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O bate-boca da Jornada

03 de setembro de 2011 0

Affonso Romano de Sant'Anna e Manguel no traço de Paulo Caruso

Há muitos eventos e instituições que promovem o livro, em geral com o interesse de fomentar o que se chama de economia do livro, ou seja, de vender mais livros. São feiras, salões, bienais, todos muito badalados. A Jornada de Passo Fundo é outra coisa, o grande objetivo é fomentar não necessariamente o livro, mas a leitura, a literatura, independente de suporte. E parece que essa natural e progressiva institucionalização de novos suportes para leitura tem irritado muita gente.

Não por acaso, na própria Jornada houve um acalorado bate-boca sobre o tema. O escritor e ensaísta argentino Alberto Manguel discutiu asperamente com a editora escocesa Kate Wilson depois que ela apresentou um aplicativo interativo da Cinderela para crianças, durante o debate “Formação do Leitor Contemporâneo”. Manguel pediu a palavra e disse: “Eu não sabia que faria parte dessa discussão a deformação do leitor defendida com argumentos comerciais, de vender este ou aquele produto. O livro não é um produto comercial. É nocivo que uma crianças de 3 ou 4 anos seja introduzida à leitura dessa forma, aprendendo a ler na tela.

Essa afirmação de Manguel, embora reflita muito do pensamento de uma geração assustada com as rápidas mudanças tecnológicas (o termo evolução não é o mais adequado), traz primeiro uma inverdade, depois um preconceito. Primeiro, é evidente que o livro é um produto comercial, sim, e um produto com uma cadeia articulada e lucrativa, até porque o setor, infelizmente, prescinde da alta literatura, ele sobrevive vendendo best-sellers, enlatados vindos do exterior, paradidáticos e séries de auto-ajuda. Segundo, não há nada de errado em uma criança aprender a ler em telas, assim como um dia se leu em pedras, pergaminhos, papiros, com livros em formato de rolo, de códice, manuais ou impressos.

A leitura e a literatura, senhor Manguel, nasceram antes do livro impresso e a ele sobrevierão. Claro que nossa geração guarda um carinho tão grande pelo livro que não será assim, em anos ou décadas, que deixaremos de ter bibliotecas, livrarias, estantes. Mas não podemos, por outro lado, cegar para o surgimento de tecnologias como os tabletes que mudam sobremaneira a forma de se produzir, comercializar, distribuir e ler literatura. Em minha pesquisa de doutorado sobre o tema, descobri mais de uma dezena de títulos já produzidos apenas para o aplicativo da Apple, como Alice, ToyStory e o excelente e brasileiro Narizinho Arrebitado.

Se quisermos avançar, podemos até discutir se esse tipo de livro digital, animado e interativo é melhor ou pior do que os impressos que conhecemos. Assim como um dia houve a discussão sobre se livros fartamente ilustrados são melhor ou pior do que livros em que o texto ainda era protagonista. Essa discussão, entretanto, é inócua: nem melhor nem pior, são apenas diferentes. Mas são, ainda, e isso é o importante, literatura.

Texto de Marcelo Spalding, jornalista, escritor, vice-presidente da Associação Gaúcha de Escritores e um dos conferencistas da 14ª Jornada de Passo Fundo

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