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Construindo o Chefão

15 de março de 2012 7

James Caan como Sonny e Marlon Brando como Don Vito. Divulgação: Paramount

Como vocês podem ler hoje na central do Segundo Caderno de Zero Hora, fizemos uma matéria especial para marcar os 40 anos da primeira exibição pública de O Poderoso Chefão, o primeiro título da famosa trilogia mafiosa do diretor Francis Ford Coppola. Nossa matéria não apenas registra a passagem das quatro décadas desde o lançamento do filme, hoje considerado um clássico, como também discute a influência do livro nestes últimos 40 anos, não apenas sobre a cultura pop e o cinema, mas sobre a própria Máfia retratada no livro.

Mais até do que o best-seller de Mario Puzo que lhe deu origem, O Poderoso Chefão, com seu apelo épico, seu lirismo e sua violência extremamente estilizada, forneceram um código visual e simbólico para a própria Mafia. Para discutir o que faz ainda hoje o sucesso de O Poderoso Chefão, entrevistamos dois escritores estrangeiros que já escreveram direta ou tangencialmente sobre a produção e/ou sobre a Máfia como organização.

O primeiro deles é Peter Biskind, autor de Easy Riders, Raging Bulls: Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood (Intrínseca, 2009, tradução de Ana Maria Bahiana). O livro é um alentado e minucioso relato de como , a partir dos 1960 e indo até os anos 1980, uma geração de jovens e irrequietos cineastas alimentados pelo cinema de autor europeu e pelo espírito urgente da contracultura começou a fazer filmes que atingiram novamente o grande público, pondo em questão valores e assuntos que interessavam ao espectador jovem, que Hollywood vinha perdendo ano a ano com filmes artificiais, engessados pelo esquema dinossáurico dos grandes estúdios.

Biskind relata a formação e as primeiras experiências em Hollywood da geração de Coppola, que incluía ainda, entre outros, Peter Bogdanovich, Martin Scorsese, Paul Schrader, Brian De Palma, William Friedkin, Steven Spielberg e George Lucas – sem falar de outros personagens importantes, como o produtor Bob Evans, da Paramount. Biskind passeia com segurança e com um texto impecável por um elenco de dezenas de personagens – além de se concentrar nos diretores, também aborda os jovens atores que também surgiram na época, em sintonia com as propostas de realismo cru e autêntico dos cineastas: Robert De Niro, Al Pacino, Margot Kidder. Com tanta gente e tanta coisa acontecendo, Biskind não perde o fio de sua história e ainda entrega um dos mais vigorosos relatos sobre os bastidores do cinema.

Um dos capítulos mais extensos do livro é justamente dedicado ao Poderoso Chefão – um filme que, segundo o autor, foi concebido no acaso e gestado em meio ao completo caos. Evans comprou os direitos diretamente de Mario Puzo, que ainda não havia escrito o romance completo, e precisava de um dinheiro adiantado para pagar algumas dívidas a um pessoal perigoso (Puzo sempre negou essa versão da história, Biskind ressalta). Só depois que o livro foi publicado e decolou na lista de best-sellers foi que a Paramount percebeu que precisava usar os direitos que comprara – filmes de Máfia não andavam muito populares depois que uma produção com Kirk Douglas filmada em 1968 foi um fracasso completo. Coppola aceitou dirigir o filme, uma adaptação literária, porque estava esgoelado por dívidas – mas nem o estúdio confiava muito nele. A formação de Coppola, de um cinema de improviso e energia, colidiu com a visão do iluminador mais conservador Gordon Willis

Um caos que se mostrou capaz de gerar um dos mais influentes filmes do cinema. E é sobre isso que conversamos com Peter Biskind na entrevista abaixo:

Mundo Livro – Quarenta anos  passados de seu lançamento, O Poderoso Chefão é, mais do que  um grande filme, um fenômeno  cultural e popular. Na sua opinião, o que tornou o filme tão grande e influente no imaginário pop?
Peter Biskind –
Às vezes  não há resposta para essa pergunta. É apenas uma confluência feliz de circunstâncias, uma “tempestade perfeita”, que reúne um ótimo roteiro, um grande elenco, composto em grande parte por atores ávidos e inexperientes, um diretor de fotografia brilhante –  Gordon Willis – e um diretor com grandes instintos que ainda assim teve de ser arrastado gritando e se debatendo para um projeto que não queria fazer. Politicamente, o filme veio na hora certa, bem no fim da Guerra do Vietnã, pouco antes de Watergate, quando grande parte do país estava desiludida com o governo americano. A Máfia, de certa forma, ecoava esse sentimento. Para eles, o governo ou era irrelevante ou era o inimigo. Os políticos que apareciam no filme eram venais e facilmente corrompidos. O mesmo vale para a polícia. Assim,  O Poderoso Chefão se adequou ao estado de espírito do país como uma luva.

Mundo Livro – Em certos aspectos, O Poderoso Chefão mudou tudo o que havia sido feito no cinema:  a iluminação, o sistema de distribuição, até mesmo os extras,  contratados entre os moradores ítalo-americanos nas locações. Olhando agora, é uma grande surpresa ler em seu livro que a produção foi um caos completo, com discussões violentas entre  Coppola e Gordon Willis ou entre Coppola e Bob Evans. Mesmo o elenco era uma razão para divergências acaloradas. E no final, funcionou. Isso também o surpreende?
Biskind
– Na época,  os jovens diretores de Hollywood estavam se rebelando contra o sistema dos grandes estúdios e a artificialidade dos seus filmes – todos feitos em estúdio com  atores que pareciam todos iguais. Coppola fez parte desse movimento, e inteligentemente insistia em usar  locações reais e atores italianos. Mesmo que as imagens sejam estilizadas e líricas, essa decisão emprestou um contrapeso de autenticidade ao filme. Quanto ao caos, há um ditado em Hollywood que diz que filmagens felizes resultam em filmes ruins, e isso era certamente verdadeiro no caso de O Poderoso Chefão. Coppola  estava à beira de um colapso, a Paramount queria demiti-lo, metade dos atores  queria sair, o diretor de fotografia ameaçou sair, e Coppola teve até de se esconder no banheiro. Mas os conflitos muitas vezes geram criatividade, que certamente foi o caso aqui.

Mundo Livro – O senhor relata em seu livro a áspera rivalidade entre  Francis Ford Coppola e Bob  Evans, cada um dizendo ser o responsável real pelo sucesso artístico e comercial do filme. Na sua opinião, quanto credito merece cada um deles?
Biskind –
Isso é realmente impossível de determinar. É uma situação “Ele disse, ela disse”. Já diz o ditado que “O sucesso tem muitos pais, o fracasso é órfão.” Ambos os homens tinham egos gigantes, e cada um deles reivindicava crédito por tudo. Dito isto, acho que eu daria meu voto a Coppola.

Mundo Livro – Coppola disse uma vez em uma entrevista que o grande diferencial de O Poderoso Chefão sobre outros filmes da Máfia antes dele era retratar os mafiosos como pessoas reais, falando, comendo, celebrando, e não como malucos sempre disparando uma metralhadora _ mesmo com toda a violência que há no filme. O senhor concorda?
Biskind –
Bem, em algum grau ele de fato os retratou da maneira que disse, embora houvesse certamente tiroteios e violência o suficiente na tela. Mas eu acho que a realidade é que a Mafia não era realmente muito parecida com o que foi mostrado no filme. Na verdade, muitas vezes os mafiosos voltaram-se para Hollywood, para os filmes que os romantizavam, em busca de suas sugestões do que vestir e de como se comportar.

Mundo Livro – O senhor conta em Easy Riders, Raging Bull como O Poderoso Chefão mudou o sistema de distribuição da indústria, criando os blockbusters contemporâneos.  O estúdio impôs seus termos para lançar o filme. O sucesso do livro foi o responsável por toda a agitação que cercava a  adaptação para o cinema?
Biskind
Frank Yablans, que era o diretor de marketing da Paramount, foi o responsável por quebrar o chamado sistema “gradual”, pelo qual as cadeias de exibidores insistiam que apenas um cinema em uma determinada área geográfica poderia receber um filme na primeira rodada de exibições. Os cinemas estavam tão desesperados para obter O Chefão que abriram mão de algum poder para os estúdios – e nunca conseguiram tomá-lo de volta. O Poderoso Chefão estreou em cinco cinemas em Manhattan, em vez de apenas em um ou dois.

Mundo Livro –  E por último: O senhor tem um filme favorito dentre os da trilogia? Qual?
Biskind –
Bem, O Poderoso Chefão 3 foi uma grande decepção, por isso, fica entre o 1 e o 2, uma escolha difícil, porque ambos são filmes fantásticos. Chefão 1 tem Brando; Chefão 2 tem De Niro e Lee Strasberg, e assim por diante. Acho que, embora eu ame o segundo filme, tenho que escolher o primeiro, porque é um filme quase perfeito e preparou o terreno para o segundo.

Comentários (7)

  • Desconstruindo o Chefão | Mundo Livro diz: 15 de março de 2012

    [...] Livro – Peter  Biskind, um escritor americano, diz em seu livro Easy Riders,  Raging Bulls que Copolla e sua equipe [...]

  • eduardo diz: 15 de março de 2012

    Brilhante matéria,parabens bacana mesmo!!

  • Doug diz: 15 de março de 2012

    achei que seriam entrevistados dois autores estrangeiros, mas só vi perguntas e respostas com o Biskind…

  • Derick diz: 15 de março de 2012

    O Poderoso Chefão é ‘apenas’ a melhor trilogia já construída até hoje! Épico, Fantástico! De tão bom decorei meu quarto com posters do filme e tenho algumas tatuagens sobre o mesmo kkkk.. Parabéns a Paramount, aos diretores e atores. Fantástico.

  • Mauricio Zelanis Paz diz: 15 de março de 2012

    Sou tao fã que ate tatuagem do The Godfather eu tenho, hehehehe

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