Dos lugares-comuns a arte garimpa materiais preciosos muitas vezes. Lembrar que a China é uma das sociedades mais autoritárias do planeta e que pode vir a ser a potência econômica do século 21 são dois desses clichês, nos quais dois autores chineses contemporâneos se amparam para criar bons romances agora lançados no Brasil. Em Os Anos de Fartura, sucesso internacional mas não publicado na China, o jornalista Chan Koonchung cria uma distopia cujos elementos mais perturbadores vêm da própria realidade. E, com Crônica de um Vendedor de Sangue, o escritor Yu Hua - autor de outros dois romances sobre o passado chinês, Viver e Irmãos - tece uma evocação histórica bela e dolorosa em iguais medidas.
Na comparação entre ambas as obras,Yu Hua é um romancista com uma técnica mais apurada e um domínio muito maior da arte narrativa, embora a imaginação de Chan Koonchung seja surpreendente. Koonchung imagina a China de um futuro bem próximo, o do ano de 2013. No mundo reinventado em Os Anos de Fartura, a economia ocidental não se recupera da crise dos valores mobiliários ocorrida nos Estados Unidos em 2008 e vai à falência em uma segunda crise três anos depois. Imediatamente, em melhores condições econômicas, a China promove uma abertura de capital controlada pelo Partido Comunista, libera a propriedade privada e logo megacorporações chinesas dominam o mercado econômico internacional – ao ponto de uma companhia local comprar a rede internacional de cafés Starbucks, entre apenas um dos exemplos.
O paralelo com 1984 e Admirável Mundo Novo, duas das distopias fundamentais da literatura, não é gratuito. Num mundo em que todos parecem felizes com a prosperidade econômica, após 60 anos de planos revolucionários desastrosos, ninguém parece ligar para o fato de que o governo ainda é uma ditadura de partido único – e poucos parecem lembrar de que um mês inteiro da história chinesa parece ter sido suprimido dos registros, o fevereiro de 2011 que separa a quebradeira internacional e a ascensão econômica do Império do Meio.
Embora seja confuso em termos formais (suas trocas de pessoas narrativas não parecem servir de fato à história; personagens e situações promissores são abandonados; os capítulos finais que revelam alguns dos mistérios por vezes parecem tediosos relatórios de comércio exterior, destoantes da dinâmica da primeira metade), o romance de Koonchung tem, entre suas qualidades, a forma como interliga o que às vezes parece uma trama fantasiosa com o que de fato a China vem realizando para manter seu controle sobre povo, instituições e tecnologias. Na boa edição da L&PM, contudo, este leitor em particular sentiu a estranheza da opção do sistema escolhido para a transliteração do mandarim. Tá certo que Mao Zedong e Teng Xiao Ping, com seus nomes transliterados ao estilo Pinyin, já são formas correntes em vários livros que li nos últimos anos, deixando para trás a antiga transliteração Wade-Giles. Mas que a capital do país vire BEIJING me pareceu um pouco demais.
Mais sutil e minimalista, Crônica de um Vendedor de Sangue, de Yu Hua, também se assenta sobre uma base real: 30 anos de história da China comandada por Mao, mostrados por meio do microcosmo de uma família residente em uma cidade provinciana. Xu Sanguan, o protagonista, é um homem testemunha e vítima do processo histórico da China maoísta. Ele trabalha em uma fábrica de seda no interior, mais tarde transformada em siderúrgica para apoiar o desastroso "Grande Salto para Frente" do supremo timoneiro. Sofre com a fome provocada pelas reformas econômicas e rurais do governo, e anos depois sua família passa a ser alvo dos carrascos voluntários da Revolução Cultural.
Em intervalos, Xu Sanguan se vê coagido pelas circunstâncias a vender sangue para um dos bancos de sangue de fundo de quintal espalhados pelo país, coordenado por um funcionário corrupto - e que ainda assim paga o equivalente a meses de trabalho duro na fábrica ou na lavoura. Usando como mote o mercado clandestino de sangue, situação real que provocou a contaminação de aldeias inteiras devido às condições pouco higiênicas em que as doações eram tomadas, Yu Hua lança mão do sangue e de seus significados simbólicos para traçar por meio da família Xu e de seu desespero uma história crítica e dolorosa sobre vidas comuns arrastadas pelo autoritarismo.















O que andam dizendo