No dia 23 de fevereiro de 1942, o intelectual e escritor judeu Stefan Zweig e sua esposa Charlotte foram encontrados mortos na casa em que residiam, em Petrópolis. Zweig havia encontrado no Brasil um refúgio da guerra em 1940, após o Anschluss, a anexação de sua Áustria natal à Alemanha nazista, e se encantou pelo país de tal modo que redigiu um ensaio-panfleto apaixonado: Brasil: um País do Futuro (criando a expressão que nos últimos 70 anos foi uma espécie de assombração do destino nacional). Sua morte foi na época e até hoje é considerada suicídio, embora o contexto permitisse cogitar também o homicídio. A carta de despedida deixada por ele, no entanto, parece bater o martelo em favor da autoaniquilação. Sobre Zweig, três coisas:
Nota: Este post havia sido automaticamente programado para entrar no ar ontem, data redonda da morte de Zweig, mas fiz alguma barbeiragem e não notei que ele não havia sido publicado .Por isso corrijo o problema agora.
1 – Brasil, um País do Futuro, teve uma reedição recente em formato bolso pela editora gaúcha L&PM. Com tradução de Kristina Michahelles. É um ensaio que discorre do Descobrimento até a sociedade brasileira que ele havia encontrado naquele momento e argumenta por que o país tinha potencial para ser uma espécie de farol nos tempos que viriam, em especial pelo que considerava a "forma básica natural das relações humanas", a polidez (fico imaginando o que ele diria hoje). Leia um trecho:
É a frota portuguesa sob o comando de Pedro Álvares Cabral, que partiu da foz do Tejo em março de 1500, a fim de repetir a viagem inesquecível de Vasco da Gama em torno do Cabo da Boa Esperança rumo à Índia, aquele "feito nunca feito" decantado por Camões em Os Lusíadas. Diz-se que ventos adversos desviaram os navios da rota de Vasco da Gama ao longo da costa africana para tão longe, até a tal ilha desconhecida - pois é Ilha de Santa Cruz o nome que se dá a essa costa, cuja extensão ainda é ignorada. Sem levar em conta as viagens de Alonso Pinzon, que chegou às proximidades do rio Amazonas, e a duvidosa viagem de Vespúcio, o descobrimento do Brasil parece ter caído nas mãos de Portugal e Pedro Álvares Cabral apenas graças a uma singular combinação de ventos e ondas. Mas os historiadores há muito tendem a não mais acreditar nesse "acaso", pois Cabral levava consigo o piloto de Vasco da Gama, que conhecia muito bem o caminho mais curto, e a lenda dos ventos adversos cai por terra com o testemunho de Pero Vaz de Caminha, que estava a bordo e confirmou expressamente que a frota continuou viagem de Cabo Verde "sem haver tempo forte ou contrário". Portanto, como nenhuma tempestade os desviou tanto para Oeste que viessem parar no Brasil, em vez de contornar o Cabo da Boa Esperança, deve ter sido uma determinada intenção ou - o que é ainda mais provável - uma ordem secreta do rei que fez com que Cabral resolvesse tomar o rumo para Oeste. Isso reforça a probabilidade de que a Coroa portuguesa já tivesse conhecimento secreto da existência e da situação geográfica do Brasil bem antes do descobrimento oficial. Este ainda é um grande mistério, cujos documentos desapareceram para todo o sempre por causa da destruição dos arquivos com o terremoto de Lisboa, e o mundo provavelmente nunca saberá o nome do primeiro e verdadeiro descobridor do Brasil. Parece que, logo depois do descobrimento da América por Colombo, um navio português foi enviado para conhecer esta nova parte do globo, voltando com novas notícias. Ou então – e também para isso existem determinados indícios – já antes da audiência de Colombo a Coroa portuguesa tinha maior ou menor certeza desse país no longínquo Ocidente. Mas o que quer que soubesse, Portugal cuidava para não entregar o ouro ao vizinho invejoso. Na era dos descobrimentos, a Coroa tratava cada nova notícia sobre descobertas náuticas como segredo de Estado militar ou comercial, cuja divulgação para potências estrangeiras era punida com a pena de morte. Mapas, portulanos, rotas náuticas, relatórios de piloto eram trancados na Tesouraria de Lisboa, como ouro e pedras preciosas, e principalmente nesses casos uma divulgação prematura era inadequada, pois segundo a bula papal Inter Caetera todas as regiões até o limite de cem milhas a oeste de Cabo Verde pertenciam de direito aos espanhóis. Um descobrimento oficial depois daquela zona, naquele momento, apenas teria aumentado o patrimônio do vizinho, não o próprio. Portanto, não era do interesse de Portugal
anunciar antecipadamente uma tal descoberta (se é que de fato aconteceu). Antes, era preciso ficar legitimamente assegurado que aquele nova terra não pertenceria à Espanha, e sim à Coroa portuguesa, e isso Portugal, com evidente previdência, garantiu por meio do Tratado de Tordesilhas, que em 7 de junho de 1494 – ou seja, pouco depois do descobrimento da América – ampliou a zona portuguesa das cem léguas originais para 370 a oeste de Cabo Verde, exatamente o necessário, portanto, para abranger a até então supostamente ainda não-descoberta costa do Brasil. Se isso foi um acaso, então combinou estranhamente com o inexplicável desvio de Pedro Álvares Cabral de sua rota original.
Essa hipótese defendida por alguns historiadores de um conhecimento prévio do Brasil e de uma instrução secreta do rei dada a Cabral para desviar tanto para oeste a fim de que ele lá descobrisse "milagrosamente", como escreveu ao rei da Espanha, as novas terras, ganha muito em credibilidade pela forma com que o cronista da frota, Pero Vaz de Caminha, relatou ao rei a descoberta do Brasil. Ele não manifesta nenhuma surpresa ou admiração de ter topado inesperadamente com terras novas, mas registra secamente o fato como algo muito natural. Da mesma forma, o segundo cronista, desconhecido, manifesta apenas "che ebbe grandíssimo piacere". Nenhuma palavra do triunfo, nenhuma das suposições usuais entre Colombo e seus sucessores de que, com isso, se tivesse chegado à Ásia – nada mais do que a fria notícia que mais parece confirmar um fato conhecido do que anunciar um novo. Assim, a fama de Cabral de ter sido o primeiro a descobrir o Brasil – a qual já é colocada em dúvida pela chegada de Pinzon ao norte do Amazonas - pode vir a ser modificada com futuros documentos que vierem a ser achados. Enquanto nos falta esse documento, aquele dia 22 de abril de 1500 vigora como o ingresso dessa nova nação na História do Universo.
2 – Lotte & Zweig é o nome de um romance que o escritor Deonísio da Silva acabou de lançar (Leya, 128 páginas, R$ 39,90), reconstituindo os últimos meses de vida do autor e de sua esposa no Rio de Janeiro. Leia um trecho:
Vou me matar hoje. Aguardo apenas a noite chegar. A escuridão será a ponte entre o dia e a longa e misteriosa treva da qual tão pouco sabemos por evitar estudá-la, ainda que estudemos assuntos dos quais jamais trataremos.
A morte é mais certa do que o nascimento. os seres vagam potencialmente no universo, mas muitos não chegam a nascer. os que nacem, porém, morrem!
Sou um judeu austríaco que, vagando pelo mundo como folha ao vento ou nave ao lé, veio parar no Brasil, onde espera que enterrem seus ossos. A linda e jovem judia polonesa, minha segunda esposa, que dorme aqui no outro cômodo de nosso bangalô petropolitano, vai morrer também. Ela tem poucos amigos, de sua existência quase ninguém sabe nada. Por enquanto.
Meu nome é Stefan Zweig. Faz dois anos que moro no Brasil, depois de ter vivido em mutos lugares. O último deles foi Nova York, onde cheguei em 1941, vindo de Londres, onde estava exilado, como estive sempre nos últimos anos.
Nasci na Áustria. Meus pais, ricos e cultos, me deram boas escolas. Não apenas no meu país, mas também na França e na Alemanha. Tenho dois diplomas: de Filosofia e de Letras.
Sou amigo de gente fina, figuras solares deste mundo que ora despenca e mergulha na escuridão. Algumas dessas personalidades todos conhecem. Romain Rolland, Rainer Maria Rilke, Thomas Mann e Sigmund Freud. Deste último recebo cartas caudalosas, que deveriam me ajudar a viver melhor, pois, depois de Marx, é ele quem melhor entende o mundo de hoje.
Sou um dos escritores mais lidos do mundo, meus livros são apreciados por milhões de leitores em diversas línguas, minha fama alcançou o mundo inteiro.
Comecei minha vida literária com um livro de versos. É comum que os escritores publiquem seus livros na língua materna. Isso parece óbvio, vale para todo mundo, menos para nós, judeus, e para os exilados. Nós somos exilados eternos ou eternos exilados, como melhor aprouver. ninguém é mais exilado do que judeu, pois ninguém fica exilado a vida inteira. Nós nascemos e morremos exilados.
3 - Esta descobri na última hora, por meio de um comentário feito no Facebook pela jornalista Josélia Aguiar, titular do blog da Folha de S. Paulo Livros Etc...: No site, da Biblioteca Nacional de Israel, você pode ler a última carta de Stefan Zweig, justamente a mensagem de adeus que torna tão forte a hipótese de seu suicídio. O original da carta está em alemão manuscrito com a letra do escritor, enquanto o site oferece uma tradução para o inglês. Traduzo abaixo um trecho. Quem quiser ver a íntegra, está aqui:
Mas um homem começar tudo de novo após 60 anos de vida exige forças especiais, e minha própria força foi exaurida depois de anos vagando sem lar. Eu prefiro assim, terminar minha vida no momento certo, de pé, como um homem para quem o trabalho cultural sempre foi a sua mais pura felicidade e liberdade pessoal - o mais precioso dos bens desta terra.

Neste post, publicado no Mundo Livro em abril de 2010












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