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Hitchens e o mundo contemporâneo

16 de dezembro de 2011 4

Christopher Hitchens no Fronteiras do Pensamento. Foto de Valdir Friolin

Meu amigo Gabriel Brust costuma referir-se à entrevista abaixo como uma das mais difíceis de sua carreira. Christopher Hitchens seria o convidado do ciclo Fronteiras do Pensamento naquele novembro de 2007 e atendeu a uma ligação telefônica para uma entrevista previamente combinada. O escritor falava de sua residência em Washington, em um inglês com entonação áspera, mastigava as palavras e ainda por cima parecia ter tomado alguns drinques antes da conversa – a gravação não ficou lá muito boa, também, o que transformou a transcrição do papo em uma tarefa para abnegados… Hitchens foi seco e direto, não parecia ter paciência para desenvolver oralmente temas que já havia abordado com detalhe em seus ensaios.. Como o repórter escreveu no texto de apresentação da entrevista, publicada em três de novembro de 2007 no Caderno Cultura:

“Hitchens é um animal argumentativo, embora isso fique mais explícito em seus artigos do que em entrevistas, fazendo com que questões consideradas indiscutíveis
– como a condenação à invasão do Iraque – voltem à pauta, inclusive à luz de uma ética humanitária. Em seu racionalismo radical, o jornalista bate de frente com questões caras – e, freqüentemente, carregadas de demagogia – à esquerda, como o relativismo cultural. O autor é implacável com os métodos islâmicos, sejam eles justificados ou não pela religião ou pela cultura, já tendo usado o termo “fascismo islâmico” para criticar as ameaças do mundo oriental aos editores europeus que publicaram cartuns de Maomé, por exemplo. Em 1989, quando um fatwah teocrático ameaçou de morte o escritor Salman Rushdie, Hitchens denunciou a indiferença e as hesitações ocorridas entre os intelectuais para negar apoio ao colega.  Tais tergiversações, para Hitchens, encarnavam a tendência da boa parte dos pensadores para justificar qualquer ato islâmico — inclusive o 11 de setembro.

Agora, com seu novo livro, Deus não é Grande – Como a Religião Envenena Tudo (Ediouro, 286 páginas, R$ 44,90), o jornalista confirma sua postura de livre pensador ao compartilhar uma bandeira típica da esquerda: a ojeriza por religiões. Em entrevista ao Cultura por telefone, Hitchens optou por responder tudo de forma clara e direta. As religiões são ruins porque elas mentem. Simples assim.

Republicamos aqui a entrevista devido à recente notícia do falecimento do autor, aos 62 anos, vítima de um câncer de esôfago.

Zero Hora – Deus não é Grande acaba de ser lançado no Brasil. Em que este se difere de outros livros sobre ateísmo que estão chegando ao mercado?
Christopher Hitchens —
A diferença é que eu não sou um cientista. E eu acredito que o argumento contra a religião foi feito antes de Darwin e antes de Einstein. Sou um crítico literário e um correspondente estrangeiro. Em meus livros, eu argumento baseando- me em exemplos que eu vi viajando pelo mundo, exemplos dos perigos da religião.

ZH — Richard Dawkins, no seu livro Deus, Um Delírio, diz que pretende converter as pessoas ao ateísmo. Ele não corre o risco de incorrer no mesmo erro das religiões ao tentar isso?
Hitchens —
Eu não estou tentado converter pessoas. Não…

Cultura — O senhor concorda com aqueles que dizem que a religião foi a responsável por importantes princípios morais para a construção da civilização?
Hitchens —
Não, isto está errado. Religião não é a fonte da moralidade, a moralidade vem da solidariedade humana, e ela surge em todas as sociedades, desde os tempos antigos. Religião, pelo contrário, prega a imoralidade. Ela conta mentiras para as crianças sobre céu e inferno, ela cria contos de fada aos adultos. Mente sobre a morte concreta, que é algo inevitável e inescapável. Elas praticam mutilação genital e repressão sexual, que levam à perversão e à hipocrisia. Ou seja, é imoral, vai contra a solidariedade humana e, é claro, é responsável pela subordinação das mulheres.

Cultura — A religião pode ser substituída pelo quê na vida das pessoas?
Hitchens —
Não há um substituto, porque não queremos repetir o erro. Deixar de se impressionar pelas mentiras e imoralidades da religião é algo que não requer substituto. Se você consegue se emancipar da noção de imoralidade da religião, você não precisa de nenhum substituto. A emancipação é uma coisa boa or si só.

Cultura — Como você imagina politicamente um mundo em que ninguém acredita em Deus?
Hitchens —
Eu não consigo imaginar, porque não há o perigo de isso acontecer. A espécie humana é programada de certa maneira para ser religiosa porque é uma espécie muito egocêntrica. É facilmente persuadida de que é o objetivo de algum plano divino. Em segundo, é uma espécie muito medrosa, e tem particular medo da morte.

Cultura — O mundo oriental depende mais da religião do que o ocidental?
Hitchens —
Não. Acho que o problema é o mesmo para todos. O budismo não é exatamente uma religião, mas uma prática espiritual. É difícil medir.

Cultura – Há o mito de que, em países corruptos e pobres como o Brasil, as igrejas neopentecostais poderiam prestar um serviço às camadas mais pobres, até mesmo facilitando a ascensão social. A religião pode ser útil dependendo do contexto de uma sociedade?
Hitchens -
Ninguém é tão pobre que precise aprender moralidade com os pentecostais.

Cultura – A religião não pode ter nenhuma utilidade?
Hitchens -
Não é útil ser enganado. Não é útil que te digam para acreditar em coisas. É o mesmo problema em todos os lugares, sem diferença. As escolhas entre razão e fé estão em todas as sociedades e entre todos os indivíduos. Eles precisam decidir por si mesmos por que estão aqui. Por causa da biologia ou por causa do divino. Mas a questão é a mesma em Porto Alegre ou na Islândia.

Comentários (4)

  • Michelle Sousa diz: 26 de dezembro de 2011

    Caí aqui no blog por indicação de um outro blog, sou do Rio de Janeiro, mas as dicas de livros são maravilhosas.

    Estou ansiosíssima pra ler esse novo livro do Hitchens, tenho o Deus, um delírio do Dawkins e tudo que diz respeito à ateísmo me interessa bastante.

    Vou voltar sempre ao blog pra ver mais dicas como essas.

    sobreoinsolito.blogspot.com

  • Diego/SM diz: 5 de abril de 2012

    Alô Carlos… assim como a Michelle aí de cima, também achei o blog meio por acaso… para ver como são as coisas: acesso frequentemente o site da Zero, mas o blog só fui descobrir através de uma pesquisa sobre livros no google esses dias rs… desde então tenho lido direto… muito bom! Parabéns, cara… (hoje já deixei um comentário também lá no post sobre a revista “Daytripper”)

    Quanto ao Hitchens, acho que era realmente um grande pensador, sujeito extremamente inteligente (não, não o conheci pessoalmente rs) e aprecio – e me identifico – bastante com a posição dele sobre Deus e as religiões…

    Mas não consigo entender como um sujeito assim acaba comprando e se posicionando a favor daquela ideia da invasão do Iraque (e da política intervencionista dos Eua em geral), por exemplo…

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