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Gralha: pega, mata e come

03 de fevereiro de 2012 5

No jargão editorial, “gralha” é o nome que se dá para os erros de edição, impressão e digitação que escaparam da revisão final e ganharam seu espaço na eternidade literária da página juntamente com a obra. Não sou editor, então talvez um dia pergunte a pessoas como o Samir Machado, o Rodrigo Rosp ou o Tito Montenegro qual a origem do nome – minha única hipótese, fruto de pura imaginação, é que uma gralha tipográfica se assemelha a uma mancha preta no lugar errado, como o pássaro pendurado num fio de luz, mas tenho a impressão que isso soa vagamente absurdo. E gralha é coisa séria, acreditem em mim. Dependendo de seu número e de sua natureza, podem ser um problema dos mais graves: a diferença crucial entre uma boa e uma péssima experiência de leitura.

Porque leitura também é resultado de um processo de sedução: o autor investe seus recursos estilísticos em trazer o leitor para dentro do mundo que está construindo, e isso é mais claro na ficção, mas não se restringe a ela. Quanto mais árido um texto de não ficção, maior é a nossa sensação de lê-lo “de fora”, de algum lugar puramente intelectual de onde o autor tenta nos acenar. A fluidez de um texto cumpre um papel no seu entendimento, por mais que a academia cheia de jargões relute em aceitar isso. E essa sedução do texto tem, na minha cabeça, uma função análoga à experiência acústica. As boas salas de concerto são construídas de modo a que o som se espalhe e crie um universo cálido no qual o ouvinte não apenas ouve, ele se vê imerso nas vibrações que ele não pode ouvir mas que ainda assim estão lá e ajudam a dar essa sensação de mergulho no ambiente sonoro _ esta também é a razão porque o som de um CD sempre foi um lixo se comparado so vinil: o CD limou do registro as frequências mais baixas e mais altas que o ouvido humano não alcançava. A ideia era deixar o som mais “limpo”, mas o efeito foi o contrário.

Pois penso, sem nenhuma prova que o demonstre, que a estrutura de um livro, a cadência da prosa, a escolha do mote justo é o equivalente formal na literatura a essa construção de ambiente, a esse lugar imaginário que se situa na intercessão entre o leitor e o livro aonde se chega pelo prazer da leitura como se por uma estrada. E a gralha tipográfica é o equivalente ao buraco na pista: é o que dificulta o trânsito e torna o viajante insuportavelmente consciente dos esforços da jornada. É como a nota em falso que quebra a ilusão tão custosamente construída.

O ótimo romance Raízes do Mal, de Maurice Dantec, por exemplo, uma mistura delirante de ficção científica e noir de primeira qualidade, foi editado pela Sulina aqui no Brasil no início de 2010, se não me engano, com tradução de Juremir Machado da Silva. Comprei meu exemplar uns três meses depois na Palavraria, após de um evento do qual participei – e após haver lido um texto do próprio Juremir sobre o livro. Peguei uma carona para casa e esqueci o livro no carro. Passaram-se outros dois meses até eu e o motorista que me deu a carona conseguirmos outra vez marcar um café para a devolução. Mas finalmente comecei a leitura, e foi uma experiência dolorosa.

A prosa de Dantec era, de fato, vertiginosa, e ele conseguia discutir em profundidade a violência e o isolamento no mundo contemporâneo usando a ficção científica como pretexto, como os melhores autores do gênero fazem. E tinha lances de imaginação tão fervilhantes que eu me perguntava, sempre admirado, “de onde esse cara tirou isso?”. Mas havia tantos erros no texto, tantas gralhas penduradas na leitura que eu submergia no universo inventivo do livro para ser puxado pelos cabelos na página seguinte. Meses depois conversei com o editor Luiz Gomes, durante a Feira do Livro, e ele me disse que, por vários problemas internos de comunicação, o livro havia sido impresso sem passar pelo revisor – que deveria ter feito o trabalho e não fez, algo assim. E que uma edição nova seria em breve colocada no mercado sem esses problemas. Não sei se isso de fato foi feito, mas espero que sim, a leitura desse livro em particular provavelmente seria muito mais alucinante sem tantos erros para te puxar “para fora” do romance.

Outro caso é Liberdade, de Jonathan Franzen. Um romance de mais de 600 páginas escrito com a intenção declarada de oferecer um panorama total da realidade americana contemporânea, à maneira dos grandes mestres do realismo europeu do século 19. Uma tarefa que, pela sua própria natureza, exige a sedução da prosa, a manha de tragar o leitor para dentro das páginas para só deixá-lo emergir horas depois, como quem sai de uma piscina em que prendera a respiração: ofegante e ainda todo molhado. Em alguns momentos da leitura, Franzen de fato consegue isso, mas o volume tem vários erros tipográficos que puxam o leitor de volta, alguns deles tão inacreditáveis que me pergunto se não houve algo semelhante ao que ocorreu com a edição de Raízes do Mal. Li o livro primeiramente em inglês, e portanto tais erros pareciam ainda mais flagrantes na edição em português, mas na época dei um desconto porque estava lendo uma prova de impressão encadernada enviada pela editora, a Companhia das Letras, e não o exemplar final. Conversando com outros leitores do livro já pronto, como os meus editores Ticiano Osório e Cláudia Laitano, percebi que os problemas ainda estavam lá.

Erros tipográficos são coisa tão séria que provocam crimes, ao menos em um dos romances protagonizados pelo detetive Cliff Janeway, o ex-policial bibliófilo e negociante de livros raros criado pelo escritor americano de romances policiais John Dunning. Em Impressões e Provas, outra edição da Companhia das Letras, Janeway investiga por que uma edição rara de O Corvo, de Edgar Allan Poe, impressa para uma confraria de bibliófilos, parece ser a causa de uma trilha de cadáveres. Mais não digo para não murchar a surpresa de ninguém. Só não posso deixar de registrar que o crime no livro tem a ver com uma gralha em uma edição de O Corvo.

Mas na verdade este post não foi escrito por causa de nenhum dos livros citados anteriormente, e sim porque comecei a ler ontem um livro chamado 27, um romance de um alemão chamado Kim Frank (Tordesilhas, 216 páginas, R$ 34,90) e que foi publicado aqui no Brasil no ano passado _ por uma mórbida coincidência, bem na época em que a morte de Amy Winehouse aos 27 anos revivia o tema central tratado no romance. 27 pertence àquela vertente que se convencionou chamar de “literatura pop” depois do sucesso que o Nick Hornby fez com Alta Fidelidade no fim dos anos 1990. Quem usa essa qualificação quase sempre confunde, na minha opinião, “literatura pop” com “music namedropping”, ou seja, a tentativa de tornar seu texto mais “esperto” tomando a música pop como tema e despejando o maior número de nomes de bandas e artistas que você conseguir. Um jovem alemão de nome Mika, um rapaz que não conhece o pai e mora com a mãe ausente — uma médica que passa o tempo todo em congressos —, torna-se um astro de rock após uma sucessão de episódios nos quais o acaso, mais do que sua própria vontade, parecem ser determinantes. Mika é obcecado pelo número 27, e ao encontrar no quarto do tio — um jornalista que passou os últimos dias, doente de AIDS, morando com o protagonista e sua mãe _ uma série de dossiês sobre astros de rock que morreram aos 27 anos — Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain, Jim Morrison.

Mika me parece um personagem inconsistente entre outras coisas por isso. Ele tem 17 para 18 anos e ainda não havia percebido nem ouvido falar dessa coincidência. Conhece música, o rock ao menos, com uma propriedade técnica maior que a minha (o autor do livro é ele próprio um roqueiro), mas nunca ouvira falar de Robert Johnson até encontrar os recortes (não passa A Encruzilhada na TV alemã, será?). Esses são problemas da construção do personagem, e poderiam ser menores, mas se tornam mais graves ao somar-se a uma inacreditável sucessão de erros de revisão – não sei se mantidos do original ou cometidos na versão nacional traduzida por Eduardo Simões. Menciono apenas dois deles:

* Mika se torna um roqueiro depois de arranjar um estágio numa gravadora. Em um diálogo com seu novo chefe, na página 53, Mika diz que o baterista de sua banda dos sonhos seria John BONHEM, do Led Zepellin. O estranho é que o chefe da gravadora não só não o corrige como diz que gostaria de ir ao show dessa suposta banda perfeita. Tá certo que executivos de gravadora não sacam nada de música, mas seria inferir demais achar que Mika se equivocou e o executivo não percebeu, bla bla.

* Em um momento que se pretende dramático nas páginas 61 e 62, Mika se encontra com seu único amigo, um jovem um pouco mais velho do que ele que trabalha cinzelando lápides no cemitério local. Lennart, o amigo, está podre de bêbado porque passou a  noite assentando seu próprio nome na pedra de um túmulo – a sepultura é a de um rapaz com a mesma idade e com o mesmo nome de Lennart. Mostrando que a cidade em que vivem é pequena pra dedéu, Mika não só conhecia o outro Lennart, o falecido, como esteve no enterro do jovem. E aí ele sai-se com esta ao recordar o sepultamento:
E eu me lembro de algo insólito. Os amigos cantam, num coro abafado, ‘Nevermind’, do Nirvana. Supostamente a CANÇÃO favorita de Lennart.

Provavelmente todos vocês perceberam que o baterista do Led era John Bonham, e que Nevermind é o nome de um disco do Nirvana, não de uma canção – a palavra nevermind está na letra de uma das canções do álbum, mas o nome dela é Smells Like Teen Spirit. Em outro romance, com outra proposta, talvez fosse possível relevar deslizes como esse. Mas nesse livro em particular, o de um ROQUEIRO obcecado com uma lenda macabra de que ASTROS DE ROCK morrem aos 27 anos, são duas gralhas que, a exemplo do carcará da Bethânia, “pega, mata e come” qualquer fruição que se pudesse estar experimentando com toda a dificuldade do mundo, uma vez que o livro não é nenhum primor de escrita ou construção.

Comentários (5)

  • Alessandro diz: 3 de fevereiro de 2012

    Com relação a primeira ” gralha ” , tudo certo. Mas no segundo caso , não poderiam ( os amigos do defunto, no caso ) estarem cantando várias músicas do referido disco? Se estou equivocado me corrija , por favor.

  • Alessandro diz: 3 de fevereiro de 2012

    Acho que me dei mal, explico: se a citação é literalmente entre as duas aspas é óbvio que ele cita canção. Interpretei como sendo suas as palavras da última frase ” supostamente a canção favorita de Lennart.”.

  • Rafael Augusto Chamone Santiago diz: 9 de março de 2012

    Bom, eu terminei de ler o livro agora há pouco, e pra ser sincero, me decepcionei um pouco. O tema é ótimo, poderiam existir mais romances com esse tema, mas o livro em si, muito provavelmente pela tradução, que como todos sabem pode matar um livro, se dispersa incrivelmente em vários trechos. Independentemente ,de uma hora pra outra o livro pula 6 anos na vida do protagonista. Quando isso acontece, o livro se transforma num soft-porn com o narrador-personagem narrando seus encontros sexuais com três personagens. Até que não teria problema, se o enredo não acabasse perdendo a poesia do personagem, sua música, os outros membros da banda que são ridiculamente inexplorados. Mas o simples fato de ter uma breve relação com a historia de vários grandes ídolos da música me fez terminar de lê-lo. Vou checar uma eventual nova obra do tal Kim Frank, talvez ele se supere.

  • Mundo Livro » Arquivo » Descongelando os subzeros – parte 3 diz: 13 de dezembro de 2012

    [...] muitas outras histórias sobre rock'n'roll (a que me vem mais imediatamente à cabeça é a novela 27, do alemão Kim Frank). Quando retratada por escrito, a ambição e s queda de um artista de rock parece apenas o [...]

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