Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Os que estão acima do bem e do mal

03 de setembro de 2011 0

Manguel no traço de Paulo Caruso

O velhíssimo ditado “Faz a fama, deita na cama” veio a propósito da recente Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Há nomes celebrados, que não justificam, estão aqui para enganar. Um deles foi o tão elogiado (por acadêmicos) Luiz Costa Lima, que teve uma atitude de absoluto menosprezo por seus colegas e pela Jornada, talvez pensando: estou aqui entre provincianos, que não merecem o meu ilustre saber. Ora, o senhor Costa Lima é célebre em todos os meios por escrever numa linguagem hermética, que somente ele e alguns de seus pares compreendem. Fora disso, uma vaidade imensa o impede de chegar ao leitor comum, que não o interessa, porque ele está em um pedestal inacessível. Tanto que, no palco da Jornada de Passo Fundo, dormiu durante os debates, quem sabe porque aquela plateia não fosse digna de sua sabedoria e altura. Na hora em que deveria falar, disse meia dúzia de frases, mostrando que nada tinha preparado. Depois, achou tudo uma confusão, como declarou depois. Chegou a hora de rifarmos esse tipo de gente que pertence a um meio acadêmico que gira em torno de seus umbigos, indiferentes ao mundo que caminha.

Outro foi Alberto Manguel, tido como o “especialista” em bibliotecas e leitura etc. Ele, que vem reescrevendo os mesmos livros nos últimos anos, teve uma participação decepcionante. Mas, alçado ao trono de “especialista”, ali flutua, segurando o cetro. Na mesa em que participou, destratou, foi grosseiro com a escocesa Kate Wilson, que procurava mostrar um projeto ainda em execução, o de histórias infantis em tablets. Manguel veio com dois pés para cima da mulher, dizendo que aquilo era “deformação” do leitor, não formação. Tremenda injustiça, frase de efeito, provocativa (tanto que ele foi recuando depois, quando desceram o pau nele). Ora, Manguel continua no século 19, ainda não chegou ao 21, quando a informática está aí, irreversível. Para Manguel, nada que envolva a experimentação, a busca, a pesquisa, as formas de conquistar novos leitores, que usam celulares, Twitters, iPhones, iPads, iPods, tablets, e-books, GPS, em constante comunicação.

Nada disso existe para esse ensaísta. Um amigo comentava na saída da sessão em que o argentino, hoje canadense, se pegou com Kate Wilson: “Ele se celebrizou por ser leitor de Borges. Borges, cego, tinha pessoas que liam livros para ele. Mas, o que não se sabe é que Borges o mandava ler, mas o proibia de dar opinião“. Uma boutade, claro, mas estou enviando um GPS de presente ao Manguel para que ele ache o caminho deste milênio.

* Texto de Ignacio de Loyola Brandão, autor, entre outros, de O Menino que Perguntava (Objetiva, 2011)

Envie seu Comentário