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O adeus de Wislawa Szymborska

01 de fevereiro de 2012 3

A Nobel polonesa Wislawa Szymborska

Foi divulgado agora há pouco que a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1996, a polonesa Wislawa Szymborska faleceu, aos 88 anos, em sua casa, na Cracóvia que tanto marcou seu trabalho. A informação foi tornada pública pelo agente da escritora, Michal Rusinek.

Szymborska, figura praticamente desconhecida no Brasil, protagonizou um dos melhores lançamentos literários do ano passado, a edição de [poemas] (Companhia das Letras, 170 páginas), uma coletânea de seus trabalhos pela primeira vez editados em livro no Brasil – à parte poemas avulsos que pipocaram aqui e ali em alguma revista ou antologia coletiva. Traduzidos por Regina Przybycien (como é que se pronuncia o nome dessa gente, senhor?), são versos que dão prova da grande contenção e domínio que a artista tinha sobre sua arte, musical e evocativa, com uma linguagem que buscava a simplicidade da forma e a complexidade dos conceitos – uma poesia à qual não eram estranhos o humor e a militância política.

Nascida em 1923, em Bnin, na Polônia, Szymborska testemunhou na juventude a ocupação nazista e mais tarde o autoritarismo soviético. De acordo com Rusinek, ela “morreu tranquilamente, enquanto dormia”.

Em homenagem à poeta, vai abaixo um dos poemas reunidos no livro:

A ALEGRIA DA ESCRITA

Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?
Vai beber da água escrita.
que lhe copia o focinho como papel-carbono?
Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?
Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade
sob meus dedos apura o ouvido.
Silêncio – também essa palavra ressoa pelo papel
e afasta
os ramos que a palavra “bosque” originou.

Na folha branca se aprontam para o salto
as letras que podem se alojar mal
as frases acossantes,
perante as quais não haverá saída.

Numa gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho semicerrado
prontos a correr pena abaixo,
rodear a corça, preparar o tiro.

Esquecem-se de que isso não é a vida.
Outras leis, preto no branco aqui vigoram.
Um pestanejar vai durar quanto eu quiser,
e se deixar dividir em pequenas eternidades
cheias de balas suspensas no voo

Para sempre se eu assim dispuser nada aqui acontece
Sem meu querer nem uma folha cai
nem um caniço se curva sob o ponto final de um casco.

Existe então um mundo assim
sobre o qual exerço um destino independente?
Um tempo que enlaço com correntes de signos?
Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.
O poder de preservar
A vingança da mão mortal.

Comentários (3)

  • nivaldo m da silva diz: 2 de fevereiro de 2012

    Belas palavras que, de tão bem escritas, captam o vapor da bela dama que se foi…

  • Ulisses Iarochinski diz: 2 de fevereiro de 2012

    o nome da minha amiga é Pjébitchien.

    Veja mais sobre Szymborska no meu blog

  • “Uma poesia do assombro” « Relembramentos diz: 3 de fevereiro de 2012

    [...] via Mundo Livro [...]

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