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Os espiões que vieram do trópico

29 de setembro de 2011 0

Fernando Morais está com tosse. Uma tosse que tem pelo menos uma causa histórica: o apego aos charutos cubanos adquirido na primeira visita a Cuba, em 1975. E outras circunstanciais, como o inverno e a maratona de entrevistas sobre o livro mais recente, Os Últimos Soldados da Guerra Fria (Companhia das Letras, 412 páginas), história de um grupo de espiões cubanos nos Estados Unidos – a Rede Vespa, que monitorava, na Flórida, opositores de Fidel Castro. Maratona que inclui uma passagem do escritor h0je por Porto Alegre para um bate-papo com o jornalista Ruy Carlos Ostermann, às 19h, na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping, seguido de sessão de autógrafos do livro. A conversa telefônica reproduzida a seguir ocorreu na manhã de 19 de agosto e foi publicada em Zero Hora no dia 29 do mesmo mês (e é republicada aqui no blog aproveitando a passagem de Morais por Porto Alegre). O papo foi interrompido três vezes por acessos de tosse do escritor.

Se a voz do jornalista mineiro, autor de bestsellers como Olga (1985), Chatô,o Rei do Brasil (1994) e O Mago (2008), às vezes fica embargada, sua verve permanece intacta. Ele continua diligente, comprometido com a grande reportagem e convicto na defesa de um regime cada vez mais questionado dentro e fora de Cuba. E sem perder o bom humor jamais. De passagem, este repórter expressou de  forma popular e sintética a opinião sobre o livro, depois de devorar suas 412 páginas em menos de 24 horas. Fernando respondeu com uma história:

– Uma vez, o Nelson Rodrigues encontrou o José Lino Grünewald e ouviu dele um comentário sobre uma de suas peças parecido com esse que você fez. A resposta do Nelson:   “Você escreva isso, assine embaixo e publique”.

Os Últimos Soldados da Guerra Fria não é o primeiro livro sobre a Rede Vespa. Por mais de 15 anos, a história foi veiculada com escassez de detalhes. Era um prato cheio para Fernando Morais, autor de A Ilha (1976), primeiro livro  sobre Cuba em plena vigência do AI-5. Sem esconder a simpatia pelo regime dos irmãos Castro, o veterano repórter e escritor compôs uma versão minuciosa do caso, sem negligenciar nenhum ângulo, quer isso desagrade ou não a Havana, Washington ou Miami. A trama é de dar nó nos cérebros treinados nas cartilhas da Guerra Fria. Pelo menos um dos espiões cubanos colaborou com o FBI para desbaratar um dos grupos anticastristas, que se divida entre a ação política, o terrorismo e o narcotráfico.  O mais incrível, porém, é a vida de apertos dos integrantes da rede na Flórida. Com pouco dinheiro, os James Bond caribenhos se viravam vendendo charges a jornais, pintando paredes e dando aulas de salsa.

Abaixo, a entrevista:

Zero Hora – O senhor disse que resolveu escrever Os Últimos Soldados da Guerra Fria em 1998, ao ouvir a notícia da prisão de espiões cubanos nos Estados Unidos. Quantos anos levaram a apuração e a redação do livro?
Fernando Morais –
Os cubanos me empurraram com a barriga durante quase 10 anos. Depois de os cinco espiões que não aceitaram a delação premiada nos EUA terem sido julgados e condenados, eu ia a Cuba, pedia documentos e me diziam que o material era sensível demais. Demoraram muito, especialmente, para me franquear acesso ao dossiê que Fidel Castro enviou ao então presidente Bill Clinton por intermédio de Gabriel García Márquez e aos estrangeiros condenados por terrorismo em Cuba.

ZH – Do lado americano, foi mais fácil?
Morais –
Os agentes do FBI que desbarataram a Rede Vespa estão todos aposentados. Mesmo afastados do serviço ativo, foram proibidos de dar entrevistas. Desses, só consegui declarações em off. Alguns, mais simpáticos e acessíveis, me deram dicas. Diziam: “Vai ao arquivo tal, presta atenção na informação tal”. Da comunidade cubana no exílio, também obtive muitas declarações em off. É claro que encontrei desconfiança. Hoje, com a internet, você levanta a capivara do sujeito em 15 segundos. Eles iam ao computador e me perguntavam: “Mas o senhor não é autor de um livro solidário com Cuba?”. Eu respondia: “Tão solidário que foi escrito há mais de 30 anos e até hoje não foi publicado em Cuba”. Conversei com representantes da velha guarda anticastrista, como José Basulto, com editores e radialistas. E, para não cair em maniqueísmo, dediquei um capítulo à divisão política da comunidade. Hoje, os cubanos da Flórida não são majoritariamente anti-Castro.

ZH – Não tinha em mente, depois de A Ilha (1976), voltar a escrever sobre Cuba?
Morais –
Alimentei durante muito tempo o sonho de escrever a biografia de Fidel. Eu dizia: “E aí, Comandante, e a biografia?”. Ele ria e brincava: “Está muito cedo”. Agora eu soube que ele está aproveitando a aposentadoria para escrever uma autobiografia.

ZH – Com a crise econômica e as dificuldades eleitorais de Barack Obama, a distensão entre EUA e Cuba tem futuro?
Morais –
Em relação ao bloqueio, nunca houve muita distinção entre republicanos e democratas. Quem levou os EUA à ação mais aventureira contra Cuba, a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, foi um presidente democrata chamado John F. Kennedy. Estive em Cuba no começo deste ano, e o ex-presidente Jimmy Carter estava lá, visitando Fidel. Eu tenho a impressão de que, se Obama se reeleger – o que não está assegurado, pelo que a gente está vendo –, ele suspende o bloqueio e indulta os cinco cubanos que cumprem pena ou os inclui numa troca de presos.

ZH – O que o leva a pensar assim?
Morais –
O sinal mais visível vem do próprio Carter. Na visita a Cuba que mencionei, ele disse que houve erro judiciário na condenação dos cinco e criticou Clinton, seu amigo e também democrata, por ter sancionado a Lei Helms-Burton, que é por todos considerada o último prego no caixão do bloqueio. Existe também o fato de que a comunidade cubana nos EUA não é mais tão agressiva. Se você olhar a faixa etária, os verticales (anticastristas radicais) são todos octogenários.

ZH – O que pensa sobre as denúncias de violação de direitos humanos em Cuba?
Morais –
Assim como as transformações geracionais diminuíram a agressividade da comunidade na Flórida, em Cuba os mais jovens estão menos interessados em questões ideológicas e mais dedicados a desfrutar a vida. O sujeito continua fiel, mas quer mais liberdade de expressão. Mas creio que, enquanto houver o bloqueio econômico e Cuba estiver acossada econômica, política e militarmente pelos EUA, é difícil haver transformações no sentido de mais liberdades democráticas.

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