Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Réquiem para um pai amoroso

06 de setembro de 2011 1

“Eu amava meu pai com um amor que só voltei a sentir por meus próprios filhos. Quando eles nasceram, logo o reconheci, porque é um amor tão intenso quanto o outro, embora diferente e, em certo sentido, até oposto. Eu sentia que nada de mau podia me acontecer se estivesse com meu pai. E sinto que nada de mau pode acontecer aos meus filhos se eles estiverem comigo. Quer dizer, eu sei que seria capaz de morrer, sem vacilar um instante sequer, para defender os meus filhos. E sei que meu pai também teria sido capaz de morrer, sem vacilar um instante sequer, para me defender. Quando eu era criança, não havia nada mais insuportável para mim do que imaginar que meu pai podia morrer, por isso decidi que, se isso acontecesse, eu me jogaria no rio Medellín. Sei também que existe a possibilidade muito pior do que a minha própria morte: a morte de um filho meu. Tudo isso é uma coisa muito primitiva, ancestral, que se sente no mais fundo da consciência, num lugar anterior ao pensamento. É uma coisa que não se pensa, mas que simplesmente é assim, sem atenuantes, pois não vem da cabeça, e sim das entranhas.”

O jornalista e escritor colombiano Héctor Abad demorou quase 20 anos para vingar a morte do pai. Não foi uma vingança sangrenta, dessas tão comuns em nosso continente, mas uma das desforras possíveis para quem não acredita na violência: Abad escreveu um livro. A Ausência que Seremos foi escrito em 2005, 28 anos depois da execução do médico sanitarista Héctor Abad Gómez (1921 – 1987), morto a mando de grupos paramilitares na Medellín conflagrada pelo crime organizado dos anos 80 e 90. No dia em que foi morto – no meio da rua, dirigindo-se ao velório de outra vítima da violência política –, Abad Gómez trazia no bolso dois papéis. Em um deles, constava uma lista de pessoas ameaçadas de morte, que incluía seu nome. No outro, um poema atribuído ao escritor argentino Jorge Luis Borges, de onde foi extraído o título do livro: “Ya somos el olvido que seremos./ El polvo elemental que nos ignora/ y que fue el rojo Adán, y que es ahora,/ todos los hombres, y que no veremos”.

Não é difícil entender por que este livro demorou tanto para ser escrito. Para construir uma narrativa que equilibrasse o lado íntimo e familiar do relato com a crônica histórica dos acontecimentos que levaram a um assassinato nunca esclarecido, Héctor Abad precisava encontrar uma voz autoral que não soasse piegas na hora de evocar a profunda ligação afetiva com o pai (eram os dois únicos homens em uma família cheia de mulheres) nem superficial na recriação dos fatos históricos. Acabou optando não por uma reportagem ou uma biografia romanceada do pai (embora o livro tenha um pouco desses elementos), mas por um ensaio confessional ao estilo do que Paul Auster fez em A Invenção da Solidão, em que o escritor americano recorda a infância ao mesmo tempo que reflete sobre a paternidade a partir de sua relação com o filho e com o próprio pai. O resultado é um livro comovente que consegue desviar-se com elegância das armadilhas que poderiam conduzir a narrativa para o tom excessivamente melodramático ou para a hagiografia do personagem principal.

Elementos para idealizar a trajetória desse médico que lutou para melhorar as condições de vida das pessoas mais pobres da sua região não faltavam. Abad Gómez foi um homem notável. Como médico sanitarista e defensor dos direitos humanos, levantou bandeiras como a do saneamento básico e lutou para implantar medidas simples que ajudariam a salvar muitas vidas – muitas delas adotadas. Como professor na universidade, era capaz de emprestar dinheiro aos alunos mais pobres para que eles conseguissem completar os estudos. Contando a história do pai como homem público idealista e nem sempre muito prático, o filho, porém, não deixa de apontar o lado quixotesco, e eventualmente vaidoso, desse homem que só se sentia completo quando estava engajado em uma grande causa e que preferia a tribuna pública ao consultório médico.

É no relato íntimo da convivência com o pai que Héctor Abad alcança os momentos mais altos da narrativa. Não foi uma relação trivial entre pai e filho – se é que existem relações triviais entre pais e filhos – o que os dois tiveram. O único filho homem de Abad Gómez, terceiro de uma prole de quatro, recebeu um tratamento especial do pai na infância, como seria previsível nos anos 60, mas na vida adulta isso não se traduziu em uma cobrança exagerada de sucesso profissional ou mesmoem uma espécie de expectativa de continuidade que soasse pesada demais sobre os ombros do filho de amadurecimento profissional tardio. Abad Gómez era um pai amoroso e acolhedor, desses que não aparecem com muita frequência na literatura – que, em geral, prefere a falta de diálogo retratada por Kafka em Carta ao Pai ou a cobrança sem limites de um pai presente como fantasma, como em Hamlet. Abad Gómez não chegou a ver o filho tornar-se um jornalista bem-sucedido, mas acreditou nele até o fim. Além de ensaio, memória e libelo contra a violência, A Ausência que Seremos é uma doce homenagem a todos os pais que apoiam e apostam nos filhos mesmo contra todas as evidências em contrário.

Texto de Cláudia Laitano

Comentários (1)

  • Andressa diz: 12 de setembro de 2011

    Lindo demais.

Envie seu Comentário