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O Deslumbre do Entrevistado

03 de agosto de 2011 0

Uma história trágica — o assassinato de uma mulher grávida e de suas duas filhas pelo próprio marido — e os meios utilizados por um repórter para contar essa história servem de mote para a jornalista americana Janet Malcolm discutir a ética de sua profissão. Isso se dá nas 176 páginas de O Jornalista e o Assassino (Tradução de Tomás Rosa Bueno. Companhia das Letras, 176 páginas), obra já lançada pela Companhia das Letras que agora sai pelo selo Companhia de Bolso, em versão integral.

Uma das jornalistas mais conhecidas dos EUA e colaboradora da revista New Yorker, Janet narra os fatos que levaram Jeffrey MacDonald, o marido acusado de matar a esposa grávida e as duas filhas, a mover processo contra Joe McGinniss,o jornalista que contou a história de Jeffrey no livro Fatal Vision (1983). Fatal Vision foi uma tentativa de McGinniss de voltar à lista dos mais vendidos (ele já havia sido best-seller em 1969, aos 26 anos,com The Selling of the President, sobre a campanha de Richard Nixon à presidência dos EUA) com outro livro que empregava a técnica do Novo Jornalismo, misturando a narrativa jornalística com a literária – Truman Capote já havia feito isso, com louvor, em 1966, em A Sangue Frio.

Médico do exército americano, MacDonald foi condenado, em 1979, por ter matado a família em 17 de fevereiro em 1970. Antes disso, aceitou que McGinniss acompanhasse sua trajetória junto aos advogados de defesa, fazendo parte da intimidade do médico e se tornando, nas palavras do próprio jornalista, em seu amigo. A esperança de MacDonald era a de que sua história fosse contada de forma diferente: desta vez, ele seria apresentado como inocente. Após quatro anos em que McGinniss e MacDonald conviveram — principalmente por meio de cartas, já que o médico, em parte do tempo, estava preso —, o livro Fatal Vision foi publicado.

A surpresa de MacDonald diante do resultado fez com que ele processasse McGinniss, alegando que a “integridade essencial” da sua biografia não havia sido mantida no livro e que McGinniss era culpado de uma espécie de “assassinato da alma”. Na percepção de McGinniss, o médico era, sim, culpado pelos assassinatos. E isso ficava bem claro em Fatal Vision. Em O Jornalista e o Assassino, Janet não reconta o crime, mas discute o deslumbramento do entrevistado — qualquer entrevistado — frente à possibilidade de se tornar personagem de uma história e como essa expectativa pode acabar frustrada diante do ponto de vista, contrário, do jornalista. É esse deslumbre, na opinião dela, que faz com que o entrevistado perca a noção de que falar sobre si pode levar ao que ela chama de”catástrofe” —  quando o sujeito imagina que sua história será contada de um forma mas a percepção do jornalista se dá de outra. Foi isso o que aconteceu entre McGinniss e MacDonald.

Por meio das cartas trocadas entre eles durante os anos em que conviveram, acima de tudo, como amigos, e de relatos das entrevistas com os envolvidos, Janet discute ética jornalística, a relação do jornalista com suas fontes e as limitações de um escritor de não ficção, bem distintas das do escritor de ficção. Considerado um livro importante na biblioteca de jornalistas e estudantes, O Jornalista e o Assassino agrada também por seu tom de contador de histórias. O leitor percebe- se com vontade de saber mais sobre os dois personagens principais. No posfácio, Janet relembra um caso em que foi processada por um de seus personagens e coloca-se na pele de McGinniss — talvez porque nenhum jornalista esteja livre de cair em armadilhas na relação com seus entrevistados. O posfácio, no qual a opinião de Janet fica mais clara e no qual a discussão sobre ética é ampliada, acaba sendo tão interessante quanto o próprio corpo do livro.

Texto de Tatiana Tavares

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