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Posts de novembro 2011

Espionagem e revolução

24 de novembro de 2011 1

Ao contrário do que você pode ler facilmente em algumas publicações de posição liberal (principalmente quando a “liberação” é de capital e mercado) ou em  dezenas de blogs autodenominados “progressistas” (que, na maior parte do tempo defendem um curioso progresso ligado à volta às bases de uma ideologia do século 19), não é fácil ter uma posição formada sobre a questão cubana. Por um lado, Cuba é de fato um regime ditatorial em que vigora a pena de morte – e é estranho como já vi muitos críticos da adoção da pena de morte no Brasil ou de sua manutenção em alguns estados americanos silenciarem sobre o fato de que Cuba fuzila os assim chamados “traidores da pátria”. Cuba pode ter sido um sonho revolucionário em suas origens, com amplo apoio popular – o que foi, ao contrário do que se lê em livros recentes que tentam reescreever a história não só da Ilha, mas do continente inteiro – mas é inegavelmente um sonho que deteriorou em autoritarismo e miséria (intensificada, é claro, pelo bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos)

Por outro lado, a ampla comunidade de exilados cubanos em Miami não é composta apenas de vítimas inofensivas cujo maior dano à humanidade foi ter tornado Gloria Stefan popular. Em nome da derrubada do regime cubano na Ilha, várias organizações anticastristas financiaram ao longo da década de 1990 atentados terroristas que visavam minar o país da recentemente descoberta economia do turismo, que salvou Cuba da bancarrota após a queda da União Soviética. Embora essa militância da direita radical anticastrista seja pouco mencionada, ela existe, e, de acordo com o recém lançado Os Últimos Soldados da Guerra Fria, do jornalista Fernando Morais, foi o que deu origem a uma complexa rede de espionagem que atuou por oito anos em Miami sob o comando de Havana – com mais de uma dezena de agentes infitrados nas organizações do lobby cubano nos Estados Unidos, comunidade numerosa e barulhenta que nas últimas três décadas assumiu papel fundamental no cenário político americano (não esquecer que foi na Florida que George W. Bush garantiu, ou surrupiou, segundo críticos como Michael Moore, sua eleição á presidência em 2000).

Castro mergulha em seu livro nas entranhas da Rede Vespa, o grupo de cubanos que ao longo de dois anos forjaram deserções e dissidências como álibi para ter acesso a informações vitais das ações anticastristas em Cuba. Depois, passou a suprir Havana com informes que possibilitaram formar um amplo dossiê sobre as atividades de líderes da diáspora cubana em Miami. Com uma prosa vertiginosa, Morais concentra-se nos cinco cubanos que estão atualmente presos nos Estados Unidos, condenados por espionagem, depois de serem capturados pelo FBI. Outros cinco agentes de Cuba também capturados aproveitaram o instrumento legal da delação premiada, entregaram os demais e hoje está sumidos como parte do programa federal de proteção às testemunhas do governo americano. O foco do livro recai mesmo sobre dois personagens em particular da rede Vespa: os pilotos René Gonzáles e Juan Pablo Roque, ambos protagonistas de fugas cinematográficas do territóri0 cubano. Herói de guerra durante o período que serviu em Angola, González, em 1990, roubou um avião Antonov, usado para fumigação agrícola e reboque de planadores, e, pegando a defesa aérea do país de surpresa, fugiu em voo baixo e pediu asilo em uma base aérea americana em Key West. Desceu lamentando as condições materiais de Cuba, que o haviam feito desertar largando para trás mulher e filha. Em 1992, Roque atravessou a nado os nove quilômetros que separavam a praia de onde partiu da base de Guantánamo – travessia penosa e arriscada, porque feita sob a mira das patrulhas da Guarda Costeira cubana e em um mar em que não são poucos os tubarões. Também deixara para trás esposa e dois filhos. Ambas as fugas foram parte do plano de infiltração orquestrado por Cuba. Roque e González terminaram, coincidentemente, infiltrando-se na mesma organização, a Hermanos al Rescate, chefiada pelo ferrenho antiscastrista José Basulto. A organização dedica-se a recolher fugitivos em balsas em águas internacionais e a invadir o espaço aéreo cubano para jogar panfletos e interferir nas comunicações de aviões comerciais que partissem da Ilha.

O livro também segue, embora não à mesma distância, outros agentes da rede, incluindo o chefe do grupo, Gerardo Hernández, que sonhava com uma carreira diplomática e mudou de planos ao ser convocado para dirigir a operação. O relato de Morais também se espraia pelas tensões de anos anteriores entre Cuba e os Estados Unidos, como as grandes crises migratórias provocadas quando, em vez de trancar a saída de seus cidadãos, em duas ocasiões Cuba resolveu facilitar a fuga de quem quisesse, deixando os Estados Unidos na posição delicada de tentar barrar os exilados que antes recebia de braços tão abertos. Embora conte como alguns dos espiões, principalmente René, Roque e Gerardo, se aproximaram de instituições como Frente Nacional de Cuba, e mais adiante atribuia ao trabalho dos agentes o desbaratamente pelas autoridades cubanas de um bom número de atentados planejados sob os auspícios de Miami, Morais não se estende (talvez por não ter tais informações, vai saber), em mostrar um ou dois desses episódios, em descrever o que os espiões descobriram e por que meios. Em compensação, as páginas nas quais Morais detalha os atentados a bomba cometidos em Cuba por um terrorista salvadorenho tem o ritmo e a adrenalina alucinantes de um thriller da Guerra Fria no melhor estilo. Fã de Sylvester Stallone, Raúl Cruz León fora apenas um dentre os centro-americanos aliciados para a prática de atentados terroristas em solo cubano nos anos 1990 com vistas a minar o turismo na Ilha e afundar o país na miséria – plano que previa como fase final a queda de Fidel Castro. Embora hondurenhos, salvadorenhos e nicaraguenses fossem os agentes do terror, o financiamento vinha de Miami,  mais exatamente do líder anticastrista José Posada Carrílles. Depois de colocar duas cargas de explosivo plástico em lobbies de hotéis de Havana sem ferir ninguém, Cruz León já se achava o próprio O Especialista – título de uma bomba cinematográfica estrelada por Stallone nos anos 90 – e voltou a Havana para mais cinco atentados, quando finalmente foi preso.

Ao fim da leitura, continua difícil tomar posição sobre Cuba – embora o próprio livro não esconda sua simpatia pelo regime cubano. Mas o leitor terá uma série de informações que não circulam facilmente em ambos os lados da guerra ideológica travada sempre que a ilha é mencionada. Os Últimos Soldados da Guerra Fria faz o que se espera do melhor jornalismo: não apenas conta uma história interessante, plena de drama e humanidade, como a coloca em perspectiva enriquecendo-a com o contexto das reiteradas provocações da comunidade de Miami a Cuba, com a anuência do governo americano. Bem como o clima algo claustrofóbico vivido em uma Cuba em que não há democracia há décadas.

>>> Leia entrevista com o autor sobre o livro aqui

Um bacharelado em Filosofia totalmente diferenciado

21 de novembro de 2011 0

Estratégias comerciais e a função do suspense

17 de novembro de 2011 1

Li recentemente O Enigmista, romance do escritor policial escocês Ian Rankin publicado faz pouco no Brasil, e pensei em duas coisas.

A primeira delas é que o romance policial contemporâneo costuma ser estruturado como uma imensa narrativa sobre a vida e a psique do seu protagonista detetive recorrente. Noções antes válidas para as histórias de Sherlock Holmes ou Miss Marple, como uma cronologia pouco rígida de livro para livro, com as ações e acontecimentos de uma história não interferindo diretamente nas seguintes, mudaram para uma continuidade tão radical que se pode dizer que cada romance policial hoje em dia é um novo capítulo da vida e dos casos criminais de seus detetives. Rankin pertence ao time que estabelece uma cronologia bastante sólida para seus personagens, um time que inclui também Dennis Lehane, Lawrence Block, Michael Connelly, James Ellroy, Henning Mankell, Patricia Cornwell, Peter Robinson e um par de outros. As tramas de um romance fazem referência a episódios narrados em outros e que afetaram decisivamente não apenas a vida do detetive mas a de seus coadjuvantes mais carismáticos. E a vida desses personagens é estreitamente vinculada aos lugares e à atmosfera da cidade em que o policial atua – normalmente uma metrópole contemporânea, uma vez que o número menor de crimes em uma localidade pacata inviabilizaria uma série com diversos romances, obrigando o autor a restringir-se a dois ou três.

No caso de Rankin, o protagonista é o detetive John Rebus – um policial de meia idade com alma punk, lotado em Edimburgo, fã de rock e viciado em arranjar encrencas com seus superiores. Dentre os coadjuvantes da saga, incluem-se um especialista em computadores chamado Eric Bain (e que os outros policiais chamam, sarcasticamente, de “Brains”, ou “Miolos”); a primeiro colega de trabalho, mais tarde amante e mais tarde chefe de Rebus Gill Templer e a também policial Siobhan Clarke, garota de personalidade forte que mantém com o protagonista uma relação carinhosa que passeia do filial ao protetor – sem deixar de incluir uma certa tensão romântica. Mais nova, Siobhan vê em Rebus uma espécie de modelo que, ela sabe, não seria bom para sua carreira seguir, mas não consegue evitar. O Enigmista, que flagra Rebus às voltas com um desaparecimento que pode ter relação com o passado sangrento da Escócia, incluindo dois serial killers que existiram de fato no século 19, é o terceiro volume da série lançado no Brasil – após Questão de Sangue e Os Ressuscitados.

A segunda coisa que pensei – e que terá relação com a primeira até o fim deste texto, prometo -, foi na estratégia de planejamento das editoras nacionais para apresentar ao público séries de livros policiais protagonizadas pelo mesmo personagem. É comum a editora “testar” o mercado primeiro apostando de início em um romance que tenha mais chance de emplacar, seja porque a história parece mais promissora e cheia de ação, seja porque ela não é tão vinculada a aspectos físicos, sociais e históricos da cidade em que o romance se passa, seja porque a recepção internacional da obra foi boa. Só depois de estabelecido um relativo público para os livros desse autor em particular, ou para as aventuras de um determinado personagem, muitas editoras começam a desovar os demais livros do catálogo. O que significa que os romances inevitavelmente acabam sendo publicados fora da ordem cronológica. Não que as histórias não sejam fechadas, mas parte da construção da narrativa policial do autor, calcada em suspense e perigo, é comprometida por esse expediente. A Record, por exemplo, lançou há alguns anos Correntezas da Maldade, de Michael Connelly, um romance no qual o protagonista, o detetive Harry Bosch, vai atrás de um assassino serial que pode ter matado um policial aposentado, seu amigo. Não deixa de ser algo estranho, portanto, ler agora Dívida de Sangue, do mesmo autor, lançado este ano pela mesma editora e protagonizado pelo sujeito que morreu no outro livro – este romance é bem anterior ao que lhe precedeu no nosso mercado editorial. Acontece o mesmo com os romances de Rebus editados pela Companhia. Senão vejamos: Questão de Sangue foi o primeiro dos livros de Rebus publicado no Brasil, em 2007, mas saiu, originalmente, em 2003 na Escócia. Os Ressuscitados saiu aqui em 2008, mas era anterior, foi publicado em 2001. E O Enigmista retrocede ainda mais. Saiu só este ano, mas originalmente é de 2000. Logo, o melhor teria sido lê-los em ordem inversa, mas acabei lendo-os à medida que saíam por aqui e, ao menos no caso de O Enigmista, isso comprometeu alguns efeitos intentados pelo autor. Próximo ao clímax do livro, Rankin tece um capítulo particularmente tenso no qual o assassino é desmascarado por uma personagem secundária de alguma importância para a trama e  parte para cima da testemunha para silenciá-la com sangue. A narrativa se interrompe, pula para outro foco e só depois volta, numa tentativa de prorrogar o suspense sobre o que acontecerá de fato com aquela personagem ameaçada pelo assassino. Pois bem: nesse livro eu não sei, mas a personagem retornará nos demais romances que eu tinha lido antes. Logo, morrer não vai. Nem sofrer incapacitação permanente.

Sei que isso não tem assim tanta importância, mas foram dois pensamentos que cruzaram minha cabeça justamente porque a estratégia editorial de algum modo interferiu na minha experiência de leitura.

P.S.: Os livros de Rankin, em particular, passaram ainda por uma outra mudança em sua breve estadia em terras brasileiras, mudaram de tradutor, o que provoca ao menos uma outra nota curiosa. Um dos policiais da Divisão de Investigações Criminais em que Rebus trabalha chama-se George Silvers. Os colegas o chamam informalmente por um apelido. Nos primeiros dois romances lançados aqui, traduzidos por Álvaro Hattnher, o cara era George “Aiou” Silvers. Em O Enigmista, traduzido desta vez por Cláudio Carina, o mesmo personagem virou George “Hi-Ho” Silvers – o apelido é uma referência ao bordão com o qual O Cavaleiro Mascarado (que no Brasil era chamado também de Zorro, mesmo nome do aventureiro mascarado da Califórnia espanhola) atiçava seu cavalo, Silver (provavelmente é o tipo de coisa que acaba de denunciar minha idade).

Cinco verdades sobre o futuro dos livros e da escrita

15 de novembro de 2011 2

O time reunido na Sala dos Jacarandás era, como disse o mediador Juremir Machado da Silva, tão bom quanto o do Internacional vencedor do Mundial. Reunidos, Eric McLuhan, Federico Casalegno, William Uricchio , Georges Bertin e Jean-Bruno Renard tomaram para si a difícil tarefa de atualizar a célebre frase de outro McLuhan, Marshall, que afirmava que “o meio é a mensagem”. Será que o meio ainda é a mensagem? A pergunta não foi respondida, mas o time de acadêmicos deixou clara uma série de pressupostos que, se não respondem à pergunta, pelo menos encaminham uma resposta.

1) Não lemos com a mesma atenção de antes

A afirmação vem de McLuhan:

- Trabalho com um público de 25, 30, 35 anos. Eles não são mais jovens em idade universitária – tratando aqui a universidade como algo ainda extraordinário -, eles são pessoas ordinárias. E o que se vê é que eles sabem ler. Eles só não querem.

Se, em 1960, a velocidade média de leitura do americano era de 400 palavras por minuto, atualmente, esta média diminuiu para 300 palavras. Ou menos, diz McLuhan, afirmando que muitos de seus estudantes, durante a leitura silenciosa, leem mais lentamente do que em voz alta:

-  Em voz alta, lemos cerca de 180 palavras por minuto. Eles leem mais devagar do que falam.

O clímax da atenção é quando se é tão absorvido por uma leitura que um “pequeno filme” se forma em nossa mente:

- Sem filmezinho… sem atenção – diverte-se McLuhan, mesmo que, como ele mesmo fala, trate-se de um assunto muito triste.

2) O copyright acabou

Bertin é cético ao afirmar que “a internet é o lar da falsidade”:

- Qualquer um pode reproduzir conteúdo e dizer que é seu. A internet faz crescer a figura do autor, em detrimento do texto.

E encontra eco em McLuhan:

- O copyright é uma coisa boa, mas acabou.

O teórico propõe ao público o que ele julga ser o futuro (avisando, antes, que obviamente pode estar mortalmente enganado): fazer do público o mecenas. O que tem nome, o crowdsourcing.

- Senão, de onde vem sua renda? – ri McLuhan.

3) A estrutura formal do romance é passado

Foi-se o tempo em que líamos capítulos de 50, 60 páginas. A narrativa moderna, de acordo com McLuhan, tem seus próprios métodos:

- Há um autor chamado James Patterson que escreve capítulos de três páginas. Ou seja, se você leu 300 páginas, é de se esperar que esteja no centésimo capítulo.

Isso corrobora com a questão da nossa capacidade de prestar atenção. A tendência, diz McLuhan, é de que o livro de mesa se torne cada vez mais popular. Ou seja, o livro cada vez mais como um objeto de arte, e não um meio tão focado, surpreendentemente, à leitura.

4) Estamos escrevendo mais

Bertin, Casalegno e Renard apontam as redes sociais como “uma batalha ganha para a escrita”. Há tanto um aumento da produção individual de conteúdo quanto uma maior consciência das especificidades da palavra escrita, da palavra falada e das imagens, afirma Uricchio.

Casalegno faz uma ressalva, no entanto:

- Há uma maior produção de conteúdo, mas com repetição. Copiamos e colamos tanto no Facebook quanto no Twitter, então temos como medir não nossa produção de conteúdo, mas a repercussão do conteúdo que é produzido.

5) Sim, o livro tem uma vida longeva pela frente

Embora os e-readers e o smart paper tenham como promessa democratizar o acesso à literatura, o consenso da mesa é de que o livro sobrevive. O arauto mais exaltado da longevidade do livro em papel é Uricchio, que fala dele como uma tecnologia perfeita:

- Não precisa de luz, não precisa de internet, não fica sem baterias, é reciclável, e o mais importante: o compramos só uma vez.

Agora é a hora

15 de novembro de 2011 0

Grande parte do público que ficou em Porto Alegre para o feriado da Proclamação da República deve ter tido a mesma ideia: aproveitar o 15 de novembro para dar aquela conferida de última hora na programação da Feira do Livro. Enquanto a Praça da Alfândega encontra-se cheia, mas nem tanto, a área infantil quase não tem espaço para os pequenos leitores.

No Teatro Sancho Pança, a fila, que chegava a dar voltas, era para assistir à apresentação do musical infantil As Histórias Mais Loucas do Mundo, do Grupo Cuidado que Mancha (Fotos: Fernanda Grabauska).

Na área infanto-juvenil, o movimento era em torno dos últimos saldos da Feira e da visitação ao navio Patrulha Benevente, da Marinha do Brasil, ancorado ali no Cais do Porto até as 18h.

O contador de histórias

15 de novembro de 2011 0

O escritor paquistanês Tariq Ali. Foto: Arquivo Pessoal, Divulgação Record

Que não se diga que a Feira descuidou da programação no final. No último dia do evento, a Praça da Alfândega recebe um convidado de peso, um dos intelectuais mais polêmicos e discutidos da contemporaneidade: o paquistanês Tariq Ali. Um dos grandes ídolos da esquerda contemporânea por suas críticas ferozes ao que considera o imperialismo do Ocidente capitalista, Ali vem a Porto Alegre também para divulgar sua mais recente obra de ficção, o romance A Noite da Borboleta DouradaAli tem sessão de autógrafos às 17h30min e uma palestra às 16h na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul. O livro, passado na contemporaneidade, é o quinto e último episódio do Quinteto do Islã, uma série de cinco romances nos quais Ali retrata ficcionalmente momentos-chave do Islamismo como forma de discutir a importância da contribuição islâmica para a história da Humanidade (os anteriores são Sombras da Romãzeira, O Livro de Saladino, Mulher de Pedra e Um Sultão em Palermo). Por e-mail, Ali concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora, publicada editada na cobertura da Feira e que você lê na íntegra aqui  no blog.

Zero Hora – O romance que o senhor está lançando agora, A Noite da Borboleta Dourada, é o quinto e ultimo de sua série Quinteto do Islã, produzida ao longo das últimas duas décadas. Qual a sensação agora que o projeto está completo?
Tariq Ali –
Eu me sinto ao mesmo tempo liberto e triste. O projeto está concluído, mas muitos amigos africanos estão me perguntando por que eu ignorei o Islã na África. Assim, talvez outro livro venha a aparecer – ou não. Mas quando eu comecei, alguns dos meus editores acharam que o Quinteto jamais seria concluído. Provei que estavam errados.

ZH – O senhor situa parte da história na Lahore contemporânea, e escreve sobre a amizade de um grupo de estudantes unidos pela descoberta do marxismo e da poesia. É, de alguma forma, seu testemunho sobre a experiência de sua própria geração?
Ali –
Sim, em parte, mas o romance é sobre muito mais do que isso. É sobre memória, migração e história. Por exemplo, a ascensão do Islã na provínicia de Yunnan, na China, no século 19, que eu retreto no romance, foi um grande acontecimento. E hoje não são muitos os chineses comuns que sabem sobre isso. Eu suponho, de algum modo, que o romance é também um adeus ao mundo de minha geração. Muitos de meus amigos estão mortos, e Platão, o personagem pintor, está morrendo mesmo enquanto o romance que ele queria que fosse escrito está sendo produzido.

ZH – O narrador de seu romance é um escritor – a quem um amigo pede que escreva um romance sobre sua vida. Os seus personagens discutem e citam no livro pilares da literatura ocidental, como Diderot e Stendhal, e a poesia Urdu também desempenha um papel importante na história. É seu modo de enfatizar em seu retrato ficcional o quanto a literatura cria o imaginário e, em consequência, a própria realidade?
Ali –
Sim, em certo sentido é verdade. Stendhal é um dos meus romancistas europeus favoritos. Sua intransigência política e a energia de sua escrita são características com as quais sempre me identifiquei, e estou feliz de poder fazer referência a ele em A Noite da Borboleta Dourada. E no Oriente a poesia sempre superou o romance, no passado recente. Fui criado nela e muitos amigos de minha família eram poetas.

ZH – O senhor discute em seu romance conceitos como exílio e pertencimento. Essa dicotomia no livro tem a função de ser uma rima temática à dualidade entre a força da identidade local e a expansão do mundo globalizado?
Ali –
A dualidade é antiga, criada pelos impérios europeus nas Américas, na Ásia e na África e pelo transporte de escravos. Os grandes escritores brasileiros, como Machado, Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, são resultado da mistura que produziu o Brasil. Escritores afro-americanos nos Estados Unidos criaram sua própria linguagem especial. O mesmo é verdade em outros lugares. E esta dualidade é importante porque sempre acreditei que as culturas fortes são uma síntese. Culturas “puras” são fracas e raramente duram muito tempo.

ZH – O senhor foi um dos mais atuantes críticos da política externa da administração Bush, especialmente para o Oriente Médio. O que, sem opinião, mudou durante os anos de Obama na Casa Branca?
Ali –
No meu mais recente ensaio publicado como livro (Obama Syndrome: Surrender at Home, War Abroad – “Síndrome de Obama: Rendição em Casa e Guerra no Exterior”, em tradução livre) afirmei com todas as letras que a administração Obama é uma continuação da de Bush, como a de Bush foi da de Clinton. Isto não é posto e discussão hoje nos Estados Unidos. Após o colapso do comunismo, em 1991, a noção de Edmund Burke, de que “em todas as sociedades formadas por diferentes classes algumas classes devem necessariamente ser superiores” e que “os apóstolos da igualdade só mudam e pervertem a ordem natural das coisas”, tornou-se o senso comum do tempo. O dinheiro corrompe a política. Muito dinheiro corrompe a política absolutamente. Em todos os grandes centros do capital nós testemunhos o surgimento de um centro de extremos: Republicanos e Democratas nos Estados Unidos; Trabalhistas e Conservadores no estado vassalo da Grã-Bretanha; Socialistas e Conservadores na França; as coalizões alemãs; centro-direita e centro-esquerda na Escandinávia, e assim por diante. Em praticamente cada caso o sistema bipartidário se transformou em um governo efetivo nacional. Um novo extremismo do mercado entrou em jogo.

ZH – Que quadro o senhor especula que emergirá do Oriente Médio após as recentes manifestações e rebeliões em países como Egito e Líbia?
Ali –
O mundo árabe está em transição. Tudo é fluido. Nada está definido. Por isso, é um pouco cedo para qualquer julgamento definitivo. E o triunfalismo ocidental na Líbia pode ser de curta duração, seja lá o que se pense sobre Kadafi. E eu sempre fui um crítico de seu governo, ao contrário dos líderes ocidentais que riam enquanto ele estava sendo morto da maneira mais brutal. Sarkozy, Blair e Condoleeza Rice foram muito próximos a Kadafi – a decisão da BBC e da CNN de mostrar seu assassinato sem qualquer crítica é um sinal do caráter espúrio da cultura política no coração da democracia.

A biblioteca que cumpriu sua missão

14 de novembro de 2011 0

Maurício Veloso Brun (à esquerda) lê para a filha Chiara (de rosa) na Biblioteca Moacyr Scliar. Foto: Emílio Pedroso

Durante seus 18 dias de atividade na Feira, a Biblioteca Moacyr Scliar, no Cais tornou-se o foco de concentração dos jovens leitores na Feira. Uma multidão de crianças e adolescentes em idade escolar estiveram no espaço durante a Feira, embora, de acordo com a bibliotecária responsável, Maria da Graça Artioli, a organização não tenha eios para calcular o número exato.

– Todos os dias havia muita gente, com exceção dos horários de meio dia e fim de tarde. Nos dias de semana, muitas escolas. Finais de semana, muitos pais com crianças. – diz ela.

Na tarde de ontem, o clima era parecido com o dos fins de semana. Devido à véspera do Feriadão, muitos pais levaram suas filhas à Praça, como o médico veterinário Maurício Veloso Brun, 38 anos, pai de Chiara, de 7 anos.  Morador de Passo Fundo, embora nascido em Porto Alegre, Maurício está na Capital visitante parentes, aproveitando o embalo do Feriadão. Como tem feito todos os anos desde que ela era uma menina de colo, Maurício levou Chiara à Feira. Na tarde quente à beira do cais, ambos liam, deitados nos tapetes e almofadas que compõem a ambientação da biblioteca, o livro O Menino Paciente, de Letícia Wierzchowski e Marcelo Pires. Na sacola, Chiara levava um livro de caligrafia que precisará para a escola – está na 1ª série do Ensino Fundamental – e um livro indicado pelo pai: O Caso da Borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida, da Coleção Vaga-Lume.

– Meu pai leu e me disse que é bom – contava ela, logo seguida pela confirmação do pai:

–  Vi o livro e indiquei: ó, esse é do tempo do pai no colégio e é muito bom.

Ecologia e os brinquedos inventados

14 de novembro de 2011 0

- Não penso em ensinar com meus livros, e sim em divertir. Quero que meus poemas cheguem às mãos das crianças como brinquedos – diz o escritor, poeta e ex-patrono da Feira Carlos Urbim.

Os brinquedos são o exemplo que o escritor usa para falar da ecoalfabetização, objeto de discussão na Sala dos Jacarandás nesta segunda-feira dedicada à ecologia. O professor e ecologista Francisco Milanez explica brevemente o conceito:

- A ecoalfabetização pretende fazer uma iniciação que permita, em primeiro lugar, entender o que descobrimos sobre a natureza, o que já conhecemos sobre a natureza e entender a ética ambiental.

Urbim faz seu comentário sobre o assunto baseado no livro “Saco de Brinquedos”:

- Sou de uma época e de uma classe social onde nunca se ganhou brinquedos, e sim roupas: uma camisa, uma calça, um par de sapatos, e tudo para durar até o ano que vem – brinca – Sou da época em que se saía para inventar brincadeiras.

O comentário coletivo é de que tanto professoras quanto crianças não conhecem brincadeiras inventadas, como as tropas de ossinhos retirada de sopas ou as petecas feitas de sabugo de milho, mas que a literatura – no caso, o Saco de Brinquedos de Urbim – ajuda a recuperar as brincadeiras sem brinquedos e alfabetiza, mesmo que não tenha este propósito, no âmbito da ecologia uma geração de crianças mais consciente em relação à natureza.

Promoções de última hora

14 de novembro de 2011 1



Ainda dá para encontrar literatura de qualidade a bons preços nos saldos. Foto: Fernanda Grabauska

Estamos próximos do fim (da Feira, calma). E, com isso em vista, os descontos aumentam consideravelmente nas caixas de saldo. Mas não vá pensando que não dá para encontrar coisa boa. Em um giro pela Feira, dá pra encontrar clássicos da literatura brasileira e universal por preços mais do que amigos.

Leituras obrigatórias

Alguns dos autores cobrados nas aulas de Literatura do ensino médio estão bastante em conta nos saldões: na Isasul, dá para encontrar edições novas de O Cortiço por R$ 20 e O Uraguai por R$ 10. Na banca da Traça, encontramos os dois volumes de Solo de Clarineta dando sopa, por R$ 8 cada um.

Clássicos atemporais

Também na Traça (e também por módicos R$8), dá para sair com essa edição antiga da Eneida de Virgílio. Na Pradense, em frente ao Santander Cultural, Dom Quixote e A Divina Comédia, em edições novas, estão a R$ 20. Nas caixas da banca também é possível encontrar O Fiasco, romance do Nobel de Literatura em 2002, Imre Kertész, por R$ 9. Um pouco mais caros, mas com descontos bastante interessantes (de cerca de 50%) são as antologias reunidas pela Real Academia Espanhola, que passam de Gabriela Mistral a Pablo Neruda, com preços entre R$ 30 e R$ 45. Outra edição bacana de levar é a de Cem anos de solidão, também da Real Academia, por meros R$ 35.

Leia no original

A casa da SBS na Área Internacional praticamente transbordava de tanta gente por um motivo bastante claro (e quase um clássico do final de Feira): a liquidação dos exemplares das coleções Wordsworth e Penguin Classics. É um espetáculo: obras completas de Jane Austen e trabalhos selecionados das irmãs Brontë por R$ 30 e obras como Peter Pan, A volta do parafuso, Conto de duas cidades e outras, todas no texto original em inglês, por R$ 7 (Wordsworth) e R$ 5 (Penguin).

Gentileza na Praça

13 de novembro de 2011 0

Jane Tutikian recebe um abraço gratuito no Dia da Gentileza da 57ª Feira do Livro

Domingo foi o Dia da Gentileza na praça. Você sabe, a Feira do Livro inaugurou em 2011 os dias temáticos. Cada dia, um tema é celebrado. As bancas, então, fazem promoções de títulos ligados ao tema em questão. E o clima da feira se transforma um pouquinho.

Neste domingo da gentileza, a mudança era constatável na programação – uma roda de chimarrão foi aberta pela patrona, Jane Tutikian, ao lado de João Carneiro, Presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro. O mate ia passando de mão em mão enquanto Carneiro lia um poema dedicado à bebida.

Simultaneamente à roda, um grupo de garotas e garotos foi para a feira de coração aberto e cartazes que anunciavam: “Abraços Gratuitos”. Motivados pela temática do dia, deram e receberam abraços incontáveis.

- Abraço é bom e é disso que o mundo precisa – justificou-se a “abraçadeira” Marina Schneider.

Depois de tomar seu mate, a patrona Jane Tutikian foi pescada para um abraço e se declarou satisfeita:

- Abraço grátis é muito bom.

Para quem enfrentou filas como as que se formaram durante as sessões de autógrafos de Jane Tutikian e José Antônio Pinheiro Machado, o chimarrão e os abraços poderiam ter chegado mais tarde, junto com o frio que anunciou a caída da noite.

Feira estendida

Estivéssemos em outros anos, este domingo seria o dia de encerramento da Feira do Livro. Mas nesta 57ª edição, um bem-posicionado feriado da Proclamação da República, na próxima terça-feira, estendeu a feira por mais dois dias. Dá tempo de aproveitar os “saldos dos saldos” e as “promoções das promoções”, que costumam surgir nos momentos finais da feira.