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Nem tudo é verdade

09 de agosto de 2011 0

O Gregg Toland dizia, a luz!, a luz!, para o pôr-do-Sol.
Que homem simples!
Um homem simples como um nome bonito e que abraçou cada colega marinheiro. Era um boa vizinhança e ele mesmo agradecia por estar entre a gente.
No cais do porto. Em Porto Alegre.
Como é que Porto Alegre iria esquecer o Adil Silva da Folha da Tarde e o Gregg Toland depois?
Homens de cinema.
As mulheres do cinema.
Marlene Dietrich, Gloria Trevor, Bette Davis.
A Ingrid e aquela tragédia com a Carole.
Que o Clark Gable era casado com a Carole e que um avião explodiu com ela.
E eram depois 66 milhões de mulheres nos Estados Unidos que gostavam do Clark.
A população de mulheres inteirinha, sem contar o nome das crianças.
Que batizavam as crianças de Clark e será que batizavam Justino?
Que merecia. O Justino tinha inventado a primeira modelo de revista com a Maria Della Costa.

Em um mundo em guerra, as batalhas pela construção de imagens são tão acirradas quanto as travadas no front. É esse o espírito que subjaz no romance Chegaram os Americanos (Modelo de Nuvem, 114 páginas), obra na qual o escritor gaúcho Paulo Ribeiro reconta a vinda ao Rio Grande do Sul do cinegrafista Gregg Toland, o fotógrafo de Cidadão Kane. E com a II Guerra correndo solta, até mesmo uma pacata cidade no interior gaúcho pode ser alvo de um olhar interessado dos americanos. Também autor de Vitrola dos Ausentes, Paulo Ribeiro é dono de uma voz ficcional inusitada. Seus livros são narrados com frases entrecortadas, sincopadas, que buscam o ritmo do falar regional da Serra. Seus romances buscam não apenas a mera narrativa, mas uma experimentação de linguagem por vezes radical, como em seu livro anterior, O Tal Eros Só: Osso Relato (BelasLetras, 2010), em que metade da narrativa era estruturada em capítulos palindrômicos, que podiam ser lidos de trás para frente mantendo a mesma ordem de letras. Chegaram os Americanos não é um livro linear nem de narrativa convencional, mas é menos extremo na experimentação.

Partindo do pretexto da chegada a Bom Jesus do fotógrafo e cinegrafista norte-americano Gregg Toland, responsável pela fotografia de clássicos do cinema como Vinhas da Ira (1940), de John Ford, e Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, Ribeiro recria a atmosfera do interior gaúcho durante a II Guerra. Toland de fato veio ao Rio Grande do Sul nos anos 1940 como parte da Política de Boa Vizinhança patrocinada pelos Estados Unidos para estreitar os laços culturais com potenciais aliados no conflito contra o Eixo. Daí o livro chamar-se “chegaram os americanos”, referência não apenas ao fato de serem dois os visitantes, Toland e seu cinegrafista Ralph Hege, mas ao fato de ambos chegarem como embaixadores de um modo de vida que buscava a adesão brasileira a sua causa.

Ribeiro parte de uma viagem real feita por Toland ao Brasil,com uma passagem por Porto Alegre e por Caxias do Sul, para estender o roteiro do americano até a pequena Bom Jesus, para onde teria sido levado em 1944 por Justino Martins, jornalista da Revista do Globo e primo de Erico Verissimo, para filmar as belezas naturais da região. Toland é ele próprio uma figura esquiva, presente mais pela repercussão de sua chegada do que posto em cena na narrativa. Quem realmente conduz as ações do romance são as figuras de destaque da comunidade de Bom Jesus: o jornalista e cinéfilo Sardinha, editor e faz-tudo de um dos jornais da cidade; o padre Geraldo de Gruffy, empenhado na construção de uma igreja para a localidade e em minar o que considera a perniciosa “militância kardecista” exercida por Francisco Spinelli, adepto do espiritismo e residente na cidade – ambos figuras reais.

Nessa comunidade fechada e de pouco contato com o grande mundo, a chegada de Toland e sua equipe representa a vinda “de meia Hollywood”, como define um personagem. Toland, Hege e Justino Martins chegam a uma cidade em que a aparente tranquilidade de um lugarejo da primeira metade do século 20 esconde tensões subterrâneas movidas a disse-me-disse: a animosidade entre o padre e os espíritas, e o conflito ideológico entre o sonho americano que Toland representa e a propaganda nazista simbolizada na figura de um alemão supostamente filiado aos grupos de propaganda do Eixo em cidades de colonização alemã, como Blumenau. Como o estilo entrecortado de Ribeiro imita o falar dos habitantes, com um narrador esquivo que por vezes parece um personagem não nomeado mas pertencente à mesma realidade, sua prosa é um ótimo veículo para narrar essa luta ideológica no microcosmo de sua Bom Jesus entre o real e o ficcional.

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