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Posts de setembro 2011

Os espiões que vieram do trópico

29 de setembro de 2011 0

Fernando Morais está com tosse. Uma tosse que tem pelo menos uma causa histórica: o apego aos charutos cubanos adquirido na primeira visita a Cuba, em 1975. E outras circunstanciais, como o inverno e a maratona de entrevistas sobre o livro mais recente, Os Últimos Soldados da Guerra Fria (Companhia das Letras, 412 páginas), história de um grupo de espiões cubanos nos Estados Unidos – a Rede Vespa, que monitorava, na Flórida, opositores de Fidel Castro. Maratona que inclui uma passagem do escritor h0je por Porto Alegre para um bate-papo com o jornalista Ruy Carlos Ostermann, às 19h, na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping, seguido de sessão de autógrafos do livro. A conversa telefônica reproduzida a seguir ocorreu na manhã de 19 de agosto e foi publicada em Zero Hora no dia 29 do mesmo mês (e é republicada aqui no blog aproveitando a passagem de Morais por Porto Alegre). O papo foi interrompido três vezes por acessos de tosse do escritor.

Se a voz do jornalista mineiro, autor de bestsellers como Olga (1985), Chatô,o Rei do Brasil (1994) e O Mago (2008), às vezes fica embargada, sua verve permanece intacta. Ele continua diligente, comprometido com a grande reportagem e convicto na defesa de um regime cada vez mais questionado dentro e fora de Cuba. E sem perder o bom humor jamais. De passagem, este repórter expressou de  forma popular e sintética a opinião sobre o livro, depois de devorar suas 412 páginas em menos de 24 horas. Fernando respondeu com uma história:

– Uma vez, o Nelson Rodrigues encontrou o José Lino Grünewald e ouviu dele um comentário sobre uma de suas peças parecido com esse que você fez. A resposta do Nelson:   “Você escreva isso, assine embaixo e publique”.

Os Últimos Soldados da Guerra Fria não é o primeiro livro sobre a Rede Vespa. Por mais de 15 anos, a história foi veiculada com escassez de detalhes. Era um prato cheio para Fernando Morais, autor de A Ilha (1976), primeiro livro  sobre Cuba em plena vigência do AI-5. Sem esconder a simpatia pelo regime dos irmãos Castro, o veterano repórter e escritor compôs uma versão minuciosa do caso, sem negligenciar nenhum ângulo, quer isso desagrade ou não a Havana, Washington ou Miami. A trama é de dar nó nos cérebros treinados nas cartilhas da Guerra Fria. Pelo menos um dos espiões cubanos colaborou com o FBI para desbaratar um dos grupos anticastristas, que se divida entre a ação política, o terrorismo e o narcotráfico.  O mais incrível, porém, é a vida de apertos dos integrantes da rede na Flórida. Com pouco dinheiro, os James Bond caribenhos se viravam vendendo charges a jornais, pintando paredes e dando aulas de salsa.

Abaixo, a entrevista:

Zero Hora – O senhor disse que resolveu escrever Os Últimos Soldados da Guerra Fria em 1998, ao ouvir a notícia da prisão de espiões cubanos nos Estados Unidos. Quantos anos levaram a apuração e a redação do livro?
Fernando Morais –
Os cubanos me empurraram com a barriga durante quase 10 anos. Depois de os cinco espiões que não aceitaram a delação premiada nos EUA terem sido julgados e condenados, eu ia a Cuba, pedia documentos e me diziam que o material era sensível demais. Demoraram muito, especialmente, para me franquear acesso ao dossiê que Fidel Castro enviou ao então presidente Bill Clinton por intermédio de Gabriel García Márquez e aos estrangeiros condenados por terrorismo em Cuba.

ZH – Do lado americano, foi mais fácil?
Morais –
Os agentes do FBI que desbarataram a Rede Vespa estão todos aposentados. Mesmo afastados do serviço ativo, foram proibidos de dar entrevistas. Desses, só consegui declarações em off. Alguns, mais simpáticos e acessíveis, me deram dicas. Diziam: “Vai ao arquivo tal, presta atenção na informação tal”. Da comunidade cubana no exílio, também obtive muitas declarações em off. É claro que encontrei desconfiança. Hoje, com a internet, você levanta a capivara do sujeito em 15 segundos. Eles iam ao computador e me perguntavam: “Mas o senhor não é autor de um livro solidário com Cuba?”. Eu respondia: “Tão solidário que foi escrito há mais de 30 anos e até hoje não foi publicado em Cuba”. Conversei com representantes da velha guarda anticastrista, como José Basulto, com editores e radialistas. E, para não cair em maniqueísmo, dediquei um capítulo à divisão política da comunidade. Hoje, os cubanos da Flórida não são majoritariamente anti-Castro.

ZH – Não tinha em mente, depois de A Ilha (1976), voltar a escrever sobre Cuba?
Morais –
Alimentei durante muito tempo o sonho de escrever a biografia de Fidel. Eu dizia: “E aí, Comandante, e a biografia?”. Ele ria e brincava: “Está muito cedo”. Agora eu soube que ele está aproveitando a aposentadoria para escrever uma autobiografia.

ZH – Com a crise econômica e as dificuldades eleitorais de Barack Obama, a distensão entre EUA e Cuba tem futuro?
Morais –
Em relação ao bloqueio, nunca houve muita distinção entre republicanos e democratas. Quem levou os EUA à ação mais aventureira contra Cuba, a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, foi um presidente democrata chamado John F. Kennedy. Estive em Cuba no começo deste ano, e o ex-presidente Jimmy Carter estava lá, visitando Fidel. Eu tenho a impressão de que, se Obama se reeleger – o que não está assegurado, pelo que a gente está vendo –, ele suspende o bloqueio e indulta os cinco cubanos que cumprem pena ou os inclui numa troca de presos.

ZH – O que o leva a pensar assim?
Morais –
O sinal mais visível vem do próprio Carter. Na visita a Cuba que mencionei, ele disse que houve erro judiciário na condenação dos cinco e criticou Clinton, seu amigo e também democrata, por ter sancionado a Lei Helms-Burton, que é por todos considerada o último prego no caixão do bloqueio. Existe também o fato de que a comunidade cubana nos EUA não é mais tão agressiva. Se você olhar a faixa etária, os verticales (anticastristas radicais) são todos octogenários.

ZH – O que pensa sobre as denúncias de violação de direitos humanos em Cuba?
Morais –
Assim como as transformações geracionais diminuíram a agressividade da comunidade na Flórida, em Cuba os mais jovens estão menos interessados em questões ideológicas e mais dedicados a desfrutar a vida. O sujeito continua fiel, mas quer mais liberdade de expressão. Mas creio que, enquanto houver o bloqueio econômico e Cuba estiver acossada econômica, política e militarmente pelos EUA, é difícil haver transformações no sentido de mais liberdades democráticas.

Faraco, reedições e lágrimas

28 de setembro de 2011 1

Sergio Faraco tem duas novas edições de livro saindo do prelo. A L&PM vai botar outra vez no mercado a coletânea Contos Completos, reunindo toda a obra contística do autor, e um de seus livros mais conhecidos, A Dama do Bar Nevada – acrescido, nesta edição, do subtítulo Cenas Urbanas. Ambos os livros vêm com quatro contos inéditos, é o que diz a editora no material de divulgação que enviou, embora não esclareça se os inéditos são os mesmos para os dois livros (pela lógica, teria que ser. Lançar quatro inéditos no Dama no Bar Nevada e deixá-los de fora do Contos Completos tornaria incompleto este volume de completos, se é que me explico). A notícia, ainda assim, é ótima, uma vez que Faraco, um dos maiores contistas do Brasil, não lança nenhum conto novo há uma década, desde Rondas de Escárnio e Loucura (nesse período ele lançou vários livros temáticos, sobre sinuca e automóvel, por exemplo, coletâneas de crônicas, organizou antologias e fez até uma cronologia minuto a minuto do que aconteceu a bordo do Titanic em sua primeira e única trágica viagem). Uma pena, dada a qualidade que Faraco obtém em sua prosa, resultado de uma obsessão minuciosa pela clara expressão da escrita (como se pode ler neste trecho de um depoimento concedido por Faraco ao professor Ruy Carlos Ostermann)

A notícia chega, por coincidência, ao mesmo tempo que a jovem jornalista e colaborada deste blog Maria Rita Horn me enviou um e-mail com um texto seu chamando atenção para um detalhe de outro livro de Faraco, Lágrimas na Chuva, que recentemente também saiu em nova edição, em formato pocket (leia uma entrevista com o autor sobre o livro aqui neste link). Aproveito para juntar as duas coisas e publico abaixo a resenha enviada pela Maria Rita:

E era tudo verdade
Maria Rita Horn

Curiosidade, às vezes fantasia, outras indiferença. Pequena marca de uma página onde impera o espaço em branco, os agradecimentos de um livro já atraíram minha atenção de diferentes maneiras.
Em Lágrimas na Chuva – Uma Aventura na URSS, livro autobiográfico de Sergio Faraco, a dedicatória “Para Jaime” é a prova antes da dúvida, um não fictício que me passou quase despercebido.
A saída do Brasil para um curso na antiga União Soviética, a perseguição dos colegas de curso no Instituto Universal de Ciências Sociais, em Moscou, a paixão pela russa Nina, o hospício, a fuga de volta ao país natal. Na narrativa do livro, tão improvável quanto essa sucessão biográfica de fatos é Jaime, o amigo dominicano de Faraco que se oferece despropositadamente em tempos difíceis. Pés que servem de apoio na neve, costas que sustentam o corpo fraco. Jaime não pede nada em troca além de que Faraco seja forte e não tome as pílulas.
… Eu não sabia que ainda era capaz de chorar. A emoção, contudo, era o desafogo de outros sentimentos. Como não me dera conta de que estava, à minha frente, com o cálice no ar, o amigo que tanto buscara?“, disse o autor no ano-novo que passou em um hospital, ao lado do amigo, mas longe de todo o resto que importava.
Mais de 20 capítulos depois, retomei aquela confissão de carinho que estava ali, nas primeiras páginas. Aquela despercebida. Tão fantasticamente contada e dolorida, a experiência de Faraco parece mesmo invenção. Mas “Para Jaime” não é inventado. É como se fosse Faraco a provocar os incrédulos: “E não é que é tudo verdade?

Para conhecer Jane Tutikian

27 de setembro de 2011 0


Foto: Ricardo Duarte, ZH


Na foto acima vocês podem ver o exato momento em que Jane Tutikian foi anunciada como a nova patrona da Feira do Livro de Porto Alegre, no Santander Cultural – a escritora recebe na imagem os aplausos dos demais concorrentes ao posto (Luiz Coronel, Celso Gutfreind e Airton Ortiz), do presidente da Câmara do Livro, João Carneiro, dos patronos de edições anteriores Walter Galvani e Alcy Cheuíche, e do atual detentor do cargo, o folclorista Paixão Côrtes.

Jane Tutikian concilia as atividades literária e acadêmica – é escritora com 16 livros publicados, entre contos adultos e novelas infanto-juvenis, e também atua como professora do curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com estudos e artigos publicados e mais de uma dezena de livros organizados por ela, de antologias comentadas a coletâneas de ensaios. Você poderá conhecer um pouco melhor a nova patrona (inclusive o motivo pelo qual a estamos chamando de “patrona” e não de “patronesse”) na capa do Segundo Caderno de amanhã, mas por ora, republico aqui duas matérias que saíram na Zero Hora sobre duas obras recentes da autora. O primeiro é um texto deste blogueiro que vos escreve publicado por ocasião do lançamento da coletânea de contos Entre Mulheres: Contos do Amor Aprendiz (WS Editor), em 2005. O segundo é uma resenha de Cláudia Tajes, autora de Louca Por Homem e Dores, Amores e Assemelhados, sobre a novela infanto-juvenil Fica Ficando (Edelbra), publicada em 2007 no caderno da Feira do Livro. Aproveitem

Amores de Mulheres
Carlos André Moreira

Autora que tem alternado em sua produção obras infanto-juvenis com coletâneas de contos voltados para o público adulto, a escritora Jane Tutikian apresenta com Entre Mulheres: contos do amor aprendiz uma obra filiada à segunda linhagem. O livro reúne 15 histórias  intituladas com nomes de mulheres e abordando personagens e inquietações femininas. As narrativas do livro apresentam diferentes andamentos, mas mantêm unidade de estilo e temática. São todas histórias sobre mulheres reagindo ao amor. A escrita, poética, reflexiva, é marcada a intervalos por frases abruptamente interrompidas por uma pontuação inusual.
– Há momentos em que suspendo a frase e deixo o leitor terminar, poderíamos dizer que é uma maneira de marcar graficamente um subentendido – analisa a escritora.
As histórias navegam por diferentes estados amorosos femininos: a segunda mulher que tenta inutilmente ser amada pela enteada, a universitária que, um pouco por interesse amoroso e um pouco por interesse financeiro, inicia um caso com um professor com o triplo de sua idade, a difícil relação entre duas irmãs idosas, a digna e negligenciada esposa judia que é, de choque, atingida pelo entendimento de sua triste condição. Todas investindo em finais que causam impacto no leitor.
– Minhas histórias só começam depois que eu tenho uma última frase. Muitas vezes vêm de idéias soltas e aí eu praticamente escrevo os contos em retrospectiva — conta.

Ficar ou Não Ficar
Cláudia Tajes

Dizem que as diferenças entre meninas e meninos já são notadas a partir da forma da barriga da mãe: barriga redonda é mulher, barriga pontuda é homem. Depois o mundo se divide entre bonecas e carrinhos e as coisas são conduzidas de jeito a produzir, lá no final da história, os machos e fêmeas que tradicionalmente conhecemos. Exceções serão aceitas e respeitadas. Pois no infanto-juvenil Fica Ficando, a Jane Tutikian, autora sensível tanto no escrever para adultos quanto para a turma mais nova, conta a expectativa de uma guria e de um guri pela festa que vai marcar o encerramento das aulas.
Ela é a Helena, que terminou a 8ª série e gosta do B.G., ele é o B.G., que concluiu a primeira série do Ensino Médio e acha que gosta da Jaque. A partir daí, um capítulo é narrado pela guria, que escolheu uma camiseta largona e um par de coturnos para ir à festa, e o outro é narrado pelo guri, um cara com mais indagações existenciais do que as dúvidas pela classificação do time dele no Brasileirão.
Se, no fim, o B.G. vai chegar em um cavalo branco e pedir a mão da princesa Helena, só lendo o livro para saber. Mas fica (ficando) uma pista: sendo autora a Jane Tutikian, o The End é muito melhor do que isso.

Resgatando coisas do baú

23 de setembro de 2011 1

Este blog, como eu já expliquei em outro post, foi inaugurado numa época em que não havia sequer o site de Zero Hora como hoje o conhecemos, e já passou ao longo de seus cinco anos por diversas mudanças de sistemas e ferramentas de postagens – com o milagre da tecnologia de desconfigurar os posts e as tags antigos toda vez que mudava algo. Da última vez que mudaram, decidi não fazer um mutirão maluco para corrigir sozinho isso tudo, até porque duvido que alguém consulte de fato arquivo de blog, esta coisa tão imediatista e já ultrapassada no mundo apressado de hoje.

Mas como eu ia dizendo: as primeiras ferramentas eram praticamente a lenha, com limitações atrozes, como a impossibilidade de carregar mais de uma foto e um limite de caracteres que impedia textos mais longos. Para publicar a íntegra de entrevistas, então, era um parto, tinha-se de subdividir o material que havia sobrado em vários posts menores, e não valia a pena publicar o que já tinha saído no jornal. Como agora esta ferramenta permite posts mais extensos com íntegras, estou aos poucos recuperando entrevistas bacanas que possam ainda ser de algum interesse.

Digo isso porque, ao preparar para publicação em breve uma entrevista com o jornalista Ivan Sant’Anna, me lembrei que havia uma entrevista com ele da época doo lançamento de Plano de Ataque, boa radiografia dos ataques de 11 de setembro, que havia sido vítima dessa estética do retalho e que poderia ser recuperada na íntegra – e foi o que fiz.

* Quer ler Ivan Sant’Anna sobre o 11 de setembro e os atentados? Clica aqui

Para os garimpeiros do livro

22 de setembro de 2011 0

Foto: Ricardo Wolffenbüttel, Agência RBS

Duas boas oportunidades para quem quer prospectar livros bacanas em tempos de contenção de despesas ou mesmo para quem pretende se livrar de alguns dos exemplares que tem em casa. Dois eventos fazem a alegria dos ratos de sebo este fim de semana.

O primeiro é a quinta edição da Feira do Livro Infantil no Jardim Botânico.  Organizada nos moldes de uma feira de livro tradicional, com sessões de autógrafos e encontros com autores, visitas de turmas de escola e livros à venda, o evento, contudo, também é realizado com o intuito de arrecadar doações de livros que são usados para a formação de pequenas bibliotecas para creches, escolas e outras instituições comunitárias No ano passado, foram arrecadados mais de 10 mil livros, distribuídos entre 85 escolas carentes.
O patrono desta edição é o músico e escritor Cláudio Levitan. A programação vai até domingo, das 10h às 17h, no próprio Jardim Botânico (Rua Dr. Salvador França, 1427, Bairro Jardim Botânico, Porto Alegre). A Feira está aberta a todos os públicos gratuitamente – mas a organização pede, apelando para a generosidade dos frequentadores, a doação de um livro infantil (levado de casa ou comprado no local).

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Outra dica bacana para quem estará na Capital neste fim de semana é a 10ª edição da Feira de Troca de Livros, organizada pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, através da Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães. No domingo, das 10h às 17h, mais de 15 bibliotecas da Grande Porto Alegre estarão reunidas no Parque da Redenção com livros a postos para trocas. Você leva de casa livros que já leu e estão ocupando espaço e troca, no local, por outras que teria interesse em ler. A organização avisa: não é uma feira comercial, logo, não tem dinheiro nem cartão de crédito na parada. Dependendo de quantos livros você quiser levar, seria melhor você aparecer lá com mochilas, sacolas, carrinhos de feira, essas coisa. A Feira terá lugar junto ao Monumento do Expedicionário, na rua José Bonifácio, e será protegida por uma cobertura montada para o evento –  logo, a feira será realizada mesmo com chuva.

E agora... José

15 de setembro de 2011 0

Ao longo de quase 50 anos de carreira, Rubem Fonseca construiu uma voz personalíssima: seca, rascante, direta, muitas vezes ausente de qualquer emoção, que flerta com algumas construções arcaicas e termos obscuros ou técnicos. Não deixa de ser um dos grandes atrativos de José, seu livro de memórias, conferir como essa voz se aplica ao território sentimental por excelência da evocação mnemônica. A resposta é: muito bem. Aplicando ao terreno do passado um tom cru e digressivo, expresso em frases curtas, e tratando a si mesmo na terceira pessoa, Fonseca dribla o recorrente pecado de autobiografias: um exagerado sentimentalismo que descamba ora para a complacência do“livro de panegíricos”, para usar o título de um conto seu, ora para o francamente piegas.

José (Nova Fronteira, 160 páginas, R$ 36,90) entrega exatamente o que o título promete. Não são as memórias do escritor Rubem Fonseca, e sim do menino e rapaz José (prenome do autor) – as recordações se interrompem antes do personagem, já formado advogado e criminalista promissor, fazer 30 anos. Rubem vai contrariar o futuro daquele José para se reinventar como um dos grandes autores nacionais – e isso, em seu entender, é outra história.

Nascido em Juiz de Fora (MG), filho de um casal de portugueses, o garoto José vive de modo privilegiado até que o pai, comerciante varejista, precisa encerrar o  negócio para honrar os compromissos com credores, e a família, abruptamente empobrecida, se transfere para o Rio. Com a mudança, José descobre a Capital Federal dos anos 1930 e 1940, pela qual caminha obsessivamente – caminhar continuaria sendo um hábito que Rubem levaria por toda a vida, e que marcaria personagens de contos como Fevereiro ou Março e A Arte de Andar pelas Ruas do Rio de Janeiro. Ele escreve: “Naquela cidade,no Rio de Janeiro, José descobriu a carne, os ossos, o gesto, a índole das pessoas; e os prédios tinham forma,peso e história”.

Mais que um livro de memórias, José é um catálogo de afetos, recuperando o nascimento de outras paixões que acompanhariam Rubem: os livros (o autor teria aprendido a ler sozinho, aos quatro anos), as mulheres (José dá o testemunho dos primeiros fascínios com o feminino), o Carnaval (especialmente o de rua, cujo fim ele deplora). Memórias entremeadas com digressões eruditas e idiossincrática sobre monarquia, história portuguesa, Elias Canetti, Amos Oz – porque mesmo que trate do alvorecer do jovem José, o livro ainda é uma obra do escritor Rubem Fonseca.

Charles Kiefer e a evolução do Conto

13 de setembro de 2011 0

O escritor Charles Kiefer. Foto: Tadeu Vilani, ZH

A evolução do gênero conto, seus antecedentes e as linhas de força que cruzam o pensamento estético de quatro mestres da história curta são os elementos com os quais Charles Kiefer organiza seu ensaio A Poética do Conto (Editora Leya, 400 páginas, R$ 44,90), uma reflexão sobre narrativa recentemente relançada pela Leya. O livro é resultado de uma pesquisa de doutorado sobre a narrativa curta realizada por Kiefer. Já havia sido publicado em uma versão resumida em 2004, editada pela Nova Prova com metade das páginas a atual edição.

– Na época, eu até queria publicar inteira, mas a editora me pediu para reduzir porque os custos de produção para um livro de 400 páginas seriam muito altos. Aquela primeira versão, hoje esgotada, tinha apenas a parte teórica, não tinha os exemplos comparativos, era bem menos complexa – comenta Kiefer, que aproveitou a mudança para a Editora Leya para republicar a obra na íntegra.

Ao contrário do que o nome possa dar a entender, principalmente para quem conhece o trabalho de Kiefer tanto como contista quanto como ministrante de uma das mais tradicionais oficinas do Estado, A Poética do Conto não apresenta um manual de composição ou um conjunto de normas práticas para a elaboração de uma narrativa curta. O livro é um ensaio teórico no qual o autor parte da leitura que mestres do conto ocidental fizeram um da obra do outro.  Na primeira sessão, discute a leitura que o criador do conto moderno, Edgar Allan Poe (1809 – 1849), fez do seu compatriota e contemporâneo Nathaniel Hawthorne (1804 – 1864), e o desdém com que Poe se refere à tendência da narrativa de seu tempo de tecer contos usando alegorias. No segundo capítulo, Kiefer recupera a leitura de Poe feita por Júlio Cortázar (1914 – 1984) e o quanto o autor latino- americano atualiza para seus propósitos os pressupostos estéticos do americano. Na terceira parte, Kiefer parte da leitura que Jorge Luis Borges (1899 – 1986) faz da obra dos outros três – chegando inclusive a reabilitar a alegoria de Hawthorne, desprezada por Poe um século antes.

No processo, Kiefer traça as mudanças de concepção do conto nos últimos dois séculos, período de amplo desenvolvimento do gênero. Da teoria do”efeito único” que o  autor precisaria obter, segundo Poe, para a ênfase que Cortázar põe na tensão do conjunto à reconstrução da literatura como uma mitologia empreendida por Borges.

– Estamos num ponto no qual não houve muito avanço posterior aos pontos altos da obra de Cortázar. Talvez estejamos na época em que alguém esteja desenvolvendo uma nova concepção do que é um bom conto e não estejamos percebendo pela proximidade histórica – diz Kiefer.

Milagres do tempo

13 de setembro de 2011 0

Há um ditado popular que afirma: a passagem do tempo faz maravilhas para melhorar a reputação e prover respeitabilidade a políticos de honestidade duvidosa, prédios de dúbios méritos estéticos e mulheres de vida airada. Me lembrei disso e não pude deixar de acrescentar “escritores de contestados atributos literários” à lista ao ver, desavisadamente, numa livraria da cidade, as novas edições especiais de obras de Sidney Sheldon.

Antes as capas dos livros combinavam muito bem com o espírito de seus best-sellers de ação, sexo e redenção – montagens, imagens no limite do brega (normalmente um rosto de mulher com um olhar entre o dramático e o insinuante), ilustrações algo apelativas (embora não tanto quanto as dos livros de seu colega Harold Robbins). Muitos dos livros com essas capas ainda podem ser encontrados em sebos e livrarias virtuais por aí afora (basta uma breve pesquisa como esta no Google para comprovar o que digo). Hoje, no entanto, quatro anos depois da morte de Sheldon e pelo menos duas décadas após o auge de sua popularidade, seus livros embora ainda presentes no imaginário e na memória literária de muita gente mais ou menos da minha idade, não estão mais no topo das listas da literatura de entretenimento, substituídos por exemplares mais ao gosto do “espírito do tempo”, a saber: as revisões históricas rocambolescas à la Dan Brown, a fantasia malbaratada de Crepúsculo e quetais e o misticismo com um pé na autoajuda de Paulo Coelho e congêneres.

Talvez seja o momento de tentar, então, emplacar o bom e velho Sheldon como um escritor mais “respeitável”, com edições mais sóbrias e classudas de suas obras – não que isso vá alterar os méritos e as graves deficiências do conteúdo, mas foi a impressão que tive ao ver as capas bastante mais sóbrias das reedições recentes de sua obras, como vocês podem ver abaixo:



Réquiem para um pai amoroso

06 de setembro de 2011 1

“Eu amava meu pai com um amor que só voltei a sentir por meus próprios filhos. Quando eles nasceram, logo o reconheci, porque é um amor tão intenso quanto o outro, embora diferente e, em certo sentido, até oposto. Eu sentia que nada de mau podia me acontecer se estivesse com meu pai. E sinto que nada de mau pode acontecer aos meus filhos se eles estiverem comigo. Quer dizer, eu sei que seria capaz de morrer, sem vacilar um instante sequer, para defender os meus filhos. E sei que meu pai também teria sido capaz de morrer, sem vacilar um instante sequer, para me defender. Quando eu era criança, não havia nada mais insuportável para mim do que imaginar que meu pai podia morrer, por isso decidi que, se isso acontecesse, eu me jogaria no rio Medellín. Sei também que existe a possibilidade muito pior do que a minha própria morte: a morte de um filho meu. Tudo isso é uma coisa muito primitiva, ancestral, que se sente no mais fundo da consciência, num lugar anterior ao pensamento. É uma coisa que não se pensa, mas que simplesmente é assim, sem atenuantes, pois não vem da cabeça, e sim das entranhas.”

O jornalista e escritor colombiano Héctor Abad demorou quase 20 anos para vingar a morte do pai. Não foi uma vingança sangrenta, dessas tão comuns em nosso continente, mas uma das desforras possíveis para quem não acredita na violência: Abad escreveu um livro. A Ausência que Seremos foi escrito em 2005, 28 anos depois da execução do médico sanitarista Héctor Abad Gómez (1921 – 1987), morto a mando de grupos paramilitares na Medellín conflagrada pelo crime organizado dos anos 80 e 90. No dia em que foi morto – no meio da rua, dirigindo-se ao velório de outra vítima da violência política –, Abad Gómez trazia no bolso dois papéis. Em um deles, constava uma lista de pessoas ameaçadas de morte, que incluía seu nome. No outro, um poema atribuído ao escritor argentino Jorge Luis Borges, de onde foi extraído o título do livro: “Ya somos el olvido que seremos./ El polvo elemental que nos ignora/ y que fue el rojo Adán, y que es ahora,/ todos los hombres, y que no veremos”.

Não é difícil entender por que este livro demorou tanto para ser escrito. Para construir uma narrativa que equilibrasse o lado íntimo e familiar do relato com a crônica histórica dos acontecimentos que levaram a um assassinato nunca esclarecido, Héctor Abad precisava encontrar uma voz autoral que não soasse piegas na hora de evocar a profunda ligação afetiva com o pai (eram os dois únicos homens em uma família cheia de mulheres) nem superficial na recriação dos fatos históricos. Acabou optando não por uma reportagem ou uma biografia romanceada do pai (embora o livro tenha um pouco desses elementos), mas por um ensaio confessional ao estilo do que Paul Auster fez em A Invenção da Solidão, em que o escritor americano recorda a infância ao mesmo tempo que reflete sobre a paternidade a partir de sua relação com o filho e com o próprio pai. O resultado é um livro comovente que consegue desviar-se com elegância das armadilhas que poderiam conduzir a narrativa para o tom excessivamente melodramático ou para a hagiografia do personagem principal.

Elementos para idealizar a trajetória desse médico que lutou para melhorar as condições de vida das pessoas mais pobres da sua região não faltavam. Abad Gómez foi um homem notável. Como médico sanitarista e defensor dos direitos humanos, levantou bandeiras como a do saneamento básico e lutou para implantar medidas simples que ajudariam a salvar muitas vidas – muitas delas adotadas. Como professor na universidade, era capaz de emprestar dinheiro aos alunos mais pobres para que eles conseguissem completar os estudos. Contando a história do pai como homem público idealista e nem sempre muito prático, o filho, porém, não deixa de apontar o lado quixotesco, e eventualmente vaidoso, desse homem que só se sentia completo quando estava engajado em uma grande causa e que preferia a tribuna pública ao consultório médico.

É no relato íntimo da convivência com o pai que Héctor Abad alcança os momentos mais altos da narrativa. Não foi uma relação trivial entre pai e filho – se é que existem relações triviais entre pais e filhos – o que os dois tiveram. O único filho homem de Abad Gómez, terceiro de uma prole de quatro, recebeu um tratamento especial do pai na infância, como seria previsível nos anos 60, mas na vida adulta isso não se traduziu em uma cobrança exagerada de sucesso profissional ou mesmoem uma espécie de expectativa de continuidade que soasse pesada demais sobre os ombros do filho de amadurecimento profissional tardio. Abad Gómez era um pai amoroso e acolhedor, desses que não aparecem com muita frequência na literatura – que, em geral, prefere a falta de diálogo retratada por Kafka em Carta ao Pai ou a cobrança sem limites de um pai presente como fantasma, como em Hamlet. Abad Gómez não chegou a ver o filho tornar-se um jornalista bem-sucedido, mas acreditou nele até o fim. Além de ensaio, memória e libelo contra a violência, A Ausência que Seremos é uma doce homenagem a todos os pais que apoiam e apostam nos filhos mesmo contra todas as evidências em contrário.

Texto de Cláudia Laitano

O bate-boca da Jornada

03 de setembro de 2011 0

Affonso Romano de Sant'Anna e Manguel no traço de Paulo Caruso

Há muitos eventos e instituições que promovem o livro, em geral com o interesse de fomentar o que se chama de economia do livro, ou seja, de vender mais livros. São feiras, salões, bienais, todos muito badalados. A Jornada de Passo Fundo é outra coisa, o grande objetivo é fomentar não necessariamente o livro, mas a leitura, a literatura, independente de suporte. E parece que essa natural e progressiva institucionalização de novos suportes para leitura tem irritado muita gente.

Não por acaso, na própria Jornada houve um acalorado bate-boca sobre o tema. O escritor e ensaísta argentino Alberto Manguel discutiu asperamente com a editora escocesa Kate Wilson depois que ela apresentou um aplicativo interativo da Cinderela para crianças, durante o debate “Formação do Leitor Contemporâneo”. Manguel pediu a palavra e disse: “Eu não sabia que faria parte dessa discussão a deformação do leitor defendida com argumentos comerciais, de vender este ou aquele produto. O livro não é um produto comercial. É nocivo que uma crianças de 3 ou 4 anos seja introduzida à leitura dessa forma, aprendendo a ler na tela.

Essa afirmação de Manguel, embora reflita muito do pensamento de uma geração assustada com as rápidas mudanças tecnológicas (o termo evolução não é o mais adequado), traz primeiro uma inverdade, depois um preconceito. Primeiro, é evidente que o livro é um produto comercial, sim, e um produto com uma cadeia articulada e lucrativa, até porque o setor, infelizmente, prescinde da alta literatura, ele sobrevive vendendo best-sellers, enlatados vindos do exterior, paradidáticos e séries de auto-ajuda. Segundo, não há nada de errado em uma criança aprender a ler em telas, assim como um dia se leu em pedras, pergaminhos, papiros, com livros em formato de rolo, de códice, manuais ou impressos.

A leitura e a literatura, senhor Manguel, nasceram antes do livro impresso e a ele sobrevierão. Claro que nossa geração guarda um carinho tão grande pelo livro que não será assim, em anos ou décadas, que deixaremos de ter bibliotecas, livrarias, estantes. Mas não podemos, por outro lado, cegar para o surgimento de tecnologias como os tabletes que mudam sobremaneira a forma de se produzir, comercializar, distribuir e ler literatura. Em minha pesquisa de doutorado sobre o tema, descobri mais de uma dezena de títulos já produzidos apenas para o aplicativo da Apple, como Alice, ToyStory e o excelente e brasileiro Narizinho Arrebitado.

Se quisermos avançar, podemos até discutir se esse tipo de livro digital, animado e interativo é melhor ou pior do que os impressos que conhecemos. Assim como um dia houve a discussão sobre se livros fartamente ilustrados são melhor ou pior do que livros em que o texto ainda era protagonista. Essa discussão, entretanto, é inócua: nem melhor nem pior, são apenas diferentes. Mas são, ainda, e isso é o importante, literatura.

Texto de Marcelo Spalding, jornalista, escritor, vice-presidente da Associação Gaúcha de Escritores e um dos conferencistas da 14ª Jornada de Passo Fundo