Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Infância em meio ao sangue

12 de março de 2012 0

Juan Pablo Villalobos. Foto: Renato Parada/ Divulgação

Neste post eu já havia comentado com vocês a leitura de Festa no Covil (Tradução de Andreia Moroni. Companhia das Letras, 96 páginas, R$ 29,50), romance de estreia do mexicano Juan Pablo Villalobos. No segundo caderno de hoje, vocês podem ler uma entrevista que fiz com o autor sobre olhar sarcástico e estranho que ele lança sobre a realidade do México dominado pela violência do narcotráfico. O livro é protagonizado pelo menino Tochtli, de 10 anos, um menino precoce que quase nunca sai de casa e é sempre mantido sob vigilância de um dos brutamontes responsáveis pela segurança do pai. Seu conhecimento do mundo se dá filtrado pela televisão ou pelo contato com as poucas pessoas que conhece. É no entanto essa visão limitada de Tochtli que se torna nossa janela para o universo não apenas do menino, mas do México sob o narcotráfico. Leia abaixo a íntegra da conversa, feita por telefone, de Campinas, onde Villalobos reside (ele é casado com uma brasileira e mora no Brasil desde o ano passado):

ZH –  Uma das características mais marcantes de Festa no Covil é a voz de Tochtli, o protagonista, com um olhar infantil sobre um universo em cujas brechas e frestas se percebe algo brutal. Como o senhor chegou a essa voz narrativa?
Villalobos –
Quando comecei a escrever, tinha bastante claro o que queria contar, a trama da história, mas não estava seguro justamente quanto à voz. Uma das dúvidas que tive quando comecei a escrever a história foi de que perspectiva deveria narrá-la. Estive tentando narrar pela perspectiva do pai, Yolcault, o chefão do tráfico, ou pela de Mazatzin, o professor do menino, dois olhares adultos, mas essas tentativas não me convenceram. Não me convenceram do ponto de vista estilístico, inclusive do tom que essas vozes teriam, e nem do resultado que estava obtendo com a visão de mundo dessa casa, esse palácio que é uma espécie de metáfora do narcotráfico no México. E de repente quando ainda buscava uma voz para me ajudar a narrar a história, surgiu a primeira frase do livro, que se manteve igual a partir dali. Gostei muito de como essa frase soava, e me parecia que havia ali a possibilidade de explorar a visão infantil. Por um lado me interessava um mundo narrado por um menino que carece de moral, porque as crianças ainda não têm uma visão de mundo completa, e por isso tampouco emitem juízos morais, o que era muito importante para o romance. E depois também havia a possibilidade de recorrer ao humor, inclusive o politicamente incorreto, porque um menino pode dizer e achar engraçadas coisas brutais, que para um adulto constituiriam um problema.

ZH – Com essa voz o senhor também queria trabalhar a ambivalência entre o que um adulto mostra e o que ele se ilude que uma criança ainda não sabe?
Villalobos –
Sim, claro. No fim das contas, Festa no Covil é um romance de iniciação. É uma história na qual Tochtli vai desvendar os mistérios de sua casa descobrindo de alguma maneira as últimas informações que seu pai lhe oculta. Porque Tochtli, no começo do romance, sabe de algumas coisa ques acontecem em sua casa. Não todas, mas ele não é totalmente inocente. Digamos que no transcurso do romance, ele vai acabar de descobrir o que o seu pai é. Então há estre jogo entre o personagem vai descobrindo os segredos do que se passa na casa, particularmente nos quartos supostamente vazios da mansão, que Tochtli vai abrindo para descobrir o que há por trás delas.

ZH – A leitura de seu livro lembrou, guardadas as devidas proporções, uma exposição de Fernando Botero que está em cartaz em Porto Alegre: Dores da Colômbia. Em seu livro, um garoto conta episódios que vão se tornando mais brutais. Na exposição, Botero, com suas figuras lúdicas, gordinhas, retrata horrores e massacres com uma atmosfera infantil. O senhor conhece esses trabalhos? Concorda com essa comparação?
Villalobos –
Não tive a oportunidade de ver os quadros dessa exposição ao vivo, só em fotografias, em internet, mas conheço a obra de Botero. Creio que o fenômeno do narcotráfico é um fenômeno latino-americano. Bom, é um fenômeno mundial, claro, mas as grandes zonas produtoras de coca estão na América Latina: no Peru, na Colômbia, na Bolívia, também na América Central e no México por serem via de passagem até o principal mercado, os Estados Unidos. Sendo o narcotráfico um problema panamericano, surgiram várias manifestações culturais ou artísticas como tentativa de refletir sobretudo a violência associada ao narcotráfico, o efeito do narcotráfico. Temos toda uma literatura que trata do tema, que começou primeiro na Colômbia, nos anos mais duros do narcotráfico por lá. A Colômbia ainda enfrenta o narcotráfico, mas nada que se compare ao que acontecia há 15 ou 20 anos. Hoje o foco da violência do tráfico se transplantou para o México e para lá também se transplantou essa literatura sobre o narcotráfico. Mas não apenas na literatura, há pintores, artistas conceituais que estão trabalhando também com esse tema da violência. Em geral, creio que é uma reação natural dos artistas dessas sociedades para contribuir com a reflexão sobre o fenômeno.

ZH – Em 2006 o presidente Felipe Calderón declarou guerra aos narcotraficantes no México, e as estatísticas divulgadas desde então mostram que a violência no país teve um salto estratosférico. Como o senhor vê a situação de seu país atualmente, um quadro que é o tema central de seu romance?
Villalobos –
Comecei a escrever o romance em 2006, justo no ano que começou essa nova escalada de violência. A violência do narcotráfico no México já se estende por mais de um século. Há registros datando a eclosão dos primeiros episódios no final do século 19. Mas nunca havia ocorrido violência em níveis tais como os que vemos hoje em dia. Nos seis anos de mandato de Calderón, que terminam no final deste ano, houve 47 mil mortes associadas ao narcotráfico, de acordo com as estatísticas oficiais. Além disso, houve uma expansão da violência. Antes o narcotráfico estava associado a certas zonas do país, estados tradicionalmente ligados ao tráfico, principalmente na região de fronteira dos Estados Unidos. Agora houve uma disseminação da violência, no norte, no sul, no centro do país. Mesmo que seja cedo para avaliar o resultado a longo prazo dessa iniciativa do presidente Calderón de declarar guerra ao narcotráfico, o certo é que a curto prazo foi um desastre. E é certo também que estão cada vez mais claras, ao menos para os mexicanos bem-informados, as razões que o presidente teve para empreender essa guerra. Calderón assumiu o poder com um gravíssimo problema de legitimidade porque havia ganhado as eleições por uma margem muito estreita, meio ponto percentual – tão estreita que muitos dizem que ele na verdade não ganhou. Então, uma parte importante do país não acreditava em sua vitória. E ele tomou a decisão de apoiar-se no exército, levar o exército às ruas e declarar essa guerra para legitimar seu poder. O que é muito grave e teve uma eficácia muito duvidosa.

ZH –  Tochtli só chama o chefão Yolcault de “pai” no fim do romance, após uma série de episódios traumáticos que vive e que destroem o que restava das fantasias que ele acalentava sobre sua vida. Seu romance é também uma leitura da perda de inocência do México com a guerra, a violência e com essa própria crise de legitimidade do poder que o senhor citou?
Villalobos –
Para mim, e creio que para qualquer autor, é difícil assumir as possíveis metáforas ou interpretações a partir da própria obra. É verdade que há críticos que falaram desse palácio em que vivem Tochtli e Yolcault como uma metáfora do que está passando no México, ou leem a história como o processo que o México seguiu na guerra ao narcotráfico. Quando escrevi a história não pensei nisso, mas também aceito que é uma leitura válida. Para mim o importante enquanto escrevia a história era justamente o processo de aprendizagem de Tochtli, que ao final é um processo de aprender a sobreviver no ambiente em que esse menino teve que crescer. Um ambiente particularmente violento e especial, não tem nada que ver com o modo que crescem com outros meninos. Para começar, porque Tochtli nem sequer tem contato com outras crianças, apenas com adultos. E, salvo o professor, os adultos com quem ele tem contato são capangas, assassinos, prostitutas. O que vemos no livro é uma espécie de educação sentimental que Tochtli tem para aprender a aceitar quem é seu pai e para entender esse mundo em que ele se move. Mas evitei cair em moralismos, porque Youcault, apesar de ser quem é, o romance o retrata como um pai que se preocupa com seu filho, que o protege e o ama, mesmo sendo um criminoso.

ZH – Ao mesmo tempo, a relação de proteção de Yolcault com seu filho é ambivalente. Ao mesmo tempo que lhe oculta algumas coisas, pode chamar o filho a testemunha o espancamento de um membro do bando considerado traidor.
Villalobos –
Digamos que Yolcault está tentando administrar esse processo de aprendizagem do filho. As coisas que ele esconde, esconde por segurança. Não mostra o quarto em que estão guardadas as armas do covil, as pistolas e rifles, porque crê que não seria seguro para o menino saber. Ao mesmo tempo, permite que o filho esteja presente numa conversa que tem com um político para tratar de negócios escusos. Ou também, como você disse, um dia chama o filho para que veja como se castiga um traidor. O pai está mostrando algumas coisas e ocultando outras seguindo uma ideia do que é melhor para o filho. Está cumprindo um projeto de ensino profundamente machista – e evidentemente essa é uma crítica à educação masculina que recebemos no México, que, apesar de ter mudado nos últimos anos, segue sendo muito machista. Uma educação que é a de todos os países latinos. O que é curioso, porque as sociedades latinas são sociedades matriarcais, mas os homens recebem uma educação machista que reserva para a mulher apenas funções de apoio.


Envie seu Comentário