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Posts de fevereiro 2012

Três coisas sobre Stefan Zweig

24 de fevereiro de 2012 0

No dia 23 de fevereiro de 1942, o intelectual e escritor judeu Stefan Zweig e sua esposa Charlotte foram encontrados mortos na casa em que residiam, em Petrópolis. Zweig havia encontrado no Brasil um refúgio da guerra em 1940, após o Anschluss, a anexação de sua Áustria natal à Alemanha nazista, e se encantou pelo país de tal modo que redigiu um ensaio-panfleto apaixonado: Brasil: um País do Futuro (criando a expressão que nos últimos 70 anos foi uma espécie de assombração do destino nacional). Sua morte foi na época e até hoje é considerada suicídio, embora o contexto permitisse cogitar também o homicídio. A carta de despedida deixada por ele, no entanto, parece bater o martelo em favor da autoaniquilação. Sobre Zweig, três coisas:

Nota: Este post havia sido automaticamente programado para entrar no ar ontem, data redonda da morte de Zweig, mas fiz alguma barbeiragem e não notei que ele não havia sido publicado .Por isso corrijo o problema agora.

1 – Brasil, um País do Futuro, teve uma reedição recente em formato bolso pela editora gaúcha L&PM. Com tradução de Kristina Michahelles. É um ensaio que discorre do Descobrimento até a sociedade brasileira que ele havia encontrado naquele momento e argumenta por que o país tinha potencial para ser uma espécie de farol nos tempos que viriam, em especial pelo que considerava a “forma básica natural das relações humanas”, a polidez (fico imaginando o que ele diria hoje). Leia um trecho:

É a frota portuguesa sob o comando de Pedro Álvares Cabral, que partiu da foz do Tejo em março de 1500, a fim de repetir a viagem inesquecível de Vasco da Gama em torno do Cabo da Boa Esperança rumo à Índia, aquele “feito nunca feito” decantado por Camões em Os Lusíadas. Diz-se que ventos adversos desviaram os navios da rota de Vasco da Gama ao longo da costa africana para tão longe, até a tal ilha desconhecida – pois é Ilha de Santa Cruz o nome que se dá a essa costa, cuja extensão ainda é ignorada. Sem levar em conta as viagens de Alonso Pinzon, que chegou às proximidades do rio Amazonas, e a duvidosa viagem de Vespúcio, o descobrimento do Brasil parece ter caído nas mãos de Portugal  e Pedro Álvares Cabral apenas graças a uma singular combinação de ventos e ondas. Mas os historiadores há muito tendem a não mais acreditar nesse “acaso”, pois Cabral levava consigo o piloto de Vasco da Gama, que conhecia muito bem o caminho mais curto, e a lenda dos ventos adversos cai por terra com o testemunho de Pero Vaz de Caminha, que estava a bordo e confirmou expressamente que a frota continuou viagem de Cabo Verde “sem haver tempo forte ou contrário”. Portanto, como nenhuma tempestade os desviou tanto para Oeste que viessem parar no Brasil, em vez de contornar o Cabo da Boa Esperança, deve ter sido uma determinada intenção ou – o que é ainda mais provável – uma ordem secreta do rei que fez com que Cabral resolvesse tomar o rumo para Oeste. Isso reforça a probabilidade de que a Coroa portuguesa já tivesse conhecimento secreto da existência e da situação geográfica do Brasil bem antes do descobrimento oficial. Este ainda é um grande mistério, cujos documentos desapareceram para todo o sempre por causa da destruição dos arquivos com o terremoto de Lisboa, e o mundo provavelmente nunca saberá o nome do primeiro e verdadeiro descobridor do Brasil. Parece que, logo depois do descobrimento da América por Colombo, um navio português foi enviado para conhecer esta nova parte do globo, voltando com novas notícias. Ou então – e também para isso existem determinados indícios – já antes da audiência de Colombo a Coroa portuguesa tinha maior ou menor certeza desse país no longínquo Ocidente. Mas o que quer que soubesse, Portugal cuidava para não entregar o ouro ao vizinho invejoso. Na era dos descobrimentos, a Coroa tratava cada nova notícia sobre descobertas náuticas como segredo de Estado militar ou comercial, cuja divulgação para potências estrangeiras era punida com a pena de morte. Mapas, portulanos, rotas náuticas, relatórios de piloto eram trancados na Tesouraria de Lisboa, como ouro e pedras preciosas, e principalmente nesses casos uma divulgação prematura era inadequada, pois segundo a bula papal Inter Caetera todas as regiões até o limite de cem milhas a oeste de Cabo Verde pertenciam de direito aos espanhóis. Um descobrimento oficial depois daquela zona, naquele momento, apenas teria aumentado o patrimônio do vizinho, não o próprio. Portanto, não era do interesse de Portugal
anunciar antecipadamente uma tal descoberta (se é que de fato aconteceu). Antes, era preciso ficar legitimamente assegurado que aquele nova terra não pertenceria à Espanha, e sim à Coroa portuguesa, e isso Portugal, com evidente previdência, garantiu por meio do Tratado de Tordesilhas, que em 7 de junho de 1494 – ou seja, pouco depois do descobrimento da América – ampliou a zona portuguesa das cem léguas originais para 370 a oeste de Cabo Verde, exatamente o necessário, portanto, para abranger a até então supostamente ainda não-descoberta costa do Brasil. Se isso foi um acaso, então combinou estranhamente com o inexplicável desvio de Pedro Álvares Cabral de sua rota original.
Essa hipótese defendida por alguns historiadores de um conhecimento prévio do Brasil e de uma instrução secreta do rei dada a Cabral para desviar tanto para oeste a fim de que ele lá descobrisse “milagrosamente”, como escreveu ao rei da Espanha, as novas terras, ganha muito em credibilidade pela forma com que o cronista da frota, Pero Vaz de Caminha, relatou ao rei a descoberta do Brasil. Ele não manifesta nenhuma surpresa ou admiração de ter topado inesperadamente com terras novas, mas registra secamente o fato como algo muito natural. Da mesma forma, o segundo cronista, desconhecido, manifesta apenas “che ebbe grandíssimo piacere”. Nenhuma palavra do triunfo, nenhuma das suposições usuais entre Colombo e seus sucessores de que, com isso, se tivesse chegado à Ásia – nada mais do que a fria notícia que mais parece confirmar um fato conhecido do que anunciar um novo. Assim, a fama de Cabral de ter sido o primeiro a descobrir o Brasil – a qual já é colocada em dúvida pela chegada de Pinzon ao norte do Amazonas – pode vir a ser modificada com futuros documentos que vierem a ser achados. Enquanto nos falta esse documento, aquele dia 22 de abril de 1500 vigora como o ingresso dessa nova nação na História do Universo.

2 – Lotte & Zweig é o nome de um romance que o escritor Deonísio da Silva acabou de lançar (Leya, 128 páginas, R$ 39,90), reconstituindo os últimos meses de vida do autor e de sua esposa no Rio de Janeiro. Leia um trecho:

Vou me matar hoje. Aguardo apenas a noite chegar. A escuridão será a ponte entre o dia e a longa e misteriosa treva da qual tão pouco sabemos por evitar estudá-la, ainda que estudemos assuntos dos quais jamais trataremos.
A morte é mais certa do que o nascimento. os seres vagam potencialmente no universo, mas muitos não chegam a nascer. os que nacem, porém, morrem!
Sou um judeu austríaco que, vagando pelo mundo como folha ao vento ou nave ao lé, veio parar no Brasil, onde espera que enterrem seus ossos. A linda e jovem judia polonesa, minha segunda esposa, que dorme aqui no outro cômodo de nosso bangalô petropolitano, vai morrer também. Ela tem poucos amigos, de sua existência quase ninguém sabe nada. Por enquanto.
Meu nome é Stefan Zweig. Faz dois anos que moro no Brasil, depois de ter vivido em mutos lugares. O último deles foi Nova York, onde cheguei em 1941, vindo de Londres, onde estava exilado, como estive sempre nos últimos anos.
Nasci na Áustria. Meus pais, ricos e cultos, me deram boas escolas. Não apenas no meu país, mas também na França e na Alemanha. Tenho dois diplomas: de Filosofia e de Letras.
Sou amigo de gente fina, figuras solares deste mundo que ora despenca e mergulha na escuridão. Algumas dessas personalidades todos conhecem. Romain Rolland, Rainer Maria Rilke, Thomas Mann e Sigmund Freud. Deste último recebo cartas caudalosas, que deveriam me ajudar a viver melhor, pois, depois de Marx, é ele quem melhor entende o mundo de hoje.
Sou um dos escritores mais lidos do mundo, meus livros são apreciados por milhões de leitores em diversas línguas, minha fama alcançou o mundo inteiro.
Comecei minha vida literária com um livro de versos. É comum que os escritores publiquem seus livros na língua materna. Isso parece óbvio, vale para todo mundo, menos para nós, judeus, e para os exilados. Nós somos exilados eternos ou eternos exilados, como melhor aprouver. ninguém é mais exilado do que judeu, pois ninguém fica exilado a vida inteira. Nós nascemos e morremos exilados.

3 - Esta descobri na última hora, por meio de um comentário feito no Facebook pela jornalista Josélia Aguiar, titular do blog da Folha de S. Paulo Livros Etc…: No site, da Biblioteca Nacional de Israel, você pode ler a última carta de Stefan Zweig, justamente a mensagem de adeus que torna tão forte a hipótese de seu suicídio. O original da carta está em alemão manuscrito com a letra do escritor, enquanto o site oferece uma tradução para o inglês. Traduzo abaixo um trecho. Quem quiser ver a íntegra, está aqui:

Mas um homem começar tudo de novo após  60 anos de vida exige forças especiais, e minha própria força foi exaurida depois de anos vagando sem lar. Eu prefiro  assim, terminar minha vida no momento certo,  de pé, como um homem para quem o trabalho cultural sempre foi a sua mais pura felicidade e liberdade pessoal – o mais precioso dos bens desta terra.

E dá-lhe Fierro...

23 de fevereiro de 2012 0

Uma das obras mais importantes da literatura latino-americana, O Gaúcho Martín Fierro, ganhou uma nova edição no Brasil (bilíngue, em português e espanhol). Quem assina a tradução em português é o escritor nascido em Livramento Paulo Bentancur, responsável também por uma introdução crítica da obra e pela biografia comentada de seu autor, o poeta, jornalista e político argentino José Hernández (1834 – 1886). A reedição, a cargo da Sfera Editora de Artes, é uma iniciativa do Ministério da Cultura (MinC) e se destina à distribuição gratuita para escolas, bibliotecas públicas e CTGs.

Lançado em 1872, Martín Fierro, como ficou conhecido, é tratado por muitos especialistas como o livro nacional dos argentinos e patrimônio cultural daquele país, por retratar um personagem heroico, independente e apaixonado por sua terra e seu povo. Trata-se de um longo poema que narra em 13 capítulos a vida de um gaucho da região do pampa que cumpre uma jornada épica marcada por indignação, sofrimento, redenção e esperança. O protagonista é um homem convocado à força para servir ao exército. Revoltado contra as arbitrariedades e injustiças de seus superiores, ele se torna um desertor. Ao voltar para casa, descobre que sua família desapareceu. Na jornada para reencontrar os familiares, em meio à perseguição que sofre do exército, o herói se torna um fora da lei.

Martín Fierro tem sua estrutura articulada na figura do payador que narra sua própria história, e faz uso do idioma espanhol que reproduz foneticamente o linguajar do homem do campo. Em um contexto histórico, Martín Fierro representa a vertente literária argentina que deu voz àqueles que resistiam, em nome da preservação da identidade nacional, ao processo de “europeização” do país imposto pelo governo central de Bueno Aires em uma era (meados do século 19) de grande desenvolvimento econômico do país. Processo esse que tinha como mentor o presidente argentino Domingo Faustino Sarmiento, inimigo político de Hernández e autor de Facundo, outra obra clássica da literatura argentina, para quem o gaúcho do pampa era um “selvagem” que atravancava a processo de “civilização” da nação.

O Martin Fierro era objeto de paixão de um dos principais escritores do Século 20: Jorge Luís Borges, que escreveu sobre ele um ensaio considerado fundamental. O Martín Fierro. A circunstância desse lançamento específico é um bom pretexto para desenterrar dos arquivos do jornal uma entrevista feita em julho de 2006 por Carlos André Moreira e pelo professor Luís Augusto Fischer com o escritor e professor argentino Martín Kohan, que estava em Porto Alegre naquela semana específica para dar um curso sobre a obra de Borges e sua relação com a literatura gauchesca. Como não poderia deixar de ser, durante a conversa, muito se falou do Martín Fierro, como se pode ler nos trechos abaixo:

Zero Hora – Borges argumenta que para existir a literatura gauchesca foi necessário o desenvolvimento urbano em Montevidéu e Buenos Aires. Como aparece isso para ele, que era um tipo urbaníssimo, europeu, mas parecia ter um fascínio pela energia primitiva do pampa?
Martín Kohan –
É complicado este processo, porque a literatura gauchesca variou no século 19. Nem todos os textos são iguais. E há os autores que lançam um olhar culto, apartado do mundo popular e outros que se aproximam mais. Inclusive nas duas partes do poema gauchesco argentino por excelência, o Martín Fierro. A primeira, de 1872, é bem distinta da segunda. Ou seja, nem sequer esse livro, pode ser definido de uma única maneira.

Zero Hora – O senhor definiria a primeira parte como mais pura?
Kohan —
A crítica literária viu na primeira parte a dimensão de um protesto social pela condição do gaúcho como vítima da exploração dos donos da terra, do exército que o leva pela força. Se bem que o autor do poema, José Hernández, estivesse melhor ao lado da classe dominante, não das classes populares. A segunda parte, apenas sete anos posterior, se dirige para um modelo ideológico de integração e de obediência. Os conselhos de Martín Fierro a seus filhos são para que sejam bons trabalhadores, dóceis, que não se queixem, são o contrário da primeira parte. De qualquer maneira, isso chega a Borges já com Martín Fierro unificado como poema nacional e instituído como mitologia da identidade nacional argentina rural. Isto estava ligado ao enfraquecimento da presença e da significação social do gaúcho, como se fosse uma compensação simbólica: quanto menor ameaça aquele personagem representasse, maior seria a recuperação literária e cultural.

Cultura – Como foi com o “compadrito” para Borges, que não existia mais quando ele começa a escrever sobre ele.
Kohan –
Isto vai pelo mesmo sentido. Como dizia, é um requisito para poder mitificar um tipo: que não exista mais como perigo social real e efetivo. E tem que ver com o que ele pleiteava, a substituição do mundo rural pelo urbano. Porque para Borges, a literatura gauchesca interessa como modelo da produção de uma mitologia nacional. Em 1926, quando Borges já havia começado a publicar, sai um romance, Dom Segundo Sombra, de Ricardo Guiraldes, que aparece como mais uma novela sobre o gaúcho no mundo rural. Borges vai adiante. Ele vê que é preciso criar uma mitologia para a cidade de Buenos Aires que tome como modelo a mitificação rural que a literatura gauchesca já havia feito do gaúcho. Isso tinha muito que ver com as condições históricas e sociais que se apresentavam, que era a chegada maciça de imigrantes à Argentina e sua concentração na cidade. A experiência das classes “criollas” nesse período era a de que sua identidade e até seu idioma estavam ameaçados. Houve um momento ao fim do século 19 em que em Buenos Aires a relação era de quatro estrangeiros para cada um argentino. A sensação de cidade invadida era forte.

A festa do menino mimado

17 de fevereiro de 2012 1

Neste post, publicado no Mundo Livro em abril de 2010, eu listava um bom número de romances publicados naquela época nas quais o protagonista e a voz narrativa eram entregues a uma criança. Ali eu também arriscava algumas hipóteses sobre por que um narrador infantil pode representar um grande artifício técnico para um escritor. Com a devida bondade de vocês, reproduzo abaixo o centro dessa argumentação em particular, explicarei mais tarde a razão:

…esse recurso continua eficiente como nunca em produzir um olhar ao mesmo tempo sincero e carregado de estranhamento – já de saída dois objetivos bastante desejáveis da boa literatura. Muitas vezes, escondem-se das crianças as circunstâncias mais dramáticas do núcleo familiar. Mas, como entes dotados de curiosidade implacável, elas terminam por ter contato com o mundo que os pais tentaram manter distante. É também comum crianças serem ignoradas – o que lhes dá uma posição singular: veem sem ser vistas ou consideradas, e absorvem como esponja o mundo que os cerca. Há ainda outro fator: a menos que enunciado por uma criança, o registro de admiração e encantamento parece inviável na atual ficção – por demais consciente de seu próprio status como criação simbólica. Para a criança, as impressões do mundo têm o sabor de novidade real, e colaboram na criação da credibilidade da narrativa perante os leitores mais cínicos.

Outro ponto a ser levado em consideração é que crianças absorvem o mundo sem elaborar determinadas sínteses só possíveis aos adultos, e por isso seu olhar é perfeito para retratar com sutileza situações de horror. Cenas de brutalidade exasperante podem ser descritas com as elipses naturais da incompreensão infantil, o que torna ainda maior o impacto no no leitor adulto.

Explico agora por que resolvi reproduzir esse trecho. Porque mesmo que isso que escrevi aí em cima seja um equívoco no que diz respeito à generalidade da teoria literária, enquadra perfeitamente o tipo de percepção que se tem do mundo construído pelo escritor mexicano Juan Pablo Villalobos em seu primeiro romance, Festa no Covil (Tradução de Andreia Moroni. Companhia das Letras, 96 páginas, R$ 29,50). A obra, um romance com extensão de novela, é narrada pela voz de Tochtli, um menino inteligente filho de um chefão do narcotráfico mexicano.

Tochtli é “coelho” no idioma asteca – a maioria dos personagens do livro tem nomes que remetem à cultura ancestral mexicana. Como um coelho eternamente entocado, Tochtli quase nunca sai de casa e é sempre mantido sob a vigilância de um dos brutamontes responsáveis pela segurança do pai. Seu conhecimento do mundo se dá filtrado pela televisão ou pelo contato com as poucas pessoas que conhece (ele estima que umas 13 ou 14 no início do livro). As principais são seu preceptor, um intelectual de esquerda mexicano, outrora rico e agora caído em desgraça, e o próprio pai, Youlcault, chamado de “El Rey”, na imprensa. Um homem que enriqueceu além de qualquer medida com negócios escusos que tenta, ainda que sem muita perseverança, manter escondidos do filho.

O que torna a voz narrativa de Tochtli tão desconcertante é justo essa tensão entre o que se esconde e se revela no mundo que o cerca. O garoto, considerado precoce, sabe bem mais do que aparenta sobre o que o pai gostaria de esconder dele.  Quartos ditos vazios na mansão em que ambos moram estão na verdade abarrotados de armas, e Tochtli é trazido para testemunhar um interrogatório a um “traidor” do bando por Youlcault, mas é poupado de ver a execução. Que ele, em tese, ao menos intelectualmente, já sabe bem como é, como revela este trecho, que mescla exatamente todos os elementos que havíamos mencionado anteriormente, a voz ingênua que trata de coisas brutais com o distanciamento curioso próprio da infância:

Na verdade existem muitos jeitos de fazer cadáveres, mas os mais usados são com os orifícios. Os orifícios são buracos que você faz nas pessoas para o sangue vazar. As balas de revólver fazem orifícios e as facas também podem fazer orifícios. Se o seu sangue vaza, chega uma hora que o coração ou o fígado param de funcionar. Ou o cérebro também. E você morre. Outro jeito de fazer cadáveres é com os cortes, que também são feitos com as facas ou com facões e guilhotinas. Os cortes podem ser pequenos ou grandes. Se são grandes, separam partes do corpo e fazem cadáveres em pedacinhos. O mais normal é cortar a cabeça, mas na verdade você pode cortar qualquer parte. É por culpa do pescoço. Se a gente não tivesse pescoço seria diferente. Podia ser que o normal fosse cortar o corpo ao meio para ter dois cadáveres. Mas a gente tem pescoço, e essa é uma tentação muito grande.

O que a narrativa mostrará a Tochtli com o andamento da história, que envolve o desejo intenso do menino de ter como animal de estimação um Hipopótamo-Pigmeu da Libéria, é que uma coisa é saber tudo sobre a morte, outra é sua realidade.

Erico e o cometa

14 de fevereiro de 2012 1

Ô Halley, cadê você? Comprei luneta só pra te ver.

Poucos minutos depois das três da madrugada, a cauda do cometa apontou no céu, nas bandas de leste, por trás das coxilhas da Sibéria. Começou, então, o alvoroço na cidade. “Olha o bruto!”, exclamavam. Homens e mulheres, alguns em camisolas de dormir, apareciam às janelas. Houve correrias nas ruas, exclamações de triunfo e de pavor. Alguns fiéis bateram à porta da igreja e o pe. Kolb, que ainda não pregara o olho, mandou o sacristão abrir o templo, que dentro em pouco ficou cheio de mulheres ajoelhadas, a rezar.
Lucas e Rubim entraram no Sobrado, encontrando Rodrigo e os amigos completamente alheios ao grande acontecimento.
Dirigiram-se todos para a cozinha, de cuja janela ficaram a contemplar a cauda do cometa, que subia no céu como o feixe luminoso dum gigantesco holofote.
—Mas onde está o núcleo?
Ninguém respondeu.
— Vênus ainda não apareceu… — estranhou Rubim.
— Parece até que se a gente subir a coxilha da Sibéria pode agarrar o rabo do bruto.
— Olhem lá! — exclamou Saturnino. — Estrelas cadentes.
— Bólides — corrigiu o tenente de artilharia. Eram riscos luminosos que cortavam o céu por baixo da cauda do cometa.

Relendo na íntegra O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, para um projeto a respeito do qual vocês ficarão sabendo em breve, esbarro na passagem acima, situada em O Retrato: Parte II. Na cena, passada em 1910, a figura central das duas últimas partes da saga, Rodrigo Terra Cambará, filho de Licurgo e bisneto do Capitão de mesmo nome, abre o Sobrado a alguns amigos para uma noitada com comes e bebes para comemorar seu noivado, realizado naquele dia, e acaba testemunhando a passagem do Cometa de Halley, que vinha sendo citado desde o início da primeira parte de O Retrato, devido ao medo popular de que o astro pudesse representar o fim do mundo.

Esse trecho me faz tropeçar, ao mesmo tempo, em memórias relacionadas à primeira vez que li essa passagem – não vou me lembrar do momento exato, mas quando estava com 14 para 15 anos, em 1988 ou 1989, portanto – depois de pegar o livro na biblioteca pública de São Gabriel, na praça central da cidade, em um casarão antigo que era ele próprio um imóvel ancestral ao estilo daquele sobrado descrito pelo Erico. Minha maior motivação havia sido, claro, a minissérie que passara algum tempo antes na Globo. Havia pirado completamente pela pegada épica de O Continente, mas estava remando havia umas semanas com O Retrato e não conseguia avançar como gostaria – anos mais tarde, li em uma entrevista o próprio Erico admitir que muitos leitores do primeiro livro haviam se decepcionado pelo foco mais lento e intimista do segundo. Na época, leitor adolescente, eu havia sido um deles.

Essa passagem do Halley em particular foi a que me pareceu  mais ficcional do que qualquer outra coisa no livro. E isso porque algum tempo antes daquela leitura, o Halley havia sido um dos assuntos onipresentes na então chamada “mídia” – televisão, jornais e revistas, basicamente, num mundo sem internet, sem smartphones, com o rádio transistor e o videocassete ainda como as grandes inovações tecnológicas. Redes sociais, então, só mesmo as que os pescadores dividiam em parceria…

Eu tinha 12 anos em 1986, quando estava prevista mais uma passagem do Halley pela Terra, e uma enxurrada de produtos espertamente capitalizados para faturar em cima da chegada do cometa, desta vez sem a ameaça de fim do mundo. Misturando a passagem do cometa com uma mensagem riponga ao estilo “Era de Aquarius”, foram criados personagens de quadrinhos, uma família alienígena que acompanhava o cometa em sua jornada pelo Cosmos e chegavam à terra para espalhar uma mensagem de paz com o advento da “Era de Halley” (tudo isso não é delírio, estou falando sério).  Vendia-se lunetas, lancheiras, cadernos e uma revista em quadrinhos que durou seis números (e que, apesar do apelo mercantilista picareta que estava na origem do projeto, eram boas e bastante honestas histórias de ficção científica produzidas inteiramente no Brasil). Reportagens e especiais sobre o Halley lembravam sempre o pânico de fim de mundo que tomou conta das ruas com aquela luz tão intensa no céu no início do século 20.

Em suma: havia uma expectativa palpável de que o Halley, em sua nova passagem, oferecesse um espetáculo pirotécnico memorável nos céus do Brasil – o que não aconteceu. O Halley era um fiapinho de algodão no espaço, nem de perto tão magnífico quanto se esperava, de modo algum fácil de ver a olho nu, muito menos com aquelas lunetas amadoras que muita gente comprou crente de que ia ver o cometa como se estivesse à sua frente, como se pudesse estender a mão e tocá-lo, como na história do Erico. Muitos comentaram que a intensidade da luz das grandes cidades provavelmente havia dificultado a visualização, mas o fato é que eu morava em um loteamento habitacional afastado dois quilômetros do centro de uma cidade só um pouco acima do minúscula e naquele céu límpido de interior, com estrelas por toda parte, também não se via nada. O cometa pareceu uma grande enganação

Ao ler a cena do romance, portanto, dois anos depois, a única coisa que na época pude pensar foi “ah, tá, não me enrola”.

Dizem que na próxima passagem o cometa de fato estaria perto o bastante para ser visto como em 1910. Quem estiver vivo em 2061 que compare o que vir com o trecho do livro e diga se a imaginação de Erico fez jus ao cometa.

Os gêmeos quadrinistas e o preço da vida

13 de fevereiro de 2012 3

A série Daytripper (Panini), escrita pelos gêmeos quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá, é uma leitura perturbadora que ficará reverberando no leitor por um bom tempo após o fim das 256 páginas do álbum. E essa é uma afirmação praticamente impossível de ser feita sobre a maioria das coisas que a a indústria dos quadrinhos publica atualmente. Quem não leu e tem medinho de spoiler, sem querer saber nada do que acontece, não deveria passar deste parágrafo. Se bem que quem tem frescura de spoiler e não quer saber nada de um livro não deveria ter começado sequer o primeiro parágrafo de uma resenha antes de ler o livro, mas espero ter me feito entender.

Estruturada em 12 capítulos, Daytripper foi publicada originalmente em inglês, pelo selo Vertigo, marca voltada para quadrinhos autorais da DC Comics, a mesma de Super-Homem, Batman e Mulher Maravilha. O álbum é protagonizado por brasileiro chamado Brás de Oliva Domingos, jornalista que trabalha com obituários em um grande jornal, intimidado com a sombra de seu pai, grande escritor. Em 10 capítulos, os gêmeos nos mostram momentos que, por alguma circunstância, transformam a vida do protagonista, tomadas de decisões impulsivas ou mesmo bastante ponderadas que levam Brás a  enfrentar o que de mais drástico existe em qualquer vida: a morte.

Cada capítulo  (com exceção do nono) traz, em seu título, apenas um número: a idade de Brás naquele momento da narrativa. Ele começa sua trajetória com 31. Está de aniversário, mas ninguém parece lembrar disso, uma vez que todas as atenções estão voltadas para uma homenagem solene que seu pai receberá no Theatro Municipal de São Paulo pelo transcurso de seus 80 anos. Trabalha no jornal escrevendo obituários mas o que gostaria de estar fazendo era mesmo escrever seu primeiro romance. Sobre isso: li uma série de entrevistas com os irmãos Bá e Moon nos quais eles comentam as diversas leituras e influências que definiram Daytripper enquanto ela estava sendo moldada – Hemingway e Neil Gaiman eram duas delas, para encontrar a voz em inglês que queriam para seu roteiro (que saiu primeiro lá fora, lembremos). Curiosamente, não encontrei menção alguma de ambos à reportagem Sr. Má Notícia, perfil elaborado por Gay Talese sobre o obituarista do The New York Times, Alden Withman (incluído na coletânea Fama e Anonimato, da Companhia das Letras).

Mas voltando a Brás. Logo na primeira parte da série, vemos no traço sutil, fluído e ao mesmo tempo expressivo dos irmãos um mergulho no cotidiano de um homem preso na própria vida, e insatisfeito com isso. Brás claramente está se debatendo contra o que considera o malogro de algum sonho impreciso que havia traçado para si mesmo aos 21 anos, quando ele e o melhor amigo, o fotógrafo Jorge, eram colegas de faculdade e fizeram uma viagem de férias a Salvador. Mesmo um tanto decepcionado por seus pais não lembrarem de seu aniversário, ele vai à recepção oferecida ao pai, mas antes de entrar, resolve comprar cigarros e acaba ficando para tomar um café por insistência do dono do boteco que o atendeu. Aí ocorre um assalto. E Brás morre, algo inequivocamente expresso no texto de obituário que encerra o capítulo.

E é com esse impacto que o segundo capítulo passa a narrar a citada viagem a Salvador – um flashback melancólico quando se tem em mente o que aconteceu no primeiro capítulo. Brás conhece durante um mergulho uma mulata estonteante e misteriosa por quem se apaixona e, em vez de voltar para São Paulo com Jorge para uma entrevista de emprego, fica mais um dia, para acompanhar o festival de Iemanjá. Espera a amada na beira da praia e é abordado por um homem misterioso. O sujeito, uma figura difusa que parece fantasmagórica, diz que sabe onde a namorada espera Brás, e que pode levá-lo até ela de barco. Ele aceita e ajuda o suposto pescador a lançar ao mar as oferendas feitas à deusa das águas. E aí é empurrado do barco – e morre.

Neste momento a cabeça do leitor está dando milhões de voltas. Peralá, como é isso? E o que aconteceu no primeiro capítulo? Não ajuda no desconcerto o fato de o episódio seguinte já flagrar Brás com 28 anos prestes a se separar da mesma mulher que o vimos conhecer em Salvador.  E esse estranhamento é tornado ainda mais inquietante pela qualidade do texto escrito por ambos, pela maneira como o desenho ou a cor do colorista americano Dave Stewart (que às vezes emula o tom aqualerado sutil característico do trabalho dos gêmeos) conseguem fazer de uma página uma expressão mesma das sensações de Brás.

O leitor incomodado talvez largue o livro aí mesmo se não tirar da cabeça a linearidade da narrativa tradicional e não pensar em cada capítulo como uma célula de uma vida possível, resultado de uma escolha que pode ou não ter tido desfecho trágico. Ao longo dos 10 capítulos, cada novo vislumbre da personalidade de Brás por meio dos momentos cruciais de sua vida reforça o caráter muitas arbitrário e gratuito da vida humana. Brás toma uma decisão que pode mudar sua vida ou que pode matá-lo, mas a mudança, mostrada em outro capítulo antes ou depois, não é garantia de nada, uma vez que uma nova encruzilhada leva Brás novamente a uma escolha que pode… etc, etc, até o fim – do livro e de tudo. Na exegese parece complicado, mas a leitura é de uma fluência e poesia visual desconcertante.

Mesmo uma leitura como esta que estou fazendo, que muitos talvez considerem excessivamente detalhista no revelar alguns pontos da trama, pode estar também equivocada, dado que o nono capítulo oferece uma chave de leitura alternativa a essa e que também pode explicar coerentemente todos os momentos vistos anteriormente. É nos pequenos instantes poéticos arrancados das garras do cotidiano que se monta um panorama da vida de Brás, na qual o que importa são as decisões, ligações, conexões frágeis e desesperadas. A morte está lá em vários momentos porque também ela é um elemento fundamental da vida humana, mas seu caráter muitas vezes não importa. Porque, como na vida, ela nunca parece vir na hora que deveria e sempre deixa o travo melancólico de uma interrupção brutal, por mais que se viva e faça.

Detetives no fim da estrada

06 de fevereiro de 2012 0

Quando gosto de algum artista (seja escritor, músico, ator, cineasta) é difícil não gostar de alguma obra dele. É o caso de Estrada Escura, de Dennis Lehane. De longe, não está entre os melhores livros do autor (como Naquele Dia e Paciente 67), muito menos daqueles que fazem parte da série protagonizada pela dupla de detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro (como Um Drink Antes da Guerra e Gone, Baby, Gone). Mesmo assim, o novo livro de Lehane está acima da média da literatura policial atual.

Estrada Escura se passa 12 anos depois do penúltimo livro da dupla Kenzie/Gennaro, Gone, Baby, Gone. E traz de volta personagens da obra. Em Gone…, Patrick e Angie investigam o desaparecimento de Amanda, uma menina de quatro anos que vivia com uma mãe negligente, alcóolatra e drogada. Agora, a menina, que foi devolvida à mãe, volta a desaparecer e as feridas que surgiram naquele caso voltam a abrir. A trama gira em torno de dois dilemas.

O primeiro deles é: fazer a coisa errada e mesmo assim ter razão ou fazer a coisa certa e mesmo assim estar errado? Isso porque quando recuperaram Amanda, mais de uma década antes, eles a tiraram de uma família que poderia lhe fazer feliz e a entregaram de volta à mãe alcóolatra. A menina havia sido sequestrada pelo próprio tio e entregue a um casal. O certo errado era resolver um crime (o sequestro) e devolver a menina a sua mãe. O errado certo era deixar a menina ser criada por quem realmente poderia lhe dar amor e um futuro.

Na nova busca por Amanda, os detetives de Boston dão de cara com a máfia russa e com um emaranhado de crimes que inclui tráfico de bebês, produção de drogas, pedofilia, falsificação de identidade e o roubo de uma relíquia. Só que, diferente dos livros anteriores – além dos já citados, Apelo às Trevas, Sagrado e Dança da Chuva – eles já são quarentões, estão casados e são pais de uma menina de quatro anos.

Eis aí o outro dilema. A vida de ação e violência que os dois estavam acostumados – e até gostavam – passa para o segundo plano já que, agora, têm uma criança para prover e zelar. E como enfrentar bandidos violentos, sem escrúpulos, que não teriam dúvida de colocar em risco a vida de um ser indefeso sem ficar com remorso ou medo?

Lehane não perdeu o estilo veloz – que entremeia os dramas dos personagens e as cenas de ação – e, às vezes, irônico. Nem a habilidade de criar uma atmosfera sombria e ameaçadora, mas ele se perde um pouco no final, ao solucionar a busca por Amanda. Mas os dilemas dos personagens são descritos de forma bastante real,  o que aproxima muito a história do leitor. Ah, vale lembrar que Gone, Baby, Gone foi adaptado para o cinema, com Ben Afleck (isso mesmo) na direção. E só para variar, o filme não ficou tão bom quanto o livro.

Texto de Roberto Jardim

Vivos – Maratona Guerra e Paz

04 de fevereiro de 2012 6

Sim, já é quase sábado.

Sim, já é quase sábado pela terceira semana de dívida com o Mundo Livro – e com a minha promessa, não por falta de cobranças de Carlos André.

Novo acordo: conseguimos chegar a conclusão que posts semanais não são uma boa ideia.

Por enquanto, falamos em quinzenais, mas ainda tô pensando em dividir de acordo com as partes do livro. Isso porque, quando atrasei lá o primeiro coloquei na minha cabeça que escreveria quando terminasse a primeira parte, porque aí teria mais ou menos um panorama da história que o Tolstói tava armando.

Deu certo: Terminei a primeira parte (234 páginas, é pouco, sei). Deu errado: ainda devo devia a resenha de impressões.

Acontece que a primeira parte é uma sucessão de festas, eventos, encontros (e uma romaria até a casa de um moribundo rico), tudo para apresentar quem serão as personagens da história. Adoro o método, porque gosto das construções de personalidade nos ambientes sociais, nos diálogos.

O problema é que é tanta gente, e quase todos príncipes e princesas (porque o título na Rússia não tem o mesmo significado que conhecemos), que dá um tilt quando a história começa a ligar os pontos, mostrar os pedidos de favores, dizer quem é contra e a favor de Bonaparte e da entrada da Rússia na guerra.

Destaque para:

Pierre. Um fanfarrão, parasita social e defensor do Bonaparte. Não quer nem saber de entrar na guerra – nem de trabalhar. É filho bastardo do tal moribundo, mas até o final da primeira parte ainda não tinha herdado nada.

Príncipe Andrei: o final da primeira parte é quando ele está deixando a mulher no interior para ir para a guerra. Está menos interessado na batalha e em enfrentar o exército napoleônico do que em se livrar da mulher, preocupada demais com os costumes e com a vida alheia.

Anna Mikháilovna: viúva desesperada, convenceu o príncipe Vassíli a arrumar um bom posto para o filho Boris, com apoio do padrinho, o Conde Bezúkhov (o moribundo). Ela também está em busca de uma fatia da herança do conde, que parece que todos sabem, deve mesmo ir para Pierre.

Dito isso:

Peguem na minha mão para que eu consiga começar a segunda parte (antes que meu cérebro derreta com esse calor). E não me abandonem. Alguém aí tá lendo o Guerra e Paz também? A quantas anda?

Gralha: pega, mata e come

03 de fevereiro de 2012 5

No jargão editorial, “gralha” é o nome que se dá para os erros de edição, impressão e digitação que escaparam da revisão final e ganharam seu espaço na eternidade literária da página juntamente com a obra. Não sou editor, então talvez um dia pergunte a pessoas como o Samir Machado, o Rodrigo Rosp ou o Tito Montenegro qual a origem do nome – minha única hipótese, fruto de pura imaginação, é que uma gralha tipográfica se assemelha a uma mancha preta no lugar errado, como o pássaro pendurado num fio de luz, mas tenho a impressão que isso soa vagamente absurdo. E gralha é coisa séria, acreditem em mim. Dependendo de seu número e de sua natureza, podem ser um problema dos mais graves: a diferença crucial entre uma boa e uma péssima experiência de leitura.

Porque leitura também é resultado de um processo de sedução: o autor investe seus recursos estilísticos em trazer o leitor para dentro do mundo que está construindo, e isso é mais claro na ficção, mas não se restringe a ela. Quanto mais árido um texto de não ficção, maior é a nossa sensação de lê-lo “de fora”, de algum lugar puramente intelectual de onde o autor tenta nos acenar. A fluidez de um texto cumpre um papel no seu entendimento, por mais que a academia cheia de jargões relute em aceitar isso. E essa sedução do texto tem, na minha cabeça, uma função análoga à experiência acústica. As boas salas de concerto são construídas de modo a que o som se espalhe e crie um universo cálido no qual o ouvinte não apenas ouve, ele se vê imerso nas vibrações que ele não pode ouvir mas que ainda assim estão lá e ajudam a dar essa sensação de mergulho no ambiente sonoro _ esta também é a razão porque o som de um CD sempre foi um lixo se comparado so vinil: o CD limou do registro as frequências mais baixas e mais altas que o ouvido humano não alcançava. A ideia era deixar o som mais “limpo”, mas o efeito foi o contrário.

Pois penso, sem nenhuma prova que o demonstre, que a estrutura de um livro, a cadência da prosa, a escolha do mote justo é o equivalente formal na literatura a essa construção de ambiente, a esse lugar imaginário que se situa na intercessão entre o leitor e o livro aonde se chega pelo prazer da leitura como se por uma estrada. E a gralha tipográfica é o equivalente ao buraco na pista: é o que dificulta o trânsito e torna o viajante insuportavelmente consciente dos esforços da jornada. É como a nota em falso que quebra a ilusão tão custosamente construída.

O ótimo romance Raízes do Mal, de Maurice Dantec, por exemplo, uma mistura delirante de ficção científica e noir de primeira qualidade, foi editado pela Sulina aqui no Brasil no início de 2010, se não me engano, com tradução de Juremir Machado da Silva. Comprei meu exemplar uns três meses depois na Palavraria, após de um evento do qual participei – e após haver lido um texto do próprio Juremir sobre o livro. Peguei uma carona para casa e esqueci o livro no carro. Passaram-se outros dois meses até eu e o motorista que me deu a carona conseguirmos outra vez marcar um café para a devolução. Mas finalmente comecei a leitura, e foi uma experiência dolorosa.

A prosa de Dantec era, de fato, vertiginosa, e ele conseguia discutir em profundidade a violência e o isolamento no mundo contemporâneo usando a ficção científica como pretexto, como os melhores autores do gênero fazem. E tinha lances de imaginação tão fervilhantes que eu me perguntava, sempre admirado, “de onde esse cara tirou isso?”. Mas havia tantos erros no texto, tantas gralhas penduradas na leitura que eu submergia no universo inventivo do livro para ser puxado pelos cabelos na página seguinte. Meses depois conversei com o editor Luiz Gomes, durante a Feira do Livro, e ele me disse que, por vários problemas internos de comunicação, o livro havia sido impresso sem passar pelo revisor – que deveria ter feito o trabalho e não fez, algo assim. E que uma edição nova seria em breve colocada no mercado sem esses problemas. Não sei se isso de fato foi feito, mas espero que sim, a leitura desse livro em particular provavelmente seria muito mais alucinante sem tantos erros para te puxar “para fora” do romance.

Outro caso é Liberdade, de Jonathan Franzen. Um romance de mais de 600 páginas escrito com a intenção declarada de oferecer um panorama total da realidade americana contemporânea, à maneira dos grandes mestres do realismo europeu do século 19. Uma tarefa que, pela sua própria natureza, exige a sedução da prosa, a manha de tragar o leitor para dentro das páginas para só deixá-lo emergir horas depois, como quem sai de uma piscina em que prendera a respiração: ofegante e ainda todo molhado. Em alguns momentos da leitura, Franzen de fato consegue isso, mas o volume tem vários erros tipográficos que puxam o leitor de volta, alguns deles tão inacreditáveis que me pergunto se não houve algo semelhante ao que ocorreu com a edição de Raízes do Mal. Li o livro primeiramente em inglês, e portanto tais erros pareciam ainda mais flagrantes na edição em português, mas na época dei um desconto porque estava lendo uma prova de impressão encadernada enviada pela editora, a Companhia das Letras, e não o exemplar final. Conversando com outros leitores do livro já pronto, como os meus editores Ticiano Osório e Cláudia Laitano, percebi que os problemas ainda estavam lá.

Erros tipográficos são coisa tão séria que provocam crimes, ao menos em um dos romances protagonizados pelo detetive Cliff Janeway, o ex-policial bibliófilo e negociante de livros raros criado pelo escritor americano de romances policiais John Dunning. Em Impressões e Provas, outra edição da Companhia das Letras, Janeway investiga por que uma edição rara de O Corvo, de Edgar Allan Poe, impressa para uma confraria de bibliófilos, parece ser a causa de uma trilha de cadáveres. Mais não digo para não murchar a surpresa de ninguém. Só não posso deixar de registrar que o crime no livro tem a ver com uma gralha em uma edição de O Corvo.

Mas na verdade este post não foi escrito por causa de nenhum dos livros citados anteriormente, e sim porque comecei a ler ontem um livro chamado 27, um romance de um alemão chamado Kim Frank (Tordesilhas, 216 páginas, R$ 34,90) e que foi publicado aqui no Brasil no ano passado _ por uma mórbida coincidência, bem na época em que a morte de Amy Winehouse aos 27 anos revivia o tema central tratado no romance. 27 pertence àquela vertente que se convencionou chamar de “literatura pop” depois do sucesso que o Nick Hornby fez com Alta Fidelidade no fim dos anos 1990. Quem usa essa qualificação quase sempre confunde, na minha opinião, “literatura pop” com “music namedropping”, ou seja, a tentativa de tornar seu texto mais “esperto” tomando a música pop como tema e despejando o maior número de nomes de bandas e artistas que você conseguir. Um jovem alemão de nome Mika, um rapaz que não conhece o pai e mora com a mãe ausente — uma médica que passa o tempo todo em congressos —, torna-se um astro de rock após uma sucessão de episódios nos quais o acaso, mais do que sua própria vontade, parecem ser determinantes. Mika é obcecado pelo número 27, e ao encontrar no quarto do tio — um jornalista que passou os últimos dias, doente de AIDS, morando com o protagonista e sua mãe _ uma série de dossiês sobre astros de rock que morreram aos 27 anos — Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain, Jim Morrison.

Mika me parece um personagem inconsistente entre outras coisas por isso. Ele tem 17 para 18 anos e ainda não havia percebido nem ouvido falar dessa coincidência. Conhece música, o rock ao menos, com uma propriedade técnica maior que a minha (o autor do livro é ele próprio um roqueiro), mas nunca ouvira falar de Robert Johnson até encontrar os recortes (não passa A Encruzilhada na TV alemã, será?). Esses são problemas da construção do personagem, e poderiam ser menores, mas se tornam mais graves ao somar-se a uma inacreditável sucessão de erros de revisão – não sei se mantidos do original ou cometidos na versão nacional traduzida por Eduardo Simões. Menciono apenas dois deles:

* Mika se torna um roqueiro depois de arranjar um estágio numa gravadora. Em um diálogo com seu novo chefe, na página 53, Mika diz que o baterista de sua banda dos sonhos seria John BONHEM, do Led Zepellin. O estranho é que o chefe da gravadora não só não o corrige como diz que gostaria de ir ao show dessa suposta banda perfeita. Tá certo que executivos de gravadora não sacam nada de música, mas seria inferir demais achar que Mika se equivocou e o executivo não percebeu, bla bla.

* Em um momento que se pretende dramático nas páginas 61 e 62, Mika se encontra com seu único amigo, um jovem um pouco mais velho do que ele que trabalha cinzelando lápides no cemitério local. Lennart, o amigo, está podre de bêbado porque passou a  noite assentando seu próprio nome na pedra de um túmulo – a sepultura é a de um rapaz com a mesma idade e com o mesmo nome de Lennart. Mostrando que a cidade em que vivem é pequena pra dedéu, Mika não só conhecia o outro Lennart, o falecido, como esteve no enterro do jovem. E aí ele sai-se com esta ao recordar o sepultamento:
E eu me lembro de algo insólito. Os amigos cantam, num coro abafado, ‘Nevermind’, do Nirvana. Supostamente a CANÇÃO favorita de Lennart.

Provavelmente todos vocês perceberam que o baterista do Led era John Bonham, e que Nevermind é o nome de um disco do Nirvana, não de uma canção – a palavra nevermind está na letra de uma das canções do álbum, mas o nome dela é Smells Like Teen Spirit. Em outro romance, com outra proposta, talvez fosse possível relevar deslizes como esse. Mas nesse livro em particular, o de um ROQUEIRO obcecado com uma lenda macabra de que ASTROS DE ROCK morrem aos 27 anos, são duas gralhas que, a exemplo do carcará da Bethânia, “pega, mata e come” qualquer fruição que se pudesse estar experimentando com toda a dificuldade do mundo, uma vez que o livro não é nenhum primor de escrita ou construção.

O adeus de Wislawa Szymborska

01 de fevereiro de 2012 3

A Nobel polonesa Wislawa Szymborska

Foi divulgado agora há pouco que a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1996, a polonesa Wislawa Szymborska faleceu, aos 88 anos, em sua casa, na Cracóvia que tanto marcou seu trabalho. A informação foi tornada pública pelo agente da escritora, Michal Rusinek.

Szymborska, figura praticamente desconhecida no Brasil, protagonizou um dos melhores lançamentos literários do ano passado, a edição de [poemas] (Companhia das Letras, 170 páginas), uma coletânea de seus trabalhos pela primeira vez editados em livro no Brasil – à parte poemas avulsos que pipocaram aqui e ali em alguma revista ou antologia coletiva. Traduzidos por Regina Przybycien (como é que se pronuncia o nome dessa gente, senhor?), são versos que dão prova da grande contenção e domínio que a artista tinha sobre sua arte, musical e evocativa, com uma linguagem que buscava a simplicidade da forma e a complexidade dos conceitos – uma poesia à qual não eram estranhos o humor e a militância política.

Nascida em 1923, em Bnin, na Polônia, Szymborska testemunhou na juventude a ocupação nazista e mais tarde o autoritarismo soviético. De acordo com Rusinek, ela “morreu tranquilamente, enquanto dormia”.

Em homenagem à poeta, vai abaixo um dos poemas reunidos no livro:

A ALEGRIA DA ESCRITA

Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?
Vai beber da água escrita.
que lhe copia o focinho como papel-carbono?
Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?
Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade
sob meus dedos apura o ouvido.
Silêncio – também essa palavra ressoa pelo papel
e afasta
os ramos que a palavra “bosque” originou.

Na folha branca se aprontam para o salto
as letras que podem se alojar mal
as frases acossantes,
perante as quais não haverá saída.

Numa gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho semicerrado
prontos a correr pena abaixo,
rodear a corça, preparar o tiro.

Esquecem-se de que isso não é a vida.
Outras leis, preto no branco aqui vigoram.
Um pestanejar vai durar quanto eu quiser,
e se deixar dividir em pequenas eternidades
cheias de balas suspensas no voo

Para sempre se eu assim dispuser nada aqui acontece
Sem meu querer nem uma folha cai
nem um caniço se curva sob o ponto final de um casco.

Existe então um mundo assim
sobre o qual exerço um destino independente?
Um tempo que enlaço com correntes de signos?
Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.
O poder de preservar
A vingança da mão mortal.