma amplia a ressonância de sua obra? Muda em algo para um escritor produzir um livro com isso em mente?
Xerxenesky —
Na hora de produzir, não muda nada. (por sinal, a frase final do livro foi escrita antes de eu assinar com a Rocco e não é nada autobiográfica). No entanto, preciso destacar duas principais mudanças de publicar por uma editora nacional. A primeira, mais óbvia, é que recebo mais atenção da “grande mídia nacional”. A segunda, mais importante, é que meu livro recebeu um belo trabalho de edição. A Vivian Wyler, minha editora, leu e releu o livro e escreveu páginas de sugestões — a maioria excelente. Meu livro ganhou muito com esse diálogo com a editora.

Padecimentos de um leitor que perambula

19 de julho de 2011 5

Kiera Knightley como Elizabeth na versão de "Orgulho e Preconceito"

Ainda na adolescência, em São Gabriel, desenvolvi a habilidade – que mais tarde seria muito útil – de ler andando, ou de caminhar lendo, como queiram. Desde então, a maioria das pessoas de minhas relações (parentes, namoradas, amigos, colegas de trabalho e até um que outro desconhecido que simplesmente passou por mim na rua) condenou a temeridade do procedimento e vaticinou para muito breve o dia em que eu seria vítima desse estranho hábito: cairia em um buraco, meteria o pé num bueiro, seria atropelado, bateria em algum obstáculo do caminho (e isso que na época nem havia os contêineres esses da Prefeitura), seria vítima de um batedor de carteira, seria vítima de um assaltante, etc. Ainda não aconteceu, felizmente para mim.

Ler caminhando não é tão difícil quanto parece depois que se pega a prática, e cada um terá seu próprio método para ajustar o ritmo das passadas ao da leitura. No meu caso, como leio enquanto venho a pé para a Zero Hora, carregando minha pasta de trabalho dependurada  no ombro, mantenho as mãos livres o máximo possível, mas seguro o livro com apenas uma delas, geralmente a direita. A lombada do livro se acomoda na mão na concha formada pelos dedos e pela palma enquanto o polegar faz pressão sobre as páginas no interior do livro, mantendo-o aberto. Para virar as páginas, usa-se a outra mão, ergue-se o polegar como se fosse uma cancela e depois da folha virada retorna-se o dedo à mesma posição. Depois de algum tempo e dependendo de alguns fatores como a antiguidade do livro, a qualidade do papel e a umidade relativa do ar, é possível também virar a página apenas com o polegar que se está usando para manter o livro aberto.

Enxergar o caminho enquanto se lê, obviamente, é impossível, por isso é bom manter os demais sentidos alertas aos ruídos da rua – que identificam se uma aglomeração de pessoas vem na tua direção, se o som dos carros está ficando mais intenso, indicando aproximação da esquina. E, claro, pontualmente dar uma leve conferida erguendo o olhar do livro por alguns instantes e memorizando os obstáculos dos próximos metros. Com essa nesga do caminho memorizada, é só observar o caminho com a visão periférica e o canto de olho para tentar reconhecer os potenciais perigos avistados quando do conferes preventivo.

Não, ao contrário do que os desavisados possam pensar, não são as dificuldades inerentes a andar em cabra cega os maiores obstáculos à leitura ambulante. É, sim o grande número de tijolões literários lançados no último ano. Segurar o livro com uma mão só, mantendo-o aberto com o concurso único e exclusivo do polegar pode até dar certo com os livros mais recentes do Rubem Fonseca, por exemplo, os dois com menos de 200 páginas (e sobre os quais teremos textos em Zero Hora até a semana que vem) ou com as menos de 300 de Orgulho e Preconceito (cuja adaptação cinematográfica ilustra este post e, além de uma leitura sensacional, é um livro curto e direto sem abrir mão da complexidade). Agora, já tentaram fazer isso com as 900 páginas de Sangue Errante, de James Ellroy; as 700 de Freedom, de Jonathan Franzen; as 1000 da biografia de Hitler, as 850 de 2666 de Roberto Bolaño, as 500 de A Viúva Grávida, de Martin Amis, as 700 cada volume de A Guerra dos Tronos?  Portanto, esse é o único conselho que posso dar para quem pretende dominar as artes arcanas da leitura ambulante: escolham livros curtos, sob pena de destroncarem um dedo.

O Quintana de seus livros

15 de julho de 2011 0

Mario Quintana em foto de Dulce Helfer

E já que eu falava de reedições: volto da rua depois de uma maratona corrida de entrevistas para uma pauta que deve estar no jornal na semana que vem e sou surpreendido pelo barulho provocado pela notícia de que a obra literária de Mario Quintana vai ser editada pelo selo Alfaguara da Objetiva  a partir do ano que vem. Ainda me lembro de quando a Globo começou a publicar as novas edicões comemorativas ao centenário do poeta, em abril de 2005, coordenadas pela professora Tânia Franco Carvalhal, que também trabalhou na fixação de texto das várias versões de um mesmo livro de Quintana publicados ao longo de sua extensa carreira. Quintana era o tipo de autor que mexia em um livro na reedição, acrescentava um poema, mudava outro, pegava poemas de seus primeiros livros que ele acreditava merecerem um tipo diferente de ressonância, e os republicava em suas obras mais recentes…

Apenas seis anos depois, a obra muda de editora, o que significa a volta dos livros às livrarias com nova cara e mesmo nova ordem. A diretora-editorial da Objetiva, Isa Pessôa, em um comunicado à imprensa, explicou algumas das diretrizes que vão nortear a mudança de casa de Quintana, e não pude deixar de notar, sem que vá aqui nenhum juízo de valor, as concepções diferentes que movem uma e outra série de edições do poeta. A de 2005 se pautava por um critério cronológico: os primeiros três livros lançados foram aqueles que Quintana publicou primeiro: A rua dos cataventos, de 1940; Canções, de 1946; e Sapato florido, de 1948. A Antologia Poética dos anos 1980 só foi sair no fim da série — justamente porque, de acordo com Tânia Carvalhal, Quintana vinha sofrendo uma certa antologização excessiva, que impedia a visão de sua obra no contexto.  Já Isa Pessôa anunciou quais devem ser os dois livros a abrir a coleção:

Nossa ideia inicial, ainda sujeita a alterações, é iniciar a série com dois lançamentos simultâneos. O primeiro: a Antologia poética, clássico do autor, editada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos nos anos 60. A meta é fazer um resgate da edição original, assinada por dois titãs da literatura brasileira, sem intermediários – recuperando ainda a fortuna crítica da época (a antologia foi publicada em homenagem aos 60 anos do autor, junto a uma célebre saudação feita em sua homenagem na Academia Brasileira de Letras, onde Quintana, por mais inacreditável que pareça, nunca foi eleito imortal).
Com o título provisório
No retrato que me faço, primeira linha de um poema do autor, o outro volume de estreia será criado a partir de frases e haicais do poeta, famoso por suas tiradas anticonvencionais, em que nunca perdoava os chatos nem o tédio de existir.

Ou seja, mudou o foco. Além da reedição integral da obra, a antologia sai primeiro, e anuncia-se além disso duas outras coletâneas. Imagino que No Retrato que me Faço será uma antologia biográfica ao modelo do que a Alfaguara já fez com João Cabral e com Fernando Pessoa (com bom resultado no primeiro caso e estranhíssimo no segundo), misturando trechos de sua obra que possam dar um panorama da vida e da personalidade do autor, e uma coletânea de Poemas para Ler na Escola. Não que isso seja bom ou ruim, ainda não vi as edições da Alfaguara, que tem feito um belo trabalho com autores de quem gosto particularmente, como Lobo Antunes, H.G. Wells, Mario Vargas Llosa.

A ideia de uma coletânea com ditos e haikais que forme um “perfil poético” de Quintana pode funcionar muito bem. Quintana caiu fácil no gosto do público, mas isso não chega a ser demérito – ele trabalhava de modo obsessivo e consciente a simplicidade da enunciação tentando não comprometer a complexidade do enunciado. No ano do centenário de Quintana, 2006 (as edições da Globo saíram em 2005 justamente para ter a obra integral disponível ao público no ano seguinte), o caderno Donna ainda publicava uma série chamada Autorretrato com um determinado número de perguntas fixas, inspiradas no célebre questionário de Proust – por falar nisso, ídolo de Quintana. No fim de semana em que se completavam os cem anos de nascimento de Quintana, fizemos dele nosso entrevistado – repetindo algo que havíamos feito no ano anterior no centenário de Erico Verissimo, catamos as respostas para as perguntas fixas da seção nas obras de cada um.

As respostas de Erico vieram das memórias Solo de Clarineta – me pareceria forçado escolher trechos de sua ficção, mas nas memórias e nos livros de viagem Erico era “ele próprio”, então achei mais apropriado à homenagem. No caso de Quintana, usei por base não as edições uma a uma da Globo, mas meu exemplar da antologia integral da obra completa pela Nova Aguillar. Na época achei que a entrevista com Quintana, justamente por sair de material poético, havia ficado melhor do que a de Erico. Relendo hoje, confirmei a impressão. E resolvi republicá-la já que se volta a falar do escritor esta semana não apenas pela mudança de casa editorial mas pelos 105 anos de seu nascimento (a Casa de Cultura com o nome do poeta, em Porto Alegre, via ter uma programação especial para comemorar a efeméride, com apresentações e performances, dança, teatro de marionetes, leituras de poesias, malabares… Um clima de circo, o circo que Quintana também cantava em seus poemas.

Segue a entrevista imaginária:

Pergunta — Qual a sua lembrança de infância mais remota?
Mario Quintana –
Fui um menino por trás de uma vidraça – um menino de aquário. Via o mundo passar, como numa tela cinematográfica, mas que repetia sempre as mesmas cenas, as mesmas personagens.

Pergunta — Onde você passou as suas férias inesquecíveis?
Quintana —
O que estraga as viagens, agora, é o seu rápido destino: de repente já estás em Pequim… Benditos, mil vezes benditos aqueles carrosséis que ensinaram aos meninos de meu tempo a pura alegria de viajar!

Pergunta – Qual a sua idéia de um domingo perfeito?
Quintana
— No céu é sempre domingo. E a gente não tem outra coisa a fazer senão ouvir os chatos.

Pergunta — O que você faz para espantar a tristeza?
Quintana —
O único problema da solidão consiste em como conservá-la.

Pergunta — Que som acalma você?
Quintana —
Quando os sapatos ringem…

Pergunta — Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Quintana —
Clair de lune, chiaro de luna, claro de luna… jamais os franceses, os italianos e os espanhóis saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de um trago numa palavra só.

Pergunta — Que livro você mais cita?
Quintana —
Livro bom é aquele de que às vezes interrompemos a leitura pra seguir – até onde? – uma entrelinha… Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.

Pergunta — Que filme você sempre quer rever?
Quintana —
…devia ser proibido fazer desenhos animados depois de Walt Dysney.

Pergunta — Um gosto inusitado.
Quintana
— O que eu mais adoro, depois da precisão, são os expletivos.

Pergunta — Um hábito de que você não abre mão.
Quintana —
Alarmar senhoras gordas é um dos maiores encantos desta e da outra vida.

Pergunta — Um hábito de que você quer se livrar.
Quintana —
O que eles chamam de nossos defeitos é o que temos de diferente deles. Cultivemo-los, pois, com o maior dos carinhos – esses nossos benditos defeitos.

Pergunta — Um elogio inesquecível.
Quintana —
Poeta de amplo espectro, como se diz nas bulas farmacêuticas. Assim se expressou um dia a respeito deste escriba o seu cúmplice em poesia e colendo crítico Guilhermino César. O que bastou para que alguém me interpelasse: “como é? Ele está te chamando de fantasma?”

Pergunta — Em que situação você perde a elegância?
Quintana —
O mais irritante de nos transformarem um dia em estátua é que a gente não pode coçar-se.

Pergunta — Em que outra profissão consegue se imaginar?
Quintana —
…eu queria ser um pajem medieval… Mas isso não é nada. Pois hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu mesmo!

Pergunta —Eu sou…
Quintana — Eu não sou eu, sou o momento: passo.

Dyonelio e a cartografia da opressão

15 de julho de 2011 0

…Era pequeno. Uma tarde. Caía o Sol. Gente, muita gente. Quase toda a população da cidadezinha. A cadeia (a “Cadeia Velha”) era um edifício raro. Velho, tinha uma espécie de sótão, que o distinguia das casinhas baixas da cidade e era como um remanescente duma edificação anterior, suntuosa, que devia ter existido, num passado misterioso e irreal.
Ele estava com a mão fria e tremendo presa à mão da mãe. Todos, ali defronte da Cadeia, comentavam e esperavam. E quando o homem esquálido surgiu no terreno da frente (ela era metida para dentro), reatado em cima do cavalo, as mãos amarradas às costas, guascas maneando as pernas por baixo da barriga do animal, e vociferando numa revolta ao mesmo tempo enfática e triste, ele quis saber, saber! Já um pelotão de soldados o rodeava. Era a escolta.
- O que é que eles vão fazer com o homem, mãe?
- Psiu! Vão matar ele lá no Cati.

O Cati é o mal, a morada do demônio. Mas como fugir do Cati quando se leva o Cati na alma? É essa a questão a ser enfrentada pelo perturbado protagonista de O Louco do Cati, considerado por muitos a obra-prima do escritor gaúcho Dyonelio Machado. O Louco do Cati narra a história de um homem sem nome, sem passado e com poucas frases ditas ao longo das 270 páginas do romance. Sem personalidade definida e conhecido apenas por nacos oníricos de seu passado distribuídos aos poucos na narrativa, o “maluco” embarca em um bonde, vai até o fim de linha, tenta trocar uma nota antiga em um ar e acaba sendo levado por umgrupo de jovens a uma excursão feita de caminhão pelo litoral. Quando os demais retornam, o louco segue acompanhando um deles, o malandro Norberto, até ambos serem detidos sem razão aparente em Santa Catarina. Daí, são levados para o Rio de Janeiro e amargam a cadeia. Solto, o louco refaz o trajeto até o Rio Grande do Sul terminando, de modo fantástico, no Cati, em Santana do Livramento, na fronteira com Uruguai.

Meticuloso, Dyonelio fez o planejamento da viagem  desenhando um mapa com percurso do protagonista e o tempo que cada passo do trajeto demandaria. Se, como querem alguns  teóricos, o maior objetivo da literatura é causar estranheza, O Louco do Cati é literatura em alto grau. O livro intriga desde a primeira linha, tanto na história narrada em clima de tédio e pesadelo quanto na forma. O Louco do Cati não foi escrito. Muito doente depois de haver conhecido as prisões do Estado Novo, em 1941, Dyonelio ditou o romance a sua filha, Cecília. O escritor sentia-se alquebrado pela experiência do cárcere e acreditava não ter condições de pôr no papel a história que havia imaginado enquanto esteve preso.

Essa origem inusitada transparece no andamento do texto. Dividido em capítulos curtos, O Louco do Cati é narrado de forma áspera, intercalando em umamelodia esquizofrênica frases curtas, espasmódicas, com sentenças mais longas. A oralidade da história está também presente na linguagem coloquial e repleta de expressões e gírias – algumas delas de sabor passadista. Minha primeira leitura desse livro se deu aos 16 anos, de um exemplar da edição antiga da Ática emprestado da Biblioteca  Pública de São Gabriel (a capa, que vocês veem ao lado, era horrorosa, mas não deixava de, a seu modo, preparar o leitor para o desconforto que se seguiria). Era um verão quente como o inferno e a leitura coincidiu com uma gripe fora de época que me derrubou e me deixou de tal modo zonzo que a leitura pareceu correr em um tom de sonho, mais como se eu tivesse sonhado o absurdo da narrativa em um delírio de febre em vez de de fato lê-lo. Eu não conseguia entender muito bem qual era a daquele louco, e minha impressão também não foi das melhores, ele parecia ir muito bem até uma parte e depois simplesmente parecia não fazer mais sentido, embora continuasse sendo muito eficiente em transmitir com aquelas frases de andamento irregular um mal estar que eu já não sabia se era da gripe ou daquela prosa febril.

Tive a chance de reler o livro anos mais tarde quando ele foi reeditado pela Planeta (em uma edição que ainda deve se encontrar em sebos ou na Estante Virtual, a capa também é a que está ao lado, ilustrada com um dos perturbadores quadros de Iberê Camargo) e aí pude reencontrar algumas daquelas imagens e cenas que eu sabia serem do livro mas que pareciam não ter nada a ver com o que eu me lembrava. E tudo fez muito sentido, mesmo continuando não fazendo, consigo me explicar? Não foi a primeira vez que a releitura de um livro que li na adolescência me provava que eu não havia entendido nada, entre outros motivos porque não tinha muitas das referências. A região do Cati ganhou celebridade na história gaúcha devido à atuação feroz do caudilho João Francisco Pereira de Souza nos combates da revolução de 1893. João Francisco castigou os derrotados  da insurreição com violência, apelando para o bárbaro recurso da degola. Sutil, Dyonelio criou no romance uma atmosfera de mal-estar associando as lembranças esparsas que o louco tem de sua infância, passada sob o terror do coronelismo na região, e a ditadura Vargas, retratada e sempre presente, mas nunca mencionada. Publicado em 1942, o romance recebeu a aprovação entusiasta de Mario de Andrade, Guimarães Rosa e Erico Verissimo, mas foi tratado com desdém pelo restante da crítica. Só foi redescoberto depois de relançado, em 1979, o que renovou o interesse pela obra de Dyonelio. O livro, contudo, apesar de seus grandes méritos, padece de intermitências editoriais. Depois de anos fora das livrarias, foi reeditado em 2004 pela Planeta, e já está de novo esgotado.

A Comédia Criminal de Michael Connelly

13 de julho de 2011 3

O canadense Michael Connelly, 56 anos no próximo dia 21, é um ex-jornalista que abandonou as redações para se tornar um dos nomes mais aclamados da recente safra de autores policiais. É também um autor com ambições maiores do que criar uma trama de crimes – algo que o escritor faz com maestria. Ao longo de duas décadas e 24 romances, Connelly criou um universo próprio com personagens recorrentes que formam um amplo panorama ficcional da Califórnia contemporânea – daí o título deste post, a “comédia criminal”, referir-se à monumental Comédia Humana de Balzac, também ela repleta de personagens que de coadjuvantes em um livro passam a protagonistas no seguinte, montando um quadro multifacetado da Paris do século 19.

Sua obra vem sendo publicada fora da ordem original no Brasil, o que explica como três livros de fases diferentes saíram só este ano por duas editoras diferentesl: O Espantalho (2009), pela Suma de Letras, e O Poder e a Lei (2005) e Dívida de Sangue (1998), pela Record – estes dois últimos adaptados para o cinema. A edição de O Poder e a Lei pega tanta carona no lançamento recente do filme que reproduz uma cena da produção na capa, quebrando tanto o padrão antigo quanto o novo de sua “coleção negra”. A Objetiva, conglomerado que abrange o selo Suma de Letras, também já prometeu um quarto lançamento a caminho: Nine Dragons, que deve ter sua versão nacional publicada ainda no segundo semestre. Para aproveitar o lançamento desses três livros, montamos uma espécie de “Quem é Quem” dos principais personagens de Connely e o modo como suas vidas se cruzam no decorrer dos romances:

Harry Bosch
É o principal personagem de Connelly: um cético detetive de meia idade chamado Hyeronimous Bosch (em homenagem ao pintor holandês do século 15) e apelidado de “Harry” pela maioria de seus colegas. Nascido em Los Angeles nos anos 1950, é veterano do Vietnã e apaixonado por música. É também a criatura mais usada pelo criador: já compareceu em um punhado de contos e 18 romances escritos pelo autor _ desde o primeiro romance, The Black Echo (1992) até o mais recente, The Drop (2011), com lançamento previsto para novembro nos Estados Unidos. Realista porém decente, Bosch lida ao longo de seus casos com elementos-chave da Los Angeles contemporânea, como a indústria do cinema e as tensões raciais. Um bom número dos livros da série foi traduzido no Brasil, parte pela Record (Cidade dos Ossos, Luz Perdida, O Voo dos Anjos, Correntezas da Maldade, Morte Proibida) ou pela Suma de Letras (Echo Park e O Mirante). Na mais recente aparição de Bosch no Brasil, o detetive se vê obrigado a usar como isca em uma investigação o advogado…

…Mickey Haller
Haller é uma das criações mais recentes de Connelly, e uma das mais bem-sucedidas. Advogado cínico e dono de um vasto arsenal de truques, começa sua participação no universo ficcional do autor em O Poder e a Lei — best-seller nos Estados Unidos recentemente adaptado para o cinema com Matthew McConaughey no papel de Haller. Vivendo tempos turbulentos nos quais atende seus clientes (a escória da comunidade californiana: cafetões, prostitutas, assaltantes, pequenos traficantes) no banco traseiro de seu automóvel Lincoln, Haller é contratado para defender um jovem playboy de Beverly Hills e se envolve em uma trama de morte e mentiras. Haller volta a aparecer em O Veredicto de Chumbo (2008), no qual herda um grande caso de um advogado recentemente assassinado e passa a ser alvo do autor do crime. No mesmo romance, ao mesmo tempo que tenta garantir a segurança de Haller, Bosch decide acompanhar seus passos torcendo para que ele atraia o assassino até uma armadilha. Esse instinto obsessivo de fazer o que for preciso por um caso mais de uma vez já colocou Harry Bosch em problemas, como quando foi investigado por…

….Terry McCaleb
Agente do FBI aposentado por invalidez após um transplante cardíaco, McCaleb passa seus dias em uma marina, reformando seu barco e tomando os remédios necessários à sua saúde de transplantado recente. Um dia, como Connelly narra no livro recentemente lançado Dívida de Sangue, McCaleb recebe a visita da irmã da doadora do coração que agora o mantém vivo. A moça o convence a investigar o assassinato da mulher a quem deve a vida, morta em um assalto, um desafio complicado pela sua condição de investigador extra-oficial e pela sua saúde debilitada. O livro foi publicado originalmente em 1998 e adaptado para o cinema com Clint Eastwood no papel principal em 2002. McCaleb retorna em Mais Escuro que a Noite (2001), no qual se vê investigando um assassinato cujo principal suspeito é o próprio Harry Bosch. Anos mais tarde, a morte inesperada de McCaleb em Correntezas da Maldade leva Harry Bosch a retomar um dos casos que o ex-agente vinha investigando — voltando, assim, a cruzar o caminho de….

…Rachel Walling
Agente do FBI cuja primeira aparição se dá em O Poeta (1996), perseguindo o serial killer que dá nome ao livro: um homem que, após matar suas vítimas, deixa versos de Edgar Allan Poe junto aos corpos. Mais jovem do que Bosch, durona, especializada em traçar perfis psicológicos de criminosos em série, Rachel conhece Bosch quando sua investigação cruza com a dele em Correntezas da Maldade (2004) e ambos acabam caçando o mesmo criminoso. A parceria transcende o trabalho e termina na cama. Rachel reaparecerá para retomar seu caso com Bosch em Echo Park (2006) e O Mirante (2007). Em O Poeta, Walling também já havia se envolvido com um de seus colaboradores no caso do assassino dos versos, o repórter policial….

…Jack McEvoy

A primeira aparição do jornalista obcecado pela morte se dá como narrador em O Poeta — no qual se entrega à exaustiva investigação do caso para exorcisar a morte de seu irmão gêmeo, um policial vítima do criminoso. McEvoy vai juntando por si peças de um quebra-cabeça no qual a morte do irmão se relaciona com outras, tratadas como crimes autônomos, até ser forçado a colaborar com o FBI, que já vinha seguindo a mesma linha de investigação, em troca da exclusividade na matéria. McEvoy retorna em outro dos lançamentos recentes de Connelly: O Espantalho, em que outra vez uma reportagem investigativa sobre um crime o coloca outra vez na trilha de um assassino serial.