Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

O Mundo dos Quadrinhos...

21 de outubro de 2011 1

A repercussão de um artigo da revista Veja publicado há duas semanas apresentando os resultados de uma pesquisa da UFRGS a respeito das exigências de leitura do ENEM provocou alguma discussão na rede não tanto pela suposta ausência da literatura como tema de questionamento para o estudante entrar no ensino superior, mas pela comparação com a suposta presença supervalorizada das histórias e tiras em quadrinhos no exame – e estou usando “suposta” porque não li a pesquisa, estou partindo da interpretação oferecida só pela matéria. E eu só uso a pesquisa e a matéria, aqui, como gancho para outra coisa, como vocês verão, então não me estenderei muito sobre esse ponto.

Entre os que contribuiram com solidez para a discussão estão o professor Paulo Ramos, no Blog dos Quadrinhos, e o blogueiro Liber, em sua página Liberland. Em ambos os casos, os textos escritos por eles estranhando a necessidade de se demonizar os quadrinhos para alertar para o abandono da literatura geraram produtivas caixas de debates – contando com a presença do próprio autor da matéria, Jerônimo Teixeira. Acompanhem lá. Os defensores da abordagem (note que não emito aqui opinião sobre o ensino de literatura, e sim sobre esse caso em particular, minha opinião sobre o ensino da literatura na escola já foi expressa nestes dois posts) lembram que a comparação procede uma vez que os quadrinhos são um objeto de leitura menos exigente do que qualquer literatura – e para fechar a conta comparam com Graciliano e Guimarães Rosa, uma comparação algo tendenciosa, a meu ver, uma vez que vai direto ao topo da pirâmide. Ok, Machado, Graciliano, Guimarães são ápices de nossas letras, mas antes de chegar lá o aluno ainda vai passar por muito entulho passadista que ainda se mantém no cânone pela abordagem eminenemente historicista e aestética do ensio de literatura – penso rapidamente em Casemiro de Abreu ou Coelho Neto, por exemplo.

Creio que isso denota sim uma certa má-vontade contra os quadrinhos. Como uma leitura se pronunciou no blog do liber, a revista, um veículo de imprensa, não comparou a ausência de literatura nas questões do Enem à reprodução de textos jornalísticos, e sim aos quadrinhos, que são tidos como menores porque, na opinião mais corrente, são livros “que vem com as figurinhas” e, portanto, são de mais fácil assimilação – e a culpa desse preconceito não é só dos literatos, de modo geral: algumas editoras se lançam a adaptações de quadrinhos que apenas resumem a história de um livro consagrado mirando o leitor jovem preguiçoso ou a imagem que se faz desse leitor. Isso mais atrapalha do que ajuda.

Ao pensar sobre as razões dessa imagem algo pueril dos quadrinhos, me dou conta que talvez o problema esteja também na falta de uma fortuna crítica sólida. A indústria dos quadrinhos de super-herói vive um de seus momentos mais tristes e apelativos em décadas, mas o universo das revistas não se restringe a isso. No universo da literatura de ficção, por exemplo, creio que apenas Jonathan Safran Foer e Don de Lillo ofereceram peças mais relevantes sobre o 11 de Setembro do que, acredite, quadrinhos como ZDM, de Brian Wood e Riccardo Burchielli, ou Ex-Machina, de Brian K. Vaughan e Tony Harris, pra ficar em apenas um exemplo. Mas um dos elementos essenciais para que uma forma de arte se estabeleça e angarie até mesmo respeito é o desenvolvimento de conjunto de reflexões teóricas que ampliem os horizontes estéticos dessa arte. E apesar de ser chamada por seus apreciadores de “Nona Arte”, a História em Quadrinhos – “Narrativa” ou “Arte Seqüencial” são outros nomes possíveis – ainda engatinha nesse quesito.

A L&PM relançou este ano a monumental Enciclopédia dos Quadrinhos, um trabalho pioneiro do jornalista Hiron Goidanich, o Goida, agora atualizado com a colaboração de André Kleinert – uma obra alentada que apresenta em verbetes a história de grandes autores. Pelo seu teor enciclopédico é livro de referência obrigatório, mas não estaria incluída na necessária obra crítica que falei. Por enquanto, acho que os livros ainda mais bem acabados a pensar questões estéticas, narrativas e conceituais das HQs com a seriedade necessária ainda são os de de Scott McCloud, principalmente Desvendando os Quadrinhos (M.Books, 266 páginas 2005), uma aula sobre os quadrinhos como arte e seus recursos técnicos.

Como autor de quadrinhos propriamente dito, McCloud é pouco conhecido no Brasil. Escreveu uma série de cunho experimentalista chamada Zot!, nos anos 80, e histórias para Superman Adventures, a revista que adapta para páginas de gibi o desenho animado do Homem-de-Aço. Quase nada desse material foi publicado por aqui. E McCloud também já teve lançado por aqui Reinventando os Quadrinhos e Desenhando os Quadrinhos, o segundo sobre o impacto das novas técnicas computadorizadas e as possibilidades da Internet e o terceiro sobre questões de narração e desenho. O livro de McCloud é uma daquelas obras que, se olhadas com pressa, podem ser vítimas de injustiça. Classificá-lo é tarefa ao mesmo tempo das mais fáceis e das mais difíceis – a classificação costuma ser inimiga dos quadrinhos.

É, primeiramente, um livro em quadrinhos, isso está claro desde a introdução – também apresentada em desenhos. Mas é também um texto teórico inteligente, amplo, estruturado com segurança e que apresenta argumentos consistentes de forma clara, ou seja, tudo o que se espera de um exemplar da boa prosa ensaística sobre arte (não apenas literatura, mas teatro e artes plásticas, por exemplo). Ao mesmo tempo, é e não é uma história em quadrinhos no sentido mais comum do termo, uma vez que quadros, desenhos e variantes narrativas são sim usadas para contar uma história: a dos próprios quadrinhos como meio de expressão. Nas 266 páginas do livro, McCloud disserta sobre as HQs como veículo de ideias, mapeia as origens da narrativa por imagens e estuda detalhadamente o progresso técnico e narrativo dos quadrinhos. Os nove capítulos abordam as definições do que seria arte seqüencial, as formas de relação, interação ou mesmo oposição entre texto e imagem e os diversos estilos de representação encontráveis nas páginas dos comics – ou seja, todos os elementos negligenciados pela polêmica quando se classifica os quadrinhos de cara como literatura menor ou menos exigente.

McCloud constrói seu livro em torno de dois pilares teóricos. O primeiro é de que o cartum, a forma de desenho mais simplificada, permite uma identificação maior do leitor ao podar traços específicos, levando o espectador a ocupar em sua imaginação o espaço do desenho. O segundo é de que, no espaço entre os quadros, o leitor é convidado a, em sua imaginação, atribuir significado ao que seriam duas imagens isoladas – em última análise, vale dizer que o leitor constrói a obra com o autor o tempo todo por meio de um processo que McCloud denomina Conclusão, a dedução do que não foi mostrado. A obra de McCloud rende tributo a outro estudo seminal dos gibis como linguagem e arte: Quadrinhos e Arte Seqüencial, de Will Eisner. As diferenças básicas entre as duas obras são que Eisner escreve em prosa e ilustra com páginas de quadrinhos, enquanto McCloud argumenta em quadrinhos o tempo todo – fazendo a crítica teórica da forma na forma, o que não deixa de ser ambicioso. Ele também tece considerações sobre cor, representações de tempo e movimento e expande o leque para discussões sobre a arte em geral, a formação do gosto do público, a evolução tecnológica.

Por que então a obra de McCloud é uma ave tão rara? Com grandes obras já publicadas provando o quanto os quadrinhos como veículo expressivo, artístico e formal podem ir longe (Scott Pilgrim, Asteryos Polip, Fun Home, American Born Chinese, Persépolis), por que tais obras não despertam mais ensaios argutos e entusiasmados, estudos breves e incisivos, comentários mais aprofundados? Será que o calcanhar de Aquiles dos quadrinhos como gênero são as poucas ressonâncias que ficam no leitor após o fim da obra? Não creio. Mas também não sei apontar um motivo.

Ah, sim, citei obras que são arte de fato em quadrinhos, enquanto o Enem vai de Garfield e outras tiras de jornal. Tá ok, mas quando o que valia era o vestibular unificado já havia tiras de jornal na prova de literatura e português, e a gente precisava responder a sério perguntas sobre Fagundes Varella. Logo, o centro da questão não é esse: mesmo uma prova de 35 questões de literatura não ia direto ao osso, e sim ficava em circunvoluções históricas, e nem toda literatura brasileira é Guimarães Rosa e Machado de Assis.

Comentários (1)

  • Mundo Livro » Arquivo » Guerra pelos leitores diz: 10 de setembro de 2012

    [...] algum tempo, escrevemos aqui umas breves considerações sobre o quanto os quadrinhos talvez ainda precisem de uma fortuna [...]

Envie seu Comentário