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Alan Pauls, o pranto e o cabelo

11 de novembro de 2011 0

O escritor argentino Alan Pauls. Foto: Ricardo B. Balastier/Editora Cosac Naify/Divulgação

O argentino Alan Pauls é um dos autores mais minuciosos da atual literatura em língua espanhola. E aqui não se usa minucioso no sentido que se usaria para um escritor de romances de aventura com muita pesquisa histórica como base, como Bernard Cornwell, por exemplo. Pauls é minucioso na maneira como descreve com um preciosismo ao mesmo tempo clínico e apaixonado, por paradoxal que pareça, os mínimos estados emocionais e os gestos mais cotidianos de seus personagens. Pauls é um autor miniaturista, capaz de escavar obsessivamente a gama complexa de emoções que fazem um tradutor vítima de um amor obsessivo perder seu domínio dos idiomas que traduz ou os medos atrozes que acometem uma criança de quatro anos ao descobrir o que a separação de seus pais implica – respectivamente, situações descritas por ele nos romances O Passado e História do Pranto, ambos lançados no Brasil pela Cosac Naify.

O Passado tornou-se seu livro mais conhecido no Brasil tanto pela boa recepção crítica quanto pela adaptação realizada para o cinema por Hector Babenco, com Gael García Bernal como o protagonista. É um romance alentado de 600 páginas sobre a longa descida aos infernos de Rímini e Sofía, um ex-casal que, cada qual por seu turno, não consegue se livrar do passado que tiveram em comum. Rímini não tem forças para resistir ao assédio obsessivo de Sofía, que exige dele um gesto simbólico de fim de relacionamento: a separação das fotos e cartas que ambos amealharam ao longo dos anos. A cada nova etapa da vida, quando já parece estruturado e liberto, Rímini se vê outra vez confrontado com Sofía e sua obsessão e observa, apático, enquanto a presença dela tritura sua realidade com seu peso e gravidade.

História do Pranto é o primeiro volume de uma trilogia que pretende abarcar os anos 1970 na Argentina. Entretece a complexa realidade política circundante com as sensações exacerbadas de uma criança muito sensível ao mundo. O segundo volume, História do Cabelo, está sendo publicado agora pela mesma editora, e terá sessão de autógrafos na Feira às 19h30min da próxima sexta-feira. Antes, às 17h30min, Pauls conversa com Luís Augusto Fischer sobre seu trabalho, na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul. A trilogia ainda será completa com um terceiro volume, História do Dinheiro. História do Cabelo aborda, ao enfocar um personagem obcecado com encontrar o que considera o perfeito corte de cabelo, as transformações comportamentais e políticas na Argentina dos anos 1970 – e esse é um efeito claro do estilo de Alan Pauls: reduzidos a um resumo, seus livros não parecem possíveis, não parecem sequer bons, mas é no efeito encantatório que ele consegue com sua precisão minuciosa que reside seu desconcertante efeito literário – como acontece na melhor literatura, a propósito.

Por e-mail, Pauls concedeu a seguinte entrevista, publicada no caderno Cultura do último dia 5 e republicada aqui no blog devido à programação do argentino na cidade:

Zero Hora – Em História do Cabelo, assim como em seus livros anteriores O Passado e História do Pranto, a narrativa captura com minúcia gestos, atitudes e rituais que são quase automáticos no mundo contemporâneo. É a função da literatura tornar complexas as realidades que temos como “normais” ou “comuns”?
Alan Pauls –
Torná-las estranhas, no mínimo.Arrancar-lhes uma certa naturalizade que as torna invisíveis. E, acima de tudo, conectá-las com as coisas ou fenômenos ou contextos com que a priori não teriam muito a ver. O cabelo, por exemplo – fetiche frívolo – com as energias revolucionárias dos anos 70.

ZH – Os elaborados rituais que o protagonista de História do Cabelo cria para seus cortes de cabelo são paralelos a rituais místicos. É possível ler esse paralelo como um comentário sobre o momento em que houve uma transferência da metafísica do trascendente para o corpo?
Pauls –
Não havia pensado nisso. O que eu me perguntava enquanto escrevia o romance é: no que o mundo se transforma quando é olhado através de um único elemento? Me interessam olhares monomaníacos, que pretendem explicar tudo por uma única chave. Nesse sentido, a relação de extrema exclusividade que o herói tem com o cabelo não é muito diferente da que tinham os militantes nos anos 1970 com a política.

Zero Hora – Dado que falamos de misticismo: seu modo de narrar é um “fluxo constante” que leva o leitor ao passado e ao  presente, ao micro e ao macro. Sua intenção era tornar a própria narração um feitiço, um encantamento?
Pauls –
Em algum momento tive a ideia de que o romance fosse escrito em uma única frase, longa e megalomaníaca. Depois  reconsiderei e me conformei em fazer o leitor sentir que estava escrita dessa forma. Mas gosto que a história tenha um efeito ambiental, de ecossistema, de habitat, e que as frases funcionem como lugares onde o leitor possa passar por diferentes estados: vertigem, êxtase, letargia, sonho, alucinações etc. Como um parque de diversões um pouco lisérgico.

ZH – O pranto, o cabelo e, mais tarde, o dinheiro. São os títulos dos três episódios de sua trilogia sobre os anos 1970. Em sua leitura esses três temas de alguma forma resumem a Argentina da década?
Pauls -
Mais que temas, são relíquias de uma época: a sensibilidade (pranto), a imagem (cabelo), a economia (dinheiro). Eu as uso como fósseis, como se trouxessem gravados os segredos mais baixos, íntimos e sentimentais de um momento histórico – os anos 1970 na Argentina – que até agora só se aceitava apresentar com ares da aventura militante e da épica revolucionária. História do Cabelo é o  segundo volume de um tríptico que busca investigar tudo que as armas devem à intimidade e tudo que a intimidade deve às armas.

ZH – Escrever um livro sobre o cabelo e suas mudanças e torná-los o centro de todo um romance, como o senhor fez, parece um feito de grandes proporções. Esse desafio também o motivou a eleger esse tema em particular ao dar início a esse livro?
Pauls -
Bom, de Flaubert para cá, a literatura é feita dessas desproporções, não? Mas não: o cabelo – como o pranto e o dinheiro – já estava lá bem no início do projeto, quando tive a ideia de escrever um tríptico de romances curtos ao redor da década de 1970 – a primeira parte da década, a parte do sonho revolucionário. Me interessava entrar naquela época por alguma porta lateral, menor, que me permitisse escapar dos lugares comuns associados a ela. Esses três elementos cumprirão essa função.

ZH – O Passado recebeu boas críticas no Brasil e foi adaptado para o cinema por um diretor com filmografia ligada ao cinema brasileiro, Hector Babenco. Depois disso, sua obra está sendo publicada por aqui com regularidade. Esse contexto torna especial esta visita?
Pauls -
Na realidade é um regresso: estive em Porto Alegre em 1996 ou 1997, apresentando a primeira edição brasileira de um dos meus livros, Wasabi, publicado na época pela Iluminuras, uma editora superpioneira. Através de Porto Alegre descubro que tenho uma relação com o Brasil maior e mais fiel do que acreditava.

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