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A festa do menino mimado

17 de fevereiro de 2012 1

Neste post, publicado no Mundo Livro em abril de 2010, eu listava um bom número de romances publicados naquela época nas quais o protagonista e a voz narrativa eram entregues a uma criança. Ali eu também arriscava algumas hipóteses sobre por que um narrador infantil pode representar um grande artifício técnico para um escritor. Com a devida bondade de vocês, reproduzo abaixo o centro dessa argumentação em particular, explicarei mais tarde a razão:

…esse recurso continua eficiente como nunca em produzir um olhar ao mesmo tempo sincero e carregado de estranhamento – já de saída dois objetivos bastante desejáveis da boa literatura. Muitas vezes, escondem-se das crianças as circunstâncias mais dramáticas do núcleo familiar. Mas, como entes dotados de curiosidade implacável, elas terminam por ter contato com o mundo que os pais tentaram manter distante. É também comum crianças serem ignoradas – o que lhes dá uma posição singular: veem sem ser vistas ou consideradas, e absorvem como esponja o mundo que os cerca. Há ainda outro fator: a menos que enunciado por uma criança, o registro de admiração e encantamento parece inviável na atual ficção – por demais consciente de seu próprio status como criação simbólica. Para a criança, as impressões do mundo têm o sabor de novidade real, e colaboram na criação da credibilidade da narrativa perante os leitores mais cínicos.

Outro ponto a ser levado em consideração é que crianças absorvem o mundo sem elaborar determinadas sínteses só possíveis aos adultos, e por isso seu olhar é perfeito para retratar com sutileza situações de horror. Cenas de brutalidade exasperante podem ser descritas com as elipses naturais da incompreensão infantil, o que torna ainda maior o impacto no no leitor adulto.

Explico agora por que resolvi reproduzir esse trecho. Porque mesmo que isso que escrevi aí em cima seja um equívoco no que diz respeito à generalidade da teoria literária, enquadra perfeitamente o tipo de percepção que se tem do mundo construído pelo escritor mexicano Juan Pablo Villalobos em seu primeiro romance, Festa no Covil (Tradução de Andreia Moroni. Companhia das Letras, 96 páginas, R$ 29,50). A obra, um romance com extensão de novela, é narrada pela voz de Tochtli, um menino inteligente filho de um chefão do narcotráfico mexicano.

Tochtli é “coelho” no idioma asteca – a maioria dos personagens do livro tem nomes que remetem à cultura ancestral mexicana. Como um coelho eternamente entocado, Tochtli quase nunca sai de casa e é sempre mantido sob a vigilância de um dos brutamontes responsáveis pela segurança do pai. Seu conhecimento do mundo se dá filtrado pela televisão ou pelo contato com as poucas pessoas que conhece (ele estima que umas 13 ou 14 no início do livro). As principais são seu preceptor, um intelectual de esquerda mexicano, outrora rico e agora caído em desgraça, e o próprio pai, Youlcault, chamado de “El Rey”, na imprensa. Um homem que enriqueceu além de qualquer medida com negócios escusos que tenta, ainda que sem muita perseverança, manter escondidos do filho.

O que torna a voz narrativa de Tochtli tão desconcertante é justo essa tensão entre o que se esconde e se revela no mundo que o cerca. O garoto, considerado precoce, sabe bem mais do que aparenta sobre o que o pai gostaria de esconder dele.  Quartos ditos vazios na mansão em que ambos moram estão na verdade abarrotados de armas, e Tochtli é trazido para testemunhar um interrogatório a um “traidor” do bando por Youlcault, mas é poupado de ver a execução. Que ele, em tese, ao menos intelectualmente, já sabe bem como é, como revela este trecho, que mescla exatamente todos os elementos que havíamos mencionado anteriormente, a voz ingênua que trata de coisas brutais com o distanciamento curioso próprio da infância:

Na verdade existem muitos jeitos de fazer cadáveres, mas os mais usados são com os orifícios. Os orifícios são buracos que você faz nas pessoas para o sangue vazar. As balas de revólver fazem orifícios e as facas também podem fazer orifícios. Se o seu sangue vaza, chega uma hora que o coração ou o fígado param de funcionar. Ou o cérebro também. E você morre. Outro jeito de fazer cadáveres é com os cortes, que também são feitos com as facas ou com facões e guilhotinas. Os cortes podem ser pequenos ou grandes. Se são grandes, separam partes do corpo e fazem cadáveres em pedacinhos. O mais normal é cortar a cabeça, mas na verdade você pode cortar qualquer parte. É por culpa do pescoço. Se a gente não tivesse pescoço seria diferente. Podia ser que o normal fosse cortar o corpo ao meio para ter dois cadáveres. Mas a gente tem pescoço, e essa é uma tentação muito grande.

O que a narrativa mostrará a Tochtli com o andamento da história, que envolve o desejo intenso do menino de ter como animal de estimação um Hipopótamo-Pigmeu da Libéria, é que uma coisa é saber tudo sobre a morte, outra é sua realidade.

Comentários (1)

  • Infância em meio ao sangue | Mundo Livro diz: 12 de março de 2012

    [...] Neste post eu já havia comentado com vocês a leitura de Festa no Covil (Tradução de Andreia Moroni. Companhia das Letras, 96 páginas, R$ 29,50), romance de estreia do mexicano Juan Pablo Villalobos. No segundo caderno de hoje, vocês podem ler uma entrevista que fiz com o autor sobre olhar sarcástico e estranho que ele lança sobre a realidade do México dominado pela violência do narcotráfico. O livro é protagonizado pelo menino Tochtli, de 10 anos, um menino precoce que quase nunca sai de casa e é sempre mantido sob vigilância de um dos brutamontes responsáveis pela segurança do pai. Seu conhecimento do mundo se dá filtrado pela televisão ou pelo contato com as poucas pessoas que conhece. É no entanto essa visão limitada de Tochtli que se torna nossa janela para o universo não apenas do menino, mas do México sob o narcotráfico. Leia abaixo a íntegra da conversa, feita por telefone, de Campinas, onde Villalobos reside (ele é casado com uma brasileira e mora no Brasil desde o ano passado): [...]

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