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E agora... José

15 de setembro de 2011 0

Ao longo de quase 50 anos de carreira, Rubem Fonseca construiu uma voz personalíssima: seca, rascante, direta, muitas vezes ausente de qualquer emoção, que flerta com algumas construções arcaicas e termos obscuros ou técnicos. Não deixa de ser um dos grandes atrativos de José, seu livro de memórias, conferir como essa voz se aplica ao território sentimental por excelência da evocação mnemônica. A resposta é: muito bem. Aplicando ao terreno do passado um tom cru e digressivo, expresso em frases curtas, e tratando a si mesmo na terceira pessoa, Fonseca dribla o recorrente pecado de autobiografias: um exagerado sentimentalismo que descamba ora para a complacência do“livro de panegíricos”, para usar o título de um conto seu, ora para o francamente piegas.

José (Nova Fronteira, 160 páginas, R$ 36,90) entrega exatamente o que o título promete. Não são as memórias do escritor Rubem Fonseca, e sim do menino e rapaz José (prenome do autor) – as recordações se interrompem antes do personagem, já formado advogado e criminalista promissor, fazer 30 anos. Rubem vai contrariar o futuro daquele José para se reinventar como um dos grandes autores nacionais – e isso, em seu entender, é outra história.

Nascido em Juiz de Fora (MG), filho de um casal de portugueses, o garoto José vive de modo privilegiado até que o pai, comerciante varejista, precisa encerrar o  negócio para honrar os compromissos com credores, e a família, abruptamente empobrecida, se transfere para o Rio. Com a mudança, José descobre a Capital Federal dos anos 1930 e 1940, pela qual caminha obsessivamente – caminhar continuaria sendo um hábito que Rubem levaria por toda a vida, e que marcaria personagens de contos como Fevereiro ou Março e A Arte de Andar pelas Ruas do Rio de Janeiro. Ele escreve: “Naquela cidade,no Rio de Janeiro, José descobriu a carne, os ossos, o gesto, a índole das pessoas; e os prédios tinham forma,peso e história”.

Mais que um livro de memórias, José é um catálogo de afetos, recuperando o nascimento de outras paixões que acompanhariam Rubem: os livros (o autor teria aprendido a ler sozinho, aos quatro anos), as mulheres (José dá o testemunho dos primeiros fascínios com o feminino), o Carnaval (especialmente o de rua, cujo fim ele deplora). Memórias entremeadas com digressões eruditas e idiossincrática sobre monarquia, história portuguesa, Elias Canetti, Amos Oz – porque mesmo que trate do alvorecer do jovem José, o livro ainda é uma obra do escritor Rubem Fonseca.

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