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O Analógico e o Digital na terra das letras

03 de setembro de 2011 0

Alberto Manguel e Kate Wilson no traço de Paulo Caruso

A Jornada de Passo Fundo encerrou, na semana passada, com uma altercação das boas entre Alberto Manguel, crítico argentino autor, entre outros, de Uma História da Leitura e A Biblioteca à Noite, e a editora escocesa Kate Wilson, à frente de sua própria casa publicadora, a Nosy Crow, que produz livros infantis e aplicativos para dispositivos digitais de leitura. Foi justamente um desses aplicativos que provocou a grande discussão.

Foi no último debate da Jornada, que contou ainda com os brasileiros Fabiano dos Santos e Affonso Romano de Sant’Anna. Sant’Anna abriu a conversa com um relato de como o Brasil abraçou um projeto de desenvolvimento que separou leitura e educação e que não previu o incentivo à leitura. Manguel e Sarlo compararam a leitura à sexualidade, duas atividades pessoais e subversivas de ensino “muito mais complexas do que se pensa”.

Wilson, uma mulher alta e de olhar intenso, apresentou números para dar uma panorâmica de o quanto as crianças hoje estão expostas a telas e dispositivos eletrônicos. É esse o ambiente que as editoras devem abordar para interessar os pequenos na leitura. O que talvez tenha detonado todo o mal estar foi que o exemplo apresentado por ela foi um aplicativo de sua própria editora, um Cinderela com animações, recursos de interação, possibilidade de umm leitor ver a si próprio em um dos espelhos do castelo, possibilidade de trocar a música que o príncipe e a gata borralheira dançam na festa no palácio, etc.

Manguel, um senhor barbudo de ares entre bonachões e formais, tomou o microfone quando Kate encerrou, sem sequer dar tempo para o mediador Fabiano dos Santos abrir oficialmente o debate, e em espanhol, promoveu um ataque frontal surpreendente ao que havia visto e ouvido:

– Achei que esta mesa falaria de formação de leitores, e não de deformação. Leitura não é comércio. – disse, em uma crítica ao que considerou pura propaganda de um produto de segunda categoria. Manguel sequer disse o nome de Kate Wilson durante todo o arranca-rabo (que era transformado em charge por Paulo Caruso, que vinha acompanhando as mesas e desenhando de improviso a cada debate, assim como faz no programa Roda Viva. Suas charges, mostradas no telão ao auditório, despertaram gargalhadas de uma palteita que aplaudia cada intervenção, de Kate, de Manguel, de Beatriz Sarlo, que também criticou muito a ideia de confundir leitura com mercado editorial, e de Affonso Romano de Sant’Anna, que tentava apresentar uma posição mais moderada). Você ler mais sobre o caso em si aqui.

Para mim, em particular, parece uma daquelas discussões que, vistas no futuro, intrigarão muitos desavisados: por que tinha de ser uma coisa ou outra, por que não a síntese?

* É fato que está cada vez mais difícil convencer alguém que não gosta de ler a ler

* Mas ao mesmo tempo nunca se publicou tanto livro

* Ao mesmo tempo, exponencialmente, não se publicou tanto livro ruim

* Se a vida das crianças é hoje ocupada em boa parte pelo ambiente digital, não há mal em o mercado livreiro se dirigir a ele, é um argumento totalmente válido.

* Ao mesmo tempo, a tecnologia, se não mata suas predecessoras (Beatriz Sarlo falou muito do fato de a bicicleta ainda estar em uso), as transforma de alguma maneira. A disseminação do 3D parece estar transformando o cinema para ser visto em salas em espetáculos descerebrados em que o grande barato é alguém na tela jogar alguma coisa em ti, enquanto os filmes menos cheios de piruetas e pirotecnias estão relegados ao computador ou ao DVD em casa. Um livro eletrônico cheio de recursos não poderia fazer o mesmo com suas menos espetaculosas contrapartes em papel?

Como a discussão ainda continua rendendo (como vocês puderam ver na edição de hoje do Caderno Cultura, com um texto com a doutora em Letras Ana Cláudia Munari), publicamos nos próximos dois posts artigos de Ignácio de Loyola Brandão e de Marcelo Spalding, ambos presentes em Passo Fundo e testemunhas oculares da ronha (adoro essa palavra).

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