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Tradução e Reação - 14

12 de outubro de 2011 9

O Grande Gatsby é um clássico contestado da literatura norte-americana. Clássico porque, escrito nos anos 1920, é considerado a obra-prima do autor e um grande e emocionante  retrato dos Estados Unidos da Era do Jazz. Contestado porque nem todos veem em Gatsby um livro tão fenomenal assim - mais de um crítico já se referiu ao livro do americano Scott Fitzgerald como uma obra que, apesar de sua popularidade, parece um esboço para o romance monumental que ele deveria ter sido. Em um livro que compila a recepção crítica de O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald's The Great Gatsby: série Bloom's Guides), o crítico Harold Bloom comenta que, logo após o lançamento do livro, Fitzgerald recebeu manifestações de apreço entusiasmadas de Gertrude Stein, Edith Wharton e T. S. Eliot, mas que a maioria dos demais comentaristas do livro foi francamente hostil. Como Bloom descreve (tradução deste seu blogueiro):

"As vicissitudes da reputação do livro formam uma instrutiva ilustração dos problemas em causa no julgamento literário. Como o livro é hoje lido de forma diversa da abordagem utilizada pelos resenhistas seus contemporâneos (na verdade, de uma maneira impossível para eles), deve-se concluir que o tempo é um pré-requisito para a perspectiva necessária em julgamentos críticos? Que um contemporâneo nunca poderá ver tanto em uma obra quanto a geração seguinte? Que é necessário chegar a uma distância grande o bastante do período retratado para que as questões de realismo nos detalhes externos não interfiram?"

Não deixa de ser bastante irônico que a pressa ou a má vontade de muitos julgamentos tenha acompanhado desde o início um livro que já começa com uma profissão de fé contra os juízos apressados. Para aqueles que não leram ou não lembram, embora o título do livro se refira a Jay Gatsby, um self-made man que – após enriquecer com uma série de negócios nem de todo lícitos – tenta usar sua fortuna para reconquistar um amor perdido, quem narra a história é outro personagem, Nick Carraway, um jovem do Meio-Oeste tragado pelo universo feérico e decadente de Gatsby e de sua amada Daisy, prima do narrador. E as primeiras frases d'O Gatsby, sem favor algum entre os mais famosos começos da literatura, são ditas por Nick para apresentar seu temperamento pouco afeito ao juízo de quem cruza seu caminho. Ao mesmo tempo, o personagem explica nesse breve introito as circunstâncias que fazem dele o narrador perfeito da história que será contada a seguir: sua impassibilidade e hesitação para proferir as próprias opiniões o tornam um ímã para as confissões mais disparatadas dos tipos mais diversos. Assim, ele será a testemunha de todos os lados envolvidos na história: Gatsby, que por meio da ostentação de sua fortuna em festas extravagantes tenta se reaproximar da jovem por quem foi apaixonado anos antes; Daisy, fútil e displiscente, inconformada com o casamento em que está aprisionada; Tom, seu marido, o playboy de caráter duvidoso, hipócrita e despreocupado. Embora Gatsby seja o personagem que move a narrativa, é pelos olhos do jovem Nick Carraway que o leitor acompanha a melancólica trajetória de todos esses personagens até a inevitável tragédia – porque sim, Gatsby é também uma das melhores apropriações contemporâneas do espírito da tragédia.

Pois foram justamente essas primeiras palavras ditas por Nick na abertura do romance que escolhemos para uma comparação entre diferentes edições da obra em português. Comecemos então pela mais conhecida versão de O Grande Gatsby na nossa língua, a de Brenno Silveira, datada de 1962 e desde então reeditada por um bom número de casas publicadoras: Civilização Brasileira, Record, Globo, Abril Cultural, Record/Altaya – essa, inclusive, é a edição que eu tenho, da coleção Mestres da Literatura Contemporânea, capa dura de cor azul escura, comprada numa banca de revistas em 1995 (a banca do Fausto, na Cidade Baixa, esquina da República com a Lima e Silva, um lugar que eu ainda frequento, embora provavelmente isso não interesse a vocês). Vamos então à abertura do romance na versão de Brenno:

"Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci:
– Sempre que você tiver vontade de criticar alguém – disse-me ele, – lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou.
Ele nada mais disse, mas sempre fomos comunicativos de uma maneira bastante incomum e reservada, e eu compreendi que ele queria dizer muito mais do que isso. Por conseguinte, sinto-me inclinado a guardar para mim todos os meus juízos, hábito esse que fez com que muitas naturezas curiosas se abrissem comigo, mas que também me tornou vítima de muitos maçadores inveterados.
A mente anormal percebe-a rapidamente e sente-se atraída por essa qualidade, quando ela aparece numa pessoa normal, e, assim, aconteceu que, na universidade, eu fui injustamente acusado de ser um político, por saber guardar as mágoas secretas de indivíduos violentos, desconhecidos."

Talvez seja uma virtude da tradução de Brenno, talvez seja resultado da prosa original de Fitzgerald, límpida e sutil, mas é interessante notar que essa tradução, escrita nos anos 1960, não parece ter envelhecido em nada – não há o uso de torneios estilísticos ou sintáticos que soem datados. É uma versão que pode ser tranquilamente lida ainda hoje, o que talvez explique sua longevidade ao longo de meio século. Vamos agora dar uma olhada em uma versão mais recente feita por Roberto Muggiati para a editora Record – casa que já teve em catálogo por muitos anos a própria tradução de Silveira apresentada acima. A tradução foi publicada pela primeira vez em 2007 e este ano saiu em nova edição, de bolso (a da capa amarelinha que vocês veem aí embaixo):

"Em meus anos mais jovens e vulneráveis meu pai me deu um conselho que ficou na minha cabeça até hoje.
'Sempre que tiver vontade de criticar alguém', me disse, 'lembre-se de que nem todas as pessoas neste mundo tiveram as vantagens que você teve'.
Nada mais disse, mas sempre fomos comunicativos de um modo incomum bastante reservado, e percebi que ele queria dizer muito mais do que aquilo. Assim, inclino-me a guardar para mim todas as opiniões, um hábito que fez muitas naturezas curiosas se abrirem comigo e que também me transformou na vítima de não poucos chatos contumazes. A mente anormal é rápida em detectar e se apegar a essa qualidade quando ela se manifesta numa pessoa normal e por isso ocorreu que na universidade fui injustamente acusado de ser político por ter acesso às mágoas secretas de homens turbulentos e desconhecidos."

A diferença básica reside na escolha de termos de sonoridade um tantinho mais contemporâneas que a tradução de Silveira, como a substituição de "maçadores inveterados" por "chatos contumazes" ou de "assim" em lugar de "por conseguinte". Note-se também a ligeira mudança de tom no conselho do pai. Na tradução de Brenno, é mais assertivo: "criatura alguma neste mundo teve...". Na de Muggiati, mais ameno, apelando para a negação antes do que para a afirmação: "nem todas as pessoas neste mundo tiveram". A mudança é importante porque correspondente a uma diminuição de escala. "Criatura alguma neste mundo" é claramente uma hipérbole que dota a admoestação de um certo exagero. "Nem todas as pessoas tiveram" é uma afirmação mais neutra e mais direta. Vamos olhar agora para a edição da Companhia das Letras traduzida pela escritora e jornalista Vanessa Barbara, sobre quem vocês podem ler mais no post anterior.  Essa tradução em particular sai pela coleção Penguin, da Companhia:

"Em meus anos mais vulneráveis de juventude, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci:
– Sempre que tiver vontade de criticar a alguém – ele disse –, lembre-se de que ninguém teve as oportunidades que você teve.
Ele não falou mais nada, mas sempre fomos excepcionalmente comunicativos de uma forma contida, e entendi que ele queria dizer muito mais. Como consequencia, adquiri o hábito de me abster de todos os julgamentos, um costume que me garantiu o acesso a diversas naturezas curiosas e também me fez vítima de alguns maçantes inveterados. A mente anormal detecta e se apega muito rapidamente a essa qualidade quando ela se manifesta em alguém normal, e por isso ocorreu de, na faculdade, me acusarem injustamente de ser um homem político, só porque eu guardava as angústias secretas de homens extravagantes e desconhecidos."

Nova versão, nova mudança de escala, que se aproxima mais da solução encontrada por Brenno Silveira do que da escolhida por Muggiati: "Ninguém teve as oportunidades..." Volta a hipérbole. Outra mudança que adquire seu grau de relevância é a troca, na última frase, de um dos adjetivos que qualificam os "homens" que confidenciam a Nick suas angústias/mágoas secretas, para usar termos de ambas as traduções. É ponto pacífico que todos esses homens são "desconhecidos", adjetivo repetido em todas as versões. Já o primeiro termo muda: para Brenno, são homens "violentos". Para Muggiati, "turbulentos". E para Vanessa, "extravagantes" – um termo curioso de ser empregado porque retira a agressividade presente nas demais escolhas. Um extravagante é um excêntrico, uma pessoa estranha, esquisita, que foge do comum, mas não necessariamente é uma pessoa agressiva, violenta ou turbulenta - embora nada impeça que seja. Veremos o original ao fim deste post que já está enorme, mas posso antecipar que a palavra usada por Fitzgerald é "wild" – "selvagem", "em estado natural", "incultivado", "bárbaro", "indisciplinado", "incivilizado". Ou seja, uma palavra que parece, a este leitor, casar melhor com as ressonâncias agressivas das escolhas anteriores. Vamos ver, então, a segunda tradução recentemente lançada, a de William Lagos – sobre quem também vocês podem ler no post anterior – para a série pocket da L&PM:

Quando eu era mais jovem e mais vulnerável, meu pai me deu um conselho que muitas vezes volta à minha mente.
– Sempre que tiver vontade de criticar alguém — recomendou-me –, lembre primeiro que nem todas as pessoas do mundo tiveram as vantagens que você teve.
Ele não falou mais nada a respeito desse assunto, mas durante toda a vida nós sempre mantivemos um nível de relacionamento muito acima da média, embora guardássemos uma certa reserva com relação aos sentimentos; e eu compreendi que ele queria dizer muito mais do que as palavras significavam à primeira vista. Em consequência, sou inclinado a adiar meus julgamentos até conhecer melhor as pessoas, um hábito que me desvendou muitas naturezas interessantes, mas também fez com que eu me transformasse em vítima de um certo número de pessoas especializadas na arte de aborrecer os outros. A mente anormal rapidamente detecta e se prende a esta qualidade quando ela surge em uma pessoa normal, e o que aconteceu foi que, na universidade, muitas vezes me acusaram injustamente de agir como um político, somente porque eu tinha acesso às mágoas secretas de homens desconhecidos, que encontrava ao acaso nas conversas.

A versão de Lagos é a que mais altera, como se pode ver, o ritmo do texto. O próprio trecho é mais longo que a média dos demais, as frases são deliberadamente mais extensas, o tradutor usa mais palavras para expressar as ideias do original – bem mais sintéticas, algo facilitado pela concisão natural do idioma inglês.  Notem também que desapareceu o termo que havia motivado nossa reflexão anterior, os "homens" que confessam a Nick suas "mágoas secretas" continuam sendo "desconhecidos", mas o termo referente a "wild" desapareceu, substituído pela interpolação "que encontrava ao acaso nas conversas", que não está no original. Os "macantes inveterados" ou "chatos contumazes" agora também são "pessoas especializadas na arte de aborrecer os outros". É uma questão de voz. A versão de Lagos parece buscar um Nick Carraway um tanto mais formal que as demais – e talvez por já haver lido esse livro tantas vezes com um Carraway menos formal, tanto em tradução quanto no original, a leitura inicial me causa alguma estranheza.

No blog da Denise Bottmann, tomei conhecimento da existência ainda de outra tradução, assinada por Fernanda César para a Editora Europa-América e publicada em Portugal, em 2000, em uma parceria entre a brasileira Abril e a portuguesa Controljornal. Vamos a ela:

Quando eu era mais novinho, e mais vulnerável, o meu pai deu-me um determinado conselho que ainda hoje me anda às voltas na cabeça.
– De cada vez que te apetecer criticar alguém – disse-me –, lembra-te sempre de que nem toda a gente neste mundo gozou algum dia das vantagens que tu tens tido.
E mais não disse. Mas fomos sempre invulgarmente comunicativos, se bem que de modo algo reservado, e percebi que ele queria dizer muito mais do que disse. Tornei-me, em consequência disso, propenso a reservar todos os juízos, hábito que atraiu a mim muitas índoles curiosas e fez de mim, igualmente, a vítima de não poucos chatos de carreira. A mente anormal é ágil a detectar e a ater-se a esta qualidade, quando ela se revela numa pessoa normal, e assim aconteceu que, quando andava na universidade, vim a ser injustamente acusado de me meter em política, só porque conhecia as angústias secretas de pessoas impulsivas anónimas.

Notem que essa tradução, como seria de se esperar, tem uma dicção muito mais lusitana, com o uso de termos que para os primos do outro lado do oceano são comuns, como "apetecer". O uso do diminutivo, "quando eu era mais novinho", lido pelos olhos de um brasileiro pode soar inadequadamente infantil, mas a incorporação de sufixos diminutivos é de uso muito mais amplo em Portugal, saibam os que não sabiam. O termo lá do final relativo aos homens virou "impulsivos" e pela primeira vez o "desconhecidos" deu lugar a outra palavra: "anônimas". Todas, no fim das contas, pautaram-se pela fidelidade ao original, e não estou aqui apontando uma em detrimento da outra, apenas partilhando alguns exercícios comparativos de leitura. E vocês, o que pensam?

Ah, sim, faltava ainda a transcrição do original em inglês para os que quiserem comparar com as versões apresentadas:

In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I've been turning over in my mind ever since.
"Whenever you feel like criticizing any one," he told me, "just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had."
He didn't say any more, but we've always been unusually communicative in a reserved way, and I understood that he meant a great deal more than that. In consequence, I'm inclined to reserve all judgments, a habit that has opened up many curious natures to me and also made me the victim of not a few veteran bores. The abnormal mind is quick to detect and attach itself to this quality when it appears in a normal person, and so it came about that in college I was unjustly accused of being a politician, because I was privy to the secret griefs of wild, unknown men.

>>> Leia aqui os demais posts da série "Tradução e Reação"

Comentários (9)

  • denise bottmann diz: 12 de outubro de 2011

    que fantástico, carlos! e que coisa insana que é traduzir, de fato! \"all the people in this world haven\'t had...\" sem dúvida tem o sentido de \"nem todos neste mundo tiveram...\", coisa que somos obrigados a fazer pois não daria para ser literal: \"todos neste mundo não tiveram...\", o que é bem diferente de que \"ninguém neste mundo teve...\". aí se trata mesmo de uma diferença de estrutura sintática entre as línguas, e estão certos muggiati, lagos e fernanda. mas wild é um inferno de traduzir, com a sua infinidade de sentidos: até entendo as razões de lagos em desdobrar a frase, talvez forçando um pouco, pois wild também quer dizer fortuito, a esmo, e seria a ideia de ouvir desconhecidos avulsos, que encontrava ao acaso. - gosto da solução da fernanda: só alguém impulsivo contaria meio irrefletidamente suas dores secretas (certamente resultantes também de ações impulsivas e irrefletidas) a alguém que nem conhece. mas é difícil: tantos são os partidos tradutórios, como se diz, e afinal é por isso que as traduções são sempre inesgotáveis!

    achei impecável sua apresentação de nick, explicando a função narrativa do personagem. já vi comentários sobre o suposto moralismo dele, o que me parece uma crassa incompreensão: a meu ver, nick é o mais autêntico \"his own man\", e é por isso que suas simpatias podem pender - e com bastante naturalidade, ao fim e ao cabo - para gatsby.

  • Claudia Martins diz: 13 de outubro de 2011

    Encontrei essa post graças ao link da Denise Bottmann, e gostei muito. Sou tradutora, e sempre acho interessante essa possibilidade de comparar soluções encontradas por diversos tradutores. E você apresentou as traduções com muita sobriedade e elegância.

  • Rita diz: 13 de outubro de 2011

    Caro Carlos, li a tradução do Muggiati, sem nunca ter lido o original em inglês (shame on me) e devo dizer que me senti desconfortável em diversos momentos do texto, pelo menos durante a primeira metade do livro. Lá pela segunda metade, o texto já tinha me afundado na história e eu não me incomodava com mais nada. Meu julgamento é inócuo, pois desconheço a prosa de Fitzgerald (shame on me again), mas me lembro nitidamente de ter sido contaminada pelo tom do prefácio do Muggiati. É engraçado isso, porque sempre defendi a visibilidade do tradutor (através de notas, aproximação do original, etc, em detrimento de domesticações mais \"facilitadoras\"), mas devo confessar que ter tido contato primeiro com a voz do Muggiati e só depois com sua tradução da obra afetou diretamene minha relação com o texto - algo que, claro, poderia ter sido positivo; infelizmente, não foi o caso. Levei algo do tom coloquial (para mim, coloquial demais) do prefácio para a leitura da obra e precisei de muItas páginas até parar de resmungar. No fim, sucumbi. Ando me perguntando se as construções narrativas do Fitzgerald teriam me causado semelhante impressão. Terei prazer em verificar, assim que puder. :-) Abçs, Rita

  • Pedro Teles diz: 18 de outubro de 2011

    Muito útil o post. Conheci o livro pela tradução do Muggiati e virei fã de Fitzgerald. Queria comparar as versões para saber se valia a pena comprar outra, especialmente a recém-lançada tradução da Vanessa Barbara -- de quem também sou admirador. Resultado: ainda acho a versão do Muggiati superior. A tradução dele é a única que capta o verdadeiro significado de “all the people in this world haven’t had…”, como disse a Denise no comentário acima. Outro ponto a favor da tradução do Muggiati é quando Daisy Buchanan diz, sobre o nascimento da filha com Tom: \"I\'m glad it\'s a girl. And I hope she\'ll be a fool--that\'s the best thing a girl can be in this world, a beautiful little fool.\" Creio que Vanessa comete um deslize ao traduzir: \"Espero que ela seja uma grande tonta: é o melhor que uma garota pode ser neste mundo, uma belíssima tonta”. Lembro que a versão do Muggiati mantém o significado de beleza e ingenuidade -- algo como \"bela e tola\", \"ou bonita e bobinha\". Abraço.

  • marcel citro diz: 24 de outubro de 2011

    Carlos, excelente o trabalho de pesquisa e compilação! Reforcei a convicção de que, para o bem ou para o mal; e cada vez mais, o tradutor é um co-criador, e que devemos eleger um livro estrangeiro levando em consideraçao a potencialidade e os antecedentes de ambos, escritor e tradutor.
    Tenho pelo menos dois livros que foram arruinados por uma traduçao pouco inspirada, e devo possuir vários cuja traduçao valorizou ainda mais a obra - acho que é o caso da versão da Ed. Record, que permite uma leitura mais contemporânea. A literatura é o relicário da língua, sim, mas as traduçoes podem acompanhar, quase sempre, o espírito de seu tempo.
    Abraço,

  • Carlos Alberto Bárbaro diz: 7 de novembro de 2011

    Sempre que traduzo e encontro alguma palavra desconhecida ou utilizada em contexto não usual, minha primeira fonte de consulta é o OED. Então, no que se refere ao \"extravagante\" da Vanessa Bárbara, remeto-lhe à acepção 5 do verbete \"wild\" do maior dicionário da língua inglesa, principalmente seu item II 6 abaixo. Em resumo, achei a opção dela a melhor de todas, inclusive dado o contexto da obra e do parágrafo. Eu iria mesmo mais longe, grafando apenas \"de desconhecidos extravagantes\" (ou mesmo espalhafatosos, desregrados)

    5. Of persons (or their attributes): Uncivilized, savage; uncultured, rude; also, not accepting, or resisting, the constituted government; rebellious. (Sometimes with implication of sense 8.) See also wild Irish in 16.

    II. 6. Not under, or not submitting to, control or restraint; taking, or disposed to take, one\'s own way; uncontrolled. Primarily of animals (cf. 1), and hence of persons (see also 7) and things, with various shades of meaning. a. Acting or moving freely without restraint; going at one\'s own will; unconfined, unrestricted.

    \"a 1000 Cædmon\'s Gen. 1465 Ða wæs culufre eft of cofan sended+wilde seo wide fleah.\" \"c1000 Sax. Leechd. III. 202 Hors wilde yrnan.\" \"a1310 in Wright Lyric P. xv. 48 Thar er wes wilde ase the ro, Nou y swyke.\" \"1596 Shakes. Merch. V. v. i. 71 A wilde and wanton heard+of youthful and vn~handled colts.\" \"1599 Shakes., etc. Pass. Pilgr. xii. 8 Youth is wild, and Age is tame.\" \"1671 Milton Samson 974 In his wild aerie flight.\" \"1761 Colman Jealous Wife iii, That the wild little Thing shou\'d take Wing, and fly away the Lord knows whither!\" \"1817 Byron Manfred iii. iv, I have found our thoughts take wildest flight Even at the moment when they should array Themselves in pensive order.\" \"1820 Shelley Prometh. Unb. iii. iii. 136 The dark linked ivy tangling wild.\" \"1836 Dickens Sk. Boz, Medit. Monmouth-St., The children wild in the streets, the mother a destitute widow.\" \"1865 Princess Alice Mem. (1884) 101 Victoria is very wild, and speaks more German than English.\"

    b. Resisting control or restraint, unruly, restive; flighty, thoughtless; reckless, careless; fig. not according to rule, irregular; erratic; unsteady. (Cf. 15.)

    \"c1350 Libeaus Desc. (Kaluza) 188 A child Þat is witles and wilde.\" \"1450 Paston Lett. I. 159 But if the day of the oyer and termyner stonde, it wole be full harde, by cause the peple is so wylde.\" \"1594 Nashe Unfort. Trav. I3b, Like the trauaile wherein smithes put wilde horses when they shoo them.\" \"1597 Morley Introd. Mus. 81 Your fift, sixt, and seuenth notes be wilde and vnformall.\" \"1628 Shirley Witty Fair One ii. ii, You are too wild and aery to be constant to that affection.\" \"1748 H. Walpole Lett. (1846) II. 256, I meant nothing in the world by wild, but the thoughtlessness of a boy of nineteen.\" \"1831 Scott Ct. Rob. xviii, Depriving Cupid\'s wing of some wild feathers.\" \"1857 Hughes Tom Brown ii. viii, Johnson the young bowler is getting wild, and bowls a ball almost wide to the off.\" \"1867 Smyth Sailor\'s Word-bk., Wild, a ship\'s motion when she steers badly, or is badly steered.\" \"1879 G. C. Harlan Eyesight ii. 25 The new lashes sometimes take a wrong direction, and turn their points against the eyeball. They are then popularly called wild hairs.\"

  • Michel Marques diz: 12 de dezembro de 2011

    Para mim, a acepção de \"wild\" nesse trecho é justamente a de \"uncivilized, rude\" acima, que não foi usada por ninguém. A falta de discrição denota falta de refinamento; no ponto de vista esnobe de Nick, não é a forma \"apropriada\" de se portar ficar contando detalhes particulares a estranhos. Mas acho algumas das soluções propostas plausíveis e justificáveis.

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