Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Brincadeira de Forte Apache

27 de dezembro de 2011 3

Não se julga livro pela capa, todo mundo sabe, este resenhista também sabe, então vamos tirar esta questão do caminho o mais cedo possível. Mas literatura também é produção de signos, e, intencionalmente ou não, boas pistas das qualidades de Habitante Irreal, romance do escritor gaúcho Paulo Scott, encontram-se na capa da belíssima edição lançada mês passado pelo selo Alfaguara, da Objetiva. Sobre um fundo branco indistinto, avulta-se um boneco sem cabeça, em close — uma antiga miniatura do conjunto de brinquedos Forte Apache, que opunha índios e cavalaria estadunidenses e fez parte da infância de quem hoje anda pelos 40 anos, pouco mais ou pouco menos. É essa a geração retratada no livro, a dos que foram jovens no fim dos anos 1980 e viram e sonharam com a retomada democrática no país.

A imagem da capa é ao mesmo tempo evocativa e perturbadora — a ausência de rosto do índio de brinquedo não apenas remete a um dos temas-chave do livro, sobre o qual falaremos adiante, como também parece fazer referência à mutilação dos sonhos otimistas acalentados na infância da redemocratização. Habitante Irreal é dividido em quatro partes. A primeira concentra-se na crise de identidade vivida por Paulo, personagem que toma emprestado de seu autor não apenas o nome, mas alguns elementos biográficos.

Paulo (o protagonista, não o escritor) é um estudante de Direito, jovem líder estudantil de Porto Alegre, militante de primeira hora da primeira eleição vencida pelo PT no Estado. Desencantado com a prática profissional no escritório em que estagia e com a voracidade da disputa por cargos no governo petista recém-eleito, Paulo vive uma crise de identidade que tenta resolver após encontrar, na volta de uma viagem a Pelotas, uma adolescente índia à beira da estrada, assolada pelo temporal. Ele oferece uma carona à menina, de nome Maína, e, encantado por ela, faz planos de mudar a vida que a garota leva, acampada à beira de uma estrada federal com a mãe e as irmãs. O idealismo inconsequente de Paulo, embora bem-intencionado, é pautado por uma mescla de sentimentos confusos que desembocam, no fim, na exploração emocional e sexual da garota. Não é essa, claro, a a intenção de Paulo, que gostaria de salvar a índia para salvar a si mesmo, e para provar que ainda é o idealista puro inflamado pela chama dos próprios sonhos – obviamente, à medida que a narrativa avança, não acontecerá nem uma coisa, nem outra.

Paulo é um inconformado com o rumo desastrado que as coisas, vistas fora do prisma de sua visão de mundo, tomaram. Suas tentativas de “salvar” Maína, contudo, mostram uma incompreensão colonialista inconsciente tão grande quanto a das autoridades que ele considera responsáveis pelo abandono de Maína e sua família. Uma inconsciência que terá consequências drásticas mais adiante, quando Maína engravida de Paulo e gera um menino, Donato (que não por acaso significa “dado”, “doado”). Depois de trágicas peripécias, Donato é adotado por um casal de professores universitários — destinados a repetir, ainda que dotados das melhores intenções, alguns dos erros do pai biológico do garoto com Maína, como a negação da identidade e o pensamento paternalista.

Em obras anteriores, como a coletânea de contos Ainda Orangotangos, Scott se mostrava um artista ligado à experimentação da forma – a primeira edição do livro, pela extinta Livros do Mal, vinha com um disco com uma faixa de acompanhamento para cada conto; bem como uma das histórias era narrada em blocos dispostos na ordem contrária (antes ainda do sucesso do filme Amnésia, de Christopher Nolan), etc… Em Habitante Irreal, alguns torneios estruturais e gráficos permanecem para dar conta de uma vontade de ousadia do autor, mesmo que nem todos bem-sucedidos – alguns capítulos são narrados como imensas notas de rodapé para textos inexistentes, um recurso de sinalização metalinguística que não chega a ter neste romance o impacto de uma estratégia semelhante usada por J.M. Coetzee em Diário de um Ano Ruim. As últimas páginas de Habitante…, por exemplo, que também estão lá para relembrar ao leitor do caráter ficcional e narrativo do que acabou de ler, conseguem com beleza e poesia um efeito dilacerante, algo que as notas apenas tangenciam.

A prosa, narrada em uma terceira pessoa colada de modo epidérmico às personagens, estrutura-se em frases longas e sinuosas, por vezes furiosas, por vezes líricas, sentenças que se projetam para mais de um plano de ação e discurso, do personagem e do narrador: “Caminha até a beira da estrada, sente-se capaz de enternecê-la (e quando os próximos faróis chegarem cogita, a partir de um velho hábito de apenas cogitar, forrá-los ainda que instantâneo seja o baque, cegando-os, forjando altura das copas de todas as árvores visíveis, companhia e penúria lunar contra a peça de madeira que ficará ali para sempre)”.

Voláteis, romance anterior de Scott, já apresentava uma inflexão da experimentação formal para a construção psicológica – era das relações entre os três principais personagens em meio a uma trama de solidões e submundo que o livro, um romance de crime que transcendia o policial, tirava sua força. Habitante Irreal leva a obra de Scott a outro patamar na representação dos personagens, embora ainda mantenha a estrutura formal sofisticada – as três partes seguintes à apresentação de Paulo praticamente deixam o personagem de lado, mapeando as vidas tocadas indiretamente por seus atos: Maína; o filho de ambos Donato; Luísa, mulher do professor que adota o garoto. Cada novo mergulho aprofunda a incompreensão básica de cada personagem com relação ao caminho correto a tomar, aparentemente tão claro no início. O trajeto romanesco de Habitante Irreal é, assim, também um trajeto ético, uma vez que cada decisão parece gerar mais dúvidas e provocar consequências contrárias às intenções que as balizavam na origem. No fim, caberá a Donato tecer uma prece mortuária de múltipla significação no contexto do romance — não apenas para alguém que morreu, mas para si mesmo, para a vida emprestada que levou até ali, para o toque de morte dos contatos indígenas com o homem branco mostrados ao longo da narrativa.

É bem nesse fim do romance que Paulo (o personagem, não o autor) volta à história. E ainda que seu retorno feche um círculo formal, sua presença naquela situação parece excessiva, uma vez que ele reaparece depois de 20 anos e várias páginas ausentes apenas para reiterar seu comportamento pusilânime do passado – o que soa deslocado quando tantas transformações drásticas ocorreram nos demais personagens circunstanciais. Essas mudanças são o que o romance tem de melhor. É no mergulho intenso na psiquê, nas dúvidas, covardias e incertezas de suas criaturas que Scott tece um emaranhado complexo que, ao mesmo tempo, se sustenta como estudo de personagem e responde, a seu modo, ao velho questionamento de “por onde anda a realidade brasileira na literatura?”. Os personagens de Habitante Irreal não existem fora do contexto nacional – as eleições do processo de redemocratização, o surgimento da internet no Brasil, a questão indígena, um retrato onívoro que tenta não deixar nada de fora – e por vezes peca aqui e ali pelo excesso de enumerações contextuais.

Com Paulo e sua covardia desastrada e bem-intencionada; Luísa e sua e Donato, o índio mestiço, gradativamente espoliado de suas raízes, de sua cultura e de sua identidade (ainda que sempre com as melhores intenções, o que torna tudo muito pior), Scott faz de Habitante Irreal um romance político, arrebatado, disposto a sair no mano a mano com a complexa realidade brasileira dos últimos 30 anos.

Comentários (3)

  • Arthur diz: 27 de dezembro de 2011

    É o primeiro post que eu leio aqui, gostei do blog e já assinei ;)

  • Uma festa para a literatura da cidade | Mundo Livro diz: 30 de março de 2012

    [...] A Produção Literária Brasileira Contemporânea, com mediação do escritor Paulo Scott, autor de Habitante Irreal. * 20h – O escritor Joca Reiners Terron, autor de Do Fundo do Poço se Vê a Lua, conversa com o [...]

Envie seu Comentário